'SMS, blogs e redes virtuais fizeram com que Obama vencesse'

por Ernesto Assante, para o La Repubblica, em 19 de maio de 2009

Joe Rospars tem 35 anos e o ar de um rapaz totalmente "casa e computador", um daqueles que você não nota nem se é o seu colega de aula. Porém, esse senhor de óculos, tranquilo e calmo, que afavelmente cumprimenta a todos na grande sala da Verkehrshaus de Lucerna, onde apenas terminou de falar aos participantes da Eurovision TV Summit, organizado pela EBU [União Europeia de Rádio-Televisão], é um dos homens do momento, aquele que colocou em ação a campanha eleitoral online de Barack Obama, é o deus ex machina de um movimento que nasceu explorando e-mails, blogs, comunidades sociais, SMS e celulares, todo o armamento das novas mídias das quais ele era responsável.

Internet-ObamaO primeiro "new media director" de uma campanha eleitoral norte-americana, que concluiu com sucesso. "Sim, era a primeira vez que existia um cargo semelhante", diz, sorrindo. Rospars, chefe da sua Blue State Digital, já havia assinado iniciativas de sucesso, mas quem acreditou nos seus dotes foi sobretudo David Plouffe, o responsável pela campanha eleitoral de Obama, que entendeu antes dos outros que a Internet podia ser utilizada de uma maneira nova. "Ele me chamou – relembra Rospars – e me disse que se as pessoas queriam vozes novas, se queriam que algo acontecesse, o desafio era o de fazê-lo acontecer de verdade, construir um movimento novo em um conjunto de instituições arcaicas".

E Barack Obama?

Eu o encontrei logo depois, e falamos sobre os Estados Unidos, daquilo que ele gostaria de fazer. Eu lhe perguntei o que ocorreria se perdêssemos, e ele me respondeu que o importante era a campanha eleitoral, que o objetivo era o de melhorar o processo político no país, de envolver as pessoas. Explicou-me que queria construir uma relação com os seus apoiadores e que nascesse, também entre eles, uma relação. Disse-me que, se tivéssemos sucesso, tudo isso não pararia nas eleições, que aquilo que seríamos capazes de construir resistiria também depois. E ele tinha razão.

Qual foi o ponto de partida de vocês?

O ano de 1989, quando as pessoas, especialmente no leste europeu, se colocaram em movimento para mudar. As pessoas não iam só comprar os jornais ilegais, mas faziam fotocópias deles para que outros pudessem ler. Não se limitavam a ler os panfletos; reproduziam-nos para convencer os vizinhos. Uniam-se para ser parte de um processo político que, até aquele momento, os havia excluído, construíam uma sociedade civil nova, criavam a participação democrática. Hoje, tudo isso continua. Ao invés das publicações ilegais, existem os jornais na Internet, os panfletos substituídos pelos CDs.

Muitos pensam que os instrumentos da Internet são frios, impessoais, que a web isola as pessoas em vez de uni-las.

Poderia ser assim se pensássemos nos instrumentos das novas mídias como substitutos das relações humanas diretas. Mas não é assim. A Internet nos deu modos de ter mais pessoas nas ruas, mais apoiadores que, fisicamente, bateram em um número muito maior de portas e falaram verdadeiramente a um número muito maior de pessoas. O nosso objetivo não era o de transmitir uma mensagem da cúpula à base de um modo novo, mas o de criar, como Obama queria, uma relação com os apoiadores e dos apoiadores entre si, colocar as pessoas ao trabalho, não com ordens, mas com estímulos, dando a cada um todo o material online necessário para que todos se sentissem livres para fazer o que sabiam fazer melhor. Nos nossos vídeos, nas nossas mensagens, Barack Obama aparecia pouco. A nossa mensagem não era "votem em Obama", mas "façam ouvir a sua voz".

A Internet está mudando a política nos EUA?

Ainda não é possível dizer. Digamos que uma mudança se colocou em ação. Esclareceu-se sobretudo um equívoco com relação às novas mídias. Não são a mensagem, são o instrumento para facilitar o acesso à política. E os republicanos também deverão se dar conta disso, talvez perdendo um outro par de eleições. Eles pensaram do jeito velho, com uma campanha eleitoral de cima para baixo. Nós invertemos esse mecanismo. Sem a colaboração das pessoas, não teríamos podido vencer.

O modelo da sua campanha eleitoral pode ser exportado para outros lugares?

Acho que ele não pode ser exportado assim como é. Mas penso que será difícil não levar em conta o que ocorreu nessa campanha eleitoral. Também porque quem participou dessa campanha continua participante da vida da própria comunidade e não está disposto a voltar para trás. (A tradução é de Moisés Sbardelotto)

> Redes sociais e celulares são futuro da web, diz "pai" da WWW (abril de 2009)

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