Governo controla 81% das cidades líderes no desmate (Folha, edição de 29 de janeiro de 2008)

Prefeitos de partidos aliados de Lula são 29, oposição tem 5 e 2 são dos 'nanicos'. PR, sigla de Maggi, controla um quarto das prefeituras; deputado líder da legenda diz que problema está fora da alçada do poder local

FÁBIO ZANINI
MARIA CLARA CABRAL
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O PR, partido cujo presidente de honra é o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, controla um quarto das 36 cidades apontadas na semana passada pelo Ministério do Meio Ambiente como as campeãs do desmatamento amazônico.

O PT, partido da ministra Marina Silva, vem em segundo lugar, ao lado do PMDB, com cinco cidades, cada, na "lista suja" do governo.

O mapa dos municípios que mais desmatam mostra uma folgada maioria de prefeituras controladas por partidos da base do governo. São 29, enquanto três partidos de oposição (PSDB, DEM e PPS) têm juntas cinco prefeituras. As outras duas são de legendas "nanicas" sem representação no Congresso Nacional, o PRP e o PSL.

Empresário que é apontado como "rei da soja", Maggi migrou no início do ano passado do PPS para o PR, com o objetivo de receber melhor tratamento do governo. Junto, levou cerca de 30 prefeitos, que seguem cegamente sua orientação política. Dos nove prefeitos do partido na lista dos desmatadores, oito são mato-grossenses e um é do Pará.

"Isso [desmatamento] não faz parte da orientação do PR. Inclusive temos um item no nosso programa que apóia integralmente a preservação ambiental", disse Luciano Castro (RR), líder do partido na Câmara dos Deputados.

Castro diz que o poder que os municípios têm para interferir no desmatamento é limitado, em comparação com os governos estaduais e federal. "A vinculação com as prefeituras me parece fora de foco. Acredito que a maior área desmatada seja privada, que está sobre o controle do Ibama e por isso os prefeitos não têm controle", afirma o representante do PR.

Mas, como lembra o secretário nacional de meio ambiente do PT, deputado Fernando Ferro (PE), os prefeitos podem agir como "agentes de identificação do problema".

"Nós precisamos começar um processo de sensibilização com os prefeitos sobre a gravidade da situação. Em primeiro lugar, obviamente, procurando os prefeitos do nosso próprio partido", afirma Ferro. Mas ele nega que haja um desconforto político especial para o partido. "O desconforto é para o país como um todo".

Alguns dos prefeitos fazem coro com o Ministério da Agricultura e negam que a expansão desmedida da pecuária seja a causadora do aumento da área desmatada na Amazônia.

O prefeito de Santana do Araguaia (PA), Antônio Carveli Filho (PPS), por exemplo, aponta o dedo para os cerca de 5.000 assentados do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) no município.

"O próprio governo federal criou esse problema. Os colonos tocam fogo para fazer suas lavouras e nós não podemos fazer nada. Se a gente for lá, leva porrada", diz o prefeito da cidade paraense.

Dados trechecados


O diretor do Inpe (Instituto de Pesquisas Espaciais), Gilberto Câmara, evitou polemizar com o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, e com o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. Ambos duvidaram que os dados do Inpe que mostram aceleração no desmatamento estejam corretos. Em entrevista no domingo ao jornal "O Estado de S.Paulo", Maggi declarou que o Inpe estava "mentindo a serviço de alguém".

Câmara admitiu que o Inpe sobrestimou os dados de setembro, mas que o problema já havia sido corrigido quando o novo alerta foi publicado, na última quarta-feira. "O dado publicado e compilado foi checado, rechecado e "trechecado"." Procurado pela Folha ontem, o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, não quis comentar as críticas feitas por Maggi ao Inpe, que é subordinado a sua pasta.


Parque perde área de mata igual a 60 campos de futebol


Desmatamento ilegal ceifou mais de 17 mil hectares de terras com florestas protegidas no norte de Mato Grosso

Governador tentou reduzir limites do parque em 2006, mas justiça barrou processo; biólogo diz que devastação prejudica economia local


RODRIGO VARGAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM ALTA FLORESTA

O avanço do desmatamento na região norte de Mato Grosso nos últimos cinco meses também fez estragos em uma das mais importantes unidades de conservação da Amazônia. De agosto a dezembro, segundo os dados do Inpe, uma área equivalente a 60 campos de futebol foi derrubada no Parque Estadual do Cristalino, entre os municípios de Alta Floresta e Novo Mundo (830 km de Cuiabá).

O local abriga, em 184 mil hectares, uma das mais ricas amostras da biodiversidade de toda a Amazônia, especialmente em relação às aves: são quase 600 espécies identificadas, das quais 50 endêmicas -ou seja, que só existem ali. É também uma das áreas mais ameaçadas, pois está situada exatamente no limite da fronteira agrícola da região, cercada por estradas, fazendas de gado e dois assentamentos rurais.

Entre os meses de setembro e outubro, o monitoramento por satélite do sistema Deter identificou duas derrubadas, de 34 e 28 hectares, dentro da área protegida da unidade. Por uma estrada vicinal que corta a porção sul do parque, a Folha tentou chegar até as clareiras abertas na mata, mas o caminho estava bloqueado pelo tronco de uma árvore que havia despencado sobre a estrada.

