sábado, 16 de junho de 2012

Padres pedófilos surgem na pista do desaparecimento de duas menores

por Wálter Fanganiello Maierovitch para portal Terra

Emanuela Orlandi
Crime perfeito, no popular, é aquele sem identificação da autoria. Com efeito, há 29 anos desaparecia Emanuela Orlandi (foto), de 15 anos e filha de um dos servidores do papa Wojtyla. No momento, os magistrados do Ministério Público italiano exploram dois novos filões investigativos do chamado Vaticano Connection.

Emanuela tinha cidadania e residia com os pais no Vaticano. O papa João Paulo II, sensibilizado, fez vários apelos pela sua libertação. Ela desapareceu em 22 de junho de 1983. Tímida, recatada e flautista, Emanuela foi sequestrada na saída da escola de música junto à Basílica-menor de Santo Apolinário, no centro-histórico de Roma.

A propósito, recentemente descobriu-se que na cripta dessa basílica estava sepultado o sanguinário Enrico de Pedis, apelidado Renatino, um dos chefões da Banda della Magliana, organização criminosa romana de matriz mafiosa.

Em maio último, o caixão de Renatino, assassinado em 2 de fevereiro de 1990, foi removido da basílica e aberto, uma vez que se suspeitava estivessem no seu interior os espólios de Emanuela.

O capo Renatino era íntimo do monsenhor Pietro Vergari, responsável pela basílica e reitor do conservatório musical onde estudava Emanuela. A sóror Dolores, diretora musical, sempre recomendava às jovens alunas distanciamento de Vergari. Nenhuma das menores era escalada para participar do coral nas missas da basílica. Sobre isso, existe até o relato de Pietro Orlandi, irmão da vítima: “A sóror Dolores mandava para outras igrejas porque desconfiava do monsenhor e tinha uma opinião muito negativa sobre Vergari”.

Não se deve olvidar de laços da dupla Renatino-Vergari com Roberto Calvi, do escândalo do Banco Ambrosiano e apelidado Banqueiro de Deus, com o arcebispo Paul Marcinkus, presidente do Banco Vaticano (IOR) e mantido até 1989 na sua direção. Dessa linha investigativa surge a suspeita de que o desaparecimento de Emanuela foi uma ameaça feita para não se tocar na administração da lavanderia de dinheiro sujo instalada no Banco Vaticano-IOR. Internamente, existiam purpurados desejosos do afastamento de Marcinkus. Um deles era Albino Luciani, patriarca de Veneza, depois eleito papa João Paulo I.

Na urna mortuária tirada da basílica estava o corpo de Renatino e não o de Emanuela. Parte das investigações concentra-se nas ossadas, sem identificações, encontradas nos subterrâneos da basílica. Em breve serão conhecidos os testes de DNA para comparações com o de Emanuela.

A nova e mais forte das pistas vem de informações do arcebispo Bernard Law, defenestrado de Boston por dar cobertura a padres pedófilos. Law, surpreendentemente, está lotado em Santa Maria Maggiore, uma das quatro basílicas papais de Roma. Antes de aportar a Roma, Law foi ouvido na Corte de Justiça de Suffolk e, monossilabicamente, confirmou que os padres pedófilos usavam, para enviar missivas, uma única caixa-postal e era a da estação central de Boston, conhecida por Kenmore Station.

Esse relato de Law resultou em diligências, pelos magistrados italianos, sobre o exato lugar de envio de três cartas recebidas, duas em setembro de 1982 e uma em janeiro de 1984, pelo correspondente da CBS em Roma, jornalista Richard Roth. Nelas eram feitas propostas de troca e ameaça de eliminação de Emanuela. Todas as três cartas manuscritas saíram, conforme timbres grafados, da estação central de Boston. As autoridades norte-americanas confirmaram a autenticidade do timbre da Kenmore Station e a postagem feita em Boston.

Forte elemento relativo à correlação do sequestro de Emanuela com padres pedófilos depreende-se da mensagem apreendida em 4 de setembro de 1983, em pouco mais de dois meses do desaparecimento. A mensagem foi deixada no interior de furgão da Rádio e Televisão Italiana (RAI). Os peritos concluíram que as cartas ao jornalista Roth da CBS e a mensagem deixada no furgão foram escritas pelo mesmo punho.

Outra certeza dá conta que os autores do sequestro de Emanuela Orlandi foram os mesmos de Mirella Gregori, também de 15 anos, desaparecida em 7 de maio de 1983, ou seja, pouco antes do sequestro de Emanuela. As mesmas reividicações de troca pelo turco Ali Agca, que tentou matar o papa Wojtyla, chegaram em mensagens telefônicas. À mãe de Mirella, um dos sequestradores descreveu as roupas íntimas que vestia e a marca de cada peça. Essa troca é tida como puro despistamento.

Quanto à voz interceptada do sequestrador, o serviço secreto italiano concluiu tratar-se de pessoa culta, irônica, de sotaque anglo-saxão e ligada ao ambiente eclesiástico.

