quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Revista publica relatório policial sigiloso sobre médico acusado de abusar de pacientes

revistajoice

por Cláudio Tognolli, da revista Joyce Pascowitch, edição de setembro de 2009

Os descomunais espaços a separarem o luminoso doutor Roger Abdelmassih do monstro pintado pela mídia (e que as suposta vítimas esmeram-se em esculpir) começaram a ser apertados por uma morsa que, na verdade tem apenas oito páginas e 291 linhas – relatadas em 13 de julho de 2009 pela delegada de Polícia Civil Celi Paulino Carlota. O documento está sob segredo de Justiça. E a J.P. o publica, com exclusividade, guiada por decisão prolatada há cinco anos pelo ministro Celso de Mello, do STF. Para ele, segredo de Justiça deve ser seguido à risca pelas autoridades detentoras do mesmo. Jornalista, seguindo a decisão, obviamente não é autoridade. Publicar essas informações requerer uma refletida moderação. Nesses casos, trata-se de assunto de interesse público.

Deixado a si mesmo em uma cela de 40º Distrito Policial de São Paulo, o médico Roger, de 65 anos, obviamente envereda por aqueles recamos a que todo acusado se faz encontradiço: vindica o exagero de pacientes dopadas e, resoluto, diz-se inocente. A retórica escovada dessa outrora grife glamorosa tem até uma pontinha de verossimilhança. Afinal, num ato de complacência, todos viam nele um grande paizão, em sua bonomia que sempre se descompunha em risos. Estamos até agora falando, é óbvio, do médico que se difundia entre as estrelas, de Pelé a Roberto Carlos. Mas a análise do documento policial aniquila esses séculos de bom nome: os depoimentos, bem amiudados, jogam com um autêntico pesadelo. E dali brota tamanho desvario que o monstro parece tomar o lugar do médico. O sr. Hyde, sacripanta que se escondia sob dr. Jekyll, na obra de Roberto Louis Stevenson, é quem parece brotar dessas páginas. E sempre sem o mínimo apreço aos rudimentos éticos da medicina. Ele trocou o in vitro pelo in loco, como se depreende do documento policial.

Doutor Roger sofre 56 acusações de estupro contra 39 mulheres. O relatório final da delegada Celi Paulino Carlota é taxativo. “Segundo relatos das ofendidas que procuraram a clínica em questão, o médico se valia da sua especialidade em fertilização em atos preparatórios naquele estabelecimento, sendo sedadas com o uso do medicamento Propofol, indutor de sono para o procedimento de aspiração dos óvulos. Logo após, estando na sala de recuperação da clínica, completamente à sua mercê, abandonando a ética profissional, praticava com algumas delas atos libidinosos e, com outras, conjunção carnal.”

O relatório sigiloso indica que até uma ex-recepcionista teria sido atacada pelo doutor Roger: “Consta que, no dia 16 de janeiro de 2008, nas dependências da clínica, o médico constrangeu a ofendida, conforme o registrado no Boletim de Ocorrência 1636/2008. Ela esclareceu que trabalhou como recepcionista da clínica durante um ano e deis meses e foi demitida há oito meses. Ocorre que, por duas vezes, o médico assediou com elogios e tentou abraçá-la, fato ocorrido em dezembro de 2008. No dia dos fatos, a vítima, durante o expediente, ingressou na sala do médico e, após uma conversa normal de trabalho, foi atacada de surpresa. Doutor Roger levantou-se inesperadamente de sua cadeira e veio sobre a vítima, a puxou pelas bochechas para se despedir e beijos sua face e, em ato contínuo, a pegou pelos braços fortemente e “me deu um beijo na boca enfiando a língua”, esclarecendo que teve dificuldade de se desvencilhar dele devido a compleição física do médico, ou seja, alto, forte e enérgico. A vítima alega que o empurrou e ele novamente a pegou pelo braço com força. Ela disse: “Pare com isso” e ele respondeu: “Vem cá que você vai gostar, eu já estou te cozinhando desde o dia em que entrou aqui”. Ela afirma que o ataque cessou somente quando o telefone tocou, ocasião em que se pôs em fuga”, diz o documento.

