150 anos depois, a teoria da evolução está mais forte do que nunca (Folha)

Por CLAUDIO ANGELO - Quase ninguém notou na hora, mas o mundo mudou no dia 1º de julho de 1858. Há 150 anos, um grupo de naturalistas reunidos na Sociedade Lineana de Londres ouviu a leitura conjunta de três textos. Seus autores eram o galês Alfred Russel Wallace e o inglês Charles Robert Darwin (foto). Os documentos delineavam uma "teoria muito engenhosa" para explicar "o aparecimento e a perpetuação de variedades e formas específicas no nosso planeta". Nascia a teoria da evolução pela seleção natural. Depois dela, o pensamento ocidental e a biologia nunca mais foram os mesmos.

charles_darwin Os membros do clubinho dos naturalistas não se deram conta do tamanho da revolução que testemunhavam. Estavam assoberbados com cinco outros trabalhos lidos na mesma ocasião, entre eles uma carta "sobre a vegetação em Angola" e a descrição de um novo gênero da família das abobrinhas.

Questionado sobre o que havia sido publicado naquele ano, Thomas Bell, presidente da Sociedade Lineana, respondeu: "Nada de revolucionário".
Bell se arrependeria de seu julgamento no ano seguinte, quando Darwin detalhou a teoria evolutiva no livro "A Origem das Espécies". Na Inglaterra vitoriana, dominada pelo pensamento cristão, a obra caiu como uma bomba.

Nela Darwin sugeria que todos os organismos da Terra, da mais humilde ameba até os seres humanos, descendiam de um único antepassado. Homem e macaco, na imagem mais ilustre, partilhavam um ancestral comum (mais tarde, o bispo de Oxford perguntaria a Thomas Huxley, amigo de Darwin, se ele descendia de um macaco por parte de avô ou de avó).

Mais importante, no entanto, foi a maneira como Darwin e Wallace solucionaram o "problema das espécies". A teoria postulava que a variedade entre os indivíduos numa população surge ao acaso. Indivíduos possuidores de características que os favoreçam na "luta pela sobrevivência" na natureza tenderão a deixar mais descendentes, modificando uma população. O acúmulo dessas modificações ao longo das eras acaba produzindo novas espécies. Não há, portanto, a necessidade de invocar a atuação divina na criação de todas as espécies. A teoria eliminou o sobrenatural da biologia, criando um cisma que se aprofundaria nas décadas posteriores.

No ano que vem, o mundo comemora o "Ano de Darwin", com os 150 anos da "Origem" e o bicentenário do nascimento do naturalista (1809-1888). Mas a revolução darwinista teve seu início de forma acanhada, no "não-evento" científico de julho de 1858 -no qual o próprio Darwin foi um mero coadjuvante. Nas próximas páginas, você verá como uma idéia tão poderosa surgiu de um começo tão simples.

Teoria está mais jovem do que nunca

MARCELO NÓBREGA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Diz-se que, ao ouvir sobre a teoria de Darwin, uma senhora da sociedade vitoriana resumiu assim seu desconforto: "Vamos torcer para que o Sr. Darwin esteja errado. Mas, se estiver certo, vamos torcer para que essas idéias não se espalhem muito".

Darwin, mais do que ninguém, entendia as implicações desalentadoras de sua teoria para a noção de que os humanos ocupam uma posição especial na natureza. "É como confessar um crime" dizia.

Foram necessários 70 anos para provar que Darwin estivera certo desde o início.Vários remendos foram necessários à teoria evolutiva original. O mais importante deles foi o reconhecimento de outras forças evolutivas além da seleção natural. No que é conhecido como "deriva genética", é amplamente aceito que várias características genéticas podem se disseminar em uma população puramente ao acaso, sem que a seleção natural precise ficar "escrutinando dia e noite cada variação", como escreveu Darwin na "Origem das Espécies".

Curiosamente, há um recente clamor, especialmente nas ciências sociais, de que uma mudança radical nas nossas idéias sobre hereditariedade e evolução se faz mister, frente a supostas descobertas bombásticas na biologia molecular que traem os preceitos "genocêntricos" do darwinismo.

