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É preciso excomungar Jesus

Do IHU Online.

cristo-cruzg Em artigo para o jornal Le Monde, 19-03-2009, Frédéric Lenoir, filósofo e escritor francês, questiona se, "na Igreja de Bento XVI", Jesus não seria "excomungado por ter pregado a superação da lei com o amor".

Autor de "Cristo Filósofo” (Ed. Caleidoscópio, 2008), Lenoir afirma que "ninguém pede que a Igreja renuncie afirmar as próprias convicções. Mas o que não se entende é a maneira teórica e às vezes brutal utilizada pela hierarquia para reafirmar a norma, enquanto existem apenas situações concretas, singulares e complexas".

A tradução é de Moisés Sbardelotto, para o IHU Online.

Eis o artigo.

A Igreja católica atravessa uma crise de uma amplitude inédita em muitas décadas. Essa crise é muito mais profunda, já que sua credibilidade é colocada em questão em todos os âmbitos: por nós, católicos, pelas pessoas de cultura católica e pelos fiéis praticantes.

A Igreja não é vítima de uma agressão externa. As causas dos seus males atuais não surgiram por causa de "inimigos da fé" ou de anticlericais. Dois graves escândalos, que se referem à responsabilidade da sua hierarquia, expuseram brutalmente as suas contradições: a revogação da excomunhão de quatro bispos integralistas, dentre os quais um que fez declarações negacionistas, e a excomunhão, quase concomitante, por parte do arcebispo de Recife, de uma mãe e de uma equipe médica que praticou um aborto em uma menina de nove anos, grávida de gêmeos, vítima de estupros, cuja vida estava em perigo.

A isso, acrescentam-se as afirmações de Bento XVI no avião que o levou à África, continente atingido em grande parte pela pandemia da Aids: "Não se pode resolver o problema da Aids com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, a sua utilização agrava o problema".

O primeiro caso escandalizou sobretudo pelas declarações negacionistas odiosas de dom Williamson e pelo tríplice erro do Vaticano, que não informou o Papa das palavras conhecidas desde novembro de 2008; que promulgou o decreto no dia 24 de janeiro, quando tais declarações estavam na primeira página de todos os jornais do mundo desde o dia 22 de janeiro; e, enfim, pela lentidão da condenação dessas palavras.

Mas essa revogação de excomunhão "sem condições", preâmbulo de um processo de reintegração na Igreja, também perturbou profundamente muitos católicos ligados ao Concílio Vaticano II (1962-1965) e aos seus valores de liberdade religiosa e de diálogo com as outras religiões, constantemente negados pelos integralistas. Na carta aos bispos publicada no dia 12 de março, o Papa reconhece os erros na gestão do caso Williamson e tenta justificar-se sobre a revogação da excomunhão utilizando o argumento da misericórdia: "Quem anuncia Deus como Amor levado 'até ao extremo' deve dar testemunho do amor: dedicar-se com amor àqueles que sofrem".

Pode-se entender que, em nome da mensagem evangélica, o Papa quer perdoar e dar uma nova chance às ovelhas perdidas que ainda dizem palavras extremistas e intolerantes há anos. Mas então por que a Igreja continua proibindo a comunhão aos divorciados que casam de novo? Por que condena com tal dureza as pessoas próximas de uma menina estuprada que salvaram sua vida fazendo-a abortar? A misericórdia deve ser aplicada só aos integralistas? E como é possível considerar o estupro de uma menina menos grave do que um aborto, que, além do mais, foi realizado em favor da vida?

O escândalo é tal que diversos bispos franceses decidiram intervir para condenar uma decisão iníqua que contradiz não apenas a moral comum, mas também a mensagem evangélica. Basta citar o episódio em que Jesus se recusa a condenar uma mulher adúltera, que, segundo a lei, deve ser apedrejada, e grita aos ultralegalistas da época: "Quem não tem pecado que atire a primeira pedra" (João 8). Ele mesmo transgrediu mais vezes a lei religiosa. Dostoievski havia imaginado que, se Jesus voltasse à Espanha de Torquemada, seria condenado ao fogo por ter pregado a liberdade de consciência. Pergunta-se se, na Igreja de Bento XVI, ele não seria excomungado por ter pregado a superação da lei com o amor.

