A IA está prestes a alterar radicalmente as estruturas de comando militar que não mudaram muito desde o exército de Napoleão

Apesar de dois séculos de evolução, a estrutura de um estado-maior militar moderno seria reconhecível por Napoleão. Ao mesmo tempo, as organizações militares têm lutado para incorporar novas tecnologias à medida que se adaptam a novos domínios — ar, espaço e informação — na guerra moderna. Benjamin Jensen professor de Estudos Estratégicos na Escola de Combate Avançado da Universidade do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos The Conversation plataforma de informação produzida por acadêmicos e jornalistas O tamanho dos quartéis-generais militares aumentou para acomodar os fluxos de informação e os pontos de decisão expandidos dessas novas facetas da guerra. O resultado é a diminuição dos retornos marginais e um pesadelo de coordenação — muitos cozinheiros na cozinha — que corre o risco de comprometer o comando da missão. Agentes de IA — softwares autônomos e orientados a objetivos, alimentados por grandes modelos de linguagem — podem automatizar tarefas rotineiras da equipe, redu...

11,5 milhões de brasileiros passam fome

 

image Em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, Francisco Menezes, diretor doInstituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), afirma: “O mundo se depara, nesse momento, com um enorme desafio. O sistema de produção e consumo alimentar é insustentável econômica, social e ambientalmente”. Para ele, “a raiz do problema está no fato do alimento ter se transformado em mera mercadoria”. No entanto,Francisco sugere uma solução. “Mudar esse quadro somente será possível com o convencimento de governos e sociedades que alimento é um direito de todos.”

Francisco Menezes é também membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), do qual já foi presidente, e fundador e coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e Nutricional(FBSAN).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como entender que a desnutrição calórico-protéica do brasileiro reduz-se ao mesmo tempo em que se acentua o crescimento da obesidade em todas as categorias de renda?

Francisco Menezes - A desnutrição calórico-protéica vem se reduzindo desde a década de 1990 e, mais recentemente, essa tendência se acentuou. Isto se deu por uma série de fatores combinados, entre os quais podemos citar o barateamento relativo dos alimentos; a melhoria do acesso à renda entre os mais pobres; maior acesso à informação; disponibilidade de políticas públicas destinadas aos grupos socialmente mais vulneráveis, entre outros. Mas, ao mesmo tempo, passou-se a observar, também no Brasil, um fenômeno que já se mostrava preocupante em outras partes do mundo, com destaque para os Estados Unidos, ou seja, o crescimento do sobrepeso e da obesidade. No presente, esse problema se registra, sobretudo, entre as camadas sociais com baixa renda. Mais uma vez, são vários fatores combinados determinando essa tendência. Mas alguns têm maior importância: os alimentos de maior densidade calórica são geralmente mais baratos. Cada vez se oferece mais refrigerantes, biscoitos e outros produtos de quase nenhum valor nutricional, mas com quantidade de açúcar elevada. A meu ver, a maior parte da população adulta sabe o que é uma alimentação mais saudável e a menos saudável. Porém, é muito forte a necessidade de consumir uma alimentação com “substância”, que dê “sustentação”, como é falado. Iniciativas de educação alimentar precisam começar a trabalhar esses aspectos.

IHU On-Line - Quais os principais desafios em relação à segurança alimentar e nutricional no mundo?

Francisco Menezes - O mundo se depara, nesse momento, com um enorme desafio. O sistema de produção e consumo alimentar é insustentável econômica, social e ambientalmente. A raiz do problema está no fato do alimento ter se transformado em mera mercadoria. Mudar esse quadro somente será possível quando governos e sociedades se convencerem de que o alimento é um direito de todos.

IHU On-Line - Como entender a crise dos alimentos? Os biocombustíveis contribuem para isso?

