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‘Pobre Nietzsche! É considerado o culpado de tudo’

O filósofo italiano Franco Volpi, em artigo para o jornal La Repubblica, 10-04-2009, comenta as recentes declarações de Bento XVI sobre Nietzsche. "Um dos problemas da Igreja atual é que a produção da felicidade escapou-lhe das mãos. Mas não é culpa de Nietzsche se a força dos Evangelhos se esvaece e a condição do homem ocidental é sempre mais paganizada", afirma. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

nietzsche

Segue o artigo.

Pobre Nietzsche! Foi o único filósofo ao qual coube o singular privilégio de ser considerado o responsável nada menos do que de uma guerra mundial. Durante o conflito de 1914-1918, em uma livraria de Piccadilly, estavam expostos na vitrine os 18 volumes das suas obras completas em inglês, com uma inscrição em letras enormes: "The Euro-Nietzschean-War: leiam o diabo para poder combatê-lo melhor!".

Depois, veio o nacional-socialismo, e algumas de suas doutrinas – o super-homem no sentido da seleção biológica, a vontade de poder, a antropologia do animal predador [1] e da "besta loira" [2] – foram consideradas, da mesma forma, como uma fonte de inspiração da ideologia racista e do totalitarismo.

Mais tarde, dado que ele diagnosticou algumas experiências negativas do século XIX como a "morte de Deus", a decadência dos valores tradicionais e o advento do niilismo, produziu-se uma singular transferência: trocou-se o seu pensamento pela causa da crise que ele, na realidade, queria só analisar e superar. Nietzsche se tornou, então, o destruidor da razão, o mestre do irracional, o teorizador do niilismo e do relativismo.

Todos esses estereótipos condicionaram fortemente a sua imagem e o seu destino. E por isso ele suscitou entusiasmos e atraiu anátemas, inspirou movimentos de vanguarda, modas culturais e estilos de pensamento, mas também provocou reações e rejeições também determinadas. Obviamente, também do lado católico.

Mesmo que notáveis intérpretes – padre Paul Valadier, por exemplo, ou o teólogo Eugen Biser – tenham procurado mostrar o contrário, não há dúvida de que, entre algumas doutrinas nietzscheanas e ensinamentos fundamentais do cristianismo, haja uma profunda incompatibilidade. Não admira, por isso, que o Papa considere Nietzsche um mau mestre e que remeta à sua filosofia alguns dos males do mundo contemporâneo. Nos últimos anos, ele não se cansou de denunciar o perigo do relativismo e do niilismo, fomentado por Nietzsche. Agora, ao criticar o ideal de humanidade predominante no mundo atual, baseado no valor da autoafirmação individual, egoísta e libertária, recorda a responsabilidade de Nietzsche: "Ele desdenhou a humildade e a obediência como sendo virtudes servis, pelas quais os homens teriam sido reprimidos. No seu lugar, colocou a ufania e a liberdade absoluta do homem".

Ora, além do fato de que a obra de Nietzsche é um autêntico quebra-cabeças, repleto de fragmentos e aforismos cuja combinação em uma doutrina de conjunto é tudo menos comprovada, seria um erro não aprofundar os motivos que surgem dessas críticas com alguma pergunta. E é melhor tomar Nietzsche não pelas respostas que ele dá, mas pelas perguntas que coloca.

Primeiro: depois que a história nos ensinou que, muitas vezes, a possessão de Verdade produz fanatismo, e que um indivíduo armado de verdade é um potencial terrorista, surge a questão: o relativismo e o niilismo são verdadeiramente o mal radical que nos é apresentado? Ou talvez eles não produzem também a consciência e da relatividade de todo ponto de vista, portanto também de toda religião? E então não veiculam, talvez, o respeito do ponto de vista do outro e, por isso, o valor fundamental da tolerância? Há coisas bonitas também no relativismo e no niilismo: inibem o fanatismo.

Quanto à concepção aristocrática e libertária do homem, também aqui seria um erro limitar-se à superfície dos aforismos singulares de Nietzsche. Seria como, em um quadro impressionista, ver só os toques cromáticos e não o conjunto da obra. Bem, como trágico observador do vazio espiritual em que o mundo moderno desemboca, Nietzsche não quer ser um "pregador de morte".

Ele não pretende se debruçar sobre a negação dos valores e o "cupio dissolvi" [desejo dissolver-me, morrer]. Pelo contrário, quer superar o niilismo: quer, sim, fazer com que ele se cumpra de modo a "tê-lo atrás de si, debaixo de si, fora de si". É esse fim que um contra-movimento do qual nascem novos valores deseja, e ele o localiza na criatividade dionisíaca da arte.

A sua crítica da mentalidade e da moral "do rebanho", a sua defesa do que podemos definir como um "direito à excelência", é uma tentativa de superar a esterilidade da simples proibição, da abnegação e da renúncia, que mortificam a vida. Nietzsche quer que a vida se realize em todas as suas potencialidades. Porém, aconselha uma atitude "criativa" que dê à vida toda a sua plenitude, análoga à do artista que imprime em sua obra uma forma bela. Nesse sentido, a sua nova moral é uma espécie de "estética da existência", cujo imperativo recomenda: "Torna-te aquilo que és!". E mesmo que a vida não seja bela, cabe a nós procurar torná-la assim.

Um dos problemas da Igreja atual é que a produção da felicidade escapou-lhe das mãos. Mas não é culpa de Nietzsche se a força dos Evangelhos se esvaece e a condição do homem ocidental é sempre mais paganizada.

Notas:

1. Na genealogia dos sentimentos morais de Nietzsche está a vontade de poder, pois este homem que se diz humano, para Nietzsche, é um tipo de animal predador que se utiliza de uma linguagem racional para justificar e mascarar sua ânsia de domínio. Nietzsche desconfia das boas ações, pois no fundo delas há apenas uma espécie de vontade de poder.

2. A "besta loira", para Nietzsche, significava o homem que nada temia e para o qual tudo era válido e permitido desde que dai resultasse algo de útil. Devia, por conseguinte, eliminar todos aqueles que parecessem fracos ou doentes.

> Vaticano critica campanha que põe em dúvida a existência de Deus. (março de 2009)

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