Outro relato de ataque é mais breve, mas não menos assustador. Outra denunciante narra que “em meados de 1977 foi encurralada contra a estante dentro da sala do médico, oportunidade em que ele a forçou a beijá-la mediante domínio físico imposto pela sua compleição física. Nesse momento, encostou seu órgão genital na vítima, estava completamente transtornado, fungando excitado. A vítima somente conseguiu escapar do ataque quando foram interrompidos por outro médico que ingressou na sala, viabilizando que ela empreendesse fuga”.

Medo de represálias

A delegada Celi Paulino Carlota não tece relatos robustos nem mofinos. Alterna descrições detalhadas com quadros gerais, e tudo sempre entrouxado com alguma tenacidade. Mesmo com tal alinho ético, nada escapa, das linhas, de um estado progressivamente vomitivo. “As mulheres que recuperavam a consciência paulatinamente perceberam que foram vítimas de ataques perpetrados por aquele renomado profissional de saúde, contudo, se calaram diante do sonho da maternidade, do investimento efetuado e do medo de represálias pela notoriedade do médico nacional e internacional. Ressalta-se, ainda, que não tinham testemunhas presenciais, pois as investidas ocorreriam sempre quando estavam sozinhas, isto é, dentro de salas ou quartos de recuperação, após a sedação, fatos esses que as levaram ao silêncio. Muitas delas procuraram auxílio de terapeutas, psicólogos e psiquiatras, restando sequelas e, além do constrangimento sofrido e do estado de ansiedade, alguns casos resultaram no término da harmonia conjugal ou separação do casal.”

O relatório final critica o distanciamento mantido, por anos, pelo Conselho Regional de Medicina. Sobre uma outra vítima, a delegada Celi Paulino Carlota anota: “Ela procurou a clínica do doutro Roger em 1997. Durante a segunda tentativa, após o preparo da sua posição ginecológica para a realização dos exames, frequentemente o médico Roger entrava na sala e colocava-se à frente da mesma; ele se apoiava em seus joelhos, levantava o lençol e perguntava se estava tudo bem, fato que a deixava constrangida; em uma das consultas, a vítima estava sozinha no consultório e o médico Roger segurou seu seio, pegou sua mão e a levou ao seu órgão genital, por cima da roupa, além de beijá-las na boca, colocando a língua. Diante da persistência dos assédios, ela procurou o CRM, ensejando o procedimento disciplinar 4.910-270/02, que estava em trâmite até a data desta oitiva.”

Uma outra vítima traz um dos depoimentos mais trágicos: “No ano de 1999, em uma das consultas, encontrava-se sozinha com o médico Roger, quando ele a beijou na face, bem como passou a língua em seu rosto, fato que se repetiu por diversas vezes, chegando ao ponto de a vítima ter de levar um lenço. No final de novembro de 1999, no dia da aspiração dos óvulos, uma das etapas do tratamento, após a sedação, ela narra que “acordei morrendo de dor e não era a mesma dor que estava sentindo inicialmente; percebi que havia transpirado muito e que minhas costas estavam molhadas na altura da cintura; eu estava com fortes dores nas costas, no ânus, ou seja, tudo misturado; levei as mãos às costas e vi que na verdade era sangue. Ainda atordoada, fiquei muito nervosa, achei que poderia ser por causa do procedimento e chamei a enfermagem, que mostrou perplexidade”. Enquanto aguardava o médico, mesmo sonolenta, levantou-se e percebeu que, com certeza, a dor era proveniente do ânus. Quando o médico Roger chegou, ao indagá-lo, ele calmamente explicou que teriam colocado uma sonda retal para aliviar suas dores e justificar o sangramento. Contudo, em razão das lesões sofridas, procurou um médico gastroenterologista que, em exame clínico, constatou uma fissura incompatível com qualquer procedimento com sonda retal.”

