segunda-feira, 4 de julho de 2011

Um dia as máquinas vão começar a pensar como os humanos



por Adam Gopnik para o jornal La Repubblica

Quando eu era pequeno, no Instituto Franklin, na Filadélfia, havia uma máquina que jogava o jogo da velha e nunca perdia. Independentemente de onde você colocava o seu X, o O dele sempre era o certo. Ele conseguia vencer sempre ou lhe obrigava a um empate, mesmo que você tivesse a vantagem de começar e ocupava a casa do meio.

Aquela máquina parecia extremamente inteligente para um menino de oito anos, mas a minha mãe – grande lógica, linguista, especialista já então da linguagem de programaçãoFortran – em uma de nossas frequentes visitas àquele museu, me explicou que a inteligência era apenas a última das qualidades dessa máquina.

Substancialmente, de fato, essa máquina sabia fazer uma única coisa: aquele jogo fundamentalmente banal – e ela sabia jogar bem apenas porque havia sido programada para seguir uma rede automatizada de interruptores on-off. Portanto, não pensava. Mantinha apenas um registro daquilo que acontecia.

As novas máquinas e os novos programas são verdadeiramente mais inteligentes? Os céticos apontam que o que eles sabem fazer não é, na verdade, o que nós definimos como "inteligente". Eles contêm uma ampla gama de exemplos, uma grande casuística, mas a sua capacidade lógica não é muito diferente daquela da máquina que jogava o jogo da velha no museu de ciências. Têm memórias poderosas e uma extraordinária capacidade de analisá-las rapidamente para encontrar o que é útil em uma dada circunstância, mas tudo isso não demonstra que saibam pensar, programar, encontrar estratégias, surpreender ou conceber um plano tão absurdo a ponto de funcionar perfeitamente.

Embora em planos diferentes, em substância, se limitam ainda a combinar um cenário familiar "A" a uma solução pré-determinada "A". Reconhecem um movimento ou uma situação particular no tabuleiro e conseguem encontrar na sua memória o movimento a ser feito que, na maioria das vezes, leva à vitória quando jogam contra seres humanos, mas isso – resmungam os céticos – é simplesmente uma estupidez bem indexada, não autêntica inteligência.

Sempre pensei que o teste de Turing [usado para medir se uma máquina é capaz de pensar] era abstração pura, um problema de filósofos, e, ao contrário, ele me levou ao nascimento de verdadeiras competições – como se o paradoxo de Zenão tivesse levado a autênticas corridas entre tartarugas e guerreiros gregos.

Os detalhes dos testes de Turing e das competições são o assunto tratado pelo maravilhoso livro de Brian Christian, poeta e apaixonado por computadores, que se intitula The Most Human Human (Ed. Doubleday), um dos raros herdeiros literários de sucesso de Gödel, Escher, Bach, no qual arte e ciência se reencontram em uma mente comprometida, e o seu encontro produz verdadeiras faíscas.

Christian avança em uma ideia mais sutil e poética quando afirma que a linguagem humana não é apenas troca de axiomas, ou mesmo de abreviações codificadas em nível emotivo, mas sim uma atividade realizada no limite entre a "perda de qualidade" de uma comunicação comprimida e a versatilidade com a qual nós a comprimimos; entre a nossa consciência de que de qualquer coisa que dizemos devemos necessariamente excluir muitíssimas informações por motivos econômicos e a nossa capacidade de tornar tal economia eloquente e informativa em qualquer caso.

A linguagem das crianças pequenas, por exemplo, é um exemplo perfeito de compressão bem equilibrada com a concisão. O que ao estranho soa limitado e repetitivo, para o ouvinte informado é cheio de nuances, como Henry James.

No entanto, a inteligência humana tem outro ponto a seu favor: o senso de urgência que confere à inteligência humana uma força totalmente particular. Talvez a nossa inteligência acaba apenas com a nossa mortalidade: em grande medida, é a nossa mortalidade. Imaginemos por um momento que damos a seguinte disposição a uma série de computadores interconectados e capazes de se corrigir, programados para chegar a um objetiva deliberadamente indeterminado e de longo prazo: "Façam o máximo de cálculos significativos que vocês conseguirem e tentem fazer mais do que qualquer outro computador do laboratório".