Francisco Menezes - A crise dos alimentos revela a insustentabilidade desse sistema. E ela ocorre por conta de uma visão que só enxerga o lucro, a partir dos alimentos. Foi resultado de diversos fatores: a especulação com alimentos transformados em títulos de bolsas de mercadorias; a expansão brutal da produção de etanol a partir do milho realizada pelos Estados Unidos; a alta do preço do petróleo, com os desdobramentos sobre os preços dos insumos químicos e do transporte dos alimentos; os problemas climáticos resultantes do aquecimento do planeta e a incapacidade dos países estabelecerem regras justas e adequadas para a comercialização dos alimentos. Agora, não me venham falar que os chineses, indianos e brasileiros é que causaram a crise, pois estão comendo mais. Que sistema é esse que não comporta que as pessoas se alimentem de forma suficiente?

IHU On-Line - O que é preciso ser feito para que a alimentação seja considerada um direito e não uma mercadoria?

Francisco Menezes - Em primeiro lugar, é preciso que se adquira a consciência desse direito, que deve ser garantido por políticas públicas, como obrigação do Estado. Mas é necessário, também, que se construa toda uma regulamentação de forma tal que qualquer indivíduo, sem dificuldades, possa cobrar esse direito. No Brasil, já temos a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional, toda ela baseada no princípio da alimentação adequada. Falta agora a regulamentação que dê condições de exigibilidade desse direito.

IHU On-Line - Como o senhor construiria o mapa da fome no Brasil de hoje? Quais os números em relação à fome que mais assombram?

Francisco Menezes - Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que o país está fazendo extraordinários avanços na luta contra a fome, nos últimos cinco anos. Isto não quer dizer que o problema foi solucionado. Ele ainda atinge um grande número de pessoas e, enquanto houver um brasileiro sem ter seu direito à alimentação garantido, não podemos sossegar. Em pesquisa do Ibase, avaliando as condições de segurança alimentar do público do Bolsa Família, no momento em que os preços dos alimentos começavam a subir, chegamos a 11,5 milhões de pessoas vulneráveis à fome. Ela ainda é mais forte no Nordeste rural, mas aparecem bolsões de miséria, aonde a fome pode ocorrer, em todas as regiões do país.

IHU On-Line - Que relação podemos estabelecer entre o alimento, a soberania de um povo e a dignidade um ser humano?

Francisco Menezes - Provavelmente, a maior ameaça à soberania de um povo ocorre quando este tem sua capacidade de alimentação comprometida. Então, fica-se frágil para ceder a qualquer coisa. E nossa dignidade vai embora. Por isso que a soberania alimentar é estratégica para todos os países.

IHU On-Line - Qual a importância de resgatar a memória de Josué de Castro? Em que sentido o senhor acha importante revelar a realidade da fome, como ele fez?

Francisco Menezes - Josué de Castro foi um visionário, que deixou uma imensa contribuição não só para o Brasil, mas para todo o mundo. Precisaria de muito espaço e tempo para falar dele. Mas resumo essa contribuição no que me parece chave, em toda sua obra: a denúncia de que a fome é obra dos próprios homens, desmistificando a idéia de que, como uma fatalidade, as pessoas estariam fadadas a viver com ela.

IHU On-Line - O senhor acredita que o Brasil, com suas atuais políticas públicas, está conseguindo aliar crescimento econômico e redução da desigualdade?

Francisco Menezes - Acabam de sair os dados da Pesquisa Nacional por Amostra por Domicílio (PNAD), do IBGE, que confirma isso. É um fato raro ocorrer crescimento com redução de desigualdade, mas as políticas de transferência de renda, de estímulo ao trabalho formal, além da melhoria educacional do trabalhador brasileiro, estão levando a esses resultados alvissareiros. Uma das medidas que devem seguir essas conquistas é a construção de condições para que os mais pobres possam ingressar no mercado de trabalho ou obterem renda a partir de seus próprios empreendimentos.

Fonte: IHU Online.

> Alimentos não-saudáveis são os mais veiculados na tv. (junho de 2008)

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