Entre estas, a descrição de que certos traços podem ser herdados de uma geração para outra sem correspondente variação no DNA -fenômeno chamado de "epigenética"-, ou que modificações ou surgimento de certos traços às vezes precedem variação genética nessas populações, violando o preceito de que evolução se dá exclusivamente em variações genéticas preexistentes, randômicas. Acredita-se, por exemplo, que variações genéticas que tornaram humanos adultos tolerantes à lactose podem ter aparecido somente depois de estes terem instituído o consumo de leite, há cerca de 10 mil anos.

Se esses são os melhores argumentos justificando tal revolução conceitual, a cruzada é quixotesca, e o exército, maltrapilho. Esses novos mecanismos e conceitos vêm simplesmente agregar-se a um sem número de outras descobertas, que se tornaram possíveis nas últimas quatro décadas com o advento da biologia molecular.

O verdadeiro testemunho da herança de Charles Darwin pode ser aferido ao andar-se pelos corredores de qualquer departamento de biologia moderno.
Rapidamente se verá que o anseio da senhora inglesa de abafar as idéias sobre evolução não se concretizou. Os preceitos centrais de teoria evolutiva tornaram-se o eixo de virtualmente toda a pesquisa biomédica.

Graças às teorias de genética e evolução de populações, uma nova forma de medicina, chamada farmacogenética ou "medicina individualizada", tem rapidamente se desenvolvido nos últimos anos. Hoje já é possível analisar diferenças genéticas entre pessoas e usar essa informação para escolher que remédios serão mais eficazes e terão menos efeitos colaterais para cada paciente em uma série de doenças.

Evolução e seleção natural são o motivo pelo qual ainda não existe uma cura para a Aids e pelo qual estamos perdendo a guerra contra bactérias resistentes a antibióticos. Mas são também os conceitos que têm nos permitido procurar novas formas de combater essas doenças -por exemplo, tentando entender o que na genética faz com que algumas pessoas que são verdadeiras cartilhas ambulantes de fatores de risco nunca adoecem. Desvendados esses mecanismos, novas estratégias terapêuticas poderão ser desenvolvidas.
A procura das causas genéticas de doenças é hoje pesquisada usando os genomas de múltiplas espécies e procurando trechos de DNA que foram mantidos intactos durante longos períodos evolutivos.

O entendimento de como as proteínas -os produtos dos genes- interagem em redes complexas para desenvolver uma função biológica é também amplamente sustentado pela teoria evolutiva. São novos rearranjos e interações entre proteínas que promovem o aparecimento de "novidades" evolutivas em espécies. Assim, uma esponja-do-mar já tem a maioria dos genes que são responsáveis pela organização do plano corporal humano. Os genes que são usados para formar dentes em peixes foram recrutados para funções diferentes quando nossos ancestrais saíram da água. Esses mesmos genes hoje coordenam a formação de estruturas aparentemente distintas como pele, glândulas mamárias e penas em aves.

Tentar descrever qualquer fenômeno biológico fora da esfera conceitual de evolução de Darwin equivale a conceber personagens sem um enredo que os contextualize e una.

 

Por que Darwin rejeitou o design inteligente

FRANK J. SULLOWAY (*)
U m dos sinais de uma teoria científica verdadeiramente revolucionária é o fato de demorar muito para ser aceita pela maioria das pessoas. Foi apenas recentemente que o Vaticano admitiu ter errado na infame condenação a Galileu, em 1633, por sua defesa da teoria de que a Terra gira em torno do Sol. Do mesmo modo, hoje, 150 anos após primeiro serem publicadas, as teorias de Charles Darwin continuam a suscitar hostilidade em muitos países, devido à rejeição por Darwin da idéia de que a vida manifesta um propósito inteligente.

É irônico o fato de que o próprio Darwin, em certa época, esteve fascinado pela teoria de que todas as espécies surgem em função de um design inteligente -a mesma teoria que, mais tarde, ele procurou eliminar da ciência em seu livro "A Origem das Espécies" (1859).


Popularizada no século 17, essa doutrina buscava unir uma celebração da obra de Deus com o estudo da ciência. Esses argumentos alcançaram seu ápice nos escritos do reverendo William Paley, que expôs suas idéias em "Teologia Natural" (1802). As muitas provas que ele apresentou em favor do design inteligente fascinaram e convenceram o jovem Darwin.

