O maldito passado de Rubens Fonseca

A participação de Rubem Fonseca no Ipes, entidade que deu apoio
à ditadura, é um episódio escamoteado em sua biografia. Uma pesquisa
recente mostra que a colaboração foi mais longa do que ele admite.

por Jerônimo Teixeira, de Veja

image Publicado em 1975, Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca (foto, no fim dos anos 70), seria recolhido pela censura no ano seguinte. O ministro da Justiça, Armando Falcão, autor do despacho que determinou a proibição da coletânea de contos, disse em uma entrevista: "Li pouquíssima coisa, talvez uns seis palavrões, e isso bastou". O livro só seria liberado em 1989, depois de uma longa batalha judicial. O episódio ajudou a conferir uma certa aura contestadora a Rubem Fonseca, como se ele fosse a encarnação real do escritor maldito que protagonizava Intestino Grosso, um dos contos censurados. Mas o embate com a ditadura foi precedido por um episódio ainda hoje recalcado em sua biografia: Rubem Fonseca participou de uma instituição que forneceu estofo ideológico ao golpe que em 1964 apeou o presidente João Goulart do poder. Exerceu cargos de direção no Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, que tinha entre seus membros proeminentes o general Golbery do Couto e Silva, uma das figuras mais cavilosas da ditadura. Fonseca admite sua participação no Ipes até 1964, ano do golpe – mas uma pesquisa recente da historiadora Aline Andrade Pereira revela documentos que atestam a participação do escritor no Ipes até pelo menos 1970.

O Ipes foi constituído em 1962 por grupos empresariais preocupados com os rumos socializantes do governo João Goulart. Uma dessas empresas era a Light, gigante da energia elétrica cujo setor de relações públicas era então dirigido por Fonseca. Entre outras atividades, o instituto editava livros e produzia filmes de propaganda anticomunista. O Ipes daria apoio total ao golpe de 1964. No mês passado, a revista BRAVO (editada pela Abril) lançou nova luz sobre as ligações de Rubem Fonseca com o Ipes em um perfil do escritor. Em 1964: A Conquista do Estado, livro de 1981 do cientista político René Armand Dreifuss, o "romancista José Rubem Fonseca" já era citado como responsável pelos "editoriais de jornal e filmes" produzidos pelo instituto. De fato, um documento do Ipes atribui ao escritor – identificado pelas iniciais do nome, JRF – e ao produtor Carlos Niemeyer a tarefa de revisar roteiros de "filmes sobre as Forças Armadas".

O próprio Rubem Fonseca apresentou sua versão dos fatos em um artigo publicado na Folha de S.Paulo em 1994. De acordo com sua história, o Ipes esteve dividido em duas alas – uma delas fiel aos princípios democráticos e a outra favorável ao golpe. Fonseca dá a entender que se alinhava com a turma da democracia – e que não teve mais nada a ver com o instituto depois de 1964. Não foi bem assim: na tese de doutorado "O verdadeiro Mandrake: Rubem Fonseca e sua onipresença invisível", defendida neste ano na Universidade Federal Fluminense, a professora Aline Pereira levanta documentos do Ipes conservados no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro que atestam a participação do escritor muito depois do golpe. Em 1965, há uma carta de um líder do instituto lamentando a exoneração de Fonseca de suas funções da diretoria – mas, em 1968, outro documento atesta sua recondução aos conselhos decisórios da instituição. Recibos provam a contribuição financeira de Rubem Fonseca até 1970. VEJA tentou contatar o escritor por e-mail, através da assessoria de sua editora, a Agir, para que comentasse esses documentos, mas não obteve resposta.

No ambiente politicamente envenenado das décadas de ditadura militar, a associação com o golpe poderia ser o beijo da morte para um artista (basta lembrar o caso do cantor Simonal). O meio cultural, afinal de contas, era dominado pela esquerda. Ter mantido a ligação com a direita em parte escamoteada facilitou o reconhecimento dos méritos literários – inegáveis – de Rubem Fonseca. Mas a manipulação das datas que o autor promoveu no artigo de 1994, e que não desfez na reportagem da BRAVO, sugere algo mais: sua colaboração com uma entidade golpista parece ser matéria sensível, talvez até um dilema moral para o escritor. Não precisaria ser assim: recluso, ausente dos debates públicos, Rubem Fonseca não é comparável ao alemão Günter Grass, que se erigiu em bússola moral de seu país e depois viveu a desmoralização ao admitir muito tardiamente que fizera parte da Waffen-SS. No ambiente democrático que sucedeu à abertura, no qual tantos remexeram nas feridas abertas na ditadura, teria sido mais salutar que o escritor arejasse sua história no Ipes, em vez de ocultar datas. Para encobrir um equívoco do passado, Rubem Fonseca cometeu outro pior: adulterou os fatos de sua biografia.

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Um documento que aponta Rubens Fonseca  como como um dos responsáveis por filmes  de propaganda e um recibo de contribuição ao Ipes. Segue assinatura do escritor em ata do instituto.




Comentários

  1. Maravilha. Obrigadíssimo Paulo Lopes, pelas informações e por este blog.

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