O ABC da Aids

por João Pereira Coutinho, para a Folha de S.Paulo

Tenho uma amiga que não gosta do atual papa. Razões? Ela responde: "Acho que ele é demasiado católico". A primeira vez que ouvi a tese, chorei de rir. Mas chorei com respeito. A tese expressa, com rigor e humor, o espírito do tempo sempre que o papa resolve ser papa.

papa_preservativo Mas, antes, vamos ao essencial: se eu fizesse uma viagem pela África, onde existem 22 milhões de infectados com o vírus da Aids (no mínimo), não teria dúvidas em aconselhar o uso da camisinha. Mais: hipocondríaco como sou, o mais natural era aconselhar o uso de várias camisinhas ao mesmo tempo, e ainda de uma roupa de mergulho, e de um escafandro, e de uma rede de apicultor. Eu nunca facilito. Acontece que, ao contrário do que possam imaginar, eu não sou o papa.

E o papa, a caminho do continente negro, limitou-se a repetir o que toda a gente sabe mas finge que não ouve: que a Igreja Católica, com total legitimidade, tem uma particular doutrina sobre a sexualidade humana, onde a abstinência (antes do casamento) e a fidelidade (depois do casamento) constituem-se como valores centrais. Centrais e absolutamente lógicos.

Não é preciso ser católico para comprovar a eficácia do método. Basta usar a cabeça, caso exista uma: se os seres humanos fossem capazes de trilhar a visão de perfeição proposta pelo papa, a possibilidade de contágio seria nula, ou quase. Acusar o papa de espalhar a Aids na África não é apenas insulto grosseiro; é irracionalismo grosseiro. Se as pessoas seguissem a doutrina da Igreja em matéria sexual, não haveria Aids no mundo.

Só que os seres humanos, ao contrário do que pensa Ratzinger, não são perfeitos em suas condutas privadas. E o problema da visão do Vaticano sobre a sexualidade humana é imaginar que o mundo é composto por anjos, e não por homens. Uma lamentável falácia.

Isso significa que o papa está absolutamente errado quando defende na África a doutrina católica em matéria sexual? Os profissionais da indignação, que espumaram ódio nos últimos dias, não têm dúvidas: o papa é um genocida/criminoso/irresponsável (riscar o que não interessa) ao "proibir" o preservativo na África.

Infelizmente, os profissionais da indignação deveriam saber que o papa não proíbe, no sentido policial do termo, coisa nenhuma: ele fala para quem o ouve; e quem o ouve decide o que fazer com inteira liberdade pessoal.

Além disso, os profissionais da indignação deveriam suspender os seus próprios dogmas e, olhando para a África, aprender alguma coisa. Sobretudo com os casos de maior sucesso no combate à Aids: em Uganda, na Etiópia, no Malawi, mesmo no Quênia. Fato: os casos de sucesso mostram que o uso de preservativo teve um papel fundamental na diminuição da epidemia. Mas esses casos de sucesso mostram também que a luta contra a Aids não se limitou ao uso alargado do preservativo. Como relembra qualquer especialista no assunto, vencer o flagelo no continente pressupõe um respeito e uma promoção do conhecido "ABC" da Aids na África: "A" de "abstinence" (abstinência); "B" de "be faithful" (fidelidade); e, finalmente, "C" de "condoms" (preservativos).

Por outras palavras: sem a redução do número de parceiros; sem uma maior fidelidade dentro do matrimônio; mas também sem uma responsável educação sexual entre os mais jovens, o simples uso do preservativo não resolve a mortandade. Pelo contrário: os países africanos que acreditaram no preservativo como resposta única e milagrosa para o problema da Aids (é o caso trágico de Botsuana), viram aumentar o número de infectados. Paradoxal?

Nem por isso: numa cultura, como a africana, que simplesmente não usa os preservativos disponíveis; ou então usa-os mal; ou, pior, usa de forma irregular, acreditando numa espécie de "compensação de risco" (palavras da ONU) que permite multiplicar o número de parceiros pelo uso intermitente de proteção, o preservativo cria uma ilusão de segurança que não é compensada por uma alteração responsável dos comportamentos.

O papa está errado quando exclui o preservativo de qualquer estratégia de combate à Aids. O papa erra, no fundo, quando apaga a letra "C" do abecedário básico da luta contra a epidemia. Mas o papa não erra quando fala das letras "A" e "B". Tudo ao contrário dos profissionais da praxe, que sobre a matéria só conhecem a letra "I". De "indignação", sim. Mas, sobretudo, de "ignorância".