O padre Gabriele Amorth, muito estimado pelo papa Bento XVI e considerado o principal exorcista da Igreja, acabou de revelar ao jornal italiano La Stampa que o crime de Emanuela tem motivação sexual e lembrou que os arquivos do Vaticano registraram orgias em Santo Apolinário, com recrutamento de meninas até por um ex-membro da Guarda do Vaticano.

Pano rápido. Crime perfeito, dizem, é apenas o mal investigado.

Vaticano teria recebido US$ 1 mi para sepultar mafioso com papas.

Padres pedófilo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Um dia as máquinas vão começar a pensar como os humanos



por Adam Gopnik para o jornal La Repubblica

Quando eu era pequeno, no Instituto Franklin, na Filadélfia, havia uma máquina que jogava o jogo da velha e nunca perdia. Independentemente de onde você colocava o seu X, o O dele sempre era o certo. Ele conseguia vencer sempre ou lhe obrigava a um empate, mesmo que você tivesse a vantagem de começar e ocupava a casa do meio.

Aquela máquina parecia extremamente inteligente para um menino de oito anos, mas a minha mãe – grande lógica, linguista, especialista já então da linguagem de programaçãoFortran – em uma de nossas frequentes visitas àquele museu, me explicou que a inteligência era apenas a última das qualidades dessa máquina.

Substancialmente, de fato, essa máquina sabia fazer uma única coisa: aquele jogo fundamentalmente banal – e ela sabia jogar bem apenas porque havia sido programada para seguir uma rede automatizada de interruptores on-off. Portanto, não pensava. Mantinha apenas um registro daquilo que acontecia.

As novas máquinas e os novos programas são verdadeiramente mais inteligentes? Os céticos apontam que o que eles sabem fazer não é, na verdade, o que nós definimos como "inteligente". Eles contêm uma ampla gama de exemplos, uma grande casuística, mas a sua capacidade lógica não é muito diferente daquela da máquina que jogava o jogo da velha no museu de ciências. Têm memórias poderosas e uma extraordinária capacidade de analisá-las rapidamente para encontrar o que é útil em uma dada circunstância, mas tudo isso não demonstra que saibam pensar, programar, encontrar estratégias, surpreender ou conceber um plano tão absurdo a ponto de funcionar perfeitamente.

Embora em planos diferentes, em substância, se limitam ainda a combinar um cenário familiar "A" a uma solução pré-determinada "A". Reconhecem um movimento ou uma situação particular no tabuleiro e conseguem encontrar na sua memória o movimento a ser feito que, na maioria das vezes, leva à vitória quando jogam contra seres humanos, mas isso – resmungam os céticos – é simplesmente uma estupidez bem indexada, não autêntica inteligência.

Sempre pensei que o teste de Turing [usado para medir se uma máquina é capaz de pensar] era abstração pura, um problema de filósofos, e, ao contrário, ele me levou ao nascimento de verdadeiras competições – como se o paradoxo de Zenão tivesse levado a autênticas corridas entre tartarugas e guerreiros gregos.

Os detalhes dos testes de Turing e das competições são o assunto tratado pelo maravilhoso livro de Brian Christian, poeta e apaixonado por computadores, que se intitula The Most Human Human (Ed. Doubleday), um dos raros herdeiros literários de sucesso de Gödel, Escher, Bach, no qual arte e ciência se reencontram em uma mente comprometida, e o seu encontro produz verdadeiras faíscas.

Christian avança em uma ideia mais sutil e poética quando afirma que a linguagem humana não é apenas troca de axiomas, ou mesmo de abreviações codificadas em nível emotivo, mas sim uma atividade realizada no limite entre a "perda de qualidade" de uma comunicação comprimida e a versatilidade com a qual nós a comprimimos; entre a nossa consciência de que de qualquer coisa que dizemos devemos necessariamente excluir muitíssimas informações por motivos econômicos e a nossa capacidade de tornar tal economia eloquente e informativa em qualquer caso.

A linguagem das crianças pequenas, por exemplo, é um exemplo perfeito de compressão bem equilibrada com a concisão. O que ao estranho soa limitado e repetitivo, para o ouvinte informado é cheio de nuances, como Henry James.

No entanto, a inteligência humana tem outro ponto a seu favor: o senso de urgência que confere à inteligência humana uma força totalmente particular. Talvez a nossa inteligência acaba apenas com a nossa mortalidade: em grande medida, é a nossa mortalidade. Imaginemos por um momento que damos a seguinte disposição a uma série de computadores interconectados e capazes de se corrigir, programados para chegar a um objetiva deliberadamente indeterminado e de longo prazo: "Façam o máximo de cálculos significativos que vocês conseguirem e tentem fazer mais do que qualquer outro computador do laboratório".

Imaginemos, depois, que cada um desses computadores tenha uma banana de explosivos conectado ao seu microprocessador (CPU, unidade central de processamento), com um fusível de ação retardada e uma instabilidade de alguém de 70 anos, e que cada um deles saiba disso. Acrescentemos que o ácido corrosivo que detona o fusível desacelera todas as funções do computador, de modo que, provavelmente, ele faça cálculos mais significativos em interface com um outro computador antes que as suas conexões se desgastem.

