Pular para o conteúdo principal

Religiões são tratadas com cuidado excessivo, diz cartunista

por Fábio Zanini para a Folha

Maomé se queixa da falta do humor de seus fiéis. Um desenho de Maomé deitado no divã, reclamando que seus seguidores não têm senso de humor. A reação dos muçulmanos mostrou a exatidão do cartum: protestos e ameaças anônimas contra seu autor, o sul-africano Zapiro, 52, nome artístico do cartunista Jonathan Shapiro. O Conselho de Juristas Muçulmanos da África do Sul chegou a alertar para a possibilidade de retaliação durante a Copa do Mundo, que se inicia nesta semana.
Em entrevista por telefone, Zapiro, que vive na Cidade do Cabo, diz que é preciso reafirmar os direitos de cartunistas no mundo todo.
"Eu sinto que as religiões são tratadas com cuidado excessivo pela sociedade. Acho difícil aceitar isso", afirma.

Folha - O sr. imaginava a repercussão de seu cartum?

Zapiro - Depois do que aconteceu em 2005 na Dinamarca, sabia que iria criar algum tipo de agitação. Mas pensava que ia me safar sem tanto furor. Avaliei mal.

O sr. teme virar uma versão sul-africana de Salman Rushdie [escritor indiano ameaçado de morte por ter feito um livro considerado profano]?

Recebi ameaças, mas é difícil dizer se são sérias. Comuniquei à polícia, que está investigando. Não quero ficar paranoico.

E o argumento de que a religião deve ser respeitada?

Levei isso em consideração, mas obviamente considerei outras coisas mais importantes, aspectos de liberdade de expressão e de direitos humanos. Sinto que as religiões são tratadas com cuidado excessivo pela sociedade. Acho difícil aceitar isso.

É a hora de os cartunistas declararem guerra ao radicalismo muçulmano?

Não gostaria de encorajar pessoas a encararem isso como uma grande e única campanha. No caso do profeta Maomé, há séculos de belas ilustrações sobre ele, na Índia, na Turquia, no Irã.
Não há nenhum lugar no Corão dizendo que o profeta não deve ser desenhado.

Cartunistas de uma forma geral devem respeitar limites?

Cartunistas devem alargar os limites. Não temos um direito maior do que os outros, mas temos um grau mais alto de irreverência e potencial de causar ofensa. Devemos estar sujeitos aos mesmos tipos de controle.
É, em linhas gerais, o que a ONU define de "discurso do ódio", sujeito a controle.
Sempre lembro dos cartuns antes do genocídio em Ruanda [em 1994] que estimulavam as pessoas a "matarem as baratas" [referência à minoria tutsi].

E o em que o sr. mostra o presidente Jacob Zuma se preparando para estuprar a Justiça?

Sobre esse não tenho nenhuma reserva. No desenho, a figura da Justiça é simbólica. Uma metáfora.

O sr. satirizou muitas vezes o ex-presidente Nelson Mandela. Qual a dificuldade de fazer isso a alguém visto como um santo vivo?

Não é fácil, mas não é impossível. Em 1995, fiz meu primeiro cartum sobre ele.
Um ativista antiapartheid foi pego num escândalo de corrupção e ia ser preso, mas foi presenteado por Mandela com o cargo de embaixador em Genebra.
Fiz um cartum dele como um gigante, com uma auréola caindo num precipício, e um guindaste tentando puxá-la de volta.

Imagino que seja bem mais fácil com Zuma.

Claro! É bem mais fácil com alguém que tem vários defeitos e que pode ser engraçado em várias ocasiões.

E quanto à Copa do Mundo? Dará muito material para o seu trabalho?

Há muito que satirizar no futebol. A começar da nossa seleção, que sempre esteve perto do número 90 do ranking da Fifa.

Recentemente melhorou um pouquinho, para número 80 [83ª posição em maio]. Em 1996, o Bafana Bafana [apelido da seleção] foi número 20.

> Maomé se queixa da falta de senso de humor de fiéis. (maio de 2010)

> Casos de religiosos que repudiam a liberdade de expressão.

> Casos de fanatismo religioso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Artigos de Luiz Felipe Pondé

Marketing social é coisa de gente mentirosa e egoísta.
Título original: Marketing social (3 de setembro de 2012)

Quem acha 'todo outro lindo' deveria defender apedrejadores.
Título original: Sensibilidade cultural (13 de agosto de 2012)

Ser humano só revela o que tem de melhor quando é esmagado.
Título original: "Bonequinha de Luxo" (6 de agosto de 2012)

Todo mundo quer ser 'legal' e ninguém quer ser pecador.
Título original: Ideologia de privada (30 de julho de 2012)

Espiritualidade trágica dos gregos é a melhor.
Título original: Nêmesis (23 de julho de 2012)

Mercado do apocalipse verde tem tudo do fanatismo
Título original: O infiel (16 de julho de 2012)

Todo mundo que crer salvar o mundo é autoritário
Título original: Demagogia verde dos salvadores (15 de junho de 2012)

Inferno não são os outros, mas o 'marketing do eu', diz Pondé
Título original: Meu inferno mais íntimo (4 de junho de 2012)

Só mentirosos negam que sejamos responsáveis por nossas escol…

O que muda na língua portuguesa com a reforma ortográfica

A reforma ortográfica só será obrigatória a partir de 2012, mas as novas regras já podem começar a ser aplicadas a partir de 2009. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa uniformiza o português do Brasil, Portugal, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Veja o que muda neste texto do professor Sérgio Nogueira. 



> Regras especiais


1ª) Regra dos hiatos (abolida pela reforma ortográfica):
Como era?
Todas as palavras terminadas em “oo(s)” e as formas verbais terminadas em “-eem” recebiam acento circunflexo: vôo, vôos, enjôo, enjôos, abençôo, perdôo; crêem, dêem, lêem, vêem, relêem, prevêem.

Como fica?
Sem acento: voo, voos, enjoo, enjoos, abençoo, perdoo; creem, deem, leem, veem, releem, preveem.


Que não muda?
a) Eles têm e eles vêm (terceira pessoa do plural do presente do indicativo dos verbos TER e VIR);

b) Ele contém, detém, provém, intervém (terceira pessoa do singular do presente do indicativo dos verbos derivados de TER e VIR: conter, deter, manter, obter, provir, intervir, convir);���…

Europa tem 75 mil prostitutas do Brasil

Em ruas de prostituição de Genebra, na Suíça, português é língua corrente. Nos classificados de jornais europeus, apresentar-se como “brasileira” costuma render mais clientes e programas mais caros. Não por acaso estrangeiras fingem ser do País para competir pela atenção dos homens.


do Estado de S.Paulo

Estimativas da Organização Internacional de Migrações (IOM), agência ligada à ONU, apontam quase 75 mil prostitutas brasileiras trabalhando hoje na Europa. E esse número só cresce. “Espanha, Holanda, Suíça, Alemanha, Itália e Áustria são os principais destinos”, diz a entidade. E o total de mulheres que deixam o Brasil é bem superior ao de homens. Na Itália, dos 19 mil brasileiros vivendo legalmente no País em 2000, 14 mil eram mulheres. O número elevado de prostitutas contribui para a diferença.

Dados do governo espanhol apontam existência de 1,8 mil prostitutas brasileiras no país e 32 rotas de tráfico de mulheres. Muitas usam Portugal como porta de entrada e praticamente todas chegam…