> Papa diz que camisinha ‘piora o problema’ da Aids. (março de 2009)

Comentários

  1. Senhor Coutinho,

    Em seu artigo "O ABC da AIDS", publicado ontem na Folha, o senhor distingue como alvo de suas severas críticas o grupo dos Indignados, a que se refere como "profissionais" que "espumaram ódio nos últimos dias". O grupo é tachado pelo senhor de ignorante (no final do artigo) e de, em relação ao papa, empreender não apenas "insulto grosseiro", mas "irracionalismo grosseiro".

    O seu próprio texto é caracterizado pela inconsistência e superficialidade em toda a sua extensão, e apontar isso não visa redimir os que são tachados de "indignados", tampouco incitar despropositadamente indignação de outra motivação.

    Começando pelo título - O ABC da AIDS -, ele não se coaduna com o cerne de seu objetivo, que não é apresentar tal ABC (há muito ultrapassado justamente no que concerne ao continente africano), mas usá-lo como apoio para defender o pontífice, declarando que ele está certo quanto ao "A" e ao "B" e que o "C" teria sido, na África, tanto fator de sucesso no combate à AIDS quanto de alastramento do contágio. Então, conclui que o "papa erra quando apaga a letra "C" do abecedário básico [pleonasmo]... Mas não erra quando fala das letras "A" e "B". Portanto... os indignados é que são os ignorantes.

    Ao empregar a expressão "profissionais da indignação", o senhor sugere que sua amiga, citada no ínício do texto, está de fora, bem como outras pessoas comuns, a ela semelhantes, enquanto deixa implícito que sua bronca é dirigida a outros jornalistas e estudiosos que "espumaram" diante da renovação da ladainha do papa sobre preservativos.

    Que fique claro que "ladainha" diz respeito à minha percepção, e não a da grande maioria. O que o papa declara importa, e a reação de sua própria amiga indica isso. Justamente por deter tal influência sobre tanta gente, a imprensa explora a "ladainha". E explora com calculada estreiteza e emoção, para ser acolhida por aquela massa de visão estreita e emotiva.

    Ou seja, a imprensa não alude ao direito canônico, à infalibilidade. Não é isso que cativa, que vende. O que vende é precisamente a "indignação", produzindo resultado favorável para o papado. Tal atrito sem raciocínio, do tipo briga de namorados, é útil também aqui para manter o vínculo, o foco no Rei. Imagine se o papa falasse o que fosse e ninguém nem comentasse? Muito mal para ele - estaria acabado. A "indignação", assim, é sinal do poder do papa e, também, fator de reforço de tal poder.

    E é tal poder que está em jogo. Não é a doutrina, as almas, o vírus. Mas, claro, isto não é publicado em espaço tão privilegiado quanto aquele que acolheu seu pobre artigo, já que não interessa ao poderoso papado, e não vende.

    Vejamos o destaque de seu artigo: "O problema da visão do Vaticano é imaginar que o mundo é composto por anjos, e não por homens". Primeiro, é sempre de bom tom evitar tal linguagem sexista, preferindo seres humanos, pessoas.

    Muitos outros também cometem esse desatino, esse "insulto grosseiro" de apontar a estreiteza de visão do Vaticano, da Cúria. Iinsinuuam constantemente com seu discurso (quando não são loucos a ponto de serem explícitos): "Vejam, são celibatários. Vejam, não entendem de sexo". Tolice total. O Vaticano precisa zelar pelo maior poder da terra. E não dorme no ponto; sequer pisca, quando se trata disso. Se eles não sabem de algo, ninguém sabe, não existe ainda, em escala minimamente significativa. É delírio de último grau apontar "lamentável falácia" em relação ao Vaticano.

    O Vaticano não se afirma recorrendo ao Conhecimento, ao Poderio Militar, ao Comércio; o diferencial dele é bem estudado para ser único: e se abrem mão dessa única, "esquisita doutrina", abrem mão do poder. Disso eles sabem como ninguém mais. Até porque a maioria não consegue ver o Vaticano, mas apenas o que lhes convém ver, em muitos casos por medo da morte, em outros por medo da vida, em outros por simples inércia desintelectual, estreiteza de visão (aí, sim), preguiça de pensar e coisas assim dos hipocondríacos, obedientes, ou orgulhosos. Ou um pouco de tudo isso junto.

    O Vaticano, portanto, nem de longe imagina o mundo "composto por anjos". Até porque isso iria totalmente contra os negócios - o mundo é povoado de pecadores. E pecadores de ciclo insuperável, que precisam de purificação, miseravelmente uma vez ao ano, na Páscoa.