Imaginemos, depois, que cada um desses computadores tenha uma banana de explosivos conectado ao seu microprocessador (CPU, unidade central de processamento), com um fusível de ação retardada e uma instabilidade de alguém de 70 anos, e que cada um deles saiba disso. Acrescentemos que o ácido corrosivo que detona o fusível desacelera todas as funções do computador, de modo que, provavelmente, ele faça cálculos mais significativos em interface com um outro computador antes que as suas conexões se desgastem.

Os computadores, portanto, em qualquer momento, deveriam tomar decisões terrivelmente difíceis e avaliar se vale a pena investir em um determinado cálculo, levando em conta o mais genérico encargo por tempo limitado de efetuar cálculos verdadeiramente significativos. Eles, portanto, deveriam, por exemplo, avaliar as vantagens e as desvantagens relacionadas ao fato de trocar informações rapidamente perante a consciência da sua iminente destruição e das exigências de todos os outros encargos que é necessário que desenvolvam.

Alguns se jogariam para trás e não fariam nada mais do que efetuar cálculos por conta própria. Alguns fariam conexões de modo frenético. Outros ainda se perguntariam se vale a pena tentar vencer um programa de televisão de quiz, já que o objetivo principal era vencer a disputa dos "cálculos mais significativos". Os computadores efetuariam cálculos sobre a justa relação entre o tempo necessário e o significado alcançado e os distribuiriam em toda a rede criada.

Levando-se em conta as pressões devidas aos limites temporais, os cálculos provavelmente seriam breves – digamos de dez ou onze linhas, no máximo – e o mais significativo em toda a probabilidade seria compartilhado com todas as outras máquinas (poderiam até mesmo se tornar mais facilmente memorizáveis graças aos ritmos e às configurações melódicas).

Algumas máquinas, sem dúvida, começariam a produzir subprogramas que meditem mais abstratamente sobre as dificuldades de ser uma máquina inteligente, com um iminente risco de explosão ("Às minhas costas, sinto um programa incumbente se aproximar cada vez mais", "Reunam todas as suas funções, enquanto podem!").

Dentro de uma geração, ironia, poesia, ambiguidade, êxtase se tornarão partes integrantes da produção e da percepção dos computadores. Serão inteligente e limitados, exatamente como nós somos inteligentes e limitados.

maio de 2011

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Peles de sapos podem tratar mais de 70 doenças, dizem cientistas

da BBC Brasil

Cientistas da Queens University, em Belfast, na Irlanda do Norte, ganharam um prêmio pela pesquisa sobre o uso de pele de anfíbios como pererecas e sapos, que pode levar à criação de novos tratamentos para mais de 70 doenças.

A pesquisa, liderada pelo professor Chris Shaw, da Escola de Farmácia da universidade, identificou duas proteínas nas peles dos anfíbios que podem regular o crescimento de vasos sanguíneos.


Uma proteína da pele da perereca Phyllomedusa sauvagii (Hylidae) inibe o crescimento de vasos sanguíneos e pode ser usada para matar tumores cancerígenos.

Shaw informou que a maioria destes tumores apenas pode crescer até um certo tamanho, antes de precisarem de vasos sanguíneos fornecedores de oxigênio e nutrientes.

"Ao paralisarmos o crescimento dos vasos sanguíneos, o tumor terá menos chance de crescer e, eventualmente, vai morrer", disse. "Isto tem o potencial de transformar o câncer de doença terminal em condição crônica", acrescentou.

Na segunda-feira, os cientistas receberam o prêmio Medical Futures Innovation, em Londres.

A equipe de pesquisadores também descobriu que o sapo Bombina maxima (Bombinatoridae) produz uma proteína que pode estimular o crescimento de vasos sanguíneos, o que pode ajudar pacientes a se recuperar de ferimentos e operações muito mais rapidamente.

