Da fome à obesidade

por Jorge Marirrodriga, do El País, em 11 de julho de 2008

Nos países pobres já não se morre mais só de fome, mas também por comer demais. Num mundo em que a cada dois minutos morre uma criança por falta de alimento, a obesidade evitável está se convertendo numa pandemia.
obesidade Diversos organismos internacionais chamaram a atenção para o fato de que já não se trata apenas de um problema sanitário dos países ricos. Também nos chamados emergentes o número de obesos aumenta de maneira desenfreada. Enquanto cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem graves problemas de saúde associados ao excessivo sobrepeso, a outros 815 milhões acontece o mesmo, mas por falta de alimentos. E o pior é que muitas vezes os dois grupos convivem dentro das mesmas fronteiras. O fenômeno começa a ser conhecido como “a obesidade da escassez”.

Não é preciso se enganar nem estigmatizar. Obesos sempre haverá porque se trata de uma característica genética. Uma situação que para além das considerações estéticas, passageiras segundo as épocas, afeta a expectativa de vida e a sua qualidade. A obesidade cansa o sistema vascular e alguns órgãos, o que produz sua deterioração prematura. Até aqui o problema. O escândalo chega quando essa obesidade aparece em pessoas que não deveriam sê-lo e chegam a isso pela aplicação sistemática de um regime destinado a encurtar a sua vida. O excesso de alimentação e o sedentarismo estão na base do fenômeno, e a estes dois fatores se agregam, dependendo da região do mundo, outros de caráter sociocultural.

A Organização para a Agricultura e a Alimentação (FAO), organismo das Nações Unidas encarregado de lutar contra fome, detectou no final dos anos 90 um alarmante aumento de pessoas com sobrepeso – que estritamente não é obesidade mas o estágio anterior – nos países em desenvolvimento, em que há zonas onde existe a subalimentação. Assim, na China em apenas três anos o sobrepeso aumentou em 15%, e no Brasil em até 40%. O mesmo fenômeno se repetia nos países da África subsaariana onde a fome é abundante.

A FAO constatou, além disso, que a doença da obesidade avançava à medida que aumentava o nível de ingressos: afetava sobretudo as mulheres de zonas urbanas e formação escolar. Ao contrário, em lugares como a América Latina, as pessoas das classes mais abastadas são mais magras que as de ingressos mais baixos.

A FAO o deixou bem claro: a primeira coisa a se fazer é combater a fome no mundo. Mas nem por isso considera um risco menor o sobrepeso e a obesidade, que em algumas zonas como o Oriente Próximo e o norte da África afeta quase 50% das mulheres.

Uma das razões apontadas para esse desequilíbrio não é apenas a introdução nos países emergentes de estilos de vida próprios dos países desenvolvidos, mas também de alimentos produzidos nestes últimos ou segundo seus padrões: alimentos supersaturados de graxa ou açúcar com abundante emprego de outras substâncias como hormônios de crescimento rápido, antibióticos ou estabilizantes, colorantes e aqueles que dão sabor. Tudo isso, além disso, promovido de maneira avassaladora.

Como exemplo, basta dizer que a indústria alimentar gasta por ano em torno de 40 bilhões de dólares em publicidade. Uma soma superior ao total dos ingressos de 70% dos países do mundo e 500 vezes mais da quantidade que todos os Estados juntos gastam para promover programas para convencer a população para que siga uma dieta saudável.

A isso se deve juntar a tradição em alguns casos e a necessidade em outros. Na cultura mediterrânea sempre se associou a gordura das crianças à saúde. De fato, onde há mais crianças com sobrepeso é em Portugal, Espanha, Grécia, e o sul da Itália e o Oriente Próximo.

Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Obesidade, dos 75 milhões de menores que vivem na União Européia, 22 milhões apresentam sobrepeso e mais de cinco milhões sofrem obesidade. Cada ano, cerca de 300 mil jovens ingressam nas estatísticas do sobrepeso sem que exista nenhuma iniciativa em escala comunitária para fazer frente ao problema. Há vezes em que a excessiva gordura vem marcada pela tradição centenária. No Pacífico Sul a obesidade é indício de nobreza e são famosas as piadas sobre os monarcas das ilhas Tongas e seus assentos especiais para suportar seu peso.

Mas há outros exemplos mais dramáticos. Na África o subconsciente coletivo decidiu combater a pandemia com outra. Diante do avanço irrefreável da aids que está dizimando populações inteiras, muitas mulheres e homens optam por ficar obesos como símbolo não apenas de prosperidade econômica, mas sobretudo de saúde. O que constitui um dramático e perigoso engano, pois se considera que uma mulher ou um homem obesos não podem ter aids porque esta doença é identificada com pessoas extremamente magras, algo real unicamente nos últimos anos de vida dos doentes mas não quando são soropositivos e podem contagiar o vírus HIV.

O problema afeta praticamente todos os países do mundo, mas se torna particularmente paradoxal naquelas nações em que há a desnutrição. No norte da Argentina, na região do Chaco, os professores foram às ruas há menos de um ano para denunciar que as crianças dormiam em sala de aula de fome e que as escolas estavam mudando seu papel de lugares de ensino pelo de refeitórios onde os alunos ingerem, em muitos casos, seu único alimento do dia. Paralelamente, encontra-se tramitando no Congresso uma lei para que a obesidade seja considerada uma doença pela segurança social, e, portanto, seu tratamento fique sujeito a esta. A iniciativa parlamentar que está sendo discutida estabelece como “de interesse nacional” a prevenção e controle dos transtornos alimentares.

No México, o Instituto Mexicano de Seguro Social optou por editar milhões de cópias de um receituário contra a obesidade. As autoridades estimam que se não se modificarem os hábitos de alimentação em dois anos, o país asteca pode ter até 14 milhões de obesos maiores de 35 anos. O propósito do Governo é evitar que seus cidadãos se entreguem à “comida lixo”, chamada ali de chatarra.

E a luz vermelha também se acendeu em outro país emergente, o Peru, onde o Governo constatou como a população pobre cada vez é mais obesa não exatamente devido a uma boa alimentação, mas pelo abuso de óleos saturados e pouco consumo de água.

Desta maneira abrupta, as administrações públicas dos países emergentes que têm que dedicar uma importante porcentagem de seus recursos para tratar de tirar importantes setores de sua população da pobreza – por exemplo, dos 180 milhões de brasileiros, 23% são pobres –, se vêem obrigados a fazer frente a um problema de saúde pública de primeira ordem que, longe de se resolver, vai in crescendo.

E nas televisões e jornais já não se comentam mais em tom de brincadeira iniciativas como aquela adotada pelo Governo japonês de multar as empresas que contratarem empregados com sobrepeso. O Ministério da Saúde, que tem que realizar ingentes esforços para conseguir que a atenção primária chegue a toda a população, se pergunta de onde tirar os recursos para fazer frente à explosão de diabetes que a Organização Mundial da Saúde prenuncia em todo o mundo para 2020 em virtude do sobrepeso.

A receita contra esta situação é repetida uma e outra vez em todos os estratos acadêmicos e governamentais: alimentação equilibrada sem abusar das graxas e açúcares e exercícios moderados. O problema é como acomodar esta teoria a um modo de vida cada vez mais sedentário, com menos tempo para preparar os alimentos e com a tentação sempre à mão de uma alimentação rápida, barata, ao alcance de todos, mesmo que não seja saudável. Isso, e o que asseguram cada vez mais autores e estudiosos do tema: a fome do século XXI está encerrada num corpo do paleolítico e um dos dois não está preparado para suportar a combinação tal e como se está estabelecendo, atualmente, nas mesas de todo o mundo.

> Fonte: IHU Online.

> Sobre alimentos não saudáveis.

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