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‘O Ocidente não deve impor a sua visão de mundo a outras culturas’

Do IHU Online

Philippe Descola tem esse ar inconfundível dos exploradores de boa vontade que se dão ao trabalho de pesquisar as sociedades primitivas com a intenção de aprender de outras culturas e sem vaidades de superioridade.

Nascido em Paris em 1949, discípulo do célebre Claude Lévi-Strauss e um dos melhores antropólogos culturais do mundo, procede de uma família de hispânicos em que seu avô lhe ensinou algo tão fundamental para a vida como os nomes das flores e das estrelas. Fruto de seu conhecimento do espanhol e de seu gosto pela natureza, o jovem antropólogo Descola se embrenhou com apenas 25 anos na Amazônia equatoriana para estudar uma sociedade de jivaros que apenas havia sido contatada.

A reportagem é de Miguel Ángel Villena e publicada no jornal espanhol El País, 29-01-2009. A tradução é do Cepat.

“Ali me encontrei com uma sociedade muito primitiva”, lembra Descola no Instituto Francês de Madri, onde, nesta semana, deu uma conferência. “Apenas um rapaz falava algumas poucas palavras em espanhol”, prossegue, “no final de alguns meses aprendi algo do idioma nativo e comecei a compreender que na sua forma de ver as coisas não existe a separação entre cultura e natureza.

De fato, eles não distinguem entre humanos e não humanos, porque os animais e as plantas também dispõem do que poderíamos entender como alma. Por exemplo, muitos povos amazônicos não tratam as plantas em termos utilitaristas de cultivo ou de produção, mas que as mulheres mantêm uma relação materno-filial com as árvores ou as flores. Entretanto, os homens se relacionam com os animais como se fizessem parte da família”.

Na opinião do antropólogo, todas as cosmologias – desde aquelas entesouradas por tribos em selvas isoladas até aquelas observadas em sociedades da China ou da Índia na atualidade – integram cultura e natureza. Todas, salvo o Ocidente. Descola, um autêntico especialista nesta matéria, sobre a qual publicou vários livros, argumenta que a revolução científica do século XVII na Europa significou o surgimento de descobertas, como o microscópio ou o telescópio, que permitiram converter a natureza em algo autônomo e observável. “A partir de então”, aponta com seu tom didático, “nossa cosmologia serviu como modelo para entender as cosmologias de outros povos. Pois bem, nossa cosmologia não pode ser uma pauta e o Ocidente não deve impor sua visão de mundo a outras culturas”.

Sem nenhum alarde de catastrofismo, mas com a firmeza de um cientista, Descolavaticina que o planeta caminha para o desastre caso não se respeitar a natureza. “É preciso parar essa corrida louca de ataques ao meio ambiente”, sentencia o autor do livro Para além de natureza e cultura (Gallimard, 2005), que será publicado em breve na Espanha.

Na sua opinião, a consciência ecológica que se desenvolveu nas últimas décadas contribuiu, sem dúvida, para aumentar a preocupação sobre problemas como a biodiversidade ou o aquecimento global. “Não obstante”, matiza o antropólogo francês, “nossa forma ocidental de conceber a natureza como algo da sociedade e da cultura segue marcando os esquemas mentais da maioria das pessoas”.

Para Philippe Descola, “é preciso defender a diversidade biológica e a diversidade cultural porque, em última instância, são a mesma coisa”. “Para viver num mundo em que valha a pena viver”, assinala, “devemos surpreender-nos com uma enorme diversidade de respostas para diferentes desafios. Essa aspiração a se deixar surpreender é aquilo que dá sabor à vida e que age como um antídoto contra a uniformidade e a rotina”.

Quando se pergunta pelo que aprendeu dos índios amazônicos, Descola não vacila: “Que cada dia amanhece para eles com uma total virgindade”.

Fotos de índios no Acre chamam a atenção para tribos na Amazônia e têm repercussão internacional. (maio de 2008)

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