domingo, 26 de abril de 2009

Darwin: um pacato com uma colossal inteligência

por Rosa Montero, para o El País

Darwin Espero que o aluvião de textos que o centenário de nascimento de Darwin propiciou não canse os leitores até fazer com que pensem que esse homem era um chato. Mesmo que, em nível pessoal, pode ser que ele fosse um pouco cansativo. Um tipo meticuloso, lento, ensimesmado; um homem muito desejoso de agradar a todo o mundo e para quem a respeitabilidade social era um valor essencial.

Mas, dentro dessa carcaça de pacata e conservadora probidade, como uma pérola dentro de sua ostra, havia uma inteligência colossal, que jamais se rendia, uma curiosidade libérrima, una honestidade pura como poucas, porque, no final, a pérola acabou destruindo tudo o que a ostra era, e a ostra, mesmo sabendo disso, aceitou a imolação.

Pode-se intuir algo dessa dualidade na sua "Autobiografia" (Editora Contraponto, 2000), um livrinho de uma centena de páginas que o sábio escreveu em sua velhice e que, depois, ao ser publicado postumamente, sofreu uma poda radical por parte de sua família. A editora Laetoli acaba de publicar o texto integral [na Argentina], e as partes censuradas aparecem em negrito, para deleite do leitor. Quase todos os cortes se referem às ideias religiosas de Darwin: são parágrafos muito comedidos sobre a impossibilidade de demonstrar racionalmente a existência de Deus.

Com modesta e impecável sensatez, Darwin explica como foram surgindo suas próprias dúvidas até chegar à perda da fé. "Fui-me dando conta pouco a pouco de que o Antigo Testamento, devido à sua versão manifestamente falsa da história do mundo (...) e ao fato de atribuir a Deus os sentimentos de um tirano vingativo, não era de maior confiança do que os livros sagrados dos hindus, ou as crenças de qualquer bárbaro", diz, por exemplo. E conclui: "A incredulidade foi se introduzindo subrrepticiamente em mim em um ritmo muito lento, mas no final acabou sendo total". Esse tipo de reflexões foi o que a família escamoteou. Um esforço inútil, porque, então, Darwin já havia se convertido em uma peça fundamental do deicídio que o Ocidente realizou no século XIX.

E parece que ser um dos autores da morte de Deus não o comprazia nem um pouco, muito pelo contrário, é algo que ocorreu muito ao seu pesar. Quando jovem, foi um mau estudante e esteve a ponto de se tornar sacerdote, não já por vocação, mas porque não parecia servir para grandes coisas. Desde então, era crente e, além disso, era um rapaz de coração compassivo. Sempre esteve ardentemente contra a escravidão, amava os animais e abandonou a carreira de Medicina quando viu operaram um menino sem anestesia. Grandão, feio e alegre, o Darwin jovem só gostava da geologia, da botânica e, sobretudo, dos bichos, de preferência os viscosos e rasteiros: lesmas, vermes, larvas. Por isso, quando, aos 22 anos, em 1831, ofereceram-lhe a possibilidade de embarcar como naturalista no Beagle, um barquinho da Marinha britânica que ia dar a volta ao mundo fazendo medições geográficas, aceitou encantado.

Naquele momento, as pessoas, incluindo Darwin, acreditavam no Gênesis de pés juntos: em Adão e Eva, nas maçãs e nas serpentes, em um mundo criado em apenas seis dias. Todos esperavam que, ao longo da viagem, Darwin encontrasse provas geológicas das verdades bíblicas, mas aconteceu que o consciencioso jovem descobriu justamente o contrário: as terras não só não haviam sido inundadas pelo Dilúvio, mas que também a América do Sul havia se elevado sobre o nível do mar; os animais não haviam sido todos criados desde o começo, mas houve uma fauna ancestral de dinossauros... E assim sucessivamente. Em 1836, depois de cinco anos de viagens no Beagle, Darwin regressou sem notícias de Deus.

Já devia saber disso ao voltar. Já devia ter a ideia na cabeça. Mas demorou 20 anos em digerir isso. Vinte anos em se atrever a tornar pública uma ideia aterradora: que o mundo era absurdo e insensato. Durante esse tempo, dedicou-se a desenvolver a sua teoria. Secretamente e com cadernos clandestinos. Em 1847, escreveu em uma carta: "Estou quase convencido de que as espécies não são (é como confessar um assassinato) imutáveis". Tinha razão: estava assassinando tudo aquilo em que havia acreditado. De fato, custava muito a esse homem doce e algo pusilânime soltar a sua terrível verdade, tanto que só se dedicou a fazer isso em 1859, quando ficou sabendo que um jovem cientista chamado Wallace ia publicar algo muito parecido. E, como ele temia, organizou-se um escândalo.

A "Autobiografia" fala um pouco de tudo isso. É um livrinho amável e modesto, um relato de avô. Darwin tinha 67 anos quando o escreveu. Hoje, com essa idade, Mick Jagger lota estádios, mas ele estava doente e se sentia velho. Esse texto encantador tem um toque levemente absurdo, como quando se orgulha de sua sossegada paixão pelos cirripédios, aos quais dedicou dez anos de estudo. Os cirripédios são os perceves [mariscos como as cracas]. Se vocês podem imaginar um homem que ama os perceves, acredito que podem ter uma ideia de como era Darwin. O último capítulo leva o comovedor e um pouco hilário título de "Valorização de minhas capacidades mentais". E é isso que ele faz, valorizar sua mente como quem disseca um escaravelho. É um livro surpreendentemente pequeno para um homem tão grande.

Se a "Autobiografia" é uma obra da velhice, o maravilhoso "Viagem de um naturalista ao redor do mundo" (L&PM Editores, dois volumes, 2008) é um texto da juventude. Não o percam: transpira vitalidade e é, em grande parte, um livro formidável de aventuras, com terremotos, bandoleiros e canibais. Mas é também uma obra aterradora, cheia de dor e encharcada de sangue, na qual Darwin, espantado, fala dos escravos torturados no Brasil ou do atroz genocídio dos índios pelas mãos do general argentino Rosas. Esses massacres bárbaros de adultos e de crianças que ele contemplou também devem ter retumbado em sua mente e em seu bondoso coração. Também devem ter influenciado em sua perda da fé. Quando o horror triunfa, é difícil acreditar que Deus existe.

> 150 anos depois, a teoria da evolução está mais forte do que nunca. (junho de 2008)

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