Jornalistas de "O Dia" são torturados por milícia em favela do Rio (O Dia Online)

Rio - Criadas sob o "inocente" argumento de enfrentar o tráfico de drogas e livrar as comunidades carentes do crime organizado, as milícias compostas por policiais, agentes penitenciários, bombeiros e ex-servidores da Segurança Pública dominam hoje bem mais do que as 78 comunidades onde fincaram suas garras e estruturaram um exército muito bem armado. Elas ditam as leis a aproximadamente 2 milhões de cariocas e os submetem a um código penal que nunca foi escrito. Todos conhecem bem cada parágrafo, onde estão previstas a tortura e a morte a quem desafiar as suas regras. Um desmando sofrido pela equipe de O DIA.

Durante duas semanas, repórteres moraram na Favela do Batan, em Realengo, Zona Oeste do Rio. A idéia da reportagem era mostrar como vivem as pessoas em um local onde grupo clandestino tem lucro fantástico com a venda do gás de cozinha, do sinal pirata de TV a cabo e da segurança forçada, além do curral eleitoral. Mas, na tentativa de produzir material que mostrasse os desvios dessa realidade, os jornalistas caíram nas mãos da barbárie.

Denunciados, os repórteres de O DIA foram seqüestrados e mantidos em cárcere privado em um dos barracos usados como quartel-general pela quadrilha. O interrogatório e as torturas duraram sete horas e meia, período em que a equipe foi submetida a socos e pontapés, choques elétricos, sufocamento com saco plástico, roleta-russa, tortura psicológica e todo tipo de situação vexatória. Em um dos intervalos entre as sessões de agressões, a equipe identificou o barulho de sirenes iguais às das patrulhas policiais rondando o cativeiro. Mas os homens que chegavam ao local, em vez de socorrer as vítimas, eram solidários aos carrascos.

Em determinado momento, o cativeiro chegou a ter pelo menos 20 milicianos, entre torturadores, incentivadores e espectadores coniventes. As vítimas foram libertadas, depois de os criminosos terem passado todo o tempo garantindo que elas seriam torturadas até a morte. A condição seria manter segredo sobre a sessão de agressões. Foi a forma mais cruel e bárbara de testemunhar como a milícia age nas comunidades do Rio.

O crime cometido contra a equipe de O DIA aconteceu no dia 14 de maio. A cúpula da Segurança do Estado do Rio foi notificada. Hoje, mais de duas semanas depois das agressões, os fatos estão sendo publicados. A decisão de esperar esse tempo para trazer à tona a história foi tomada para que as investigações policiais não fossem prejudicadas e, principalmente, para garantir a segurança das pessoas envolvidas. Agora, espera-se pela punição dos culpados.

Favela do Batan

O Batan é em sua maior parte uma favela plana. O morro é a grande preocupação da milícia. A geografia e a miséria da área são agravantes, tornam o local propício a nova invasão do tráfico. As pessoas que vivem no morro são muito pobres, mas a milícia está obrigando os moradores que têm barracos de madeira a erguerem casas de alvenaria. Alguns já abandonaram os barracos, pois não têm condições de construir. A milícia também importou para o Batan a estética higienista da Zona Sul. Como a coleta só ocorre três vezes na semana, os moradores são obrigados a guardar grande quantidade de lixo em casa. E quem descumpre a ordem de não colocar lixo na rua fora dos dias de coleta é punido. O resultado são ruas limpas durante toda a semana.

Moradores da comunidade contam que há um trecho do Campo de Gericinó usado como cemitério do tráfico. Algumas senhoras falaram que não gostam de fazer caminhada por lá para não pisarem nas covas clandestinas. A presença de corpos não identificados na comunidade é uma rotina da população. Um senhor contou que seu vizinho invadiu um terreno e comprou material de construção para fazer uma casa. Durante as escavações para fazer a base da construção, encontrou um braço humano. Traumatizado, ele desistiu de construir a casa no local. Fala-se muito do cemitério clandestino de Gericinó. A área era usada para fazer "desova" dos inimigos e como desmanche de carros roubados.

