A revolução que não houve... e mudou tudo (Estadão)


Talvez a geração de 1968 não tenha chegado aonde queria, mas mesmo assim deixou suas marcas na História, o que é uma outra maneira de vencer

por Luiz Zanin Oricchio

O número de adjetivos opostos que se podem aplicar a 1968 é praticamente inesgotável. Diz-se que foi o último suspiro do espírito coletivo, mas preparou o caminho para o individualismo contemporâneo. 68 falou em paz e amor mas teria praticado a guerra e levado à aventura da luta armada. Foi em essência anticapitalista e de esquerda, mas teria preparado terreno para o capitalismo global e consumista do mundo de hoje. Esse ano mítico, que teve seu epicentro em Paris durante o mês de maio, desperta até hoje reações e opiniões contraditórias, com pouco acordo possível entre elas. Tanto assim que, a cada dez anos, nos sentimos convocados a fazer reavaliações sobre tudo aquilo que aconteceu durante os 12 meses especiais de uma década toda particular. Foi um avanço? Um recuo? Uma aceleração da História? Símbolo da luta contra os autoritarismos, ou, pelo contrário, o mais radical e intolerante dos anos? Tudo cabe em 68. Ou quase tudo.

E por quê? Porque, provavelmente, cada um projeta sobre 1968 o que bem entende, segundo suas inclinações pessoais (políticas, ideológicas, e mesmo psicológicas). Por exemplo, quem apoiava o general De Gaulle na França, ou o governo militar no Brasil, tem poucos motivos para lembrar com carinho de 1968. Já quem, mesmo após a queda do Muro de Berlim, conserva o coração à esquerda, pode evocar 68 como uma espécie de idade de ouro da contestação. Quem ama a ordem acima de todas as coisas vê poucos motivos para admirar uma época em que tudo era questionado e posto de pernas para o ar. Quem prefere a instabilidade à injustiça lança outro olhar sobre o mesmo período. Espíritos clássicos tendem a evitar sobressaltos. Românticos os toleram melhor. E assim por diante. Nossa atitude em relação a 68 diz muito a respeito de quem somos.

No entanto, apesar desse subjetivismo de julgamento (o passado muda segundo os olhos que o enxergam), 1968 pode ser visto como um conjunto de fatos bem definido e que envolve uma efervescência fora do comum da juventude, sobretudo universitária. Fala-se muito em Paris e nas barricadas do Quartier Latin, mas as revoltas pipocaram em toda parte. No arco de alguns meses, os distúrbios passaram por Paris, Praga, Cidade do México, San Francisco, Varsóvia, Rio, São Paulo e outras cidades. O mundo parecia revirado pelo avesso e nenhuma das venerandas instituições ficou ao abrigo de petardos, morais ou físicos - Estado, Família, Igreja, Exército, Polícia, Educação, Partido. Tudo podia e devia ser contestado - e essa era a palavra de ordem comum.

Contestado em nome de quê? De um bem tão concreto quanto abstrato chamado liberdade. Se em Paris exigia-se o fim de um governo de velhos, em Varsóvia e Praga o alvo era o stalinismo. Praga vivia a sua primavera particular, sob o governo de Alexander Dubcek e sua proposta de socialismo com rosto humano. No Brasil, o alvo era bem visível - o governo militar, instalado quatro anos antes. Aqui, a tensão teve seu ponto alto após o assassinato do estudante Edson Luiz, e na posterior Passeata dos Cem Mil, que reuniu universitários, intelectuais, artistas e padres no centro do Rio. As manifestações se sucederam e o enfrentamento atingiu o clímax em São Paulo na luta entre os estudantes da USP e os do Mackenzie, que ocupavam lados opostos na ideologia e nas calçadas da Rua Maria Antônia. O conflito deixou um morto, um rastro de destruição e posições cada vez mais radicais de lado a lado. Dez dias depois, 'caía' o clandestino 30º Congresso da UNE em Ibiúna e as principais lideranças estudantis eram presas. O desfecho do ano rebelde brasileiro veio na forma de um radical fechamento do governo militar com o AI-5, decretado a 13 de dezembro, data que marca o fim de 1968 no País.

A vaga de 68 (porque, de fato, foi uma onda) mostra contornos particulares em cada país onde se quebrou. Nem poderia ter sido diferente, dada a diversidade de condições entre Praga e São Paulo, Paris e Cidade do México, por exemplo. Mas havia um aspecto comum. As lutas de 68 foram sempre antiautoritárias. Quer fosse um governo democrático mas sentido como 'antiquado', quer fosse uma ditadura militar ou a opressão de um império comunista - e lá estavam os jovens para se opor e, nas ruas, mostrar seu inconformismo.

Foi também uma época de invenções, que se multiplicavam sob a forma de frases, grafites, músicas, filmes, teatro, performances. A idéia era que tudo deveria ser jovem e 'novo', uma ideologia, na verdade, dos anos 60 mas que, como todas, em 68 se intensifica. Experimentou-se, em arte e na vida, como poucas vezes antes. Aliás, arte e vida passaram a ser tratadas como se fossem uma só. Viver artisticamente - essa era uma das utopias. Criar na rua, enquanto se vive. Abolir limites entre agir e pensar. Precisava-se mudar a sociedade, como queria Marx, e mudar a vida, como desejava Rimbaud.

Se isso não era possível na prática, parecia bem tangível no desejo. Por isso, 68 foi uma época de entrega generosa, pois sentia-se que todas as possibilidades estavam abertas. E, também por isso, viveu-se um voluntarismo que às vezes beirava a insanidade.