O que desencadeou a dramática mudança de opinião de Darwin em relação à origem das espécies foi a viagem de cinco anos que ele fez em volta ao mundo no navio "HMS Beagle", e, especialmente, sua visita de cinco semanas às ilhas Galápagos em setembro e outubro de 1835. Reza a lenda que Darwin converteu-se à teoria da evolução durante essa visita breve, vivendo algo como um momento "eureca!". A história real da conversão de Darwin, que só se deu um ano e meio mais tarde, após seu retorno à Inglaterra, nos diz muito mais sobre como a ciência é feita de fato, especialmente sobre como a teoria guia a observação e prepara a mente e como é necessária persistência obstinada para transformar teorias controversas em fatos aceitos.

Durante a permanência de Darwin nas Galápagos, a teoria criacionista o preparou para aquilo que ele observou e compreendeu nas ilhas. Essa teoria também ditou o que ele deixou de observar e compreender. Num primeiro momento, ele esforçou-se com diligência para conciliar com o paradigma criacionista as criaturas novas e estranhas que encontrou naquele arquipélago isolado. Segundo essa teoria, diferentes "centros de criação" explicavam por que a flora e a fauna da Terra diferiam de uma região a outra -ou de um continente a outro. Darwin ainda não se dera conta de que uma parcela do planeta tão minúscula quanto o arquipélago de Galápagos poderia ser, ela própria, um "centro de criação".

Certos fatos inesperados relativos a Galápagos solaparam a credibilidade de qualquer explicação criacionista daquilo que Darwin, mais tarde, descreveria como "o mistério dos mistérios -o primeiro surgimento de novos seres nesta terra". Em particular, várias espécies distintas evoluíram ao longo do tempo em cada uma das ilhas do grupo das Galápagos, de acordo com o povoamento dessas ilhas por colonos ocasionais que ali conseguiram chegar desde a América Central ou do Sul. Darwin foi alertado para essa possibilidade pelo vice-governador das ilhas, Nicholas Lawson, que insistiu que "as tartarugas das diferentes ilhas diferem entre elas, e que ele poderá perceber com certeza de que ilha qualquer uma for trazida".

Num primeiro momento, Darwin não deu atenção às observações de Lawson, ainda tendo a mente dominada pela teoria criacionista. Ela dizia que as espécies podem modificar-se, e se modificam, reagindo aos ambientes locais. Como um elástico que resiste ao ser esticado, qualquer modificação do tipo específico e supostamente imutável que fosse verificada entre as variedades era vista como desvio temporário.

Devido à sua visão criacionista, durante sua estadia nas Galápagos, Darwin não coletou um espécime sequer de tartaruga-gigante para finalidades científicas. Em vez disso, as 48 tartarugas capturadas pelo Beagle na ilha de San Cristóbal foram mais tarde comidas por Darwin e seus companheiros de navio, sendo suas carapaças atiradas ao mar.

Essa mesma mentalidade criacionista ajuda a explicar porque, num primeiro momento, Darwin deixou de compreender o mais célebre exemplo das Galápagos da evolução em ação: os famosos tentilhões de Darwin. Quatorze espécies de tentilhões se desenvolveram nas Galápagos a partir da forma ancestral encontrada nas Américas Central e do Sul. Nos últimos 2 milhões de anos, esse processo de evolução resultou numa radiação adaptativa tão impressionante em nichos ecológicos diversos que algumas dessas espécies não se parecem com tentilhões típicos. Num primeiro momento, Darwin pensou que algumas delas nem sequer fossem tentilhões.

O caso dos tentilhões-das-galápagos confundiu Darwin a tal ponto que, no momento em que capturou os pássaros, ele não se deu conta de que todas as espécies eram estreitamente aparentadas ou que o número de espécies em um grupo de aves poderia resultar do fato de elas terem evoluído em ilhas diferentes. Por isso, ele não fez qualquer esforço para classificar suas coleções ornitológicas por ilha -um erro que lamentou sinceramente mais tarde.

Darwin tampouco teve a oportunidade de observar esses tentilhões de maneira suficientemente detalhada para aperceber-se de que os tamanhos e formatos de seus bicos guardavam relação estreita com suas dietas -um "insight" importante que a lenda equivocadamente lhe atribui.