Delegado: 'A milícia é um câncer'

Delegado titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas e Inquéritos Especiais diz que milicianos e traficantes devem ser duramente combatidos, mas que a milícia chega a representar perigo muito maior à população por reunir agentes públicos

Rio - Sob a bandeira de livrar as comunidades do tráfico de drogas, um exército de agentes públicos armados formaram as milícias. O domínio em favelas se expande tão rápido quanto um câncer em metástase. A proteção, entretanto, custa caro. Muitas vezes, vidas. Os métodos dos ‘homens da lei’ não diferem de tantos outros bárbaros adotados pelos traficantes de drogas. Em entrevista a O DIA , o delegado-titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas e Inquéritos Especiais (Draco-IE), Claudio Ferraz, atesta que o argumento de que a milícia é melhor que o tráfico é apenas um verniz para que as comunidades sejam subjugadas e, na verdade, produzam lucros incalculáveis aos milicianos. Para o delegado, o envolvimento de agentes públicos e políticos dificulta ainda mais o combate à milícia, classificada como parte da estrutura do crime organizado.

—As milícias usam o combate ao tráfico para dominar favelas. Mas são tão cruéis quanto os traficantes. Qual a avaliação que o senhor faz para o perigo que representam as milícias para o Estado?

—Com a experiência que temos hoje nesse tipo de investigação, o que mais chama a atenção é exatamente a capacidade, tanto da milícia quanto do tráfico de drogas, de subjugar a população nas áreas nas quais eles se intitulam donos. Hoje, candidatos a cargos políticos, a população e a própria polícia discutem, por exemplo, se a presença da milícia é mais vantajosa, menos perniciosa do que a do tráfico. Na prática, o que nós percebemos é que realmente você pode até identificar alguma dinâmica de violência mais agressiva por parte do tráfico. O que não quer dizer que a milícia também não utilize a violência. Muito pelo contrário, qualquer um que venha a dominar uma determinada região e vai obter lucros com a exploração de alguma atividade ilícita vai utilizar, em determinado momento, a violência para se impor. Então, o que acontece? Ambos usam a violência. A população nos dois casos está subjugada.

—O senhor acha que, pelo fato de a milícia ser formada por agentes públicos, a população se sente ainda mais refém?

—Tanto o tráfico quanto a milícia devem ser duramente combatidos. O grande diferencial entre eles é que a milícia traz uma periculosidade maior, por ser formada por agentes do estado. Com isso, a população, quando violentada, não tem a quem recorrer. Então, o que a gente vê na prática é a população completamente subjugada por perceber claramente o envolvimento de policiais civis, militares, agentes penitenciários, agentes do estado em geral, integrantes das Forças Armadas, políticos eleitos pelas milícias nas várias esferas. Então, o cidadão, quando se sente no direito de exigir respeito a sua liberdade, ou é vítima de uma agressão, não tem a quem recorrer. Não temos que ficar discutindo sobre se o tráfico é mais violento que a milícia. Os dois devem ser combatidos. A milícia não é a solução para implantar o estado democrático de direito.

—Exatamente pelo fato de a milícia ter o envolvimento de agentes públicos e políticos, o senhor acha que o combate aos milicianos é mais difícil do que aos traficantes?

—Existe a dificuldade, porque o policial que integra a milícia conhece a estrutura da polícia, da Justiça. Ele tem trânsito e abrigo de determinadas forças. Realmente, isso é uma característica que marca a milícia.

—Como o senhor avalia a atuação da milícia?

—É um câncer em metástase. Pelas informações que obtemos, é de uma evolução inclusive para municípios do Interior. Essa prática traz uma rentabilidade muito grande sob o domínio de determinadas áreas. Então, o que nós vemos é que tanto o miliciano quanto o traficante, eles cobram o equivalente ao IPTU, a taxa de transmissão de bens e imóveis, pedágio de circulação, taxa de proteção, exigem que a água e o gás sejam comprados apenas pelos fornecedores deles. No caso do Batan, teve até realização de censo para que eles possam ter um controle da comunidade votante e negociar em quem a população vai votar. Isso demonstra bem o perigo que a milícia representa.

—É possível mensurar o lucro dos milicianos?

—Não. Mas são muito altos. Tanto que gera a disputa de territórios. Essa história de que a milícia é melhor do que o tráfico de drogas é apenas um verniz. Temos informações de comunidades que foram vendidas pela milícia ao tráfico e, depois, retomadas.