Como para mostrar que existe um abismo entre o desejo e sua realização, todas essas lutas terminaram, do ponto de vista prático, em derrotas inquestionáveis. No Brasil, o AI-5; na França, a volta de De Gaulle; em Praga, os tanques soviéticos; no México, o massacre da praça Tlatelolco; nos EUA, a eleição de Nixon, etc..

No entanto, do aparente fracasso, muita coisa ficou. Talvez mais no campo comportamental que no político. Apesar de a grande maioria das lideranças estudantis serem masculinas, deu-se um impulso vital ao feminismo e à igualdade entre os sexos. O autoritarismo foi questionado e cedeu em diversos níveis, nas famílias e nas escolas. Mesmo em instituições fechadas, como hospitais psiquiátricos, passou-se a questionar o 'lugar do poder' com os movimentos antimanicomiais. A ordem era duvidar de tudo e o argumento de autoridade perdeu a razão de ser.

Quando se relembra a cronologia de 1968, pode-se perguntar como tanta coisa pôde acontecer em tão pouco tempo. Vivia-se como numa febre, em estado de exaltação permanente. Uma espécie de embriaguez política e cultural, que não deixou de fabricar a sua própria ressaca. O day after de 68 foi menos ameno em algumas praças do que em outras. Se o voluntarismo se associa à crença de que os métodos violentos devem ser empregados em algumas circunstâncias históricas, então 68 pode estar na origem das lutas armadas que ocorreram na América do Sul e na Europa. No Brasil, o AI-5 fechou as válvulas de escape da política e abriu caminho para as tentações da ação direta, que já existiam de forma embrionária (a guerrilha do Caparaó é de 1966). A Itália e a Alemanha tiveram de enfrentar grupos armados como as Brigadas Vermelhas e a Baader-Meinhoff. E o fizeram sem abdicar das liberdades democráticas, é bom que se diga.

Outro 'subproduto' de 68, a apologia das drogas como forma de expansão da consciência, deve ser relativizado. Quem viveu aquele tempo sabe que as esquerdas brasileiras eram em geral muito 'caretas' a esse respeito. As drogas circulavam mais na cultura 68 americana que nas outras. Depois sim, espalhou-se para outros países e generalizou-se nos anos 70. A droga foi mitificada como a chave para as portas da percepção (lembrando que o livro de Aldous Huxley, com esse título, é de 1954) e o seu potencial destrutivo e as implicações sociais quando ligadas ao crime organizado não eram percebidos ainda.

Talvez por tudo isso, mas também por propor uma sociedade menos hierarquizada em todos os níveis, 1968 seja permanente má referência para conservadores. Não por acaso, o atual presidente francês Nicolas Sarkozy, durante a campanha eleitoral, afirmou que havia chegado a hora de enterrar de vez o legado de 68. Responsabilizou o maio parisiense por um sem número de males como a confusão entre o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o belo e o feio. Disse até mesmo que 68 havia promovido o culto ao dinheiro, à especulação e ao lucro fácil. Só faltou culpar 68 pela cabeçada de Zidane em Materazzi. No entanto, em pesquisa da revista Le Nouvel Observateur, a maior parte dos seus compatriotas sustenta o contrário. A imensa maioria (77%) afirma que em 68 teria ficado com os estudantes e apenas 14% ao lado das forças da ordem. Os franceses entendem que 68 teve efeitos positivos sobre vários aspectos da vida social como a repartição de tarefas entre homens e mulheres, os direitos sindicais, a sexualidade, relações entre pais e filhos, costumes, a vida política, a relação entre professores e alunos.

Seja como for, parece que durante 1968 a História pisou fundo e acelerou. Em ritmo febril, muitas lutas foram perdidas e outras ganhas, num balanço ainda por fazer. Por isso, voltamos a 68 a cada data redonda. Dez anos atrás, a mesma revista Le Nouvel Observateur revisitava a primavera parisiense com um título que talvez a defina muito bem: 'La fausse révolution qui a tout changé.' A falsa revolução que tudo mudou.


Uma revolta na cabeça e uma câmera na mão

Os cineastas não só se rebelaram antes como exerceram o papel de registradores das transformações

Sérgio Augusto

Maio 68 não começou em maio de 1968, mas três meses antes. E não foi nas universidades de Nanterre e Sorbonne. O movimento oficialmente deflagrado em 13 de maio de 1968 teve um prelúdio literalmente cinematográfico. Maio 68 começou com uma crise envolvendo a mundialmente venerada Cinemateca Francesa.

Em 7 de fevereiro, no segundo dia de filmagem de Beijos Proibidos (Baisers Volés), François Truffaut é informado pelo redator-chefe da revista Cahiers du Cinéma, Jean-Louis Comolli, que Henri Langlois, o legendário fundador e diretor da Cinemateca, estava pela bola sete. Dali a dois dias, a pedido do ministro da Cultura de De Gaulle, André Malraux, o conselho administrativo da Cinemateca se reuniria para demitir Langlois, acusado de incúria pelos olheiros do ministro. Langlois era, de fato, meio desorganizado, mas com o símbolo máximo da preservação da memória cinematográfica nenhum cinéfilo deixaria mexer. Demiti-lo seria um crime de lesa-cinema.

'Defender a Cinemateca é um ato político', decretou Truffaut, que se revelaria o mais ativo articulador do Comitê em Defesa da Cinemateca, criado em 16 de fevereiro, com a participação de todos os cineastas franceses, da mais vieille à mais nouvelle vague, tendo Jean Renoir como presidente honorário. Pressionado pela comunidade cinematográfica e os estudantes cinemeiros, Malraux veio a público, oito dias depois, explicar as razões da demissão - sem o menor sucesso. A zorra prosseguiu nos arredores do Palais de Chaillot, sede da Cinemateca, cada vez mais ruidosa.