Apesar de ter estado armado de uma teoria inadequada durante sua estadia em Galápagos, Darwin era um naturalista bom demais para não observar que os quatro espécimes de "mockingbirds" que coletou, cada uma de uma ilha diferente, ou eram variedades ou espécies distintas. Não sendo ornitólogo, Darwin não sabia ao certo como interpretar essa anomalia.

Em julho de 1836, nove meses após sua visita às Galápagos, ele refletiu sobre o caso dos "mockingbirds" e recordou o que lhe tinha sido dito sobre as tartarugas:
"Quando vejo essas ilhas visíveis umas desde as outras e possuindo apenas uma quantidade escassa de animais, habitadas por essas aves mas ligeiramente distintas em sua estrutura e ocupando o mesmo lugar na natureza, devo suspeitar de que são apenas variedades ... Se existe fundamento para essas observações, então a zoologia dos arquipélagos valerá a pena ser examinada, pois tais fatos enfraqueceriam a estabilidade das espécies."

A chave para interpretar esse trecho célebre -que aventa a revolução darwinista mas em seguida afasta-se dela- está na frase "devo suspeitar de que são apenas variedades", premissa que Darwin compreendia ser plenamente coerente com a teoria criacionista.

O que o impedia de dar o passo crucial da ortodoxia científica para a heterodoxia era a ausência de informações sobre a classificação ornitológica correta, algo que só lhe estaria disponível após seu retorno à Inglaterra.
Darwin retornou à Inglaterra em 2 de outubro de 1836. Três meses depois, deixou suas coleções de aves com John Gould, ornitólogo da Sociedade Zoológica de Londres. Gould imediatamente se deu conta da natureza extraordinária dos espécimes colhidos por Darwin nas Galápagos. Em março de 1837, Gould informou Darwin de que três de seus quatro espécimes de "mockingbird" eram espécies distintas, até então desconhecidas da ciência. Gould também informou a Darwin que sua coleção incluía 13 ou possivelmente 14 espécies de tentilhões muito incomuns. De repente, após as análises taxonômicas de Gould, as Galápagos se haviam convertido num "centro de criação" distinto.

As conclusões de Gould parecem ter deixado Darwin estarrecido. Ele rapidamente se deu conta de que, se Gould estivesse certo, a barreira entre as espécies distintas tinha sido de alguma maneira rompida por esses pássaros, isolados nas diferentes ilhas. A evolução gradual graças ao isolamento geográfico era a única explicação plausível, a não ser que se pensasse que Deus, como um jardineiro obsessivo-compulsivo, tivesse ido de uma ilha a outra no arquipélago, caprichosamente criando espécies separadas mas estreitamente aliadas, com a intenção de ocupar os mesmos nichos ecológicos.

Reforçado por uma perspectiva evolutiva da natureza, Darwin foi capaz de enxergar os tentilhões sob uma ótica radicalmente nova. Apenas agora ele passou a compreender a extensão de seu descuido anterior, quando deixou de rotular por ilha a maior parte das aves que trouxera das Galápagos.

Felizmente, Darwin sabia que três outros colecionadores que tinham viajado no Beagle (o capitão FitzRoy entre eles) também tinham coletado espécimes. E todos esses espécimes tinham sido rotulados segundo a ilha de sua procedência. É sintomático que tenham sido os não-cientistas do Beagle, que não eram movidos por uma teoria, como Darwin, que registraram as evidências científicas que Darwin, partindo de uma abordagem criacionista, havia visto como sendo supérfluas.

Darwin passou a entender que o isolamento geográfico era uma parte crucial da resposta quanto a como as espécies se transformam no decorrer o tempo. Mas o isolamento, por si só, não bastava para explicar as adaptações das espécies a seus ambientes locais.

Malthus explica

Depois de estudar e rejeitar uma série de hipóteses, Darwin, em setembro de 1838, leu por acaso a edição de 1826 de "Ensaio sobre o Princípio da População", de Thomas Malthus. Este argumentava que as populações têm a tendência inata a crescer geometricamente. Na natureza, porém, a oferta de alimentos é limitada, de modo que a maioria da prole não sobrevive, sendo morta por predadores, fome e doenças.

