Pastor salva vida de traficante condenado à execução (O Globo)

Jefferson Correa de Oliveira foi vítima do longo braço da lei do tráfico. Ao contrário do direito legal, onde o réu é julgado no local em que comete a transgressão, o tribunal do crime espalha sua autoridade ditatorial para além das divisas municipais. A reportagem é de Mauro Ventura e publicada pelo jornal O Globo, 29-06-2008.

Aos 24 anos, Oliveira construiu sua carreira de criminoso em Angra dos Reis, mas foi capturado há pouco mais de um mês por traficantes numa favela da Zona Norte do Rio, onde recebeu a sentença de morte, numa prova do alcance da jurisdição do tráfico.

— Fui criança para Angra traficar. Estava desde os dez anos numa boca de fumo de lá.

Jefferson fugiu da prisão e foi pego por colegas Certo dia, foi preso pela polícia e condenado a 11 anos. Estava em regime semi-aberto quando, após alguns anos de cadeia, saiu para visitar a família e não voltou. Ele justifica a fuga:

— São 11 crianças em casa, filhos de meus irmãos e irmãs.

São todos criados pela minha mãe, que está desempregada.

Após fugir da prisão, voltou a Angra e retomou o controle da boca. Viveu um ano sem problemas. Um dia, foi visitar a mãe em Niterói e soube que tinham estado à sua procura.

Imaginou tratar-se da polícia e se refugiou numa favela dominada pela mesma facção que a sua. Apenas para descobrir que eram justamente seus colegas que estavam à sua caça.

— Eu comprava droga com um rapaz. Mas falaram para ele que a droga que ele estava me fortalecendo era para botar em outra boca que não a minha.

Traduzindo: foi acusado de estar traindo os companheiros e montando uma boca clandestina, o que ele nega. Capturado às 11h de uma quinta-feira, foi todo amarrado com fita crepe, julgado e condenado à morte na favela carioca, distante quase 160 quilômetros de sua área de atuação, numa demonstração de que o tribunal do tráfico ultrapassa os limites das cidades.

— Nesses casos de exceção, não existe a competência territorial, também chamada de competência de foro — explica a juíza Luciana Fiala.

— Se o rapaz tivesse sido preso pela polícia, seria recambiado para Angra e julgado lá, que é o local da infração. Fez ali, vai ser julgado pelo juiz dali. Como foi pego pelos traficantes do Rio, tanto faz que seu crime tenha sido cometido em Angra — seu julgamento se deu no local da prisão.

Por volta das 13h30m do mesmo dia da captura de Oliveira, um grupo de evangélicos capitaneado por Rogério Menezes, da Assembléia de Deus dos Últimos Dias, panfletava no morro, chamando para um culto que aconteceria dois dias depois.

Um dos moradores falou: “Pastor, quer fazer uma oração para um jovem que está ali atrás amarrado para morrer?”.

Menezes se encaminhou para o beco e deu de cara com Oliveira, cercado por marginais.

— Ele estava encrepado da cabeça aos pés, igual a uma múmia. Os rapazes pediram que eu me retirasse dali, falei que não ia sair e disse: “Acredito que Deus não vai deixar vocês o matarem.” Um deles retrucou: “Pastor, não posso liberar ele, estou cumprindo ordens.”

O “exército” religioso ficou das 13h30m até 23h tentando convencer o grupo.

— Eles estavam decididos a matá-lo. Chegamos a ligar para o pastor Marcos (Pereira, fundador da igreja), que orou por eles e insistiu na libertação. Era um caso difícil, diferente dos outros, porque o rapaz não tinha cometido o crime na própria comunidade, e sim em outra cidade. Ou seja, naquele tribunal intermunicipal não bastava apenas a decisão do chefe do tráfico local, e sim de uma liderança maior da facção.

Após quase dez horas de negociação, finalmente os traficantes concordaram em soltar Oliveira. As cenas do rapaz sendo desamarrado na casa que serviu de cativeiro foram gravadas pela equipe do pastor e assistidas pelo repórter.

Alegria, mesmo com seis anos para cumprir

Durante a negociação, Oliveira prometeu que se tornaria evangélico caso escapasse.

— Como ele era fugitivo, falei: “Só posso te receber como crente se você acertar sua vida jurídica perante os homens.” Ele contou que se entregaria para cumprir os seis anos que restam de pena — diz Pereira.

E assim ele foi entregue pelo pastor à Vara de Execuções Penais (VEP), no Fórum do Rio, numa cena acompanhada pelo jornal. Mesmo prestes a voltar à prisão, Oliveira era só sorrisos.

— Tô com uma alegria no coração que na vida do crime eu não tinha.

Lá na VEP, ele ouviu instruções (“Os seguranças da carceragem vão levar você para a Polinter”, “Não é legal levar nada de valor, como relógio”, “Qual sua facção?”), ao lado de seu advogado, Henrique Machado.

Foi apresentado ao juiz (“Esse é o rapaz que estamos devolvendo”) e ouviu: “Espero que agora você siga o caminho do bem.”

Da Polinter, Oliveira seguiu no dia seguinte para o Instituto Penal Plácido Sá Carvalho, no Complexo de Gericinó, onde ficou de castigo (isolamento por 30 dias), por ter fugido.

Depois, foi transferido para o Benjamim de Moraes Filho, também no complexo, onde hoje é o líder do grupo de orações. Dispensou duas das três namoradas e hoje está firme com uma só — a que aceitou sua exigência de se tornar evangélica.

> TV mostra pastor Marcos salvando condenados à morte por traficantes (abril de 2008)

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