Só 5% dos estudantes de medicina desejam trabalhar em pequenas cidades

Apenas 5% dos estudantes de medicina desejam trabalhar em pequenas cidades do interior. Essas regiões concentram a maioria dos projetos de Saúde da Família, capazes de resolver 70% dos problemas de saúde da população. A informação é parte de uma pesquisa do Instituto Oswaldo Cruz (IOC). A reportagem é de Alexandre Gonçalves e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 27-06-2008.

O médico Neilton Oliveira, autor do estudo, entrevistou 1.004 estudantes do internato de 13 cursos de Medicina em Goiás, Tocantins, Alagoas, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

Segundo a pesquisa, 63% dos alunos pretendem atuar como médico especialista depois de formados. “Esse é o ideal de muitos: ser um grande especialista, altamente remunerado”, afirma Oliveira. “Na contramão, o SUS demanda profissionais dispostos a atuar na atenção integral da saúde.” Apenas 12% dos alunos entrevistados acreditam que suas faculdades consideram as necessidades do SUS na hora de montar o currículo do curso de Medicina.

Oliveira afirma que a maior parte das faculdades da área restringe a prática aos hospitais associados às universidades. “Os alunos precisam vivenciar a realidade das unidades básicas de saúde. Precisamos trazer o conhecimento científico e acadêmico para o dia-a-dia da população.”

Ana Estela Haddad, diretora de Gestão da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, concorda com o diagnóstico de Oliveira. “É preciso que a educação médica se estabeleça definitivamente em novos cenários, onde as práticas assistenciais estejam ocorrendo: nas unidades básicas de saúde e não somente no hospital”, afirma.

Algumas faculdades já adotam modelos alternativos com a ajuda do Pró-Saúde, programa do ministério que financia instituições dispostas a aproximar seus estudantes dos centros de saúde.

Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, os alunos atuam na rede básica no 4º e no 5º anos. Duas turmas já se formaram com o novo currículo. “A experiência nos centros de saúde mostra ao aluno que é possível fazer boa medicina na atenção básica”, afirma a coordenadora do curso de Medicina da Unicamp, Angélica Zeferino.

A Universidade Estadual de Londrina (UEL) foi ainda mais radical. “Os alunos freqüentam, desde o primeiro ano, as unidades básicas de saúde”, explica Abel Soares, coordenador do internato médico.

Ana afirma que o ministério está produzindo um documento com os resultados já observados do Pró-Saúde.

VALORIZAÇÃO

Para o coordenador da Comissão de Ensino Médico do Conselho Federal de Medicina (CFM), Genário Barbosa, mudanças curriculares só resolvem uma parte do problema. “É preciso valorizar o profissional que trabalha com saúde da família”, afirma Barbosa. “Se fizermos isso, os estudantes vão se interessar pela área.”

A estudante do 4º ano de Medicina na Unicamp, Etienne Cordeiro, deseja fazer residência em ortopedia. Ela aponta a falta de estrutura nas cidades pequenas como um fator que desestimula a ida de profissionais jovens. Pamella Nakvasas, colega de Etienne, também quer ser ortopedista. As duas valorizam a experiência no Centro de Saúde Barão Geraldo, em Campinas. “Quando atendemos no pronto-socorro do hospital, criamos poucos vínculos com o paciente”, afirma Pamella. “Adquirimos essa experiência no centro de saúde.”

No ano passado, dos 110 alunos formados pela Unicamp, 15 resolveram não prestar residência. Preferiram trabalhar no SUS alguns anos antes de escolher uma especialidade. “Isso nunca tinha acontecido antes”, comemora Angélica. “Mas, sem dúvida, o estudante ainda se sente pouco animado com uma carreira onde o profissional é pouco valorizado.”

PANORAMA

5% dos alunos de Medicina querem ir para pequenas cidades

63% dos estudantes desejam se especializar

12% dos entrevistados, apenas, dizem que faculdades atendem às necessidades do SUS

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