Uma visão histórica do impacto da criação do SUS no acesso, custo e qualidade da saúde no país

Ana Beatriz Romeiro da Silva graduanda em Ciências e Biotecnologia, Universidade Federal Fluminense (UFF) Poucas políticas públicas brasileiras impactaram de forma tão profunda o cotidiano da população quanto o Sistema Único de Saúde (SUS). Instituído pela Constituição de 1988 e regulamentado em 1990, o SUS representa um dos maiores avanços da história da saúde pública no país ao estabelecer a saúde como um direito universal. Antes, o acesso à assistência médica era limitado e profundamente desigual , condicionado ao vínculo formal de trabalho ou à caridade de instituições filantrópicas. A maioria dos serviços de saúde estava restrita aos trabalhadores formais vinculados à previdência social. Pessoas sem emprego com carteira assinada ficavam à margem do sistema público e precisavam pagar por consultas, exames e medicamentos ou depender de ações assistenciais pontuais. Na prática, isso significava adiar diagnósticos, abandonar tratamentos e procurar atendimento apenas em situações emer...

Contribuições das mulheres para a cartografia foram negligenciadas por muito tempo

A cartografia tem sido tradicionalmente uma área dominada por homens, desde a projeção de Mercator do mundo no século XVI, passando por agrimensores como George Washington e Thomas Jefferson, que mapearam propriedades no século XVIII, até o desenvolvimento de sistemas de informação geográfica por Roger Tomlinson na década de 1960. A cartografia e os campos relacionados às tecnologias geoespaciais continuam sendo dominados por homens.

Mas, como geógrafa e especialista em sistemas de informação geográfica, tenho observado como as oportunidades para mulheres como cartógrafas mudaram ao longo das últimas cinco décadas. O advento de tecnologias como os sistemas de informação geográfica aumentou as oportunidades de educação, emprego e pesquisa para mulheres, tornando a cartografia mais acessível.

O cenário feminino

As mulheres sempre foram essenciais para como as pessoas veem e compreendem o mundo. O conceito da Mãe Terra ou Mãe Natureza como centro do universo e fonte de toda a vida permeia as culturas indígenas ao redor do globo.

No século XX, a comunidade científica e os ativistas ambientais adotaram o termo Gaia — a deusa grega que personifica a Terra, a mãe de todas as divindades — para refletir a noção da Terra como um sistema vivo. Gaia é representada como feminina e compreendida como uma força orientadora na manutenção da atmosfera, dos oceanos e do clima.
As "Donzelas Cartógrafas Militares" criaram dezenas de milhares
de mapas durante a Segunda Guerra Mundial. 

A representação da terra como mulher foi remodelada com a ascensão do nacionalismo, quando os termos "pátria" e "terra natal" assumiram significados distintos. Pátria implicava herança e tradição, enquanto terra natal sugeria local de nascimento e senso de pertencimento. Essas construções de gênero aparecem em diversas culturas.
Outro aspecto da natureza de gênero na cartografia é a maneira como os mapas usavam formas femininas para representar características geográficas. 

Mapas antropomórficos dos séculos XVI ao XIX demonstram como os cartógrafos utilizavam figuras femininas para representar países europeus. Por exemplo, a " Europa Regina " do cartógrafo Johannes Putsch, originalmente desenhada em 1537, estabeleceu o modelo para mapas posteriores nos quais as nações são representadas como mulheres em várias poses e diferentes estados de vestimenta — ou nudez —, embora não correspondam exatamente às formas reais do relevo.

Esses mapas refletem as mudanças nos significados culturais e políticos atribuídos ao território e ao poder. A paisagem feminina, ou a mulher como mapa, é frequentemente usada para retratar países como ativos, agressivos ou submissos, dependendo do status do Estado-nação em relação à guerra e à paz e dos estereótipos associados a esse país.

Tecnologia e o papel das mulheres na cartografia

Embora as contribuições técnicas das mulheres para o mapeamento abranjam toda a história da cartografia, elas são difíceis de identificar e documentar. Mas uma análise mais atenta revela a variedade de papéis que as mulheres desempenharam na elaboração de mapas.

Um dos primeiros exemplos conhecidos de um mapa feito por uma mulher data do século IV, quando a irmã do primeiro-ministro da dinastia Han, na China, bordou um mapa em seda.

Durante os séculos XV e XVI, as mulheres eram contratadas para colorir mapas e contribuir com detalhes artísticos para as fronteiras. Muitas cartógrafas usavam apenas a inicial do primeiro nome e o sobrenome, ocultando seu gênero e dificultando o rastreamento de seu trabalho.

O século XVIII trouxe o advento da imprensa, que abriu novas oportunidades para as mulheres participarem como gravadoras de placas de cobre, editoras de mapas e fabricantes de globos.