Trinta e cinco anos mais tarde, Bernardo Bertolucci a recriaria no filme Os Sonhadores (The Dreamers). Mas coube mesmo a Truffaut a primazia de eternizá-la na tela em Beijos Proibidos, de resto, dedicado à 'Cinemateca Francesa de Henri Langlois'. Num plano rodado em 29 de março, a câmara se aproxima do portão do Palais de Chaillot, onde um aviso esclarece: 'Fechado. A data de reabertura será anunciada pela imprensa.'

Quatro dias depois, a sala de exibição da rue d'Ulm seria reaberta. O governo De Gaulle voltara atrás; como recuaria na Sorbonne, reaberta no dia 11 de maio. Àquela altura, tumultuada por uma greve geral dos trabalhadores e inflamadas estudantis, Paris deixara de ser uma festa. O chienlit impusera suas palavras de ordem além das fronteiras da reforma do ensino. Com reflexos em todas as instâncias artísticas. Era preciso mudar tudo, radicalmente: desaburguesar o teatro, romper com sistema de produção cinematográfica vigente, reavaliar o papel do cinema no capitalismo contemporâneo, reinventar uma nova maneira de filmar, distribuir e ver os filmes.

Essa política de tábula rasa contaminaria o Festival de Cannes daquele ano. Aberto em 10 de maio, acabaria suspenso, na marra, oito dias depois. Liderados por Truffaut e outros cineastas, alguns com filmes concorrendo na mostra, 1,2 mil profissionais de cinema da França montaram (na Croisette e em Paris) a sua Bastilha. Inspirados nos Estados Gerais da França (a improvisada assembléia da Revolução de 1789), criaram os Estados Gerais do Cinema Francês, fórum de debates permanentes sobre 'as estruturas reacionárias de um cinema transformado em mercadoria' e palanque para exortações fulcradas na liberdade total de criação e, com menor ênfase, na utópica submissão do aparato cinematográfico aos interesses da classe operária.

'Só a educação de uma nova platéia possibilitará o surgimento de um novo cinema', receitou o integrante de um dos vários planos de ação dos EGCF. Em audácia nenhum superou o Projeto 4. Apoiado pelo cineasta Claude Chabrol e pelo diretor-produtor Marin Karmitz, entre outros menos conhecidos, estipulava o financiamento de todos os filmes pelos espectadores, mediante um imposto criado para esse fim. Acreditava-se que essa socialização da produção isentaria o cinema de concessões comerciais, instituiria o ingresso gratuito, e daria aos cineastas a mesma margem de liberdade criativa de um escritor e um pintor.

Mesmo sem alcançar seus objetivos, muito menos aqueles nutridos por delírios marxistas-leninistas & maoístas, com ou sem o filtro Althusser, o cinema se impôs como a forma de manifestação artística que mais plenamente captou a crise, a energia e o Zeitgeist daqueles dias. Os cineastas não apenas se sublevaram antes como exerceram o duplo papel de catalisadores e registradores do movimento. E nenhum levou mais longe os ideais (ou os sonhos) do movimento que Jean-Luc Godard.

Ele já era o mais inquieto e influente cineasta francês, quando explodiu o affaire Langlois. Afora participações em três produções coletivas, realizara quatro filmes entre 1967 e 1968, dois lançados comercialmente durante o chienlit: A Chinesa e Week-End à Francesa. No primeiro, satirizava, com empostação brechtiana, a malversação do maoísmo pelo consumismo ideológico de certa esquerda. No segundo, engarrafava numa alegórica rodovia todas as aflições da burguesia. Como de hábito, só uma elite os aplaudiu. Em meio à tormenta política e social que se seguiu, o desiludido Godard radicalizou de vez. Aliado ao militante político Jean-Pierre Gorin, agarrou-se à quimera do Projeto 4: produzir filmes de criação coletiva, exclusivamente sobre e para a classe operária.

A França de 1968 não se transformou na Rússia de 1917 nem sequer para os bolcheviques da câmara. Langlois recuperou a Cinemateca, mas praticamente só os filmes agitados por Godard e o grupo Dziga Vertov persistiram em vão a serviço do proletariado, rodando documentários na Itália, na Checoslováquia e onde mais a 'revolução' se fazia urgente.

O espírito rebelde, contudo, fez escala em outros quadrantes, revigorando cinematografias periféricas, como a iugoslava (Dusan Makavejev), a suíça (Alain Tanner), a argentina (Fernando Solanas), e oxigenando por uns tempos os subterrâneos do experimentalismo (inclusive no Brasil de Julio Bressane e Rogério Sganzerla), sem deixar incólume ao seu feitiço o restante do Primeiro Mundo. Quem só pensou nos alemães Rainer Werner Fassbinder, Wim Wenders e Werner Herzog, e no italiano Bernardo Bertolucci, não percebeu os efeitos que a luta por um cinema mais autoral provocou na maior das Bastilhas, Hollywood. A explosão de Haskell Wexler (Dias de Fogo/Medium Cool) e o robustecimento de Robert Altman, Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg, na virada para os 70, tiveram mais a ver com a reviravolta de 68 do que supõe a vã historiografia.

Alguns sinais de que algo na tela estava mudando foram captados bem antes de maio de 1968. Com Bonnie & Clyde-Uma Rajada de Balas (1967), de Arthur Penn, Hollywood deslanchou uma escalada de violência que atingiria seu paroxismo dois anos depois, em Meu Ódio Será Sua Herança (Wild Bunch), de Sam Peckinpah. Com A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate, 1967), de Mike Nichols, abriram-se as últimas rachaduras no código de censura que, desde os anos 30, reprimia o cinema americano. Quando o sepultaram em outubro de 1968, até as bolas de cristal mais embaçadas vislumbraram uma década de intensa permissividade pela frente.