Outra mulher afirma que a violência supostamente praticada pelo médico arruinou também seu casamento. Tal depoimento foi prestado à polícia em Santa Rita do Sapucaí, Minas Gerais. “Em 1988/89, procurou a clínica do doutor Roger. Retornou em 1995 objetivando novo tratamento. Na segunda tentativa, que resultou em gravidez, quando saiu do centro cirúrgico e foi encaminhada para um quarto, percebeu que estava sendo beijada. Acreditou que os beijos eram de seu então marido, que também estava na clínica extraindo espermatozoides. Correspondeu ao carinho, passou as mãos em sua cabeça e percebeu algo estranho, ou seja, que não se tratava de seu marido, pois ele possuía bastante cabelo. Assustada, abriu os olhos com dificuldade, viu que quem a beijava e lhe fazia carinhos era o médico Roger; estava sem forçar para conter suas investidas. Ato contínuo, o médico levantou a camisola que estava vestindo desde o centro cirúrgico, abaixou a calça e consumou a conjugação carnal, ou seja, colocou o pênis em sua vagina”. A vítima disse à delegada Celi Paulino Carlota que não teve forças para resistir ao suposto ataque. Denunciou o caso a CRM. A delega conclui: “A violência sexual sofrida pela vítima acarretou consequências nocivas como depressão, traumas psicológicos e psíquicos, culminando com a separação do casal.”

Outro ataque brutal é relatado como tendo acontecido em 27 de janeiro de 1993. A delegada relata que a vítima, no dia da aspiração, estava despida, usando apenas um avental. Diz a delegada: “Doutor Roger foi levar o remédio, acariciou o seu rosto, dizendo “calma, desta vez vai dar certo, você está com bastante óvulos”; as crianças dele, pois só vieram ao mundo por sua causa. Contudo a vítima desviou o rosto e adormeceu. Alega ter sentido dores no ânus. Essa suposta vítima foi internada, refere a polícia, no Hospital Albert Einstein. Tinha anexite e abscesso pélvico. A vítima denunciou o doutor Roger no 5º Distrito Policial, no bairro da Aclimação, em São Paulo, e no CRM, que então resolveu arquivar as investigações. Segundo a delegada, após o episódio, a vítima separou-se do marido e “ficou estéril e sofre de depressão”.

Sedação

O relatório policial se esmerou em tomar depoimentos dos fabricantes da droga Propofol, ou Diprivan, cujos efeitos sedativos, segundo o doutor Roger, trariam as vítimas a relatos delirantes. “A versão do médico acusado doutor Roger é completamente descaracterizada. A indução da droga Diprivan é geralmente suave, como evidência mínima de excitação; basicamente os pacientes relatam sonhos prazerosos, não necessariamente com conotação sexual.”

Ele é inocente, diz advogado

O advogado do Roger Abdelmassih é José Luis Oliveira Lima, famoso por ter defendido, entre outros, o ex-ministro José Dirceu. O principal argumento de Lima é que o médico atendeu a mais de 20 mil mulheres em toda a sua carreira, ajudou a nascer mais de 5 mil crianças e, diante de tal magnitude de clientes felizes, convertidos em pais e mães, “o número de 56 denúncias torna-se questionável”. Já o doutro Roger ameaça que, quem o acusa, irá responder à Justiça tão logo ela seja feita.

“Nego enfaticamente tudo o que foi apresentado pelo Ministério Público e pela polícia. Doutor Roger é um dos mais respeitados médicos do Brasil, sua clínica é referência em vários países. Ele aguarda com tranquilidade a decisão da Justiça e ao longo do processo sua inocência será demonstrada.”

Na última semana de agosto, o Supremo Tribunal Federal negou o pedido de liberdade apresentado pelo médico Roger Abdelmassih, preso desde desde o dia 17 do mesmo mês, denunciado pelo estupro de 56 mulheres. Ele estava detido no 40º Distrito Policial, em Vila Santa Maria, na capital paulista. Foi transferido para a Penitenciária, no interior paulista.

Para arquivar o pedido da expedição de alvará de soltura, a ministra Ellen Gracie se baseou na Súmula 691 do Supremo, que impede a análise de habeas corpus que teve o pedido de liminar negado pelo Superior Tribunal de Justiça e cujo mérito também não tenha sido analisado.

Para a ministra, a análise do pedido formulado em favor do médico configuraria supressão de instância. A defesa questionava decisão do ministro Felix Fisher, do Superior Tribunal de Justiça, que negou liminar no dia 21 de agosto para colocar o médico em liberdade. O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) abriu 51 processos ético-profissionais contra o médico e suspendeu seu registro.

> Caso Roger Abdelmassih.

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