—O que o senhor acha que mais motiva o crescimento das milícia?

—Uma das razões que turbinou a criação de milícias e que enche os olhos do tráfico é a questão do transporte alternativo que até hoje não está regulamentada. Assim como a venda do gás, desvio de sinal de TV a cabo e a cobrança de proteção. A questão da milícia é muito mais do que um problema policial, envolve políticas públicas.

—Na sua opinião, qual seria a melhor metodologia para combater as milícias?

—A milícia é um crime organizado. Estou convicto de que as ações da Polícia Civil, com inquéritos que geram processos sobre os casos relacionados às milícias, são fundamentais. Mas não resolvem a questão. Para ganhar lucros, tanto traficantes quanto milicianos impõem a cobrança de ‘serviços’, como se fossem um estado independente. A situação se revela como se fosse uma espécie de baronato. Com barões dominando determinadas áreas, fazendo muros e recrutando pessoas para fazer a vigilância. Esse domínio, que tem como objetivo ganhar lucros e aumentar o poder político, não é o problema de um inquérito, um processo ou a condenação de A, B ou C. Isso representa uma necessidade de se fortalecer as forças públicas de segurança e Justiça. É preciso ainda criar sistemas de serviços que atendam a todos de maneira uniforme.

—E o senhor sugere que medidas que possam ser eficazes?

—É preciso discutir mecanismos para montar uma forçatarefa no combate ao crime organizado. Nesse aspecto, estamos dando mais um passo. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, propôs um seminário com a participação do Ministério Público e do Judiciário. Pretendemos buscar informações com o FBI, a Polícia Federal americana, a Organização das Nações Unidas e adaptar algumas técnicas. A unidade de polícia tem que ser especializada, treinada, assim como o Ministério Público e a Justiça.

—Então, o senhor é a favor da criação de grupos especializados na Polícia Civil, Ministério Público e Justiça para combater o crime organizado?

—Sou a favor de que tanto a polícia, quanto o Ministério Público e a Justiça se equipem. Em outros estados, por exemplo, existem grupos específicos no Ministério Público e varas especializadas. Essas instituições têm que trabalhar bem afinadas. Há técnicas de proteção às autoridades, emprego de meios eletrônicos, especialização em crimes, como lavagem de dinheiro. É preciso investimento na formação das forças de segurança. O policial não pode se sentir tentado a se desviar de sua função.

Milícias já comandam 78 comunidades no Rio

Rio - Distantes de Realengo, mas com o mesmo rótulo. Formadas no começo dos anos 80 para "proteger" quem vive aonde o Estado raramente chega, as milícias armadas já estão em 78 comunidades (a maioria na Zona Oeste da cidade). E a expansão nos últimos quatro anos segue num ritmo acelerado. Neste período, os números da Secretaria de Segurança Pública mostram que, a cada mês, pelo menos uma favela é invadida e ocupada pelos grupos. Juntos, os bairros de Jacarepaguá, Praça Seca e Itanhangá concentram 30% das comunidades controladas pelos paramilitares.

A cobiça emergente chama-se Cidade de Deus, a única que permanece nas mãos do Comando Vermelho e é desejada pela capacidade de produzir dinheiro. Explica-se: lá moram mais de 50 mil pessoas, que podem ser transformadas em consumidores da TV por assinatura da milícia (gatonet) e usuários das Kombis piratas. Sem contar com o ágio que sempre cobram sobre a venda de botijões de gás.

A principal comunidade liderada pelos grupos armados é também o berço da milícia: Rio das Pedras, em Jacarepaguá. Foi lá que os policiais e ex-agentes iniciaram a história na cidade como uma cópia (com olhar mais financeiro) dos grupos de extermínio que nos anos 70 e 80 aterrorizaram a Baixada Fluminense. Impuseram o terror, eliminaram os rivais e assumiram os serviços sociais. No passo seguinte, controlaram o transporte, a entrega de gás e materiais de construção. Com os traficantes, aprenderam a distribuir cestas básicas e pequenos favores para criar uma rede de proteção e aliados na comunidade.

