O suicídio como notícia

por Marcelo Moutinho, escritor e jornalista, para o Portal Literal em 20/05/2007

No dia 5 de abril de 1994, recém-saído de uma clínica de desintoxicação, o líder do grupo Nirvana, Kurt Cobain, disparou um tiro contra a própria cabeça. Em 11 de setembro de 2001, pouco mais de uma dezena de jovens sacrificaram conscientemente as próprias vidas em nome do jihad, ao executar o atentado terrorista que atingiu símbolos do poder norte-americano. Quase 300 anos antes, a 18 de abril de 1732, um pacato casal de classe média – Richard e Bridget Smith – enforcava-se em Londres, sob a pressão de um manancial de dívidas.

Os casos relatados acima – cuja disparidade só encontra interseção no aspecto voluntário das mortes – ilustram os três modelos isolados por Émile Durkhein para categorizar o suicídio conforme a relação entre aquele que se mata e a sociedade.

No suicídio egoísta, os elementos motivadores seriam a falta de integração com seus pares e a inexistência aparente de razões para se tocar a vida em frente.

No altruísta, por oposto, as fortíssimas conexões entre indivíduo e meio social acabariam por determinar a opção pelo fim.

Já o suicida anômico agiria movido por uma desestabilização repentina, mas capaz de desequilibrar seu lugar na coletividade.

A categorização proposta pelo sociólogo no século XIX é retomada por Arthur Dapieve em Morreu na contramão – O suicídio como notícia (Jorge Zahar). Baseado em sua dissertação de mestrado em Comunicação na PUC-Rio, o livro se inspira na tipologia desenhada por Durkhein para teorizar sobre a morte voluntária e, na seqüência, investigar como é tratada na imprensa brasileira. Em geral, conclui Dapieve, entre o completo silêncio e uma nuvem de eufemismos.

"O silêncio expressa algo mais difuso, mas não menos eloqüente, derivado das crenças conjugadas de que o suicídio pode ser, de certa forma, contagioso, transmissível a suicidas em potencial (...) e de que os meios de comunicação de massa podem ser, pela própria natureza de sua função social, os vetores deste tão temido contágio, verbalizado ou não nas redações dos jornais", anota o autor.

A idéia de 'contágio', já apontada no estudo de Durkhein, ganhou força sobretudo com o romance Werther, de Goethe. Após sua publicação, em 1774, a Europa enfrentou uma onda de suicídios por parte de jovens que se identificam com a história de amor não-correspondido vivida pelo protagonista do livro.

Dapieve questiona em seu trabalho se essa postura silenciosa contribuiria de fato para evitar novas mortes. Embora a premissa de não abrir espaço para noticiar suicídios seja um traço praticamente unânime na imprensa mundial, cerca de 20 a 60 milhões de pessoas tentam se matar a cada ano, segundo cálculos da ONU. No Brasil, a taxa hoje é de 4,5 para cada 100 mil habitantes.

Os números demonstram, portanto, que não se trata de acontecimento raro, "mas de um problema de saúde pública disseminado e atual, ao contrário do que sugere o noticiário", como pontua o autor.

Para fundamentar sua dissertação, Dapieve recorreu a outros teóricos que examinaram o tema – como Karl Marx, que o esmiuçou em livro anterior ao clássico O capital, e Juliano Cabrera, filósofo que encarava a morte voluntária como ato de extrema liberdade. Além disso, entrevistou repórteres e editores e acompanhou o material veiculado em O Globo durante todo o ano de 2004.

Ao cabo da pesquisa, confirmou que a norma dos jornalistas – só noticiar suicídios em situações especiais – deixou de ter caráter tácito, integrando hoje os manuais de redação. Inferiu ainda que tal preceito está intimamente relacionado à percepção coletiva sobre o assunto. "Muito mais que ser determinante do modo como os leitores encaram o suicídio, a imprensa é, sim, determinada pela visão que os leitores têm da morte voluntária. A imprensa se colocaria não como vetor do 'contágio', mas como instância social solidária ao tabu que suplanta", observa ele. Assim, essa espécie de 'recalque' que cobre o assunto com véu turvo catalizaria um mal-estar que é da própria sociedade. Efeito-reflexo, portanto.