Ninguém pede que a Igreja renuncie afirmar as próprias convicções. Mas o que não se entende é a maneira teórica e às vezes brutal utilizada pela hierarquia para reafirmar a norma, enquanto existem apenas situações concretas, singulares e complexas. Como destacada dom Yves Patenôtre, bispo da Mission de France, a decisão de excomunhão pronunciada pelo arcebispo de Recife, confirmada por Roma, "despreza a prática tradicional da Igreja católica que é a de escutar as pessoas em dificuldade, acompanhá-las e, em matéria de moral, levar em conta o 'mal menor'". Pode-se dizer a mesma coisa sobre a luta contra a Aids. O uso do preservativo não é, sem dúvida, a solução ideal, mas, de fato, é a melhor defesa contra a difusão da epidemia para todos aqueles que se cansam de viver a abstinência e a fidelidade pregadas pela Igreja. Os padres africanos sabem disso.

A história da Igreja é marcada por essa tensão permanente entre fidelidade à mensagem de compaixão com relação a toda pessoa pelo seu fundador e a atitude dos dirigentes que acabam, muitas vezes, perdendo de vista essa mensagem e privilegiando o interesse da instituição – que se tornou um fim em si mesmo – ou fechando-se em um legalismo meticuloso, absurdo e desumanizador.

O pontificado de João Paulo II foi caracterizado por uma marca de profunda ambiguidade: intransigente e tradicionalista no plano moral e doutrinal, foi também um homem de diálogo e de coração, que multiplicou os gestos fortes com relação aos humildes e às outras religiões. Bento XVI é o herdeiro do seu predecessor apenas na vertente conservadora. E na Igreja de hoje não há mais nem um Abbé Pierre [1] nem uma Soeur Emmanuelle [2], aqueles "fiéis confiáveis", capazes de lançar um grito de protesto contra as decisões dogmáticas desumanizadoras, desenvolvendo portanto um papel catártico e servindo como preciosos mediadores entre os fiéis e as instituições.

Um cisma silencioso ameaça a Igreja à esquerda, muito mais grave do que o dos tradicionalistas. Bento XVI pretendia "reevangelizar" a Europa. Conseguirá, talvez, reconquistar um punhado de integralistas, causando a perda de numerosos fiéis ligados aos valores evangélicos e de indivíduos em busca de sentido, aos quais parece que Roma não sabe oferecer outra coisa a não ser dogmas e normas.

Notas:

1. Henri Antoine Groués, mais conhecido como Abbé Pierre (1912-2007) foi um sacerdote capuchinho francês. Morreu aos 94 anos. Revoltado ao ver que num país rico como a França pessoas morriam de frio na rua, Abbé Pierre, em 1954, pediu apoio nas rádios para salvar os mais pobres de uma morte certa. O seu trabalho de assistência iniciou-se durante a Segunda Guerra Mundial. Recebeu numerosas honrarias, distinções e condecorações militares pelo combate em prol da França. Com a paz, foi eleito deputado da Assembléia Nacional Francesa, que abandonou por protesto contra uma lei eleitoral que ele julgava injusta, em 1951. A partir daí dedicou-se ao Movimento Emaús, que está hoje presente em mais de 40 países.

2. Soeur Emmanuelle (cujo nome de batismo era Madeleine Cinquin) (1908-2008) foi uma irmã belga, que dedicou a vida a ajudar os mais pobres, sobretudo no Cairo. Tendo estudado na Universidade Sorbonne de Paris, Irmã Emmanuelle foi professora de Filosofia e Letras em Istambul, Tunísia, Cairo e Alexandria. Em 1971, quando tinha 63 anos, decidiu compartilhar a sua vida com os pobres do Cairo, no Egito, motivo pelo qual era chamada de "irmãzinha dos mendigos". Em 1993, deixou o Egito, aos 85 anos, e regressou à França, estabelecendo-se na comunidade da Congregação de Nossa Senhora do Sion, para a qual havia entrado aos 20 anos, dedicando seu tempo à oração e à meditação, sem jamais deixar de ajudar os sem-teto e os imigrantes ilegais.

> Caso da gravidez e aborto da menina estuprada.

> Caso do bispo ultraconservador Richard Williamson.

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