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Onda de suicídios expõe lado obscuro do milagre econômico chinês

Nesta semana, uma operária de 19 anos da fábrica de eletrônicos Foxconn, próxima a Shenzhen, no sul da China, tornou-se a quarta empregada em duas semanas - e a nona neste ano - a saltar para a morte. Duas outras pessoas tentaram se matar mas não foram bem-sucedidas. Essa onda de suicídios, junto com uma investigação sobre a Foxconn feita pelo "Southern Weekly", uma publicação de Guangzhou, jogou luz sobre os recônditos sombrios do mundo industrial da China. Na semana passada, nove professores de ciências sociais escreveram uma carta aberta à Foxconn na qual questionam a sustentabilidade do papel da China como a "fábrica" do mundo.

A reportagem é de David Pilling, do Financial Times, e publicada pelo jornal Valor, 27-05-2010.

Pouca gente já ouviu falar da Foxconn, apesar do fato de a companhia taiwanesa empregar um exército de 300 mil trabalhadores na fábrica de Longhua, onde os suicídios ocorreram. Mas a maior parte das pessoas já ouviu falar do iPad, da Apple, um das dezenas de aparelhos eletrônicos montados pela Foxconn. Também já ouviram falar de Sony, Dell e Nokia, algumas das companhias cujos consoles de jogos, câmeras digitais, telefones celulares e computadores a empresa de Taiwan é contratada para montar. Os empregados da Foxconn - que ganham em média US$ 75 pela semana de 60 horas de trabalho - conhecem bem essas marcas, embora poucos ou mesmo nenhum deles possa comprar os produtos.

O "Southern Weekly" enviou uma repórter de 22 anos disfarçada para trabalhar na fábrica da Foxconn próxima a Shenzhen, cidade trazida à vida por Deng Xiaoping, que em sua viagem pelo sul do país em 1992 declarou a China aberta aos negócios internacionais. Além do chão de fábrica, onde muitos empregados - vestindo capas e chapéus brancos idênticos - passam por turnos de 12 horas em suas estações de trabalho, o complexo do tamanho de uma cidade inclui dormitórios, lojas, restaurantes e até mesmo o seu corpo de bombeiros próprio. Agora tem também um serviço de apoio psicológico para os que pensam em se matar. Segundo a reportagem do "Southern Weekly", os operários se mostram acachapados pela monotonia dos trabalhos repetitivos, até mesmo andando e comendo ao ritmo do barulho das máquinas.

"Factory Girls" [Operárias, em tradução livre], o livro reportagem brilhante de Leslie Chang sobre mulheres migrantes, é bem sombrio em alguns pontos. Muitas fábricas tratam seus empregados como coisa, recusando-se a empregar gente por causa da altura, da feiura, da idade - 30 anos já é velho demais - ou simplesmente porque veio da Província "errada". Elas mandam as pessoas assumirem serviços mesmo que não estejam propriamente treinadas em máquinas que podem cortar dedos - o que às vezes realmente acontece. Exigem dos empregados muitas horas de trabalho, embora muitos fiquem felizes por algum pagamento extra. E seguram um mês de pagamento, para evitar que suas trabalhadoras achem um trabalho melhor ou mesmo um namorado em outra fábrica.

Mas essa não é toda a história. Cerca de 200 milhões de migrantes deixaram as áreas rurais em busca de uma vida melhor. Não são todos que podem ser enganados. No caso específico da Foxconn, é verdade que a recente onda de suicídios marca um crescimento acentuado em relação ao ano passado. Mas, como a fábrica emprega 300 mim pessoas, a taxa de suicídios é significativamente menor do que no geral. A China tem uma taxa de suicídio particularmente alta para mulheres.

No geral, os salários médios vêm superando a inflação nos últimos anos e as condições de trabalho vêm melhorando. Em 2008, a Província de Guangdong, no sul do país, na qual Shenzhen é uma zona especial, começou uma campanha para eliminar as piores fábricas, forçando o fechamento de metade de sua indústria de brinquedos (muitas delas se mudaram para Províncias mais pobres). Em março, Guangdong tornou-se a mais recente Província a aumentar o salário mínimo - no caso dela, em 20%. Na teoria, embora não provavelmente na prática, isso poderia aliviar a pressão para que as pessoas trabalhassem excessivamente, atrás de horas extras.

Ativistas de melhores condições de trabalho poderiam argumentar, com alguma justificativa, que essas seriam melhoras em relação a uma base dickensoniana [Charles Dickens, escritor britânico da era vitoriana, descreveu a miséria dos trabalhadores na Revolução Industrial]. Mas um lado da experiência dos migrantes que emerge de maneira forte do livro de Chang é o otimismo em relação à possibilidade de mobilidade social. As ondas recentes de migrantes têm ambições maiores do que os que os antecederam. Muitos pulam de trabalho em trabalho, procurando por algo melhor, ou colocam suas economias em imóveis e novos negócios (ou em esquemas de pirâmide também).

Esse senso de que há possibilidade de evoluir tem dois lados. Os migrantes geralmente esbarram na realidade. Conversas na internet também sugerem que está crescendo a raiva geral com a percepção de que muito da riqueza pessoal é fruto de corrupção, e não do trabalho. Mesmo assim, pesquisas sugerem que a crença no sonho chinês de ascensão social continua vivo. Em "O Mito do Vulcão Social", um livro baseado em extensa pesquisa, Martin King Whyte, professor de sociologia na Universidade Harvard, diz que há "uma expectativa otimista de que a alta da maré do desenvolvimento econômico está levantando todos os barcos". Os chineses mostram fé na capacidade de melhorarem suas próprias vidas, normalmente ultrapassando o otimismo de pesquisados em países capitalistas, incluindo os EUA. Esse senso de que é possível melhorar deve manter essa sedução por algum tempo.

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