"Isto tem o potencial para tratar uma série de doenças e problemas que precisam do reparo rápido dos vasos sanguíneos, como a cura de feridas, transplantes de órgãos, ulcerações diabéticas e danos causados por derrames ou problemas cardíacos", disse Shaw.

Segundo o professor, os cientistas e companhias farmacêuticas do mundo todo ainda não conseguiram desenvolver um medicamento que possa, de forma eficaz, ter como alvo o controle do crescimento de vasos sanguíneos, apesar dos investimentos em torno de US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões por ano.

"O objetivo de nosso trabalho na Queens (University) é revelar o potencial do mundo natural - neste caso, as secreções encontradas na pele de anfíbios - para aliviar o sofrimento humano", disse Shaw.

"Estamos totalmente convencidos de que o mundo natural tem as soluções para muitos de nossos problemas, precisamos apenas fazer as perguntas certas", acrescentou.

Ao comentar o trabalho da equipe de Chris Shaw, o professor Brian Walker e o Dr. Tianbao Chen, do painel julgador do prêmio Medical Futures Innovation, afirmaram que querem estimular os pesquisadores, para que eles progridam com seus trabalhos.

"Muitas das grandes descobertas ocorreram através do acaso e a ideia do professor Shaw é, sem dúvida, muito inovadora e animadora", afirmou o painel. "É importante perceber que a inovação está em primeiro estágio e é necessário muito trabalho para tornar isto em uma terapia clínica."

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Hominídeo macho de há 2 milhões de anos era 'caseiro', diz estudo

por Marco Varella, colaborador da Folha

Pesquisadores acabam de mostrar que, entre ancestrais do homem que viveram na África, as fêmeas é que costumavam se aventurar para longe de seu grupo de origem na hora de acasalar.

Já os machos das espécies Australopithecus africanus [na reprodução] e Paranthropus robustus, que viveram há cerca de 2 milhões de anos, tendiam a ficar em casa ""no caso, um conjunto de cavernas na África do Sul"" após a puberdade.

A novidade do estudo, que está na revista Nature, é que ele usa uma tecnologia de ponta, a chamada ablação a laser, para "buscar novas formas de fazer ossadas antigas falarem", diz Matt Sponheimer, da Universidade do Colorado, um dos autores.

Trata-se de uma técnica não invasiva em que o laser identifica o nível de variantes do elemento químico estrôncio presentes no esmalte dos dentes dos hominídeos.

O estrôncio ocorre naturalmente em rochas e no solo e é incorporado por animais durante a alimentação. A proporção das variantes do elemento, o estrôncio-87 e o estrôncio-86, deu aos cientistas pistas precisas sobre os locais de alimentação.

Até agora essa inferência era mais indireta, feita, por exemplo, a partir da forma dos dentes. Mas, com o uso de ferramentas, essa relação pode ser mascarada, pois os alimentos duros podem ser processados antes. A nova técnica "diminui essas fontes de incerteza", diz Patrícia Izar, primatóloga do Instituto de Psicologia da USP.

O estudo mostrou que 75% das fêmeas cresceram em locais distantes das cavernas, contra só 17% dos machos.

Segundo Izar, a chave para entender o fenômeno é a disponibilidade de alimentos de alta qualidade, os que são cruciais para a reprodução.

Se eles existem em grande quantidade e com alta qualidade, e podem ser monopolizados, as fêmeas permanecem no seu grupo de origem, formando coalizões de defesa baseadas no parentesco.

Já se os alimentos estão uniformemente distribuídos no habitat, sendo difíceis de monopolizar pelas fêmeas, os machos é que ficam.

Esse segundo cenário é, por exemplo, a situação de chimpanzés e de muitos grupos humanos. "Se eles estiverem certos, os padrões de busca de alimento e estrutura social previstos para o nosso gênero já estavam presentes nessa época", afirma Izar.

outubro de 2009