Entre os muitos casos arrolados no livro, chama atenção o do escritor Pedro Nava. No dia 13 de maio de 1984, ele atirou contra a própria cabeça. Poucos minutos antes, recebera um telefonema, que, segundo a esposa, o deixou desconcertado. Nava então saiu de casa com a arma e rumou para o bairro da Glória, onde consumou o suicídio. Imediatamente, a imprensa começou a receber denúncias de que o escritor havia sido chantageado por um garoto de programa, com quem se relacionaria em segredo.
 
Após exaustivos debates internos, os jornais optaram por não levar adiante as investigações sobre a revelação, por mais impactante que fosse. Mas os depoimentos colhidos por Dapieve demonstram que o fato acabou sendo um divisor de águas no tratamento da questão pela mídia. "O fantasma de Nava ainda assombra as redações porque encerra uma das questões éticas mais complexas do jornalismo: os limites entre aquilo que é público e cujo conhecimento é um direito de todos – e dever do jornalista divulgar – e o que, por pertencer à esfera privada, deve ser mantido como tal", salienta Zuenir Ventura, que na época do suicídio do autor chefiava a sucursal da revista IstoÉ no Rio.

Dapieve relaciona outros casos célebres, como os dos escritores Primo Levi e Ernest Hemingway, o do ex-presidente Getúlio Vargas e o do ditador Adolf Hilter, analisando como foram recebidos a seu tempo pela imprensa. Debruça-se também sobre a ficção, salientando, por exemplo, a recorrência de mortes voluntárias na obra de Sheakespeare, cujas peças contabilizam 52 suicídios.

Ao fim, se não esgota aquele que Albert Camus em O mito de Sísifo classificou como "o único problema filosófico verdadeiramente sério", é porque são incontáveis (e extremamente subjetivos) os fios que o envolvem. "Fazer a apologia do suicídio é tão inútil quanto fazer a apologia da vida", sublinha Dapieve, com algum ceticismo. Como observou o próprio Camus, talvez seja mesmo mais encorajador imaginar que, no simples ato de rolar a pedra montanha acima para em seguida vê-la descer e então iniciar novamente a subida, Sísifo seja feliz.

> Casos de suicídio.

Comentários

  1. Paulo,

    Muito bom o artigo,uma reflexão sobre esse acto misterioso que é a responsabilidade própria de terminar a vida.
    Um assunto muito semelhante ao da eutanásia,neste caso o suicido é principalmente por razões de dor física e o o outro é de ordem emocional desequilibrada.
    Como temos uma pulsão natural de vida,o suicido abala essa energia e mentalidade,em que para nos viventes deixa a perplexidade perante este acto.

    A estimulação que uma noticia sobre este acontecimento pode causar efeitos nos mais inclinados e frágeis é um facto tal,e está comprovado por estudos,e que revela esse mal-estar social em muitos,que encontram-se em estado adormecido.
    No entanto,a ausência noticiosa não impedirá esta radicalidade mortal,e fico perguntando-me se a renuncia em debater e informar este tema não será mais prejudicial...a transparência e clareza frontal costumam ser muito saudáveis.

    Os números são imensos amigo,impressionante que milhões estejam tão doridos e perdidos,para acabarem as suas existências antes do tempo destinado...

    Abraço Paulo,
    joao

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  2. [...] não se trata de acontecimento raro, "mas de um problema de saúde pública disseminado e atual, ao contrário do que sugere o noticiário" [...]

    Nunca tinha observado por este angulo, como uma questão de saúde pública.

    Outro dia li algo sobre a espatacularização do suicídio. onde o autor também citou o Kurt Cobain.

    Naquele post ele afirmava crescer o mito do suicida herói, tendo em seu ato uma forma de protesto(!?)

    Parabéns pelo post!

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