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A solidão do papa Bento 16

Em editorial, o jornal El País, 29-03-2009, afirma que, entre todas as crises de Bento XVI, "há um problema maior, de abandono. Muitos religiosos não compartilham a forma de estar no mundo desses papas modernos, sempre mais pendentes do que vem de fora do que aquilo que lhes é próprio". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segue o texto:

"Hoje, na Igreja, se morde e se devora", escreveu, no dia 10 de março, um Joseph Ratzinger inocente. Era a sua histórica e despida carta aos bispos, admirável peça literária na qual o Papa fez autocrítica, explicou como foi possível o perdão aos lefebvrianos excomungados e aproveitou para revelar a sua inabilidade em navegar na Internet e a aguda divisão interna que vive o catolicismo.

Faltam poucos dias para que se completem os primeiros quatro anos do atual papado, e às duríssimas críticas suscitadas por vários erros encadeados (a reabilitação de um bispo negacionista; o caso Englaro; a excomunhão da mãe e dos médicos da menina brasileira que, depois de ser estuprada, abortou; suas declarações na África sobre o preservativo), a cúpula vaticana respondeu contra-atacando. São acusações "grotescas" que tentam ofender "e rir-se do papa", disse a pouco ingênua Conferência Episcopal Italiana, principal inspiradora da aberrante lei do testamento biológico aprovada nesta semana por Berlusconi.

Para um intelectual como Ratzinger, que centrou todo o seu empenho em tornar razão e fé compatíveis, deve ser doloroso ser colocado em evidência em seu próprio terreno pela prestigiosa revista científica britânica The Lancet, a propósito de seu desagradável comentário sobre o preservativo: a revista o acusa de ter distorcido publicamente as evidências científicas e coloca em dúvida que tenha sido por ignorância e não por uma tentativa pura de manipular a ciência por razões ideológicas.

Mas também deve ser doloroso para o Papa a inibição de cardeais, bispos, irmãs e sacerdotes que não se pronunciam sobre Ratzinger, o eloquente silêncio das melhores cabeças da Igreja, como Carlo Maria Martini, exilado em Milão e refugiado em sua doença; ou o trabalho meritório e obscuro dos missionários que combatem a propagação da Aids na África e na América Latina com a única maneira eficaz que têm em mãos, repartindo preservativos.

Esse manto de silêncio revela seguramente um mal-estar ideológico, mas não só. Há um problema maior, de abandono. Muitos religiosos não compartilham a forma de estar no mundo desses papas modernos, sempre mais pendentes do que vem de fora do que aquilo que lhes é próprio. E muitos veem Ratzinger como uma mera continuidade, menos midiática e pior assessorada, do papa Wojtyla, cuja agonia certamente contribuiu para tapar uma crise que já estava ali, e cujo carisma serviu para acabar com o comunismo, mas também para abandonar as melhores promessas do Concílio Vaticano.

A solidão de Ratzinger é, em todo o caso, um segredo que todo mundo sabe. Sua equipe é mínima, seu estilo suscita rejeição dentro e fora, e sua milenária diplomacia transmite suas decisões quase com a mesma lerdeza que a espanhola. Por alguma razão as pesquisas mostram que a deserção de fiéis cresce mais nos países mais informados, com a Alemanha e a França na frente.

> ‘A História julgará o papa Bento 16 como responsável pela propagação da Aids na África’. (março de 2009)

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