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‘História julgará papa como responsável pela propagação da Aids na África’.

do site Religión Digital em 20 de março de 2009


Hans Küng é um dos teólogos mais influentes do mundo. Tanto na sociedade civil como na Igreja, a palavra de Hans Küng nunca deixa ninguém indiferente. Talvez porque, como ele mesmo disse, seu lema seja “ser livre para buscar a verdade”.

No segundo volume de suas Memórias, Verdad Controvertida (Trotta), repassa a sua vida que se entrecruza, aproxima e distancia de outro grande protagonista da história da Igreja, o papa Ratzinger (foto). Ontem amigo, hoje adversário, de quem diverge em quase tudo e de quem diz que “fracassou”. Mais ainda, garante que “a História julgará João Paulo II e Bento XVI como dois dos maiores responsáveis pela propagação da Aids”.

Professor, qual é a sua opinião sobre a polêmica suscitada pelo papa Ratzinger ao condenar o preservativo como meio para combater a Aids na África?

A postura do papa Ratzinger é consequência da Encíclica Humanae Vitae de Paulo VI. Uma Encíclica que excluiu todos os tipos de anticoncepcionais. Esta foi também a posição do papa Wojtyla e do Papa Ratzinger durante os últimos 30 anos. Mas agora se veem as consequências deste dogmatismo e deste moralismo rigorista do Vaticano.

Dói-lhe especialmente pelas consequências que este moralismo intolerante pode ter no continente africano?

Sim. Me dá muita pena constatar que a História julgará a ambos os papas como dois dos maiores responsáveis pela propagação da Aids, especialmente em países com grandes maiorias ou minorias católicas, como é o caso da África. É sumamente hipócrita condenar os preservativos em regiões como as africanas com alto risco de Aids e, ao mesmo tempo, querer proteger os pobres das doenças mais nocivas.

Nesse mesmo âmbito da moral, a Conferência Episcopal espanhola acaba de lançar uma campanha contra o aborto que está suscitando muita polêmica. Você a viu? O que lhe parece?


Não conheço a situação a fundo, mas me parece verdadeiramente inútil que o episcopado espanhol reinicie, novamente, velhas batalhas. Porque a do aborto é uma velha batalha, perdida de antemão. Vi essa nova campanha publicitária do lince, que me parece muito demagógica e, portanto, muito falsa. Além disso, no meu entendimento, é muito prejudicial para a própria Igreja voltar à velha batalha do aborto.

Os bispos espanhóis dizem que o presidente do governo, José Luis Rodríguez Zapatero, quer impor um laicismo radical e anticatólico.

A hierarquia não tem por que abençoar todas as políticas do governo. Os bispos podem criticar, mas não insuflar as massas. Se me permitissem dar um conselho, diria que não voltem às batalhas de ontem. O que devem fazer é ver, junto com o governo, o que é melhor para a Espanha. Sobretudo, na difícil situação social, política e econômica que o país está atravessando.

Uma Igreja como simples autoridade moral.

Evidentemente, o problema para o episcopado espanhol é que passa anos defendendo as posturas intransigentes e rigoristas da direita. A Igreja espanhola precisa é situar-se numa via média razoável.

Ser partidário de uma Igreja samaritana e que dialogue...

Sim. Uma Igreja do diálogo, que aposta no diálogo e com entranhas de misericórdia. Sem converter-se num partido político. A Igreja não pode ser socialista, nem de direita, mas deve buscar a verdade.

No segundo volume de suas Memórias, seu caminho se entrecruza com o do atual papa Ratzinger, de quem chega a dizer que, como teólogo, “não deu nenhuma contribuição significativa à Teologia”.

Dizer isso não significa dizer que seja um mau teólogo. Mas, creio, que contribui pouco para a evolução da Teologia, porque faz parte daqueles teólogos que só querem conservar a tradição. Ele estudou muito bem Santo Agostinho, São Boaventura e outras teologias tradicionais e neoclássicas, mas sem propor ideias novas. Permanece no paradigma helenístico-romano-católico-medieval, com uma perspectiva muito restrita. Não tem nenhuma simpatia pelos reformadores, é muito cético em relação ao Iluminismo e à modernidade. Neste sentido, ele tem uma visão muito restrita do mundo atual. Enquanto o mundo se move do paradigma moderno a um paradigma pós-moderno ou trans-moderno, ele permanece no antigo paradigma dogmático-helenístico. Em dogmática ele é helenista, e em governo é romanista-católico, no sentido de promover uma Igreja medieval.

Um papa absolutista?

Este absolutismo papal não é do primeiro milênio. É uma consequência da reforma gregoriana do século XI. A lei do celibato é do século XI, e o clericalismo extremo também e deste século. A reforma gregoriana fez uma revolução de cima para baixo. O papa Ratzinger volta, novamente, à missa tridentina, que não é a missa da origem, mas medieval. Essa é a sua situação: ele vê todo o mundo através destas lentes.

E como é o papa Ratzinger como pessoa?

É um homem extremamente inteligente, muito humano no trato pessoal, com muitas qualidades.

A sua vida e a do papa foram e são vidas paralelas.

Nossos caminhos foram paralelos e, contudo, muito distintos. De fato, nossas respectivas reações – tão diferentes entre si – aos sinais dos tempos são, até certo ponto, exemplares no que diz respeito ao curso seguido pela Igreja e pela teologia. Está claro que as nossas vidas não estão entrelaçadas pelo destino, nem eu contemplo a minha vida no espelho de Ratzinger. Cada qual vive a sua própria vida. Mas, durante aproximadamente quatro décadas, as nossas trajetórias vitais transcorreram em grande medida em paralelo, para separar-se e voltar a se cruzar mais tarde.

