Mundo tem 1 bilhão de gordos e 820 milhões de famintos (El País)

Por Miguel Mora, em Roma  - Cinqüenta chefes de Estado e de governo, 150 ministros da Agricultura e cerca de 20 mandatários de instituições supranacionais se reunirão a partir desta terça-feira (3) até quinta (5) na sede romana da FAO (Organização para Agricultura e Alimentos da ONU) para tentar atacar a crise alimentar global que ameaça matar de fome e de sede milhões de pessoas.

O rascunho de conclusões da cúpula, ao qual os países estão dando os últimos retoques por grupos regionais, traça um futuro "de imenso sofrimento humano, assim como de descontentamento social e instabilidade política, que ameaçam pôr em perigo o desenvolvimento econômico e social".

Um único dado apresentado pela FAO resume graficamente a situação: de um lado há 820 milhões de cidadãos passando fome, entre eles 178 milhões de crianças desnutridas. No lado afortunado, um bilhão de seres humanos sofrem de excesso de peso, e 300 milhões deles já são obesos. No relatório que será apresentado hoje na cúpula, a FAO admite que os dados da fome não variam desde 1990, o que equivale a assumir que as políticas aplicadas até agora foram um fracasso.

O estudo atribui a crise atual à mudança climática, à escassez de cereais (a produção está no mínimo histórico desde 1983), o aumento da demanda na China e na Índia, o preço do petróleo, a elaboração de biocombustíveis, a especulação que domina os mercados de futuros de sementes e matérias-primas e a uma política agrícola e comercial protecionista e egoísta. Muitos problemas diferentes, que se não forem atacados depressa podem piorar o panorama.

Segundo a organização Oxfam, se os países continuarem investindo em biocombustíveis e não em pão, em 2025 haverá 600 milhões a mais de famintos no mundo. Um fenômeno recente começa a preocupar os especialistas: junto com a desnutrição que aflige uma parte do mundo, a má alimentação começa a causar estragos na outra metade. No México, o número de pessoas obesas e com excesso de peso duplicou entre a faixa mais pobre da população entre 1988 e 1998 e chega hoje a 60%. A cúpula, segundo diversas ONGs que participam dela, não é tanto dos países mas de um modelo hiperliberal em que mandam as multinacionais e os intermediários.

Segundo Antonio Onorati, da Crocevia, "os preços agrícolas são decididos pelos grandes varejistas, redes como Auchan ou Wal-Mart que tratam diretamente com os produtores e ganham o pedaço maior do preço final". Marco de Ponte, secretário-geral italiano da Ajuda em Ação, divulgou a lista das cinco empresas que controlam mais de 80% do mercado de cereais, com os lucros de 2007: Cargill (+36%), Archer Daniels Midland (+67%), ConAgra (+30%), Bunge (+49%), Dreyfuss (+19% em 2006). Outro setor em expansão é o dos produtores de sementes, herbicidas e pesticidas: Monsanto, Bayer, Dupont, Basf, Dow, Potashcorp. "A globalização modificou a relação comercial da agricultura", explica Alberto López, representante espanhol na FAO.

"O capital que antes especulava em imóveis hoje está na compra de futuros de matérias-primas. A demanda cresceu muito depressa e é necessário conter o impacto facilitando a distribuição, a eficácia produtiva e o consumo responsável."
A FAO propõe soluções em curto, médio e longo prazo: mais dinheiro, mais ajuda para os países pobres, comércio mais justo, melhor coordenação entre as instituições e as ONGs, potencializar a produção em pequena escala voltada para o consumo local e regional. Entretanto, os preços cada vez mais altos dos alimentos estão agravando o problema pela parte mais frágil da cadeia, a infância.

A Médicos Sem Fronteiras exige em Roma ajuda imediata para os 20 milhões de crianças que sofrem de desnutrição aguda. "Esta semana houve um aumento brutal de casos na Etiópia, onde já há 120 mil crianças em situação de emergência médica", lembra Javier Sancho. (Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves)

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