Ao ler o livro de Malthus, Darwin se deu conta imediatamente de que, na eterna luta pela sobrevivência, variações ligeiras benéficas tenderiam a ser naturalmente selecionadas, levando à sobrevivência maior e, com isso, a um aumento nas características adaptativas, do mesmo modo em que o criador de animais domesticados obtém características desejadas selecionando as qualidades valorizadas nos animais. "Aqui, então, finalmente encontrei uma teoria com a qual trabalhar", observou Darwin em sua "Autobiografia". Ali, também, estava uma resposta digna de crédito a William Paley. Darwin percebeu que a seleção natural não era outra coisa senão o "projetista" de Paley.

Olhando através da lente poderosa da evolução pela seleção natural, Darwin então começou a reexaminar as premissas básicas do criacionismo e a comparar as previsões que se fariam com base nessas duas teorias radicalmente distintas.
Quanto mais extenso se tornava seu reestudo, mais ele foi compreendendo que o design inteligente era contradito de maneira avassaladora pelas evidências disponíveis. A reavaliação feita por Darwin atingiu seu ápice 22 anos mais tarde com "Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural", livro que o próprio Darwin descreveu, corretamente, perto de seu final, como "um só longo argumento". Era igualmente um argumento contra o criacionismo e, especialmente, contra o design inteligente.

As evidências relativas à distribuição geográfica, especialmente das ilhas oceânicas e suas relações biológicas com os continentes mais próximos, desempenham papel substancial no argumento de Darwin.

As ilhas Galápagos, por exemplo, abrigam várias espécies de animais e plantas estreitamente aparentadas com as do vizinho continente americano; no entanto, as características ambientais dessas ilhas não se assemelham em nada às das partes mais próximas do continente, que são tropicais.

Contrastando com isso, o árido ambiente vulcânico das Galápagos se assemelha estreitamente ao das ilhas de Cabo Verde, a 650 km da África. No entanto, a flora e a fauna de Cabo Verde guardam mais semelhança com espécies que vivem no continente africano, não com as das Galápagos. Por que um possível projetista inteligente, indagou Darwin, colocaria dois carimbos criativos completamente diferentes -um africano e outro americano- sobre espécies que vivem em ambientes quase idênticos e ocupam nichos ecológicos semelhantes? Não fazia sentido.

Como Darwin trabalhou durante 20 anos sobre rascunhos da obra que acabaria virando "A Origem das Espécies", ele conseguiu explicar o mundo natural de uma maneira como ninguém nunca fizera antes. Em última análise, o que sua transformação de criacionista em evolucionista revela sobre ela -e sobre a ciência, de modo mais geral- é que a melhor ciência é feita a serviço de uma teoria realmente boa.

(*) FRANK J. SULLOWAY é historiador da ciência, estudioso de Darwin e professor visitante do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia em Berkeley. Em 1968, refez a viagem do Beagle para produzir um documentário. Este texto foi primeiro publicado, em formato diferente, pela Vintage Books em "Intelligent Thought", editado por John Brockman

 

Wallace, o herói esquecido da evolução

No dia 18 de junho de 1858, Charles Darwin recebeu em sua casa uma carta vinda da ilha de Ternate, atual Indonésia.

Seu autor era um jovem naturalista galês de 35 anos, Alfred Russel Wallace. Recuperando-se de uma crise de malária, Wallace mandou a Darwin o manuscrito intitulado "Sobre a Tendência das Variedades de se Diferenciarem Indefinidamente do Tipo Original", no qual enunciava o princípio da "sobrevivência do mais apto".

A esperança de Wallace era que Darwin, famoso já naquela época, gostasse da teoria e lhe ajudasse a arrumar um emprego quando voltasse à Europa.
Darwin quase caiu para trás ao ler o manuscrito. Ali, em cerca de cinco páginas, Wallace enunciava os princípios que Darwin vinha ruminando desde 1844 em seu "grande livro sobre as espécies". Darwin, no entanto, nunca considerou o livro completo o suficiente para publicação. Além disso, reza a lenda, temia ferir os brios cristãos de sua mulher, Emma -e do resto da Inglaterra.