Sem entraves aos excessos da libido e da violência, o cinema americano ampliou sua hegemonia, impondo uma revolução em bases sem dúvida bem diferentes das propostas pelos Estados Gerais do Cinema Francês e os apóstolos terceiro-mundistas da 'estética da fome' aviada por Glauber Rocha. Para azar dos utopistas, as massas, depois do batente, queriam mesmo era ver sexo, sangue, ação, magia e tecnologia de ponta. Nada disso lhes faltou a partir da década de 1970. Salvou-se a indústria, danou-se o cinema autoral - e, mais ainda, o cinema devotado à causa operária.


Quando a poesia substituiu a prosa

As barricadas de Maio de 1968 foram diferentes das sangrentas barricadas parisienses do século 19

Olgária Matos

O maio francês, invertendo Engels em seu salto revolucionário, passou do socialismo científico ao socialismo utópico. A começar pelo internacionalismo - tradicionalmente só referido ao proletariado mundial - que se expandiu em filantropia radical: 'Les frontières on s'en fout'(Que se danem as fronteiras). Quanto a Cohn-Bendit, duplamente estrangeiro - judeu e alemão, um dos futuros mitos do movimento - a resposta ao risco de sua expulsão: 'Nous sommes tous des juifs allemands' (Somos todos judeus alemães). Por isso, nas paredes, a inscrição: 'Liberté démocratique, égalité sociale, fraternité des peuples'(Liberdade democrática/igualdade social/fraternidade dos povos).

Em 68, a poesia substituiu a prosa pois, se Monsieur Jourdain, de O Burguês Fidalgo, de Molière, falava em prosa sem o saber, é porque o cotidiano prosaico do consumo burguês é sem elaboração literária. Por isso, 1968 foi, ao mesmo tempo, épico, lírico e garantiu os direitos da subjetividade, pondo por terra o bolchevismo imaginário do Palácio de Inverno. Não foi uma luta pelo poder, mas contra ele. Não por acaso, há um eco, em 68, do Discurso da Servidão Voluntária de La Boétie. Aqui não se preconiza a violência contra o tirano: 'Decidam não mais servir e eis que vocês serão livres; não pretendo que vocês o acuem e o abalem, apenas não o apóiem mais, e vocês o verão, como um colosso a quem se retirou a base, desmoronar com seu próprio peso.' E nos muros: 'Il est douloureux de subir ses chefs, il est encore plus bête de les choisir'( É doloroso ter que suportar seus chefes, mas burrice maior é escolhê-los). Com efeito, diversamente da teoria da transformação revolucionária violenta da sociedade - que se constrói na lógica da efetividade das forças a combater - para o filósofo a trama do poder é imaginária e basta desfazer-se dela para ser livre, pois a multidão não é vítima de seus senhores mas de si mesma: 'Assim sendo, o povo tolo fabrica sozinho as mentiras para depois acreditar nelas.' E a construção imaginária por excelência é a linguagem e o encantamento da massa pelo Um, pela unidade, pois o tirano é antes de mais nada uma palavra, um 'princípio de reunião e de unidade'. Ele arranca a massa de sua diversidade: 'O senhor é aquele que se apropria do sentido, isto é, da palavra.'

Afastando-se de Marx , 1968 foi contra a estatização do indivíduo, afirmando os direitos da subjetividade e da espontaneidade criadora e consciente. Contrapôs-se à ideologia que condenava o indivíduo e a subjetividade, reduzindo-os à condição de 'individualismo' e 'sentimentalismo pequeno-burguês'. Com a crítica à ética da abnegação e do sacrifício, a crítica ao mundo desencantado e burocratizado colocou como lema a verdade triunfante do desejo. Contra o mundo sem sonho e sem poesia, fez-se o mês de maio, convertendo a prosa em poesia, a sociedade em comunidade política - aquela que quer a felicidade e encontra novas razões da vida em comum.

Aqui, o exemplo da Roma antiga, enfatizado nos Discorsi de Maquiavel. Paris, como a Roma de Tito Lívio, não reivindica uma revolução total, indo na contramão daqueles que pretendem instaurar uma ordem definitiva no mundo e na cidade, como os revolucionários que se baseiam no logos de filósofos, Platão ou Marx. Porque o desequilíbrio é a matéria vertente da política, Maquiavel reconhece a grandeza de Roma, no 'abandono tácito da idéia de solução definitiva': 'Embora se passasse de um governo da realeza e aristocrático a um governo popular (...), jamais se retirou toda a autoridade do rei para passá-la aos aristocratas, tanto quanto não se privou dela inteiramente estes últimos para oferecê-la ao povo; ao contrário, a autoridade, tendo permanecido mista, a república tornou-se perfeita.' Perfeita porque contraditória e 'imperfeita'. A Roma de Maquiavel inscreve em suas leis e costumes os conflitos que atravessam a sociedade, dando a si mesma os meios que promovem a paz: 'A desunião entre a plebe e o Senado romano tornou esta república livre e poderosa.' Glucksman, por sua vez, considera que o Maio de 68 foi a 'passagem da França a seu momento romano.'

Nova Ágora, a Paris de maio revelou a tensão, inerente à história política francesa, entre a soberania popular e o poder representativo. De fato, desde os anos 1600, a ação coletiva se passa, na França, a céu aberto, nas ruas da cidade, da Fronda às jornadas de 1789, de julho de 1830 a fevereiro de 1848, da comuna de 1871 à greve geral de 1936 e às barricadas de 68. A seqüência das greves que se espalharam pelo país inteiro, paralisando toda a produção de fábricas e indústrias, foi identificada, por sociólogos e analistas, como 'a maior greve geral de toda a História.'

