Documento revela que Ratzinger defendeu uma reforma do celibato

por Miguel Mora e Laura Lucchini, do El País

Em 1970, Joseph Ratzinger (foto) pensava que o celibato não era uma instituição intocável. Mais que isso: era partidário da sua reforma e de que a Igreja católica voltasse à tradição antiga oriental: padres casados, bispos celibatários. A posição consta, preto no branco, num documento nunca publicado, assinado pelo atual Papa, que na época era professor em Tübingen, e por outros oito teólogos alemães, que foi publicado pela revista Pipeline, do grupo católico crítico Aktionskreis Regensburg (AKR).

O texto era um relatório preparatório solicitado pela Conferência Episcopal Alemã aoSínodo dos Bispos que se realizaria no ano seguinte em Roma. Os teólogos alemães indicavam que a obrigação de não casar era uma das principais causas pela falta de vocações e de jovens padres. O documento tem a data de 2 de fevereiro de 1970 e foi assinado por estudiosos de fama mundial como os teólogos Karl Rahner, Otto Semmelroth e os atuais cardeais Karl Lehmann e Walter Kasper.

“Nossas consultas e estudos coincidem na necessidade de um tratamento diferente da lei que estabelece o celibato (...) tanto para a Igreja alemã como para a Igreja mundial”, escreveram os teólogos no relatório dirigido aos bispos alemães.

A notícia é mais curiosa que desconhecia. O debate sobre o celibato foi um dos dois argumentos centrais do Sínodo realizado em 1971, sob o papado de Paulo VI: o segundo tema crucial na reunião foi a elaboração de um texto sobre a nova ordem econômica mundial, que antecipou a iminente crise do petróleo.

O contexto geral da Igreja estava mudando radicalmente. Graças à abertura favorecida pelo Concílio Vaticano II, que durou de 1959 até 1965, um vento de renovação sacudia a Igreja e a sociedade civil. Maio de 68 em Paris. Argélia lutando pela sua independência. “A Igreja se sentia já globalizada. Eram os anos do boom da Igreja africana e latino-americana”, recorda o vaticanista Filippo di Giacomo. “Com a descolonização da África, haviam nascido cerca de 50 países novos em apenas poucos meses de 1960, e isso havia obrigado o Vaticano a criar 46 novas conferências episcopais”.

O celibato entrou no Sínodo porque o Concílio havia ampliado a atenção para a África; porque o caso Lefebvre, deposto por ordenar bispos africanos, havia suscitado muita polêmica, e também, afirma Di Giacomo, “porque a Igreja previa que em poucos anos haveria um enorme aumento de católicos que necessitariam ser evangelizados”.

Para atender essa demanda que se esperava, o Vaticano pensou que ordenar padres casados, voltar à tradição antiga oriental, poderia ser uma solução eficaz. Paulo VI não quis tomar a decisão sozinho, e submeteu a questão à discussão do Sínodo, afirmando que respeitaria o resultado da votação.

Todas as conferências de bispos europeus pediram opinião aos teólogos sobre a decisão a ser tomada. Também os teólogos italianos, como o cardeal Pellegrino, os franceses e os espanhóis apoiaram frente aos seus episcopados a decisão de reformar o celibato. Apenas os norte-americanos se opuseram.

A surpresa foi que, no Sínodo, os bispos europeus votaram a favor da reforma do celibato, mas os latino-americanos e africanos se opuseram majoritariamente.

“O paradoxo”, analisa o canonista Di Giacomo, “é que o episcopado teoricamente mais conservador fez a escolha progressista, e os progressistas, entre eles os que na sequência dariam forma à Teologia da Libertação, pediram ao seu episcopado que votassem contra”.

Os autores do documento eram assessores da Conferência Episcopal Alemã, e mesmo no texto respeitam muitas vezes que com sua análise não queriam “prejudicar nenhuma decisão”, todos os autores se diziam “muito convencidos da necessidade de reexaminar a obrigação do celibato por parte dos níveis mais altos da hierarquia eclesiástica, pois”, afirmavam, “é urgente”.

Independentemente do resultado da discussão, o celibato deveria permanecer como uma verdadeira e real opção para os sacerdotes que assim o desejarem, segundo os autores. “Quem, contudo, considera este esclarecimento supérfluo, demonstra ter escassa fé na força deste conselho do Evangelho e na misericórdia de Deus”.

O documento com a assinatura de Ratzinger, que não foi publicado até agora, foi entregue por um colaborador de Karl Rahner a outro clérigo de confiança que pertencia ao grupo católico crítico com a Igreja da cidade de Regensburg, o Aktionskreis Regensburg (AKR). O documento permaneceu cuidadosamente arquivado durante 41 anos, e aparece agora publicado pelo AKR em sua revista Pipeline.

Os autores do documento raciocinaram então sobre o que agora a cúria vaticana, e o próprio Papa, demonizam como “espírito do tempo”. Naquele texto consideram possível uma revisão do celibato “simplesmente porque seria teologicamente incorreto” que “não se pudesse voltar a submeter à prova algo em um novo contexto histórico e social”. “Dizer o contrário”, escreveram, “não seria possível através de nenhum argumento teológico”.

Os teólogos mencionavam o exemplo da Igreja oriental, e se referem muitas vezes à Bíblia, por exemplo, à Epístola de Paulo aos Gálatas. Do documento se desprende a tomada de consciência dos teólogos de que o Concílio Vaticano II estava tendo efeitos nos níveis mais baixos da Igreja. Em 1970, assim como hoje, os teólogos ortodoxos estavam preocupados com a falta de guias espirituais. “Agora os jovens padres se perguntam sobre a cada vez mais grave falta de padres e sobre como se pode superar o problema vital da Igreja e de seu próprio ofício. Para eles, não basta o olhar ideal para o passado”. O problema seria “colocar em dúvida hoje a factibilidade de uma vida celibatária para os jovens padres de agora”.

Os principais fatores a considerar seriam, disseram os teólogos, a perda de um verdadeiro reconhecimento por parte da comunidade de fiéis, assim como a “fragilidade psíquica dos jovens em uma sociedade superexposta à sexualidade”. Os autores consideravam que, caso não se conseguisse atrair padres jovens, “então a Igreja terá a obrigação de levar a cabo uma modificação de sua moral”. Mais ou menos o que acontece hoje. Com a diferença de que agora são outros tempos.

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novembro de 2008

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