O sucesso no empreendimento serviu de lição. No começo dos anos 90, surgiam nas comunidades da Tijuquinha, no Itanhangá, e em Gardênia Azul, em Jacarepaguá, novos grupos controlando as favelas e oferecendo segurança privada aos comerciantes. E se livraram dos rapazes que vendiam drogas e praticavam pequenos furtos para mostrar força. Pronto: era o modelo que dava resultados e corria no boca-a-boca, abrindo novas "filiais" pelas comunidades vizinhas.

EXPANSÃO DA TROPA

Nada se compara à efervescência a partir de 2004. Foi quando a expansão chegou à outra ponta da Zona Oeste (em especial a Campo Grande e Bangu), à Região Norte e ao subúrbio da Leopoldina, incluindo Penha, Engenho Novo e Pilares. Tomou, inclusive, o novo cartão-postal do lado humilde da cidade: a Praia de Ramos, logo depois da inauguração do Piscinão de Ramos.

Com ares de crime organizado – e já bem longe da idéia de policial que toma conta do quarteirão onde mora –, a milícia entra em guerra e conta com o apoio de forças do Estado. Numa das ações, na Cidade Alta, em Cordovil, em 2007, os agentes paramilitares tiveram a ajuda de um Caveirão da PM, como foi investigado pela Corregedoria Geral Unificada da Secretaria de Segurança Pública.

A disputa com o tráfico chega à vizinha Favela da Kelson’s, onde um grupo de PMs da ativa expulsa os traficantes e passa a perseguir os moradores que são considerados suspeitos de ligação com os "ex-donos" da comunidade. Uma das vítimas desta guerra é o presidente da associação de moradores, Jorge Siqueira Neto, que foi seqüestrado no ano passado e nunca mais apareceu. Cinco policiais foram presos e acusados de participar de assassinatos na favela.

A morte também foi lição de terror para os moradores da Favela da Palmeirinha, em Guadalupe, onde famílias foram expulsas e pelo menos quatro pessoas foram assassinadas. O líder da quadrilha apontado nas investigações da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), o PM Fabrício Fernandes Mirra, foi pego numa escuta telefônica feita pela Polícia Civil mandando seus auxiliares espancar quem era suspeito. Na mesma interceptação, um outro policial brinca com os assassinatos dizendo que "opera as pessoas sem anestesia". Fica à mostra a face cruel da milícia.

Milícia vende 'apoio' a candidatos políticos

Rio - O coronelismo bateu continência às milícias. E abriu uma nova frente na disputa pelas eleições deste ano: o arrendamento dos currais eleitorais da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Agora, a ordem dos agentes paramilitares é oferecer o "pacote" de eleitores das regiões que "administram" a vários políticos e levar os votos a quem oferecer mais dinheiro.

Para provar que não vendem gato por lebre, na Favela do Batan, em Realengo, os milicianos recrutaram moradores para fazer o censo da comunidade. A repórter de O DIA foi uma das inscritas. Querem ter em mãos quem é eleitor por lá, quantos são e o número do título para apresentar aos políticos interessados. Quem comprar o "apoio" leva a certeza de que nenhum outro candidato vai colocar seus pés na favela e muito menos esticar faixas ou pregar galhardetes nos postes. Exatamente como é organizado o processo eleitoral nas favelas Rio das Pedras e Gardênia Azul. Elas já "elegeram" quem pode entrar nos bairros. Na eleição passada (2004), Rio das Pedras só permitiu a divulgação de duas campanhas políticas na comunidade.

A milícia que domina a Favela do Batan faz planos de ver o censo apontar que a comunidade tem 50 mil pessoas. Aumenta o cacife e o preço dos votos. E alguns nomes de políticos da Zona Oeste já são cogitados como possíveis interessados em fechar a "parceria" com os milicianos. Um deles já mantém até um cabo eleitoral no bairro. É o que garante Betão, um homem que fez um churrasco na favela no dia 6 de maio para os moradores e se apresentou como assessor de um deputado estadual.

"Este ano nós não vamos deixar todos os candidatos entrarem para pedir voto, não. Vai ser um só. Vamos fazer um censo na comunidade para saber o número de pessoas em cada casa, quem trabalha e quanto ganha cada morador", afirmou um integrante da milícia à equipe de O DIA, que foi até a Associação de Moradores do Batan e se cadastrou para trabalhar no censo.

