Prisão foi pedida por destruição de provas e comoção (Estadão)


No documento em que se solicita a preventiva, polícia ainda cita risco de fuga de Alexandre e Anna Carolina

por Laura Diniz

O principal argumento usado pela polícia para pedir a prisão preventiva de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá é que, caso fiquem em liberdade, podem atrapalhar a investigação do caso. Eles foram indiciados pela morte de Isabella Nardoni, em 29 de março. Entre os argumentos, a polícia menciona ainda que o crime “provocou imensurável comoção social”.

O Estado apurou que a representação com o pedido de preventiva - enviada anteontem ao Ministério Público Estadual (MPE) juntamente com as provas recolhidas pela polícia e com o relatório que conclui o inquérito policial - mistura uma abordagem emocional com o caráter técnico que o documento deveria ter. A prisão foi pedida, em resumo, para preservar a ordem pública, impedir a fuga dos indiciados e garantir a aplicação da lei penal.

A negativa de autoria do crime, por parte de Alexandre e Anna Carolina, é vista pela polícia como uma encenação. “Primeiro, eles lavam o chão do apartamento para ocultar o sangue lá dentro; depois, eles simulam terem sido vítimas de um roubo; conseguem mentir a dezenas de pessoas, a mais de 30 policiais, durante mais de 24 horas nesta delegacia, isso tudo logo depois de Isabella morrer, logo depois de Alexandre perder sua única filha.” A mensagem é que quem é capaz disso fica capaz de muito mais para impedir o bom andamento de uma investigação, que, em tese, poderia incriminá-los.

Em seguida, o documento destaca que o casal acusou o porteiro do prédio, levantou suspeitas sobre o zelador e colocou a culpa no pedreiro. “Quantos talvez não aparecerão por eles apontados como sendo autores do homicídio de Isabella?”, questiona a polícia, que classifica essas acusações como “levianas e inconsistentes”. A idéia é sugerir que os indiciados não apenas tentam se defender, mas procuram incriminar um inocente por um crime que não praticou.

ORDEM PÚBLICA

A comoção social, diz o documento, explica-se porque Isabella era uma menina feliz, saudável, inteligente e cheia de sonhos. Alexandre, que deveria protegê-la, nas palavras da polícia, é descrito como “um pai capaz de atirar a filha da janela de seu apartamento, preocupado em limpar o chão sujo de sangue ao invés de socorrê-la, preocupado em encenar juntamente com sua esposa, ao invés de chorar a morte da filha, um pai inerte e abobalhado diante da fúria de Anna Carolina, que asfixiava a pequena Isabella na sua presença”.

Na representação, o crime é classificado de hediondo, e afirma-se que o casal, caso permaneça livre, encontrará outras formas de atrapalhar a aplicação da lei penal, o que causa prejuízo à ordem pública. “É de se esperar que Anna Carolina e Alexandre permanecerão à espera da conclusão de toda a apuração criminal, se capazes foram de juntos idealizarem e sustentarem uma versão mentirosa, afrontando todos que, em algum momento, tiveram contato com o caso; fingirem ser pais amorosos e sensíveis em entrevista a uma grande emissora de televisão, desafiando nossas leis e nossos profissionais de Justiça?”

O pedido será apreciado pelo promotor Francisco Cembranelli, que deve pronunciar-se no início da próxima semana. O promotor pode concordar que a decretação da prisão é necessária, mas pode pedi-la por outros motivos, pois não precisa se prender ao que a polícia diz. Na mesma ocasião, ele divulgará os termos da denúncia contra o casal.

Em seguida, o caso segue para o juiz Maurício Fossen, do 2º Tribunal do Júri. É ele quem vai decidir se decreta a preventiva e se aceita a denúncia contra Alexandre e Anna Carolina.


Peritos e polícia se desentendem na análise dos laudos do IC

Falha de comunicação causou erros em interrogatório


por Bruno Tavares

Uma falha na comunicação entre peritos do Instituto de Criminalística (IC) e os delegados encarregados de investigar a morte de Isabella Nardoni pode explicar as perguntas incorretas feitas ao casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá durante o interrogatório. Pelos menos três afirmações feitas pela delegada Renata Helena da Silva Pontes ao pai e à madrasta da garota não constam do relatório final elaborado pelo Núcleo de Crimes Contra a Pessoa do IC. Os advogados do casal se apóiam nessas imprecisões para questionar a condução do inquérito policial.

Os problemas começaram na madrugada do 18 de abril, horas antes de Alexandre e Anna Carolina começarem a ser ouvidos no 9º DP (Carandiru), zona norte da capital. Uma pane nos computadores do IC fez os peritos perderem parte do relatório de 83 páginas que serviria como base para as perguntas.

A delegada decidiu levar os laudos já finalizados e aguardar pelo relatório final. O documento só chegou no início da tarde, quando o interrogatório de Alexandre estava em andamento. “Não tivemos tempo de sentar com a doutora Renata e esclarecer os aspectos mais difíceis”, admite um perito. “Por mais que ela conheça o caso, alguns pontos mereciam discussão aprofundada.”

A primeira imprecisão surge na folha 15 do interrogatório de Alexandre. A delegada informa o acusado de que fora encontrado vômito de Isabella em sua camiseta - a mancha estava na bermuda. Alexandre alega que em momento nenhum viu sua filha vomitando, enquanto vivia. Renata prosseguiu, dizendo que o vômito de Isabella ocorreu após ela ter sido asfixiada. O pai reafirmou desconhecer o motivo da descoberta.

De fato, os médicos-legistas encontraram vômito nos pulmões da vítima - possivelmente resultado do processo de asfixia. Mas os peritos não conseguiram juntar essa informação com as manchas amareladas detectadas na bermuda de Alexandre. “O aspecto e o cheiro são iguais. Só não pudemos afirmar que se tratava de vômito de Isabella”, explicou o perito.

Também houve erro na pergunta relativa ao sangue encontrado no carro da família e na sapatilha da madrasta. A delegada disse a Alexandre que as gotas de sangue encontradas no assoalho, atrás do banco do motorista e na cadeirinha de bebê instalada no Ford Ka eram “comprovadamente de sua filha”. Em seguida, Renata Pontes disse ao acusado que foi constatada uma gota de sangue sobre o pé direto do sapato de Anna Carolina - “tratando-se do sangue de Isabella”. No laudo final do IC, porém, a explicação é diferente.

No documento, os peritos atestam que todas as amostras encaminhadas ao Núcleo de Biologia e Bioquímica (do sangue encontrado no apartamento, nas roupas e no carro) resultaram positivo. Encaminhadas para a comparação de perfil genético, as mesmas apontaram predominância de membros da família. Os únicos vestígios em que foi possível determinar que se tratava de sangue de Isabella foram os colhidos no piso do apartamento. “Só o exame de DNA dá resultado com 99,9% de certeza.

O perfil genético é algo mais genérico. Como não conseguimos extrair o DNA das amostras, foi impossível dizer a que pessoa da família o sangue pertencia”, esclareceu o perito. Procurada, a Secretaria de Segurança Pública afirmou que só vai pronunciar-se após a manifestação do promotor.

> Relatório conclui que pai ficou "abobalhado" diante da fúria da madrasta.

> Caso Isabella.

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