Viagra completa 1 década; droga mudou o comportamento dos homens (Estadão)

Medicamento é considerado uma das 5 descobertas mais importantes da história da indústria farmacêutica

viagra_cobra por Simone Iwasso

A pílula azul que se tornou mais conhecida - e mais vendida - do que a Aspirina completa hoje dez anos. Uma das cinco drogas mais importantes da história da indústria farmacêutica, ao lado da penicilina e da pílula anticoncepcional, o Viagra mudou comportamentos, devolveu a vida sexual a casais, alavancou boa parte das pesquisas de medicamentos nos anos 90 e fez com que a disfunção erétil acabasse se tornando um indicador de saúde do coração.


“É como se o pênis fosse a janela do coração”, resume a cardiologista Gisele Rodrigues, médica do Incor e chefe do Centro de Referência do Idoso da zona norte de São Paulo. “A disfunção erétil tem o componente psicológico,pois muitas vezes o homem pára de achar que é capaz, e o vascular, que são as alterações circulatórias”, explica ela.

Não por acaso, mais de 70% dos homens com dificuldades para ter ereção apresentam colesterol alto, diabete, hipertensão, síndrome metabólica ou algum outro problema. E os que ainda não apresentaram nenhuma doença do tipo, têm o dobro de chance de desenvolvê-las no futuro, segundo pesquisas.

É simples de entender o motivo: o endotélio, um tecido que recobre os vasos sanguíneos de todo o corpo, está também nas artérias do pênis. Quando o homem recebe um estímulo sexual, o cérebro envia uma mensagem ao organismo para que libere óxido nítrico, o que relaxa o tecido e permite a expansão dos vasos.

Então, um grande volume de sangue entra no pênis e ele aumenta de tamanho. Até poucos anos, quando havia um número menor de pesquisas sobre a disfunção erétil (chamada, até 1992, de impotência), os mecanismos envolvidos nesse processo ainda eram pouco conhecidos.

Quando o homem tem algum problema no endotélio, os vasos sanguíneos do pênis são os primeiros a serem danificados, pois são muito pequenos e bastante frágeis. “É problema médico. Sintoma de que alguma coisa não está bem”, diz Luiz Otávio Torres, presidente da Sociedade Latino Americana para Estudo da Impotência e Sexualidade.

Por isso, segundo ele, quando o homem compra o remédio na farmácia sem consultar um médico pode até resolver provisoriamente a dificuldade de ereção, mas vai continuar sem identificar a origem do problema. “Uma hora o remédio vai parar de fazer efeito, é tratar o sintoma sem tratar a causa”, sintetiza a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). “Esses medicamentos nos ajudaram a entender que o homem começa a cuidar do coração cuidando do pênis.”

Além disso, os remédios trouxeram a sexualidade para dentro dos consultórios. “Há dez anos não me lembro de perguntar aos meus pacientes sobre a vida sexual. Hoje, junto com as perguntas sobre hábitos, fumo, doenças, pergunto se eles têm problemas para ter ereções”, afirma Carlos Da Ros, da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

NOVO PARADIGMA

Foi em 1998 que a Pfizer lançou o Viagra no mercado, após 13 anos de pesquisas - originalmente, a substância era estudada para angina e ereções eram um efeito relatado pelos pacientes em teste.

Com uma campanha agressiva de marketing, divulgação pela mídia e entre os médicos, o remédio, com poucas contra-indicações e fácil uso, logo virou líder de vendas. Reinou sozinho por cinco anos até que a Eli Lilly surgiu com o Cialis - que tem a diferença de ter efeito por até 36 horas desde que haja estímulo sexual. Pouco depois, a Bayer desenvolveu o seu, chamado Levitra - que começa a funcionar em 15 minutos e tem duração de até 8 horas. No Brasil, a Cristália desenvolveu o Helleva, que também está à venda no mercado brasileiro.

'Mulher ficou em desvantagem'

Psicóloga diz que muitas se sentiram menosprezadas ao ver o marido recuperar capacidade de ter relações sexuais

Simone Iwasso

Enquanto os homens recuperam a virilidade e a vaidade e mudam os parâmetros delimitados historicamente pelo envelhecimento, as mulheres se dividem em relação aos medicamentos para disfunção erétil. Existem as que adoram, as que odeiam e as que se sentem em desvantagem perto dos parceiros.


“Para a mulher ainda não existe nada disso, o que as deixa numa posição difícil e muito angustiante”, explica a psicóloga Julieta Durce, especializada no atendimento a casais da terceira idade.

Segundo ela, suas pacientes relatam que, ao verem o marido recuperar a capacidade de ter relações sexuais, se sentem menosprezadas. “Elas enfrentam a menopausa sozinha, as dificuldades que essa alteração hormonal provoca, tanto física como mentalmente, e ainda ficam inseguras em conseguir manter o marido”, completa.

“Não tem pílula para mim”, relata a advogada aposentada A.M., de 68 anos. “Para a mulher, só a pílula anticoncepcional e a do dia seguinte. E para as duas eu já passei da idade”, brinca ela. Apesar do bom humor para lidar com a situação, ela diz que, desde que o marido começou a tomar os remédios, aos 70 anos, mudou seu comportamento e também as cobranças em relação a ela. “Para as mais jovenzinhas é ótimo. Para nós, depois de uma certa idade, é mais difícil”, diz a advogada.

É uma situação delicada que aparece em diversas pesquisas de comportamento. Para 82% das mulheres entrevistadas pelo Projeto Sexualidade da USP, o sexo melhorou após os remédios porque o homem ficou mais seguro, interessante e calmo. No entanto, 20% delas acreditam que os medicamentos ameaçam a estabilidade do relacionamento do casal como um todo.

“Comecei a tomar porque fiquei curioso de tanto ouvir falar e minha mulher foi à farmácia comigo”, conta o aposentado J.L., de 58 anos. “Depois dos 45, comecei a ter dificuldades na relação, ela foi muito compreensiva comigo, agora quero recuperar o tempo perdido”, diz.

Alguns anos após seu lançamento, a Pfizer chegou a testar o Viagra em mulheres, mas os resultados foram pouco satisfatórios, o que levou o laboratório a desistir de seguir uma pesquisa nessa linha. No momento, várias empresas farmacêuticas investem em remédios para a sexualidade feminina, mas até o momento não há nenhuma substância em fase avançada.

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