Desesperado diante da perspectiva de perder a prioridade sobre a teoria, Darwin escreveu a Charles Lyell, pai da geologia moderna (e correspondente de Wallace), e a seu amigo Joseph Hooker em busca de orientação. Lyell e Hooker, então, tiveram a idéia de organizar uma leitura conjunta dos dois trabalhos na Sociedade Lineana. Depois dela, Darwin correu para preparar um "resumo" de sua obra para publicação, no ano seguinte: surgia a "Origem".

Wallace (1823-1914) chegou a ser considerado o maior cientista britânico. Diferentemente de Darwin, era um polímata: seus interesses iam da história natural ao manejo florestal, passando pela política de saúde pública (foi opositor das vacinas) e pelo espiritismo -fato que o distanciou de Darwin. No entanto, esse outro pai da seleção natural acabou relativamente esquecido. Tanto que as comemorações a Wallace acontecerão em novembro deste ano, com a publicação do livro "Natural Selection and Beyond: The Intellectual Legacy of Alfred Russel Wallace", editado por Charles Smith e George Beccaloni.

"Está saindo deliberadamente neste ano e não no próximo", ri o britânico Peter Raby. Professor de literatura em Cambridge, Raby é autor da biografia do naturalista, "Alfred Russel Wallace: A Life" (2002). Em entrevista à Folha, Raby comenta o legado de Wallace e acusa a existência de uma "indústria acadêmica" de Darwin em sua universidade. (CA)

FOLHA - Por que Wallace ficou relegado a uma nota de rodapé, quando aparentemente ele intuiu a seleção natural mais rápido que Darwin?

RABY - Tem havido uma enorme indústria acadêmica em torno de Darwin emanando de Cambridge nos últimos 20 ou 25 anos. O Projeto Darwin, que publicou toda a correspondência dele, após um enorme esforço de pesquisa, é um exemplo.

A outra faceta disso é que a "Origem das Espécies" foi publicada quando Wallace ainda estava no exterior. E Wallace, embora tenha publicado diversos livros famosos, nunca teve a oportunidade de preencher o esqueleto da teoria com o mesmo tipo de exposições detalhadas que Darwin apresentou.
Quando Wallace voltou para casa, a "Origem das Espécies" havia ocupado a proeminência.

Wallace planejou, sim, um grande livro...

FOLHA - ...mas ele estava ocupado demais ganhando a vida.

RABY - Sim, e estava longe de bibliotecas, vivendo uma vida de naturalista coletor independente. Ele não teve a oportunidade de se sentar e escrever e fazer as pesquisas detalhadas que Darwin teve tempo de fazer. Mas, mesmo assim, é estranho que Wallace tenha se dissipado do imaginário popular. Se você olha para as publicações da Sociedade Lineana, é muito claro que a teoria de Wallace é a afirmação mais lapidada, enquanto os documentos de Darwin não têm a mesma completude. Muita gente, naquela época, dizia a Wallace: "Por que você fica falando na teoria de Darwin? A teoria é tão sua quanto dele!" [Charles] Lyell era uma dessas pessoas; ele dizia a Wallace: "Você é modesto demais"! Sim, ele era.

A outra razão pela qual ele acabou apartado da doutrina foram suas reservas posteriores quanto à seleção natural e a origem do homem. Darwin ficou chocado com aquilo que ele chamou de "apostasia" de Wallace. Embora Wallace tenha desposado o darwinismo muito entusiasticamente, ele mesmo fez essa grande ressalva. Acho que essa é uma razão mais compreensível para Wallace ter sido jogado de escanteio.

FOLHA - Nós temos alguma razão para imaginar que Darwin tenha se aproveitado do artigo de Wallace para escrever seu capítulo sobre seleção natural?

RABY - (Pausa) Bem, há versões diferentes dessa história.
Um livro acaba de ser publicado por Roy Davis chamado "Darwin Conspiracy" ("A Conspiração de Darwin"). Há algumas perguntas sem resposta sobre como Darwin agiu. Eu diria que foi Hooker o responsável por assegurar que Darwin tenha obtido o maior crédito possível pela publicação conjunta. O próprio Darwin ficou ligeiramente surpreso ao ver que seus documentos acabaram sendo mais do que apêndices ou notas de rodapé aos de Wallace. Quanto à sugestão de a carta de Wallace ter chegado antes do que Darwin disse que ela chegou, portanto dando a Darwin tempo de escrever e pensar a respeito, é um cenário perfeitamente plausível. Só que eu não acho que haja nenhuma evidência concreta disso.

