Fotos mostram corpos de guerrilheiros do Araguaia

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Os corpos de João Carlos Haas e de outro guerrilheiro são observados pelo soldado Vantuir (esq.), pelo sargento Perez e um médico
SERGIO TORRES
ENVIADO ESPECIAL DA FOLHA A PATROCÍNIO (MG)

Jamais encontrados, os corpos de dois guerrilheiros do Araguaia estiveram em poder de militares, revela uma seqüência de fotos cujos negativos foram obtidos pela Folha. As fotografias mostram três homens do Exército junto aos cadáveres. Elas exibem ainda a chegada do helicóptero militar que os tirou da selva, a arrumação dos cadáveres em lonas e a partida do helicóptero.

Um dos corpos seria do médico João Carlos Haas Sobrinho, um dos líderes da guerrilha do PC do B. O outro cadáver não está identificado. É possível que seja do guerrilheiro Ciro Flávio Salazar de Oliveira, morto no mesmo combate que vitimou Haas, em 30 de setembro de 1972. Parte das fotos não é inédita. Algumas já foram publicadas em livros e na imprensa nos últimos 20 anos, mas de forma isolada, sem o encadeamento proporcionado pelos negativos. Agora é possível saber a cronologia dos fatos.

Os negativos estão há 36 anos com o ex-sargento do Exército José Antônio de Souza Perez, 60, que mora em Patrocínio, cidade com cerca de 85 mil habitantes no Triângulo Mineiro. Ele diz tê-los recebido de um colega soldado, do qual não lembra mais o nome. Conta que as fotografias foram batidas no Pará, na margem esquerda do rio Araguaia, em um acampamento improvisado na selva amazônica, onde os dois trabalharam ao longo de 1972.

Procurados pela Folha, o Ministério da Defesa e o Exército informaram que não se pronunciariam sobre as fotos.

A guerrilha rural na região do Bico do Papagaio (sudeste do Pará, sul do Maranhão e norte do então Estado de Goiás, hoje Tocantins) foi organizada pelo então clandestino PC do B, a partir da segunda metade dos anos 60. Iniciada em 1972, a repressão militar terminou três anos depois. Houve poucos sobreviventes. Os historiadores estimam que cerca de 60 guerrilheiros foram mortos pelos militares. Apenas um corpo foi identificado, o de Maria Lúcia Petit, assim mesmo passadas duas décadas da morte.

O recolhimento

O ex-sargento Perez lembra que estava no acampamento quando a equipe que comandava recebeu uma mensagem por rádio. A informação passada era de que em breve seriam levados até o local corpos de guerrilheiros mortos há pouco em confronto.

Os dois cadáveres chegaram ao local conduzidos por fuzileiros navais amarrados pelos pés e mãos em ripas de madeira. Juca foi logo identificado, por causa do diário que carregava. A outra vítima do confronto não tinha qualquer indicação de identidade. Perez nunca soube de quem se tratava.

Para remover os corpos, aterrissou no acampamento um helicóptero militar. Fuzileiros e militares do grupo de Perez trabalharam na preparação dos cadáveres, envoltos em lonas listradas e colocados no aparelho, que decolou em seguida.

Na opinião do ex-sargento, o helicóptero seguiu possivelmente rumo à base militar instalada no campo de pouso de Xambioá, cidade na margem direita do Araguaia, em então área de Goiás. Ele afirma que nunca mais soube dos corpos.

A publicação das fotos ao longo dos anos é um mistério para Perez. Ele imagina que a origem pode ter sido o soldado que bateu as fotografias e era o dono da câmera, levada de modo clandestino para o Araguaia, pois os praças eram proibidos pelo oficialato de registrar cenas de combate.

Ele também presume que, em algum momento, as fotos podem ter sido apreendidas por algum oficial, que, anos depois, as teria divulgado de maneira anônima. Perez ficou com os negativos para tirar cópias de fotos em que posava. Ele conta que, por causa de circunstâncias do trabalho na mata, jamais teve a chance de devolvê-los ao dono.

Xambioá



O cadáver de João Carlos Haas Sobrinho, o dr. Juca, foi visto em Xambioá depois de trazido da selva pelo helicóptero militar, conta a jornalista e pesquisadora Myrian Luiz Alves. Moradores da pequena cidade na margem direita do rio Araguaia -hoje Estado do Tocantins- mostraram a ela até o local do sepultamento.
Em 1972, os militares conseguiram matar oito guerrilheiros, três deles no dia 30 de setembro. Eram Juca, Ciro Flávio Salazar de Oliveira, o Flávio, e Manoel José Nurchis, o Gil.

