O universo interior de Jung, esmiuçado

por Edward Rothstein, para o NYT

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Carl Gustav Jung (foto) tentou traçar sua jornada interior em um texto elaboradamente ilustrado, cheio de suas fantasias e imagens surreais. Conhecido como "O Livro Vermelho", até recentemente ele quase não tinha sido visto por ninguém, além dos descendentes de Jung.

O título não exige uma explicação simbólica elaborada. O livro realmente é vermelho e pode ser visto até meados de fevereiro em uma exposição montada em sua homenagem no Museu de Arte Rubin, em Nova York: "O Livro Vermelho de C. G. Jung: a Criação de uma Nova Cosmologia".

Jung, que na época em que começou a trabalhar nesse livro já tinha rompido com Freud e estava desenvolvendo sua concepção permeada de mitos da psique humana, certificou-se de que a importância do livro não passaria despercebida por seus futuros acólitos.

Encadernado em couro púrpura, é um volume enorme, com mais de 600 páginas, ostentando o título formal de Liber Novus ("Livro Novo"). Jung lhe deu todos os adereços da autoridade antiga e da consequência estentórea, apresentando-o como um Novo Testamento Mais Novo.

Os relatos de visões, fantasias e sonhos de Jung também são pontuados por suas pinturas (algumas das quais são mostradas na exposição), imagens executadas durante os anos da Primeira Guerra Mundial e na década posterior, que hoje parecem previsões sobrenaturais da arte folk da Nova Era do fim do século 20.

Elas exibem desenhos florais abstratos e simétricos que Jung passou a identificar como mandalas, juntamente com interpretações quase infantis de chamas, árvores, dragões e serpentes, tudo em cores muito vivas.
Mas o que é especialmente estranho nesse livro não é sua pretensão ou pompa, mas seu poder talismânico. Ele ficou guardado em um armário durante décadas com a família e, depois, foi zelosamente afastado do olhar acadêmico por causa de sua natureza supostamente reveladora. Desde que foi revelado, em parte graças aos esforços do historiador e estudioso de Jung Sonu Shamdasani (que também é curador da exposição), tornou-se uma sensação.

Um fac-símile meticulosamente reproduzido, publicado em outubro pela W. W. Norton & Company, com notas de rodapé detalhadas e comentários de Shamdasani, "The Red Book" (US$ 195) está em sua quinta edição.

O livro realmente é um objeto notável, e não apenas porque insiste de modo excêntrico em sua própria importância. Representa o pensamento de Jung durante um período em que ele estava desenvolvendo sua ideia de "arquétipo" e "inconsciente coletivo", um suposto substrato da mente humana que molda a linguagem, a imagem e o mito em todas as culturas.

E, enquanto ele desenvolvia suas ideias sobre psicoterapia como forma de autoconhecimento, parecia estar se envolvendo exatamente nessa autoanálise: o livro oferece uma trilha surpreendente, aparentemente sem censura, da vida interior de Jung. Shamdasani escreve: "É nada menos que o livro central de sua obra".

Isso é algo que os estudiosos da vida e obra de Jung poderão avaliar enquanto tentam colocar esses contos gnômicos em um contexto intelectual e biográfico. Como o próprio Jung advertiu em um epílogo de 1959 para seu livro inacabado, "Para o observador superficial, vai parecer loucura". Talvez até para o observador não superficial.

Quase toda visitação tem um pouco dessa mistura de colorido exótico-mítico-primitivo. Uma pintura exposta mostra um dragão centopédico com as mandíbulas abertas para engolir uma bola amarela.

A explicação de Jung: "O dragão quer comer o sol, e o jovem lhe pede que não o faça. Mas ele o come de qualquer modo". Uma inscrição dá mais detalhes, citando figuras da história sem explicá-las: "Atmavictu", "um jovem seguidor", "Telesphorus", "espírito maligno em alguns homens".

Shamdasani afirma que "o tema geral do livro é como Jung recupera sua alma e supera o mal-estar contemporâneo da alienação espiritual".

E assim começou a empreitada de autoanálise de Jung, uma revirada impiedosa da mente racional ocidental, submergindo em uma peregrinação pelas terras pagãs de sua própria psique.

Ainda somos atraídos por esse arquétipo, mesmo que não pareça trazer o esclarecimento que Jung alegava. Ver esse livro e a exposição, porém, é ter um vislumbre de uma relíquia extraordinária de um certo modo de pensar sobre a mente e sua história.

Incluída na exibição está uma mandala tibetana do século 13 que Jung possuía; no andar superior há uma mostra surpreendente desses antigos desenhos tibetanos, cada qual encerrando um universo enciclopédico que envolve desejo, venalidade, sabedoria, êxtase e paixão.

> O cérebro humano é uma gambiarra evolutiva que frequentemente dá pau, diz psicólogo.

Comentários

  1. O cérebro humano é uma gambiarra evolutiva que frequentemente dá pau, diz psicólogo.
    Pois é, inclusive a do Jung que foi bem sacana com Sabina Spielrein.

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