Caso Isabella: melhor usar colírio do que óculos escuros (do blog do Reinaldo Azevedo)

Afirmar que a história contada por Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá é, para dizer pouco, inverossímil não deve entrar na categoria do que se diz por ser “condenação prévia”, não é? Acreditar que, em menos de cinco minutos, uma terceira pessoa perpetra todas aquelas barbaridades e desaparece sem deixar vestígios parece exigir demais da credulidade alheia. Fosse um filme, não poderia ser no ritmo 24 Horas. Precisaria de edição. Para que o assassino ganhasse tempo.

A defesa do casal protagonizou anteontem o seu grande momento desde o início deste caso. Dois dos advogados, que habitualmente se apresentavam de óculos escuros, com o nariz jamais formando nem sequer um ângulo reto em relação ao solo — sempre obtuso, porque apontando um tanto para o alto —, decidiram, na entrevista coletiva, demonstrar um ar entre sereno, amigável e indignado. Processos judiciais, julgamentos, tribunais, a nada disso faltam as características da representação. Meu amigo Gerald Thomas diria que se trata de um teatro um tanto velho, já ultrapassado.

E por que o barulho? A Polícia fora peremptória em afirmar que havia mancha do vômito de Isabella na camiseta do pai de Isabella e sangue na menina no carro da família e sobre um dos sapatos da madrasta. A defesa convocou a imprensa para anunciar: a mancha não estava na camiseta, mas na bermuda. E não há a comprovação cabal de que seja vômito. O material colhido no carro e no sapato era exíguo demais para se fazer o exame de DNA.

No Estadão de hoje, lê-se o que diz o perito: “O aspecto e o cheiro são iguais. Só não pudemos afirmar que se tratava de vômito de Isabella". Explico: o aspecto e o cheiro são iguais ao vômito encontrado no pulmão da menina. Quanto ao DNA... Bem, polícias no mundo inteiro já investigavam crimes antes de esse exame poder ser feito. De fato, não foi possível identificar o DNA daquelas amostras, mas, no laudo, os peritos afirmam que o perfil genético de todas as amostras analisadas apontaram a predominância de sangue da família. Não sabemos por que os Nardoni costumam sangrar dentro de automóveis. Eles devem saber.

Por que me ocupo dessa questão? Porque a Escola Base — e toda a sua crônica de erros — não existe para idiotizar ninguém. A defesa diz agora que vai contratar peritos particulares. Poderia aproveitar e conduzir uma reconstituição do crime — na presença também de peritos de sua escolha — para que se explique como a versão de Nardoni e Anna Carolina se encaixa no intervalo de 13 minutos e 59 segundos. A defesa, claro, cumpre ao seu papel ao tentar magnificar os erros da polícia durante o interrogatório, o que não obriga ninguém a abrir mão da lógica. Não terem encontrado o DNA de Isabella nos resquícios de sangue do carro não torna verdadeira a história do casal, é óbvio. Ocorre que não torna nem mesmo mais verossímil.

É claro que os erros da polícia são lamentáveis. É claro que os policiais precisam aprender a se comportar com mais comedimento. Mas é um dever também do jornalismo evidenciar quando se estão misturando alhos com bugalhos. Se o sangue encontrado no carro tem o perfil genético da família Nardoni e não é de Isabella, então é de quem? De Alexandre? De um dos dois garotos? Observem que a defesa não nega a existência do sangue. Apega-se ao fato de que não foi possível determinar o DNA.

Reitero: que a Escola Base sirva de triste exemplo para melhorar o jornalismo, jamais para torná-lo pior.

> Blog do Reinaldo Azevedo.

> Liberdade de expressão não é um direito absoluto, diz juíza. (junho de 2008, do Consultor Jurídico)

> Julgamento sob influência da mídia. (Alberto Dines)

> Sangue no carro é de Isabella, afirma polícia. (Folha)

> Prisão foi pedida por destruição de provas e por comoção social. (Estadão)

> "Pai de Isabella ficou abobalhado diante da fúria da madrasta." (do relatório final da polícia)

> Caso Isabella.


Comentários

  1. Li o teu blog, mas neste caso vejo que muitos blogs de jornalistas têm lembrado mal do caso da Escola de Base, porém é necessário lembrar que:
    os acusados não forma formalmente inocentados, forma absolvidos por falta de provas;
    nunca mais puderam fundar uma escola;
    desqualificaram a "suposta vítima", no caso Isabella houve uma vítima.

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