Podemos deter o envelhecimento?

por Philip Hunter, para o Prospect

A velhice quase não existe nos animais selvagens. Acidente, doença ou predação geralmente os matam muito antes de alcançarem seu período de vida potencial. Os seres humanos, porém, especialmente no mundo desenvolvido, estão chegando em números cada vez maiores à duração máxima de vida, considerada pela maioria dos gerontologistas em 120 anos.

A ciência do envelhecimento se dividiu entre otimistas e pessimistas desde que surgiram as primeiras teorias modernas, em meados do século 19. Os pessimistas afirmam que o envelhecimento é causado pela mesma decomposição inevitável que aflige as máquinas e os objetos inanimados.

Eles concordam que a biologia desenvolveu mecanismos de reparo para atenuar os danos, mas insistem que estes meramente retardam a morte o suficiente para garantir a sobrevivência reprodutiva do organismo.

Os otimistas afirmam que todos os animais têm células reprodutivas imortais ("linhagens germinais") e que o envelhecimento e a longevidade são geneticamente determinados por programas que em princípio podem ser corrigidos. Eles indicam que a biologia tem as ferramentas para enfrentar o desgaste quase indefinidamente, se houvesse um caminho evolucionário para chegar lá.

Velhice Hoje os otimistas estão em alta, reforçados recentemente por experimentos que prolongaram a expectativa de vida de ratos de cerca de 2 para 3 anos, com alguns relatos de até 5. Esses progressos são improváveis nos seres humanos, para os quais a evolução já aumentou o período de vida muito além de mamíferos de tamanho comparável. Mas o trabalho esclarece alguns dos mecanismos envolvidos.

O recente progresso com ratos foi feito com a aplicação da descoberta, que data dos anos 1930, de que a duração da vida poderia ser prolongada drasticamente em quase todos os animais através de uma dieta baixa em calorias, mas incluindo todos os nutrientes vitais. Esta continua sendo uma estratégia comprovada para aumentar a expectativa de vida e desacelerar o envelhecimento em uma ampla gama de espécies.

Mas a dieta com baixo teor de calorias não é a única maneira de prolongar a vida de um rato. O mesmo efeito pode ser conseguido com uma dieta normal em calorias mas reduzida em proteínas. Além disso, parece que não é a proteína que importa, mas um componente específico: a metionina, um dos aminoácidos essenciais. Uma dieta totalmente deficiente em metionina mataria um rato em poucas semanas, embora seu nível ideal pareça ser menor do que o ingerido numa dieta normal.

Não se sabe exatamente como a restrição de metionina prolonga a vida, mas a resposta pode estar ligada à teoria do envelhecimento oxidativo, ou dos radicais livres. A metionina é o aminoácido mais inclinado a perder elétrons através da oxidação, e por isso restringi-lo na dieta talvez convença o organismo a usar outro aminoácido quando possível, assim reduzindo sua suscetibilidade geral à oxidação.

Alguns pesquisadores, porém, afirmam que os radicais livres são meros mediadores do envelhecimento, e não sua causa subjacente, com seu papel sendo controlado por genes que orquestram um "programa de morte".

Há certas evidências de que os radicais livres são manipulados por esses programas em animais nos quais o envelhecimento ocorre subitamente. Um dos exemplos mais estudados é o salmão, do qual muitas variedades parecem envelhecer rapidamente e morrem depois de aproximadamente três anos, seguindo uma gloriosa orgia de reprodução. Os radicais livres aumentam rapidamente durante esse período, mas o fato de que eles parecem ser contidos até que o salmão tenha se reproduzido sugere que há um programa subjacente em ação.

Nem todos os gerontologistas concordam com a teoria do programa de morte. Alguns afirmam que a morte repentina do salmão do Atlântico é apenas a conseqüência natural de um fenômeno evolucionário extremo chamado "semiparidade", que significa ter todos os filhos ao mesmo tempo. O argumento é que esses organismos investem toda a sua energia de vida em um único evento reprodutivo, depois do qual não há motivo para resistir ao envelhecimento.

Mas uma descoberta de 2005 parece ter inclinado decisivamente a discussão a favor de um programa de envelhecimento. Um estudo da Academia de Ciências Russa descobriu que o salmão pode viver muito mais quando infectado por larvas do mexilhão perolado - em alguns casos, a infecção desse parasita prolonga sua vida quatro vezes, para 13 anos. O fato de as larvas aumentarem tanto a vida do salmão indica que normalmente deve haver algum mecanismo que apressa o processo de envelhecimento.

Mas permanece outra questão. Todos os animais têm linhas germinais imortais (seqüências de células sexuais, como o esperma ou o óvulo) que são mantidos separados das células somáticas do corpo; os artefatos do envelhecimento não são transmitidos para nossos descendentes. Então, algum animal explorou a imortalidade de sua linha germinal para resistir indefinidamente ao envelhecimento? A resposta é sim.

Alguns exemplos foram encontrados entre organismos mais simples, sendo um dos mais estudados a hidra, um pequeno animal de água doce de até 20 mm de comprimento. A hidra parece ser capaz de se regenerar indefinidamente, sem qualquer sinal identificável de envelhecimento. Isso é possível porque seus corpos são permeados por células germinais cujo objetivo básico é formar rebentos que se desprendem para gerar descendentes. Essas células germinais também criam novos tecidos no corpo, que na verdade são os próprios descendentes, constantemente formando novas células para substituir as velhas. A diferença entre reprodução e regeneração é imprecisa.

Embora os animais superiores não tenham esses poderes regenerativos, há muitos exemplos de órgãos individuais que são substituídos dessa maneira.

Alguns tubarões substituem seus dentes várias vezes durante a vida para continuar se alimentando e prolongar suas vidas reprodutivas. Por que a evolução não usou a regeneração de modo mais ambicioso para prolongar a vida reprodutiva? A resposta está no alto risco de morte por acidente ou predação. Em um animal como o rato, a morte por fatores adversos torna-se inevitável depois de alguns anos, por isso há pequena pressão seletiva a favor de indivíduos de vida mais longa. Em vez disso, a evolução seleciona os organismos que são altamente reprodutivos durante suas curtas vidas.

Existe um potencial para os humanos imitarem a hidra, biologicamente imortal, explorando nossas células-tronco na regeneração de órgãos danificados por doenças ligadas ao envelhecimento. Essa regeneração poderia não aumentar imediatamente a duração da vida, mas deveria melhorar muito sua qualidade na idade avançada. De fato, para os humanos o principal alvo deveria ser a qualidade da vida, mais que a longevidade absoluta. Pelo menos por enquanto, poucas pessoas querem viver mais que 120 anos, mas gostaríamos de continuar gozando a boa vida ao máximo dentro desse prazo.

> Qualidade de vida do idoso. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Artigos de Luiz Felipe Pondé

O que muda na língua portuguesa com a reforma ortográfica

Europa tem 75 mil prostitutas do Brasil