A revelação dos negativos obtidos pela Folha mostra o corpo que seria de Juca ao lado de um outro, de estatura menor. Dados corporais em poder da pesquisadora indicam que Juca media, quando tinha 18 anos, 1,82 m de altura. Gil media cerca de 1,75 m; Flávio, já adulto, media de 1,65 m a 1,70 m.

De acordo essa medição, o mais provável é que a outra vítima mostrada na foto tenha sido Flávio, mineiro de Araguari, ex-líder estudantil e aluno da da Faculdade de Arquitetura da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Tinha 28 anos quando foi morto.

Nos anos 90 e no início desta década, expedições de parentes e pesquisadores a Xambioá encontraram o local onde Juca teria sido enterrado. Uma ossada chegou a ser retirada da suposta sepultura de Juca em 1996, mas nunca houve conclusão a respeito da identificação desses restos mortais.

Autor de "A Guerrilha do Araguaia: a Esquerda em Armas" (editora UFG, 1997), o historiador Romualdo Pessoa Campos Filho disse à Folha que a descoberta dos negativos que mostram integrantes das Forças Armadas ao lado de dois cadáveres "é um prova contundente de que os militares" estiveram "com os corpos dos guerrilheiros".

Ex-sargento diz ter guardado série por medo de morrer
DO ENVIADO ESPECIAL A PATROCÍNIO (MG)
Lavrador em Patrocínio desde que deixou o Exército, em 1974, o ex-sargento José Antônio de Souza Perez, 60, ainda teme os guerrilheiros. Por isso, e também por desconfiar da reação dos militares, guardou os negativos tanto tempo. (ST)


FOLHA - Como o sr. foi parar lá?


JOSÉ ANTÔNIO DE SOUZA PEREZ - Servia em Cristalina [GO]. Saíram de lá uns 20 do 43º Batalhão. Rodamos mil e tantos quilômetros em caminhão na Belém-Brasília. Em Araguaína [hoje TO] ficamos sabendo que íamos participar duma guerra.

FOLHA - O sr. lembra sua reação ao saber que iria para uma guerra?


PEREZ - Ninguém quer uma guerra. Chegamos no Araguaia, atravessamos de barco. Já estava em confronto com a guerrilha. Fiquei nas patrulhas da selva, em combate corpo-a-corpo.

FOLHA - Que informações vocês tinham sobre os guerrilheiros?


PEREZ - Eram treinados para combater cem de nós -treinados na China para substituir cem dos nossos.

FOLHA - Como era a vida na selva?


PEREZ - De dia, patrulha. À noite, parava, porque seis da tarde tem um mosquito que passa a 30 centímetros [do chão]. Se ele te picar pode te dar uma lepra. É incurável essa lepra.

FOLHA - Como foi parar junto aos corpos dos guerrilheiros das fotos?


PEREZ - Passaram rádio dizendo que estavam chegando dois guerrilheiros, para transportar no helicóptero. Chegaram, puseram no saco e transportaram no helicóptero. Não sei qual o destino. Acho que era a base de Xambioá.

FOLHA - Contaram o que ocorreu?


PEREZ - Não entraram em detalhes. Conversava o menos possível. Um era Juca, porque tinha diário. O outro não tinha nada. Nem sei como foi a morte, porque a função deles era fazer isso, a gente não podia ficar comentando.

FOLHA - Por que o sr. guardou os negativos tanto tempo?


PEREZ - Antes de abrir os arquivos, se eu aparecesse com essas fotos eu era morto. Uns tempos atrás eu era morto. Não sei por qual lado, mas eu era, tranqüilo. Será que esse cara aqui não está me identificando para me matar, parente de guerrilheiro? A única preocupação minha é esse povo querer me cruzar.

FOLHA - E os outros dois militares?


PEREZ - Um [o da direita] era de Ipameri [GO], médico, tenente ou capitão, sei lá. Sujeito manso, amigo da gente. Não estou lembrado do nome. [E o outro] Soldado Vantuir, radioperador.

> Mais sobre a Guerrilha do Araguaia.

Informações sobre a ditadura militar brasileira.

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