Lembre-se que, desde que a Comuna de Paris e a autogestão foram substituídas pela República parlamentar, a França promove periodicamente 'reajustes' entre povo e governantes, o povo reeditando a luta anti-parlamentar que permanece viva: 'Agissez! Sabotez le parlamentarisme! Ne votez pas!'( Mexa-se! Sabote o parlamentarismo! Não vote). Reavendo Rousseau, o Maio de 1968 lembrava as análises do filósofo com respeito aos ingleses que, tendo sido os primeiros a instituir o parlamento no qual concentravam sua liberdade, só eram livres durante o momento em que se desenrolava o processo eleitoral. Com efeito, no Contrato Social, Rousseau anota que a liberdade só existe no momento em que se dá um vazio de poder, quando este retorna do Parlamento para a sociedade de que o poder se separa e sobre a qual se exerce. Recuperando a dimensão instituinte da política contra a instituída, a inscrição: 'Participation: le nouvel opium du peuple.'(Participação: o novo ópio do povo). Aliando Sorel à autonomia dos trabalhadores, o maio escreveu: 'greve ilimitada'. Das barricadas à festa revolucionária, o Maio de 68 foi , nas palavras de Cohn- Bendit, libertário, quer dizer : anticapitalista e antitotalitário, anticomunista e lúdico. Não considerou o sistema de partidos ou grupos de pressão a qualquer nível; não participou do sistema nem de seus métodos. O movimento não teve dirigentes, nem hierarquias, nem disciplina partidária.Contestou os profissionais da contestação, recusando o jogo que as oposições dominam: 'La volonté générale, contre la volonté du général'( 'A vontade geral contra a vontade do general' - trata-se de De Gaulle). Mesmo as barricadas não tinham caráter defensivo, foram mais um 'ato de linguagem' com valor de citação, um imaginário social transfigurado da pintura e da literatura do século 19, de Delacroix a Stendhal e Flaubert. Como observou o historiador Jaqcques Baynac, que acompanhou dia-a-dia as jornadas de maio, a construção das barricadas no Quartier Latin significou um grande momento de convivialidade, reunindo estudantes e moradores do lugar. Neste sentido, escreveria mais tarde Cohn-Bendit: 'Todos faziam qualquer coisa, sem saber. Na Rua Gay-Lussac havia dez barricadas, umas por detrás das outras, sem qualquer significado militar.Tínhamos vontade de fazer barricadas.' Se é verdade que as barricadas do século 19 significam sublevação popular, é por atestarem a utilização da cidade como uma geografia material que se vale da altura das casas, das pedras das ruas e dos estreitos caminhos. Foi Benjamin quem as considerou como paisagem do século 19: 'Barricadas - Às nove horas, em uma bela noite de verão, Paris - sem lampiões, sem boutiques, sem gás, sem veículos -oferecia um quadro único de desolação. À meia-noite, com as pedras do calçamento amontoadas, com suas barricadas, seus muros em ruínas, suas mil carruagens atoladas na lama, seus boulevards devastados, com suas ruas negras e desertas, Paris não se parecia com nada de conhecido; Tebas e Herculano seriam menos tristes; nenhum ruído, nenhuma sombra, nenhum ser vivo, fora o operário imóvel que guardava a barricada com seu fuzil e suas pistolas. Como moldura de tudo isso, o sangue da véspera e a incerteza do amanhã.' Benjamin não deixa de notar a engenharia dessas construções. Número de paralelepípedos das barricadas de 1830: com 8.125.000 pedras, ergueram-se 4.054 barricadas. Em 1848, sua altura alcançava os primeiros andares dos edifícios. Benjamin registra, ainda, os métodos nada convencionais dos combates populares: 'Mulheres jogavam óleo fervente ou água escaldante nos soldados. Cortavam os órgãos genitais de vários soldados da guarda aprisionados; sabe-se que um insurgente vestido com roupas femininas decapitou vários oficiais prisioneiros...viam-se cabeças de soldados espetadas em lanças plantadas sobre as barricadas (...). Por detrás de várias barricadas havia bombas de pressão que projetavam ácido sulfúrico contra os soldados que atacavam.(...). Enquanto os homens combatiam, as mulheres fabricavam pólvora e seus filhos preparavam projéteis, utilizando cada pedaço de chumbo ou estanho que lhes caísse nas mãos. Algumas crianças utilizavam dedais de costura para forjar as balas. Meninas carregavam paralelepípedos para as barricadas durante a noite, enquanto os combatentes dormiam.' As barricadas de 68 foram outras barricadas, mais próximas do utopista Fourier: 'A construção de uma barricada é um trabalho sedutor.' Depois das experiências totalitárias, o maio francês revelou que uma revolução não se reconhece pela tomada do poder mas por sua potência de sonho.

Olgária Matos é filósofa. Leia a íntegra de seu ensaio no especial sobre 1968 do portal estadao.com.br


Fé, política e o retrocesso conservador

Apesar dos avanços democráticos, a ordem prevaleceu sobre a justiça

Luiz Carlos Bresser-Pereira

A Revolução Estudantil de 1968, que ocorreu em todo o mundo e teve seu grande momento no maio francês, não marcou o fim de uma era, mas o fim dos Anos Dourados do Capitalismo iniciados em 1945. A revolução não abriu caminhos, mas encerrou um período de grande transformação e de grande esperança que foram os anos 1950 e 1960. Depois do pesadelo das duas grandes guerras, a humanidade parecia voltar a acreditar em um mundo melhor, mais republicano, mais solidário. A idéia de progresso, que morrera em 1914, parecia renascer. O período entre 1945 e 1970 foi de grande desenvolvimento. Nesses anos, as taxas de crescimento econômico por habitante em todo o mundo bateram todos os recordes, mais do que dobrando em relação ao desempenho da primeira metade do século 20 ou do século anterior. Por isso a denominação Anos Dourados do Capitalismo.