O argumento de Roy Davis é que o sistema de correios da Holanda [a Malásia e a Indonésia eram colônias holandesas quando Wallace estava no Pacífico] eram extremamente eficientes, e se tudo corresse conforme planejado, a carta deveria ter chegado antes de 1º de junho de 1858. É uma hipótese interessante, mas, a meu ver, especulativa. A questão continua em aberto. Fato é que Wallace não recebeu todo o crédito que deveria ter recebido.

FOLHA - O sr. esteve no Brasil durante as pesquisas da biografia de Wallace?

RABY - Infelizmente não. Eu tinha pouco tempo e pouco dinheiro na época. Fui a Cingapura e a Sarawak [Malásia], porque eu queria ver pelo menos um lugar onde Wallace pesquisou. Espero poder ir ao Brasil, porque há outras pessoas nas quais eu sou extremamente interessado que viajaram pela Amazônia. Meu livro anterior, "Bright Paradise", era sobre viajantes científicos vitorianos.
Eu escrevi sobre Wallace, mas também sobre Richard Spruce e Henry Walter Bates.

FOLHA - O quão importante foi a Amazônia na formatação da mente científica de Wallace? O sr. escreveu que, quando ele chegou ao Brasil, ele era um coletor mercenário, e quando foi para as Índias, era um cientista em formação.

RABY - Aqueles quatro anos na Amazônia moldaram a mente e a vida de Wallace. Foi em parte o ambiente da Amazônia e como ele respondia a ele. Mas também todas as reflexões que aconteceram. Claro que ele não conseguiu explorar essas reflexões da maneira como ele planejava, por causa da perda de parte de seu material [num navio que pegou fogo a caminho da Inglaterra], mas não obstante isso deu a ele a amplitude de visão e o tempo de reflexão de que ele precisava para ser mais do que um colecionador. Eu sinto muito fortemente que não a teoria final, mas seu instinto sobre as espécies, que seria esclarecido no arquipélago malaio, os alicerces disso foram construídos na Amazônia.
Quando Bates escreve para ele, após ter lido o artigo de Sarawak sobre variedades de espécies-que você pode chamar de estágio 1 da seleção natural-, Bates disse mais ou menos assim: "Eu fiquei surpreso ao vê-lo se posicionando tão assertivamente sobre a teoria. Uma teoria que, como você sabe, foi minha também". O que me sugere uma ligeira censura, mas sugere também que Bates e Wallace, e talvez Spruce também, já haviam discutido essas coisas na Amazônia.

FOLHA - Mesmo após a evolução, Wallace passou o resto da vida meio deslocado depois que voltou para a Europa. É verdade que ele nunca arrumou um emprego decente?

RABY - Acho que escrever se tornou o emprego decente dele.
Ele escrevia muito fluentemente, num estilo muito claro.
Ele achava que poderia ganhar dinheiro escrevendo livros, além de artigos. Ele se candidatou a vários outros trabalhos e não conseguiu nenhum. Ele se virava para viver. Algumas vezes ele estava bem de vida, outras vezes ele parecia apertado.

Mas ele vivia muito feliz, e eu acho que essas duas grandes expedições, à Amazônia e ao arquipélago malaio, tornaram-no irrequieto psicologicamente.
Ele se candidatou ao cargo de secretário-assistente da Royal Geographical Society, e não conseguiu, embora Bates, quando voltou, tenha visto no cargo uma oportunidade de se reintegrar ao "establishment" científico. Acho que Wallace curtia não seu isolamento, mas sua independência.

FOLHA - Sr. vai fazer alguma coisa no dia 1º de julho?

RABY - Vou erguer um brinde a Wallace.