Os computadores, portanto, em qualquer momento, deveriam tomar decisões terrivelmente difíceis e avaliar se vale a pena investir em um determinado cálculo, levando em conta o mais genérico encargo por tempo limitado de efetuar cálculos verdadeiramente significativos. Eles, portanto, deveriam, por exemplo, avaliar as vantagens e as desvantagens relacionadas ao fato de trocar informações rapidamente perante a consciência da sua iminente destruição e das exigências de todos os outros encargos que é necessário que desenvolvam.

Alguns se jogariam para trás e não fariam nada mais do que efetuar cálculos por conta própria. Alguns fariam conexões de modo frenético. Outros ainda se perguntariam se vale a pena tentar vencer um programa de televisão de quiz, já que o objetivo principal era vencer a disputa dos "cálculos mais significativos". Os computadores efetuariam cálculos sobre a justa relação entre o tempo necessário e o significado alcançado e os distribuiriam em toda a rede criada.

Levando-se em conta as pressões devidas aos limites temporais, os cálculos provavelmente seriam breves – digamos de dez ou onze linhas, no máximo – e o mais significativo em toda a probabilidade seria compartilhado com todas as outras máquinas (poderiam até mesmo se tornar mais facilmente memorizáveis graças aos ritmos e às configurações melódicas).

Algumas máquinas, sem dúvida, começariam a produzir subprogramas que meditem mais abstratamente sobre as dificuldades de ser uma máquina inteligente, com um iminente risco de explosão ("Às minhas costas, sinto um programa incumbente se aproximar cada vez mais", "Reunam todas as suas funções, enquanto podem!").

Dentro de uma geração, ironia, poesia, ambiguidade, êxtase se tornarão partes integrantes da produção e da percepção dos computadores. Serão inteligente e limitados, exatamente como nós somos inteligentes e limitados.

maio de 2011

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Peles de sapos podem tratar mais de 70 doenças, dizem cientistas

da BBC Brasil

Cientistas da Queens University, em Belfast, na Irlanda do Norte, ganharam um prêmio pela pesquisa sobre o uso de pele de anfíbios como pererecas e sapos, que pode levar à criação de novos tratamentos para mais de 70 doenças.

A pesquisa, liderada pelo professor Chris Shaw, da Escola de Farmácia da universidade, identificou duas proteínas nas peles dos anfíbios que podem regular o crescimento de vasos sanguíneos.


Uma proteína da pele da perereca Phyllomedusa sauvagii (Hylidae) inibe o crescimento de vasos sanguíneos e pode ser usada para matar tumores cancerígenos.

Shaw informou que a maioria destes tumores apenas pode crescer até um certo tamanho, antes de precisarem de vasos sanguíneos fornecedores de oxigênio e nutrientes.

"Ao paralisarmos o crescimento dos vasos sanguíneos, o tumor terá menos chance de crescer e, eventualmente, vai morrer", disse. "Isto tem o potencial de transformar o câncer de doença terminal em condição crônica", acrescentou.

Na segunda-feira, os cientistas receberam o prêmio Medical Futures Innovation, em Londres.

A equipe de pesquisadores também descobriu que o sapo Bombina maxima (Bombinatoridae) produz uma proteína que pode estimular o crescimento de vasos sanguíneos, o que pode ajudar pacientes a se recuperar de ferimentos e operações muito mais rapidamente.

"Isto tem o potencial para tratar uma série de doenças e problemas que precisam do reparo rápido dos vasos sanguíneos, como a cura de feridas, transplantes de órgãos, ulcerações diabéticas e danos causados por derrames ou problemas cardíacos", disse Shaw.

Segundo o professor, os cientistas e companhias farmacêuticas do mundo todo ainda não conseguiram desenvolver um medicamento que possa, de forma eficaz, ter como alvo o controle do crescimento de vasos sanguíneos, apesar dos investimentos em torno de US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões por ano.

"O objetivo de nosso trabalho na Queens (University) é revelar o potencial do mundo natural - neste caso, as secreções encontradas na pele de anfíbios - para aliviar o sofrimento humano", disse Shaw.

"Estamos totalmente convencidos de que o mundo natural tem as soluções para muitos de nossos problemas, precisamos apenas fazer as perguntas certas", acrescentou.

Ao comentar o trabalho da equipe de Chris Shaw, o professor Brian Walker e o Dr. Tianbao Chen, do painel julgador do prêmio Medical Futures Innovation, afirmaram que querem estimular os pesquisadores, para que eles progridam com seus trabalhos.

"Muitas das grandes descobertas ocorreram através do acaso e a ideia do professor Shaw é, sem dúvida, muito inovadora e animadora", afirmou o painel. "É importante perceber que a inovação está em primeiro estágio e é necessário muito trabalho para tornar isto em uma terapia clínica."