Qual é a diferença fundamental entre ambos?

Na década de 1960, eu, ao contrário de Joseph Ratzinger, tomei a decisão de não me comprometer com o sistema hierárquico romano nem colocar-me a serviço de uma Igreja clerical-centrista.

Quais são os valores essenciais de Hans Küng?

Liberdade e verdade foram e seguem sendo dois valores centrais na minha existência intelectual. Nunca me considerei do número dos “beati possidentes”, daqueles que, cheios de felicidade e orgulho, acreditam estar de posse da verdade. Pelo contrário, me senti solidário com aqueles que buscam a verdade.

Dois valores que o converteram no “enfant terrible” do poder Vaticano. Como vê o atual papado?

Em crise total e sulcado por uma série de erros sumamente graves e que mudaram a posição do papa na Igreja e no mundo. De tal forma que, pela primeira vez na História, o papa teve que se defender escrevendo uma carta aos bispos, na qual reconhece que é um papa falível.

Erros de comunicação, como dizem alguns, ou de governo?

Evidentemente, trata-se de erros de governo. E erros graves, que vão desde ofender os muçulmanos em Regensburg, os protestantes, os indígenas, e agora os judeus, com o caso dos bispos lefebvrianos.

O caso dos lefebvrianos é especial?

Sim, porque ilustra perfeitamente o temor e a constatação de muitos fieis de que Bento XVI quer relativizar o Concílio Vaticano II. E a verdade é que iniciou uma clara política de restauração.

Você acredita que está regredindo?

É evidente em muitas coisas. Por exemplo, na restauração da liturgia medieval, que não é a liturgia autêntica. No início, a liturgia romana era a grega. Mas a que ele reintroduziu é a missa tridentina. Um sinal claro de involução.

A situação do papa não lhe dá pena?

Me dá muita pena, porque o conheço intimamente. Não faz muito tempo, estive com ele em Castelgandolfo, em conversa amistosa. Sempre pensei que seria um papa conservador, mas também que faria algumas reformas. Mas não fez nenhuma reforma, e, ao contrário, cometeu muitos erros. Estou convencido de que um papa poderia ser o inspirador de toda a Cristandade. Mas isso é algo que esqueceu. Tudo é verdadeiramente muito triste. E, para ele, muito duro pessoalmente.

E para os fieis também não é duro?

Sim, mas ele, em sua carta, mostra somente uma dor pessoal, não vê a dor das pessoas. As dores de mais de 100.000 sacerdotes casados, que são excluídos do ministério. Não vê as dores dos divorciados. Não vê as dores das mulheres que têm que usar anticoncepcionais. Não vê a dor dos teólogos da Libertação, que ele, como cardeal, marginalizou e tratou de maneira não muito cristã. Ele vê somente sua própria dor, seu próprio universo. Ele vê tudo desde o Palácio Pontifício, e praticamente não vê o mundo como é na realidade.

Como pode a Igreja recuperar o espírito de João XXIII e a primavera conciliar? Com um novo Concílio, talvez?

Isso é muito difícil. Porque o sistema das nomeações episcopais é um problema crucial. Não resta nele nenhum elemento democrático das origens da Igreja, quando vigorava o princípio “nenhum bispo imposto”. Agora, todo o episcopado é imposto e conformista. Porque os critérios para a escolha episcopal são: aceitar a Humanae Vitae e a lei do celibato e ser contrário à ordenação de mulheres. Tudo isso produz um Episcopado muito conformista. E o Colégio Cardinalício também é formado apenas por pessoas que fazem parte da política romana.

Mesmo sendo difícil, há alguma possibilidade de renovação eclesial?

Há duas possibilidades. Uma, que as comunidades e paróquias toquem fundo e fiquem sem clero e sem eucaristia. Nessa situação catastrófica, é possível que surja um “João XXIII”. A outra possibilidade é que a atual situação provoque mais e mais reações e protestos. Que as pessoas se manifestem por um Concílio Vaticano III, pelo aggiornamento e pelo diálogo. Em qualquer caso, não será nada fácil.

Teólogos como você têm poder?

Claro que têm. O teólogo tem poder e pode abusar dele.

Que tipo de bispo necessitamos hoje?

Um episcopado que não dissimule os notórios problemas da Igreja, mas que os chame abertamente pelo seu nome e os aborde energicamente.

E que Igreja?

A Igreja do presente e do futuro necessita aggiornamento e não tradicionalismo da fé e da doutrina moral; colegialidade do Papa com os bispos e não um centralismo romano autoritário; abertura ao mundo moderno e não de novo uma campanha antimodernista; diálogo também no interior da Igreja católica e não de novo a Inquisição e a negação da liberdade de consciência e de ensino; ecumenismo e não de novo a proclamação arrogante de uma única Igreja verdadeira. Porque não existe apenas a ditadura do absolutismo, que muitos vêem corporificada no culto pessoal ao papado. Nenhuma destas ditaduras corresponde à verdade cristã.

> 'A Igreja corre o risco de converter-se numa seita', afirma teólogo.
fevereiro de 2009

> Papa admite pela primeira uso de camisinha 'em certos casos'.
novembro de 2010

Comentários

  1. Já que a postagem está falando tanto sobre o não uso da "camisinha" como causadora da AIDS, lembro aqui um vilão ainda maior do que a camisinha: o uso de seringas descartáveis (e que são reutilizadas por pessoas inescrupulosas revendendo-as, depois de reembalá-las). Por que não usar SERINGAS NÃO REUTILIZADAS, já disponível nos paises poderosos?

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