No plano político, as esperanças em um mundo mais democrático e mais justo ganhavam força. Os anos 50 já haviam sido de progresso político: os anos da Declaração dos Direitos do Homem das Nações Unidas, da independência das antigas colônias na África e na Ásia, das filosofias existencialistas e personalistas que afirmavam a responsabilidade de cada um de nós pelas nossas ações, do neo-realismo no cinema italiano, e dos beatniks começando uma revolução cultural. Mas foi nos anos 60 que o movimento transformador ganhou força, com o crescente ativismo e capacidade reivindicatória dos sindicatos, com a Revolução Estudantil, a revolução política da Igreja Católica da América Latina, com a Primavera de Praga, a nova independência sexual e pessoal das mulheres a partir da pílula anticoncepcional, a revolução cultural dos hippies, a explosão dos Beatles, a nouvelle vague na França, o cinema novo, a bossa nova e o tropicalismo no Brasil.

É claro que nem tudo caminhou na melhor direção. A Guerra do Vietnã aconteceu fundamentalmente nessa década, e foi um dos momentos de mais alta irracionalidade e barbárie dos tempos modernos. A própria Guerra Fria chegou a um momento de real risco no episódio dos mísseis russos levados para Cuba. Na América Latina, os anos 60 acabaram sendo trágicos porque, em nome dessa guerra ideológica, e especificamente da Revolução de Cuba, de 1959, houve um processo dominó de golpes militares com apoio dos Estados Unidos, que começou no Brasil em 1964, passou pela Argentina e o Uruguai, e terminou no Chile em 1973. Na China, a Revolução Cultural pretendia inscrever-se nesse quadro, mas, afinal, como acontece quando as utopias se radicalizam e se transformam em programa de ação revolucionária, tornou-se intolerante, contra o próprio pensamento que lhe deu origem, e, por isso, totalitária. Mas esses fatos não impediram que os anos 60 fossem anos de transformação e de esperança, em que o mais nobre dos objetivos políticos - a Justiça - pairou alto entre as expectativas de todos. Afinal, os Estados Unidos foram vencidos no Vietnã e, no fim da década, a revolução estudantil mundial e a revolução política da Igreja Católica da América Latina apontavam novos caminhos.

Caminhos, entretanto, que não foram seguidos. As duas revoluções terminaram: a revolução estudantil foi só um momento; a mudança na Igreja Católica perdeu força na América Latina e foi interrompida em nível mundial a partir do longo papado de João Paulo II. O retrocesso conservador, porém, não se limitou ao esvaziamento das duas revoluções utópicas. A partir de 1970 houve progresso técnico e material, a renda por habitante cresceu ainda que mais lentamente do que no período anterior, mas os novos tempos foram tempos contra-revolucionários, tristemente conservadores, foram um momento em que a ordem prevaleceu sobre a Justiça, e que a violência ressurgiu com força, apesar dos avanços democráticos. Apesar de o desenvolvimento científico e econômico terem continuado a ocorrer de forma acelerada, e de o mundo ser hoje mais próspero do que era então, é impossível não reconhecer que o mundo se tornou mais desigual e injusto, e, o que é pior, mais inseguro. Que o envolvimento cívico das pessoas diminuiu enquanto o individualismo avançava em quase toda parte. Que a renda, que se desconcentrava depois da 2ª Guerra Mundial, voltou a concentrar-se em quase todos os países. Que o crime organizado, o tráfico de drogas, de mulheres e crianças, e o terrorismo ganharam novo impulso. Que o crime continuou a grassar nas grandes cidades da periferia do sistema capitalista.

O individualismo e o conservadorismo de agora, assim como o crescente cinismo da classe média que nos anos 60 era a fonte de toda a mudança, são evidentes. Robert Putnam demonstrou-os amplamente em relação aos Estados Unidos. O espírito cívico, expresso no capital social, na existência de redes sociais e particularmente de organizações cívicas, que aumentava até os anos 60, entra em claro processo de retrocesso a partir da década seguinte. 'Nos anos 60', diz ele, 'os grupos comunitários na América pareciam estar no limiar de uma era de expansão e envolvimento (...) Nas últimas décadas do século 20 (...) começaram a desaparecer.' Depois de um momento de grandes mudanças é normal que a ordem volte a ser colocada em primeiro lugar. E, como mostrou Albert Hirschman, depois que uma geração coloca todas as suas esperanças na transformação social e as vê frustradas, é de se esperar que a próxima se volte para os interesses individuais ou mesmo que se torne cética e cínica. Bárbara Ehrencheich, escrevendo sobre a classe média profissional, que, por sua própria ubiqüidade, caracteriza o mundo dos países ricos, observou que a jornada intelectual, política e moral dessa classe foi uma história que começou com o clima de generosidade e otimismo nos anos 60, para terminar em cinismo e em um auto-interesse cada vez mais estreito. Por outro lado, os dados sobre o aumento da concentração de renda, a redução das oportunidades de mobilidade social e o aumento da violência estão em toda parte. Vejam-se, por exemplo, os dados referentes aos dois primeiros problemas, e portanto ao problema da justiça social, nos Estados Unidos. De acordo com pesquisa realizada pelo Economic Policy Instititute, de Washington, enquanto em 1979 e 2000 os 20% mais pobres tiveram sua renda média aumentando 6,4%, a renda média do 1% mais rico aumentou 184%. Enquanto os cem principais executivos recebiam em 1979, uma remuneração média anual de US$ 1,3 milhão, hoje ela é de U$ 35,5 milhões: em 1979 a remuneração dos executivos era 39 vezes maior do que a do trabalhador médio, em 2000 essa relação havia aumentado para acima de 1.000 vezes! Por outro lado, segundo pesquisa de Earl Wysong e de dois colegas, os três da Universidade de Indiana, a mobilidade social nos Estados Unidos caiu verticalmente: em 1978 23% dos adultos que nasceram entre os 20% mais pobres da população haviam alcançado o nível correspondente ao quinto mais rico; em 1998, essa porcentagem caiu para apenas 10%. The Economist (1º/1/2005), relatando esses dados, comenta: 'Em qualquer setor que você olhe os Estados Unidos de hoje você verá elites aperfeiçoando a arte de se autoperpetuarem. Os Estados Unidos são cada vez mais parecidos com a Grã-Bretanha imperial, com dinastias proliferando, grupos sociais entrecruzando-se, mecanismo de exclusão social ganhando força, e a diferença entre as pessoas que tomam decisões e moldam a cultura e a vasta maioria dos trabalhadores aumentando.'