Os milicianos explicaram que 20 pessoas estão realizando o trabalho. Quando a inscrição começou, 14 moradores assinavam a lista de "emprego". A promessa era de que cada um dos recenseadores receberia uma cesta básica e R$ 10 por semana. A cesta distribuída pela associação, contaram alguns moradores, seria fruto do desvio de benefício dado às escolas da região para ajudar a população mais pobre.

A dinâmica da comunidade dominada pela milícia foi vivenciada por equipe de O DIA do dia 30 de abril ao dia 15 de maio. Para ficar evidente que na comunidade todos "falam a mesma língua", eles já elegeram até o símbolo: uma águia. O panfleto distribuído aos moradores anunciando que o grupo assumia o controle do bairro mostra que a imagem do pássaro é a marca da milícia na região.

MARCA REGISTRADA

E marca registrada é o que não falta às milícias da Zona Oeste do Rio. O escudo do Batman está espalhado por quase todas as paredes e muros de Campo Grande e ganhou a campanha de dois candidatos do bairro: os irmãos Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, e Natalino Guimarães, deputado – o primeiro é vereador e está preso, suspeito da morte do ex-dono da Favela Rio das Pedras, o inspetor Félix Tostes dos Santos.

Os dois negam ligação com as milícias e Jerominho, na morte do inspetor. Creditam ao símbolo apenas o gosto pelo herói das revistas em quadrinhos e do cinema. Só não sabem explicar a razão de a sigla "Liga da Justiça" aparecer fazendo apologia a assassinatos e às milícias.

Limitar o acesso da concorrência aos redutos também é notado em Curicica, onde o líder da milícia (ex-candidato a vereador) desistiu de concorrerna eleição passada e arrendou os "votos" a um político influente e que acabou se elegendo.

Grupo controla até locação de imóveis

Rio - A regra ditada pela milícia do Batan diz que toda locação de imóvel deve ser precedida de análise rigorosa do morador interessado pela associação, dominada pelo grupo criminoso. O principal temor da milícia é a invasão da comunidade pela ADA, facção que dominava a favela antes dos policiais da banda podre. Aspectos da vida íntima ou da comunidade são da competência dos milicianos.

O ‘prefeito’ local é um sujeito franzino que só anda de touca ninja na comunidade. Conhecido como ‘01’, ele reveza carros em seus ‘policiamentos’ na favela. Está jurado de morte pela ADA. Costuma amedrontar os moradores posando com sua máscara e arma na cintura na padaria que funciona como ponto de observação dos milicianos, no Largo do Chuveirão. Os criminosos se organizam em turnos para distribuir a função de acordo com o trabalho do policial.

Os milicianos fardados formam o primeiro escalão do grupo criminoso, mas recrutam moradores com talento bélico para atuar como sentinelas na proteção de áreas que consideram vulneráveis. A mais frágil no Batan é o morro. Os milicianos já avisaram que pretendem instalar cancelas e portões nas vias de entrada da área.

"Eu era catador de papel. Vocês me vêem todo ferrado assim de dia, mas de noite só dá eu no morro, com a 12 na mão", afirmou senhor de aproximadamente 50 anos.

O miliciano de segundo escalão carregava no chuvoso 1º de maio um carrinho de mão e enxadas. Estava preocupado, pois não conseguia cumprir as ordens dos milicianos. "Acho que vou à Quinta da Boa Vista pegar grama. Se eu arrancar mato e plantar lá, quando crescer vou sentir o peso da Madalena", disse, referindo-se ao caibro utilizado como instrumento de tortura.

O homem conta que a grama seria colocada em volta do campo de futebol da casa usada como Quartel General da milícia, na Rua Pedro Nava. Outros três o acompanhavam. Também eram forçados a trabalhar para o grupo criminoso. "Outro dia eles perguntaram se eu queria bala. Pensei que estavam oferecendo munição e eles atiraram no meu pé só de curtição", contou. Os trabalhos forçados são rotina na favela.

Na maioria dos casos são direcionados a supostos viciados em drogas, obrigados a reformar casas dos milicianos e capinar. "Quem falou que o tempo da escravidão acabou? Aqui não teve 13 de maio, não", ironizou o miliciano de segundo escalão.

