Uma visão histórica do impacto da criação do SUS no acesso, custo e qualidade da saúde no país

Ana Beatriz Romeiro da Silva
graduanda em Ciências e Biotecnologia, Universidade Federal Fluminense (UFF)

Poucas políticas públicas brasileiras impactaram de forma tão profunda o cotidiano da população quanto o Sistema Único de Saúde (SUS). Instituído pela Constituição de 1988 e regulamentado em 1990, o SUS representa um dos maiores avanços da história da saúde pública no país ao estabelecer a saúde como um direito universal.

Antes, o acesso à assistência médica era limitado e profundamente desigual, condicionado ao vínculo formal de trabalho ou à caridade de instituições filantrópicas. A maioria dos serviços de saúde estava restrita aos trabalhadores formais vinculados à previdência social.

Pessoas sem emprego com carteira assinada ficavam à margem do sistema público e precisavam pagar por consultas, exames e medicamentos ou depender de ações assistenciais pontuais. Na prática, isso significava adiar diagnósticos, abandonar tratamentos e procurar atendimento apenas em situações emergenciais, quando a condição de saúde já era grave.

A criação do SUS rompeu com essa lógica ao garantir acesso universal e gratuito aos serviços de saúde, independentemente de renda, emprego ou local de moradia. Hoje, o sistema atende os mais de 200 milhões de brasileiros e é a única alternativa para cerca de 75% da população. Praticamente todos os brasileiros utilizam o SUS em algum momento da vida, direta ou indiretamente – uma conquista rara, inclusive entre países desenvolvidos.

Essa mudança ampliou de forma significativa o alcance da assistência e reduziu desigualdades históricas no acesso à saúde.

Outro aspecto central dessa transformação foi a redução das barreiras financeiras. Antes do SUS, quem não era atendido pelo antigo INAMPS precisava arcar com custos elevados de consultas, exames e medicamentos, tornando o tratamento inviável para grande parte da população.

Com a consolidação do sistema público, a maioria dos serviços passou a ser oferecida sem pagamento direto.

Modelo centrado em prevenir e promover saúde

Programas como o Farmácia Popular ampliaram ainda mais o acesso a medicamentos para doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, especialmente entre populações de menor renda, com impactos positivos na adesão ao tratamento e na qualidade de vida.

A ampliação da atenção básica é outro marco importante desse processo. A partir da Estratégia Saúde da Família (ESF), serviços de saúde chegaram a regiões antes desassistidas, integrando ações de prevenção, promoção e cuidado contínuo.

Atualmente, a ESF cobre a maior parte da população brasileira e se organiza de forma capilarizada em todo o território nacional. Está associada à redução da mortalidade infantil, ao melhor controle de doenças crônicas e ao aumento das taxas de vacinação – resultados amplamente documentados na literatura científica e em dados oficiais.

No que diz respeito à qualidade da assistência, o SUS promoveu uma mudança de paradigma ao fortalecer a atenção primária e o trabalho de equipes multiprofissionais.

A atuação de agentes comunitários e o enfoque territorial aproximaram o sistema de saúde das necessidades reais da população. Esse modelo, centrado na prevenção e na promoção da saúde, é amplamente reconhecido na literatura internacional como mais eficiente e sustentável do que sistemas baseados predominantemente em atendimento hospitalar. Isso, no entanto, não significa ignorar os problemas.

O SUS enfrenta desafios estruturais importantes, entre eles o subfinanciamento crônico, agravado por restrições orçamentárias nos últimos anos. Filas, sobrecarga de profissionais, desigualdades regionais e fragilidades na gestão ainda fazem parte da realidade.

Além disso, a incorporação de novas tecnologias, essencial para a modernização do cuidado, exige planejamento, investimento e avaliação criteriosa, sob o risco de ampliar desigualdades já existentes.
Resultados amparados em evidências

O debate sobre o desempenho do SUS, no entanto, não pode ser separado de seu financiamento. O Brasil investe, proporcionalmente ao PIB, menos recursos públicos em saúde do que outros países com sistemas universais semelhantes. 

Essa limitação estrutural ajuda a explicar muitas das fragilidades atribuídas ao sistema, frequentemente interpretadas como falhas de gestão, quando na realidade refletem escolhas políticas de longo prazo.

Ainda assim, o SUS permanece como uma das maiores e mais complexas experiências de saúde pública do mundo. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, ele atua como um amortecedor social, garantindo que o direito à saúde não seja determinado pela renda. 

Defender o SUS não significa negar seus problemas, mas reconhecer que seu fortalecimento depende de financiamento adequado, gestão eficiente e compromisso político contínuo.

Mais de três décadas após sua criação, o SUS segue sendo essencial não apenas para tratar doenças, mas para sustentar a própria ideia de cidadania no Brasil. Em um cenário de envelhecimento populacional, aumento das doenças crônicas e recorrentes emergências sanitárias, o sistema deixa de ser apenas uma política social e se afirma como uma infraestrutura estratégica do Estado brasileiro.

A defesa do SUS é baseada em evidências: a literatura internacional mostra que sistemas universais tendem a ser mais justos, eficientes e resilientes. Não é, portanto, ideológica. Enfraquecê-lo significa ampliar desigualdades; fortalecê-lo é investir em saúde coletiva, desenvolvimento e cidadania.

Comentários