A Revolução Estudantil de 1968 terminou, afinal, em contra-revolução. No próprio campo dos jovens, acabou se reduzindo a mais liberdade sexual. Conforme observou Jacques Rancière, 'a crítica a essa sociedade havia sido uma das grandes palavras de ordem do movimento de 1968, mas pouco importa: Maio de 68 tornou-se retrospectivamente o movimento de uma juventude impaciente para gozar todas as promessas do livre consumo do sexo e das mercadorias (...) Ao transformar a sociedade inteira em uma agregação de consumidores narcisistas, desligados de qualquer elo social, ele garantiu o triunfo definitivo do mercado capitalista'.

Há boas indicações, entretanto, que a contra-revolução conservadora e neoliberal dos últimos 40 anos está terminando. O fracasso das reformas neoliberais, o desastre representado pela Guerra do Iraque, a crise financeira nos Estados Unidos são sinais de que os Anos Neoliberais terminaram. O que nos espera? Não são os críticos sociais que nos darão essa resposta, mas a própria dinâmica de cada sociedade nacional e da sociedade global em que vivemos. Devemos, entretanto, estar atentos, porque os novos tempos não decorrerão apenas da reação aos fracassos anteriores, mas das vontades políticas republicanas que souberem aproveitar o bom momento para fazer o mundo caminhar na direção da paz, da liberdade, do bem-estar, da justiça social, e da proteção da natureza.

Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor de Economia na FGV-SP e de Teoria Política na USP


A história comparada de duas rupturas

Distintos entre si, 68 e 89 deixaram herança semelhante: um capitalismo mais forte

Timothy Garton Ash

1968 e 1989 distinguiram-se de muitas maneiras, mas ambas as datas deixaram um capitalismo mais forte, reformado, mais liberal em termos culturais e sociais - que agora está ameaçado... Durante a 'revolução de veludo' de 1989, eu espiava um cartaz improvisado em uma vitrine de Praga. No cartaz, '68' virara 180 graus, e se transformara em '98', com flechas indicando a rotação. 1968 e 1989: a história de duas revoluções. Ou pelo menos, duas ondas de eventos que muitos, na época, chamaram de 'revoluções'. Este ano, 1968 completa 40 anos, e 1989, 20, no próximo. Qual das duas datas será mais rememorada? E qual das duas provocou maiores mudanças?

Em matéria de comemorações, será difícil ganhar de 1968. Já se derramou muito mais tinta no aniversário desta data do que sangue nas guilhotinas de Paris, depois de 1789. Mais de cem livros teriam sido publicados somente na França para lembrar o revolucionário teatro de maio de 68. A Alemanha teve sua própria beerfest dos intelectuais; Varsóvia e Praga revisitaram as ambigüidades doce-amargas das respectivas primaveras; e até a Grã-Bretanha fez uma edição retrospectiva da revista Prospect, a mais importante publicação intelectual do país.

Não é difícil identificar as causas desta orgia editorial. Os que viveram 1968 são uma geração particularmente bem definida em toda a Europa - provavelmente a que melhor foi definida desde a que poderíamos chamar de classe de 39, aquela cuja existência foi moldada pela experiência juvenil da Segunda Guerra Mundial. Estudantes em 1968, seus representantes - hoje com cerca de 60 anos - ocupam os lugares mais preeminentes na produção cultural na maioria dos países europeus. Vocês acham que eles deixarão passar uma chance de falar de sua juventude? Devem estar brincando. Não sou importante, 'moi'?

A de 89 não é uma classe que lhes possa ser comparada. Os protagonistas daquele ano rico de eventos extraordinários eram diferentes: mais diferentes e, poderíamos dizer, mais 'serieux'. Dissidentes tarimbados, 'apparatchiks', lideranças da Igreja, trabalhadores (homens e mulheres) de meia-idade que se postavam pacientemente nas ruas, finalmente decidiram que estava na hora de acabar com aquilo. Os estudantes tiveram importante atuação em poucos lugares - principalmente em Praga, onde uma manifestação deu início à revolução de veludo - e agora, 20 anos mais tarde, alguns deles são personalidades de destaque na vida pública de seus países. Mas os líderes de 89 eram em geral mais velhos, e muitos deles, na realidade, haviam participado realmente de 68. Os próprios 'heróis da retirada' soviéticos , ao redor de Mikhail Gorbachev, foram marcados pelas memórias de 1968.