No século XIX, a cartografia tornou-se parte da educação formal para mulheres na América do Norte, onde a interseção entre bordado e geografia produziu globos de tecido e mapas de linho. Mais tarde, com o acesso a papel e lápis, passou-se a desenhar e colorir mapas.

A Segunda Guerra Mundial inaugurou era de oportunidades para as mulheres nos EUA, que foram recrutadas para desempenhar funções cruciais no desenvolvimento cartográfico enquanto os homens estavam na guerra. Conhecidas como Millie, a Cartógrafa, ou as Donzelas Cartógrafas Militares, essas mulheres produziam mapas topográficos , interpretavam fotografias aéreas e ajudavam a desenvolver a fotogrametria, o uso de fotos para criar modelos 3D da topografia da Terra.

Fotografia em preto e branco de mulheres ao redor de uma mesa quadriculada; uma delas empurra peças sobre a superfície enquanto as outras observam de uma varanda.

As "Donzelas Cartógrafas Militares" criaram dezenas de milhares de mapas durante a Segunda Guerra Mundial. Alfred T. Palmer/Escritório de Informação de Guerra via Biblioteca do Congresso.

Aproveitando o papel crescente das mulheres na cartografia, na década de 1950, Evelyn Pruitt, do Escritório de Pesquisa Naval dos EUA, cunhou o termo sensoriamento remoto, referindo-se ao uso de imagens de satélite para observar, medir e mapear a Terra. No mesmo período, a matemática Gladys West desenvolveu os modelos matemáticos para os sistemas de posicionamento global, conhecidos como GPS.

Mulheres criando os mapas

As mulheres também supervisionaram a criação de mapas de diversas maneiras.

As sociedades matriarcais indígenas expressavam informações espaciais por meio de diferentes formas de cartografia. Isso inclui canções, danças e rituais que identificavam importantes recursos comunitários, como nascentes, bosques sagrados e rotas de migração.

O desenvolvimento da cartografia europeia foi impulsionado pela Era dos Descobrimentos, entre os séculos XV e XVII, e pelas atividades empreendedoras associadas à reprodução e venda de mapas. Frequentemente, as mulheres assumiam esses papéis após a morte de seus mmaridos,garantindo a continuidade dos negócios familiares.

Não apenas os reis, mas também as rainhas determinavam quais mapas eram necessários. Por exemplo, a Rainha Elizabeth I encomendou o Atlas da Inglaterra e do País de Gales de 11579,um dos primeiros atlas nacionais. Ele apresentava um mapa de todo o país, acessível de casa ou de uma sala de leitura.

Mulheres definindo a direção dos mapas
Enquanto os primeiros mapas posicionavam as mulheres principalmente como corpos simbólicos para projetar significado político ou como apoiadoras de empreendimentos cartográficos maiores, a cartografia contemporânea revela uma dinâmica diferente entre gênero e mapas: há uma falta de dados geográficos sobre questões que afetam as mulheres, incluindo saúde, segurança e planejamento para o futuro.

Por exemplo, as mulheres são afetadas de forma desproporcional por ddesastres, inclusive por meio de um risco maior de sofrer violência de gênero. Análises geográficas revelam uma persistente disparidade de gênero nos conjuntos de dados , que frequentemente carecem de informações sobre saúde e necessidades diárias das mulheres, serviços reprodutivos ou creches.

Estudos demonstram que o desenvolvimento de tecnologias geoespaciais e plataformas de mapeamento aberto é dominado por homens. Em situações como desastres, ter uma diversidade de perspectivas na elaboração de mapas é essencial para atender às necessidades da comunidade.

Milhões de pessoas estão desaparecidas dos mapas.

Criar mapas que reflitam especificamente as necessidades das mulheres é fundamental para que elas participem plenamente da cartografia no século XXI. Na última década, diversos programas e organizações têm trabalhado para destacar as contribuições femininas para a cartografia e demonstrar como a ação coletiva pode fazer a diferença.

Por exemplo, a African Women in GIS promove workshops para valorizar as perspectivas das mulheres e suas necessidades de mapeamento, colocando a tecnologia de mapeamento móvel em suas mãos. A GeoChicas e a Youth Mappers, com seu projeto Let Girls Map, capacitam mulheres a criar mapas por meio de treinamento e educação que abordam a exclusão digital. A Women in GIS e a Women+ in Geospatial constroem comunidades na área de cartografia por meio de redes profissionais. 

A Humanitarian OpenStreetMap Team amplifica as vozes das mulheres para informar as abordagens geoespaciais na criação de mapas e fortalecer as contribuições femininas nesse campo.

Nunca houve tantas oportunidades para as mulheres participarem na elaboração de mapas, e nunca o papel das mulheres na elaboração de mapas foi tão importante para abordar os problemas complexos que as sociedades enfrentam em todo o mundo.

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