No trecho de cerca de seis quilômetros que foi possível percorrer na área protegida, porém, não faltaram exemplos concretos dos riscos a que a unidade está submetida. O cenário era praticamente o mesmo de outras áreas desmatadas da região: cercas, pasto, gado, em meio aos restos queimados de árvores de grande porte. Em um trecho, o fogo havia avançado sobre alguns pequenos morros, varrendo quase toda a vegetação no local.

Embora seja ocupado por fazendeiros, o trecho visitado pela reportagem integra a área demarcada para a unidade. Uma parte, de cerca de 13 mil hectares, são pastagens que já haviam sido abertas antes da criação do parque. Outros 17 mil hectares, segundo as imagens de satélite, foram destruídos quando a proteção da área já estava estabelecida.

A indefinição fundiária atingiu o ápice em 2006, quando o governo de Mato Grosso encaminhou à Assembléia Legislativa um projeto de lei redefinindo os limites do parque. A proposta, que excluía 3.000 hectares desmatados anteriormente, foi modificada pelos deputados estaduais, que propuseram e aprovaram um novo traçado, com 27 mil hectares a menos. A Justiça revogou a medida depois.

Virada de jogo

O biólogo Renato Farias, diretor da ONG Fundação Ecológica Cristalino, que atua na região do entorno do parque, diz que o momento exige uma mudança de rumo.

"Temos que virar o jogo", afirma. "As pessoas da região têm que se dar conta de que o parque em pé tem muito mais a contribuir, inclusive economicamente, para a região."

Farias diz que a área do Cristalino é um dos melhores locais do país para a observação de pássaros. Um levantamento de flora, iniciado em 2006 e ainda não concluído, identificou mais de 780 espécies somente em duas RPPNs (reservas particulares de proteção natural) vizinhas ao parque.

"Estamos falando de uma região de extrema biodiversidade, por reunir áreas de transição entre ambientes distintos. Mas que também está sob ameaça constante. Isso mostra que algumas pessoas ainda não perceberam o quanto ela pode ser importante, inclusive do ponto de vista econômico, para os municípios do entorno."


Posto feito para abrigar fiscais foi abandonado


Construído há cinco anos com R$ 125 mil de recursos federais, o único posto fixo de fiscalização do Parque Estadual do Cristalino está abandonado, depredado e quase todo coberto pelo mato. Além de uma casa de seis cômodos, o posto tem uma garagem com capacidade para abrigar carros e barcos e fica perto de um dos acessos não oficiais à área protegida do parque.

O major Jonas Araújo, superintendente de fiscalização ambiental de Mato Grosso, não soube informar o que houve. "Amanhã [hoje] terei informações mais seguras", disse, por telefone. O major trabalha em Cuiabá.

Sobre os desmatamentos na unidade, o major diz que foram todos fiscalizados e resultaram em autos de infração. Ele não soube, porém, precisar o valor das multas aplicadas. (RV)

Pioneiro em detectar desmate alerta para alta do preço da soja

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

Soja desmata, sim. E provavelmente está desmatando agora em Mato Grosso, aproveitando a alta do preço internacional -diferentemente do que dizem o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, e o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, ao insistirem que o grão não teve culpa pela aceleração da derrubada no último semestre do ano passado.

Quem diz é Douglas Morton, especialista em sensoriamento remoto da Universidade de Maryland (EUA) e pesquisador do LBA (Experimento em Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia).

Morton foi o primeiro cientista a detectar, usando imagens de satélite, um fenômeno então novo em Mato Grosso: o desmatamento direto para a agricultura. Em um estudo publicado em 2006, ele mostrou que de 25% a 30% do desmatamento em Mato Grosso em 2003 -ano de alta no preço da soja- haviam se dado num período curto de tempo, por causa do plantio de grãos.

O padrão era inédito: até então, reinava a noção de que eram necessários três anos para transformar floresta em lavoura. "Durante o pico do desmatamento naquele ano, entre setembro e outubro, foi possível derrubar a área e plantar já no começo do ano seguinte, por causa do preço", disse o pesquisador à Folha. "Esse padrão pode estar se repetindo agora", afirma, já que o preço da soja na bolsa de Chicago é o mais alto dos últimos cinco anos.

Dois fatores levam Morton a essa conclusão. Primeiro, os dois sistemas de detecção do desmatamento em tempo real -o Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e o SAD, do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia)- relatam rigorosamente a mesma área desmatada em Mato Grosso entre agosto e dezembro de 2007: cerca de 1.700 km2.

"Se os valores são similares, me parece que haja um sinal real [de crescimento no desmate]", afirmou. Morton diz que os dados do Inpe para setembro e outubro, que acusavam um desmatamento grande, foram superestimados por causa de incêndios que foram confundidos com derrubada. Mas os dados já foram corrigidos.

> "Amazônia não é propriedade dos brasileiros."

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Artigos de Luiz Felipe Pondé

Europa tem 75 mil prostitutas do Brasil

O que muda na língua portuguesa com a reforma ortográfica