Século 19 estava prenhe da evolução biológica

NÉLIO BIZZO (*)
ESPECIAL PARA A FOLHA


Ao remeter para Darwin seu ensaio sobre as variedades de seres vivos, Alfred Russel Wallace pedia que o mostrasse a Sir Charles Lyell, o famoso geólogo, caso nele visse algum valor. O ensaio teve um impacto avassalador sobre Darwin: trazia sentenças inteiras que poderiam ser encontradas em um antigo ensaio de Darwin de 1844.


"Seleção natural" e "sobrevivência do mais apto" apareciam tão articuladas no texto de Wallace quanto estavam na mente de Darwin.

Ao impacto do ensaio de Wallace somou-se um período de muita agitação emocional e Darwin teve de mudar seus planos inteiramente. O impacto de sua teoria sobre as raças do homem, idéia que Darwin vinha desenvolvendo, teria de esperar até 1871.

Malgrado essas mudanças de rota, uma teoria da evolução estava brotando na mente de pensadores em várias partes do mundo e o rebento teórico brotaria em algum lugar. O século 19 estava prenhe da evolução biológica.
Essa prenhez estava anunciada no livro que Darwin lera a bordo do Beagle, "Princípios da Geologia".

Lyell escrevera que as teorizações inglesas tinham sido refutadas, e até mesmo ridicularizadas, pelos geólogos italianos do Século das Luzes. Eles tinham estendido as bases de Galileu para o estudo do interior da Terra e refutado a idéia de um dilúvio universal.

Lyell defendia o completo abandono da antiga idéia de que os fósseis não são marcas de seres vivos que de fato existiram no passado. Da mesma forma, dizia Lyell, não era razoável invocar os céus ou qualquer divindade para explicar fenômenos naturais à custa de milagres.

Nada além da "pura abominação" dessas visões era o que Lyell pedia a seus colegas iniciados das academias de intelectuais. Para explicar a ocorrência de fósseis marinhos nas alturas das montanhas não era necessário solicitar a intervenção de nenhuma força onipotente.

Até aquela data, muitos viam nos degraus da arena romana de Verona as marcas de Júpiter, cuja imagem os romanos tinham tomado de Amon dos egípcios. Os "cornu Ammonis" que até hoje ornam o rico mármore das calçadas de Verona, seriam simples lembranças espirituosas dos chifres de carneiro de Amon, e não marcas de amonitas (daí a origem do nome), animais reais extintos.

A geologia italiana acabara com o fundamentalismo anglicano naturalista e suas pretensões de sacralizar a ciência nascente.

A física e a mecânica dos céus tinham deixado de depender daquilo que estava nas Escrituras; a química vivia tempos revolucionários.

O estudo da vida seria o próximo campo fértil no qual germinariam as sementes da evolução orgânica, base de uma verdadeira ciência da vida, capaz de explicar as extinções, as "grandes revoluções" da crosta terrestre e o "mistério dos mistérios" -a origem das espécies.

Darwin e Wallace tinham resolvido a questão em 1858.
Darwin já o fizera em 1844 de maneira plenamente aceitável, mas insisitira em colecionar mais fatos e evidências.

Wallace confessava que, embora quisesse se dedicar ao tema de uma forma teórica, os afazeres cotidianos de coletor de espécimes lhe roubavam o tempo necessário.

Com um acesso de malária, ficou preso a uma cama, onde rememorou o que lera de Malthus e teve o "insight" criativo da seleção natural.

Em 1858, enfim, as duas perspectivas se juntaram e a teoria foi finalmente apresentada ao mundo. Passados 150 anos, sabemos que nada na biologia faz sentido sem ela. Há uma única razão para um anfioxo, uma lampréia, um sapo, uma tartaruga, um galo e um elefante terem um desenvolvimento embrionário com características comuns. Essa razão se resume à teoria da evolução, cujas bases foram assentadas pela geologia dos italianos do século 18, entendida e aplicada pelos britânicos que os sucederam, capazes de perceber a distinção básica entre ciência e religião. Ela estava no ar.

(*) NÉLIO BIZZO é professor da Faculdade de Educação da USP. Pesquisou os manuscritos e a biblioteca pessoal de Charles Darwin

Comentários

  1. Como já é de praxe, os Darwinistas não perdem uma oportunidade para fazer uma falsa ovação, proferindo falácias sem nenhuma vergonha na cara.

    Tsk,tsk,tsk...

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