    A Santa Sé continuará inflexível quanto à contracepção (apenas natural), ao aborto, enfim, ao que ela já se pronunciou, porque não pode voltar atrás. Como um Infalível pode fazê-lo, e se manter firme no poder? Este é o ponto. Todo o resto é idiotice que se presta à propaganda positiva, especialmente a "indignação" e ressuscitados abecedários.

    A "indignação", se exagerou ao falar de genocídio (não o constatei), não ficou sozinha: o senhor se mostrou um rival à altura, com o seu uberbólico "Se as pessoas seguissem a doutrina da Igreja em matéria sexual, não haveria AIDS no mundo". Evitar o contágio é uma coisa; ter sido capaz de impedir o surgimento da doença no mundo é totalmente outra coisa. Foi um rompante, né? Um irracionalismo grosseiro. Pois.

    Outro argumento fraco é o que propõe que o papa não proíbe coisa alguma; "...ele fala para quem o ouve; e quem o ouve decide o que fazer com inteira liberdade pessoal". Isso é disneylândia. O tom do discurso papal nem das alturas abençoa tal liberdade. O papa não proíbe, condena. E ele tem forte influência, conforme já propusemos.

    Por fim, afirmei antes que o abecedário está ultrapassado. Ora detalhando, temos que, já em 2004, por exemplo, o Washington Post publicou artigo que explica como o "ABC" é inócuo na África, sendo premente ir além dele("beyond" it), com "D", "E" e "F".

    Como tal argumentação detonaria - definitivamente - sua defesa do pontífice, o que de fato diz respeito à AIDS na África restou omitido de seu texto. O "A" e o "B" que o senhor diz estarem corretos no discurso papal são refutados naquele artigo do Washington Post, que antecedeu a um congresso internacional sobre a doença. Esse irresistível pecado de ser "verdadeiro" até onde convém está bem mais alastrado do que a AIDS na África. E é justamente esse tipo de comportamento que favorece o contágio. A falta de rigor ao escrever é apenas uma faceta da falta de rigor em geral. Por isso, não temos como acreditar no senhor quando afirma; no texto, "Eu nunca facilito", querendo convencer-nos de que previne a AIDS com extraordinária consciência e disciplina.

    Em suma, o problema está na visão da maioria, e não na do Vaticano, que se mantém, como explicamos, coerente com seus interesses, tendo em vista as peculiaridades de seu - incomparável - poder.

    Tal esclarecido, fortemente recomendamos a leitura do artigo do Washington Post mencionado, que pode ser acessado aqui: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/articles/A13501-2004Jun28.html

    O "DEF" da AIDS não tem como competir com o ABC depois de tanta campanha grossseira. Mas vou traduzir um pouco de seus termos, para meus leitores que não sabem inglês.

    O "D" remete a disclosure, revelação, e precisa de um complemento: revelação com segurança. Ou seja, as mulheres - a maioria dos contaminados, segundo o artigo - precisam conhecer sua condição em relação à doença (se positivas ou não), mas precisam de proteção, já que, se forem dadas como doentes, serão marginalizadas ou ainda mais exploradas (sexualmente). O "E" vem de education, o que não se restringe a informações sobre a doença, mas abrange escolaridade que propicie às mulheres independência econômica e, então, capacidade de controle sobre sua vida, inclusive a sexual. E "F" aponta mais especificamente para female control - acesso a preservativos femininos e outros elementos para que a prevenção se torne de efetivo alcance da mulher.

    Mulheres que fazem "survival sex" e "transactional sex" não têm como negociar com o homem o uso de preservativos. O discurso do papa ou é simplesmente um recadinho para reforçar o ego dos machos para quem as mulheres são apenas coisas; ou é um "não tem jeito mesmo", para as mulheres; ou é um jogar areia no deserto - "é óbvio que a camisinha não resolve". Até porque, a conversão é o que, segundo a agenda papal, irá adiantar, porque traria uma total mudança de comportamento, o que, contudo, não se vê, na prática, em nenhum lugar do mundo.

    A África, a propósito, não está "tão longe" de nós em termos de cultura, esta caracterizada, em seu artigo, por "não usar" os preservativos disponíveis, ou então usá-los mal, etc. Minha experiência com educação sexual mostra que a maioria não é tão menos católica do que o papa "quando resolve ser papa". E não é nem um pouco hipocondríaca.

    Amélia Coelho
    25 de março de 2009

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