A ecologia sucumbe diante da economia

image Há um ano, o presidente do Governo, José Luis Zapatero, repetia que dentro de alguns meses convocaria uma conferência de presidentes autonômicos para abordar o problema da mudança climática. Vocês se lembram dessa reunião? Não, não vão se lembrar porque ela não aconteceu. A reportagem é de Rafael Méndez e publicada no El País, 16-10-2008. A tradução é do Cepat.

A Junta de Andaluzia tem a previsão de reformar até sete leis ambientais para “agilizar o desenvolvimento de atividades econômicas”. Trata-se de facilitar a atividade econômica em alguns parques naturais e autorizar com maior rapidez campos de golfe “de interesse turístico”.

Há outros exemplos. E em todo o mundo. Em dezembro do ano passado, na Conferência Mundial do Clima em Bali, o ministro alemão do Meio Ambiente,Sigmar Gabriel, pedia ao mundo coragem para “reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 50%”. Agora a Alemanha insiste em que para as suas empresas seria muito complicado cumprir o objetivo de reduzir as emissões em 20%, decisão da União Européia para 2020, e que limitar por lei as emissões dos carros afundará a indústria automobilística.

Cerca de 10 países da União Européia consideram que não é o momento de aprovar o ambicioso plano de redução de emissões e de fomento de energias renováveis mesmo que dentro de um ano a ONU deva aprovar um acordo que substitua o Protocolo de Kyoto. E sem o impulso da União Européia, o acordo está praticamente devotado ao fracasso. O secretário de Estado da União Européia, Diego López Garrido, afirmou ontem que a Espanha apóia a proposta da Comissão para reduzir as emissões de gases de efeito estufa: “A luta contra a crise financeira e a mudança climática não apenas é compatível como não reduzir as emissões agravaria a primeira”.

A tempestade econômica perfeita (crise financeira, explosão da bolha imobiliária, aumento do desemprego e inflação) fez com que a mudança climática e o meio ambiente fiquem, se não encostados, ao menos longe das prioridades dos governos. O paradoxo é que os efeitos deste abrandamento normativo não serão vistos no curto prazo – a crise pode chegar a ser boa para o meio ambiente –, mas dentro de alguns anos.

Há muitos fatores pelos quais um ecologista poderia se alegrar com a crise. O consumo de combustível na Espanha nos primeiros oito meses do ano baixou 6% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados do Ministério da Indústria. A Red Eléctrica de España garante que o consumo de energia elétrica entre janeiro e outubro subiu apenas 2% (durante anos o ritmo de crescimento foi bem superior). As emissões de CO2 do setor elétrico em agosto foram 21% inferiores às do mesmo mês de 2007 (dados daWWF/Adena).

Isto, unido à queda no consumo de cimento (18,6% menor até agosto), à baixa na produção de tijolos, cerâmica e demais indústria auxiliar da construção, grande consumidora de energia, faz pressagiar um bom ano em termos de emissões de gases de efeito estufa. Além disso, o aumento do preço da tonelada de CO2 emitida faz com que não seja tão atrativo queimar carvão. Tudo sopra a favor da redução de emissões depois de anos de má nota (a Espanha emite 50% a mais que em 1990 e é o país desenvolvido que mais se afasta de Kyoto).

Por outro lado, o fim da bolha imobiliária salvou valiosos enclaves do tijolo. O Governo de Múrcia, do PP, desprotegeu por lei um parque natural na costa para construir uma cidade de férias comparável apenas à Marina d’Or. Chamava-se Marina de Cope e, mesmo que a sua execução esteja sendo levada adiante, ninguém acredita que as construtoras e caixas econômicas que impulsionam esse projeto tenham capacidade neste momento para construir as 11.000 casas, 22.000 praças hoteleiras, cinco campos de golfe e uma marina interior artificial com 2.000 pontos, previstos no projeto.

O grupo norte-americano Harrah’s desistiu da construção do Reino de Don Quijote (cassinos, hotéis como em Las Vegas...) em Ciudad Real e a suspensão de pagamentos da imobiliária Martinsa-Fadesa evitou a construção de uma estação de esqui com milhares de casas no Pirineu de Lleida.

Os planos de milhares de moradias em zonas de costa virgens ou na montanha só existem (no momento) na imaginação de seus promotores e prefeitos. Ou seja, a crise deu um respiro aos ecologistas e à Fiscalia do Meio Ambiente. Em relação à mudança climática, a redução do consumo – unido às políticas de fomento de renováveis dos últimos anos e que já são mais que evidentes – faz com que, pela primeira vez em muitos anos, a Espanha possa apresentar, em 2008, resultados alentadores de redução de emissões de CO2. Estes gases se acumulam na atmosfera, retêm parte do calor e aquecem o planeta.