A milícia do Batan tenta criar novos rótulos e história para a ditadura que impõe à favela. Insiste em ser chamada de "segurança" e atribui à comunidade a condição de"condomínio".

Por toda a favela pichações com os dizeres "ADA" e "narizes" são apagados com tinta da mesma cor usada pela resistência do tráfico, que ainda existe em pequeno número. Os usuários de drogas são simplesmente "narizes". Mulheres mais velhas sequer pronunciam o termo. Fazem trejeitos com o rosto para simular a inalação quando se referem aos viciados.

O combate ao uso de droga transformou-se, na ideologia estreita dos milicianos, em uma cruzada moral. Qualquer morador pego com droga ou sob efeito dela é castigado e humilhado. Na segunda-feira, 7 de maio, no fim da Estrada do Engenho Novo, um rapaz abria uma valeta na rua com o rosto coberto de pó branco, num ritual de intimidação.

Os laços com o tráfico não foram completamente apagados. Na final do Campeonato Carioca, as famílias preferiram assistir ao jogo em suas casas para não confraternizar com os milicianos no Largo do Chuveirão, onde seria instalado um telão. Eles temem que a ADA retome o lugar e castigue os mais ligados à milícia. "Não gosto de conversar com eles. Não sei quando podem ir embora e, se os outros voltarem, como vou ficar?", pergunta uma moradora antiga.

A troca de poderes na favela criou uma legião de exilados. É o caso da pequena J, de 5 anos. O filho de Dona S. se envolveu com uma moça da favela. Eles tiveram um bebê. A mulher dele se apaixonou por um traficante e o largou. Foi morar com o criminoso e a filha. Quando a milícia invadiu, ela teve que ir embora porque o novo marido foi jurado de morte. A avó não conseguiu ficar sem a neta. O filho de Dona S. conseguiu tomar a menina, que agora está com a avó e não pode ver a mãe, proibida de entrar na favela.

A ditadura da milícia no Batan influenciou a religiosidade. Simpáticos à crença evangélica, policiais da banda podre fazem pipocar igrejas na comunidade. Usuários e pessoas ligadas ao tráfico fazem da Bíblia sua defesa contra a milícia. Seguidores do candomblé enfrentam dificuldades. Centros são destruídos de forma violenta no Batan.

Religioso da igreja Deus Responde com Fogo, que fica próxima ao QG da milícia, descreve com discurso bíblico a atuação do grupo armado. "Deus sempre manda uma ventania para mudar a vida do homem. No Batan, a ventania veio em forma de tiroteio".

O poder centralizado da milícia impressiona porque os bandidos conseguem impor suas vontades na vida íntima, política, social e comercial da favela. Os moradores são obrigados a pagar R$ 31 por um botijão de gás – R$ 5 a mais que no mercado comum – porque os milicianos impedem a entrada de outros caminhões na comunidade. A venda de água mineral também é controlada e não existe nos supermercados da região.

O serviço de gatonet pode ser solicitado via associação de moradores. Eles fiscalizam e punem o "gato do gato". O sinal é captado de um motel. O serviço é muito ruim. Os 100 canais oferecidos não passam de chuviscos ruidosos na tela. À época do tráfico, o gatonet custava R$ 35, agora, são R$ 20.

O serviço de vans é operado de 6h às 21h. É controlado por milicianos, mas um pastor da Assembléia de Deus também tem veículos na linha, o que aborrece os milicianos. Os carros rodam em péssimo estado de conservação e têm ponto final na Avenida Sulamérica, em Bangu. O valor da passagem é de R$ 2. Até moradores que têm RioCard recebem sugestão de tomar van, não ônibus.

O comércio informal é regulado. Os estabelecimentos não têm alvará ou CNPJ e por isso pagam taxa mensal de R$ 40 para funcionar. Depois de acabar com os bailes funk, os milicianos criaram um "pagofunk" para limitar a influência do estilo musical na favela.

O jogo do bicho era parceiro do tráfico. Quando a milícia invadiu, tiveram que fazer um acordo com eles para continuar. A milícia teme os cabeças do jogo do bicho.

> As milícia foram longe demais. (Paulopes Weblog)

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