O ex-presidente do Congresso e professor da Universidade de Alcalá de Henares,Manuel Marín, afirma que “seria um erro agora deixar de lado as políticas de luta contra a mudança climática”. “Se diminuir o consumo de energia e do transporte e as pessoas gastarem menos pode ocorrer o equívoco de que durante alguns anos se tenha a impressão de que se está indo bem, mas isso significaria mascarar a realidade”. Marínacrescenta que esgrimir agora os problemas da competitividade da indústria para frear os investimentos em energias renováveis ou os empecilhos aos setores mais poluidores “discriminaria as empresas que se adaptaram e reduziram suas emissões”.

“Não deveríamos nos afastar da luta contra a mudança climática. Se houver algum setor que tem futuro e se quisermos passar do tijolo e da construção a setores de inovação e desenvolvimento as energias renováveis são a aposta”, afirma Ladislao Martínez, responsável pela energia da Ecologistas en Acción: “Quando a Espanha vai à China não vende informática mas parques eólicos. Isso acontece graças aos investimentos nos últimos anos. É preciso continuar nessa linha”.

Mas, as energias renováveis são mais caras que a queima de carvão, por exemplo, elevam o preço da luz e a inflação. E com meio milhão a mais de desempregados no último ano na Espanha e com a inflação vinculada ao preço da energia, a tentação de qualquer governante é esperar momentos melhores.

Os orçamentos do novo ministério de Meio Ambiente, Meio Rural e Marinho sobem 0,9% em relação à soma de seus dois predecessores: Agricultura e Meio Ambiente, muito abaixo da inflação. O Governo acaba de reduzir os prêmios para a energia solar fotovoltaica, que vivia uma explosão excessiva graças ao sobrepreço que todos os espanhóis pagavam no preço da luz. O corte foi apoiado por todos salvo pelos produtores de painéis solares.

A situação se repete em todo o mundo. A Agência Internacional da Energia reduziu, há uma semana, as suas previsões de crescimento da demanda de energia até o menor nível desde 1993. O temor é generalizado. Há duas semanas, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair pediu, em Madri, que “o meio ambiente não fosse uma vítima colateral da crise financeira”. A economia está ligada ao consumo de energia e este às emissões de gases de efeito estufa. O mérito não é reduzir as emissões em épocas de recessão, mas em fazê-lo em momentos de bonança econômica. E o risco é que os governos se amparem nos bons dados e que, quando a economia se recuperar, os carros voltem poluindo do mesmo jeito e as fábricas não tenham melhorado a sua eficiência. Que não tenham fechado as plantas poluidoras necessárias nem se tenha investido em tecnologia.

Além disso, se baixar o consumo de petróleo, baixará o preço, e então as energias renováveis não serão um investimento tão interessante. Por isso, Nicholas Stern, autor do principal relatório sobre o impacto econômico da mudança climática e do custo do seu não enfrentamento, pedia há duas semanas que se o preço do petróleo continuar baixando (está em 74 dólares e chegou aos 150) os governos deveriam cobrar um imposto a fim de reduzir seu uso e estimular as energias limpas.

Jordi Ortega, diretor da Expo CO2, uma feira sobre os mercados de carbono, e coordenador de um programa de economia e mudança climática na Universidade de Barcelona, não acredita que haja marcha a ré: “Os ativos tóxicos hoje são os da economia alta em carbono. Investir numa economia mais limpa reduz a dependência do petróleo e isso interessa a todos os países ricos”.

Os partidários da manutenção da luta contra o aquecimento global apesar do custo no curto prazo insistem em que a crise financeira é conjuntural e a ambiental, estrutural. “A crise econômica está aqui hoje e amanhã já desapareceu; a crise da mudança climática é permanente e é preciso enfrentá-la”, declarava há alguns dias o comissário europeu de Meio Ambiente, Stavros Dimas.

Garantem também que os custos por não fazer nada são muito menos visíveis, mas comparáveis. Um estudo encomendado pelo Governo alemão e apresentado na sexta-feira passada no Congresso da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCn) em Barcelona assinalava que só o desmatamento tem um custo anual de “entre dois e cinco trilhões de dólares, mais do que o colapso de Wall Street”. Sustentam que não há dilema entre meio ambiente e economia. Mas muitos governantes não enxergam as coisas dessa maneira.

> Aquecimento global e o desequilíbrio da ecologia.

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