É uma norma geral os acontecimentos de que nos lembramos mais intensamente serem os que vivenciamos na nossa juventude. O alvorecer que você vislumbrava aos 20 anos, com uma jovem ou um jovem em seus braços, talvez tenha se revelado um falso alvorecer; o que você testemunha aos 50, poderá mudar o mundo para sempre; mas a memória, chicaneira e ardilosa, sempre preferirá o primeiro. Além disso, enquanto 1968 ocorreu nas duas metades, ocidental e oriental, da Europa, em Paris e em Praga, 1989 só aconteceu de fato na metade oriental. Os europeus ocidentais não passaram, em sua maioria, de espectadores fascinados de 89, não foram seus atores.

Politicamente falando, 89 mudou muito mais. As primaveras de Varsóvia e de Praga de 1968 acabaram em derrota; as primaveras de Paris, Roma e Berlim acabaram em restaurações parciais, ou apenas em mudanças gradativas. Provavelmente, a maior manifestação de rua de Paris, no dia 30 de maio de 1968, foi uma da direita política, que o eleitorado francês recolocou no poder por mais uma década. Na Alemanha Ocidental, parte do espírito de 68 desembocou com maior sucesso na social-democracia reformista de Willy Brandt. Em todos os países do Ocidente, o capitalismo sobreviveu, reformou-se e prosperou. Em 1989, ao contrário, deu-se o fim do comunismo na Europa, do império soviético, da divisão da Alemanha, e da luta ideológica e geopolítica - a Guerra Fria - que moldara toda a política mundial durante meio século. Aquele ano, em suas conseqüências geopolíticas, foi tão memorável quanto 1945 ou 1914. Em comparação, 68 foi um evento de somenos importância.

Revisitada hoje em dia, grande parte da retórica anarcoliberalista, marxista, trotskista ou maoísta de 68 parece ridícula, infantil e moralmente irresponsável. Para citar George Orwell, foi como se as pessoas brincassem com o fogo sem sequer saber que o fogo queima. Evocando o início de um 'período de transição revolucionária cultural' - a brutal revolução cultural do presidente Mao, que destruiu inúmeras vidas, enquanto servia de modelo a ser emulado na Europa - e descrevendo os vietcongues como as 'forças revolucionárias da libertação' contra o imperialismo americano, Rudi Dutschke disse ao Congresso vietnamita, em Berlim Ocidental, que estas verdades libertadoras haviam sido descobertas mediante 'a relação específica de produção dos produtores estudantes'. Ou seja, a produção de baboseira. Na London School of Economics eles gritavam: 'O que queremos? Tudo. Quando queremos? Agora.' Narciso agitando uma bandeira vermelha.

Aqueles que em 1968 mostraram-se tão duros com o fato de alguns da geração de seus pais (os nascidos em 1939) terem simpatizado com os terrores do fascismo e do stalinismo talvez desejem, neste aniversário, fazer uma reavaliação de sua própria tendência pouco responsável a simpatizar com o terror em países distantes a respeito dos quais pouco sabiam. Mas nesta avaliação está também o fato de que muitos dos principais representantes da geração de 68 conseguiram tirar lições destes erros e frivolidades. Nas décadas seguintes, eles até se engajaram em uma política mais séria de um 'novo evolucionismo' liberal, social-democrata liberal ou verde (para usar uma fase do polonês Adam Michnik, também representante de 68), que incluiu o fim de uma série de regimes autoritários europeus, de Portugal à Polônia, e a promoção dos direitos humanos e da democracia em países distantes a respeito dos quais aprenderam a conhecer mais.

Um balanço que descreve 68 como uma época frívola, evanescente e inconseqüente, em contraposição a 89, ano de graves e conseqüentes acontecimentos, é demasiado simplista. Um ponto essencial foi destacado pelo arquetípico representante de 68, Daniel Cohn-Bendit: 'Ganhamos em termos culturais e sociais, enquanto, felizmente, perdemos em termos políticos.' 1989 produziu, com uma espantosa ausência de violência, uma transformação das estruturas da política e da economia nacional e internacional, que acabou mudando o mundo. Em termos culturais e sociais, ela tem mais o caráter de uma restauração, ou pelo menos, da reprodução ou imitação das sociedades de consumo ocidentais atuais. 1968 não produziu uma transformação comparável das estruturas políticas e econômicas, mas foi o catalisador de uma profunda mudança cultural e social, tanto na Europa oriental quanto na ocidental. ('1968' aqui tem realmente o sentido de um fenômeno maior, de 'toda a década de 60', com a difusão da pílula, que foi mais importante do que qualquer manifestação ou barricada.)

Nenhuma transformação nesta escala se dá sempre para melhor, e vimos alguns efeitos negativos disso em nossas sociedades de hoje; mas, no cômputo geral, ela constituiu um passo adiante rumo à emancipação humana. Na maior parte das nossas sociedades, e na maior parte do tempo, as chances de vida das mulheres, dos homossexuais e das lésbicas, das pessoas pertencentes a variadas minorias e a classes sociais às quais hierarquias ultrapassadas impedem de avançar, são muito maiores hoje do que antes de 1968. Até mesmo críticos de 68, como Nicolas Sarkozy, beneficiaram-se com esta transformação. (Será que este filho divorciado de imigrantes poderia tornar-se presidente nos idílios conservadores pré-68 por ele imaginados?) Agora, esta sim pode ser uma revolução...

Por mais contrastantes que os dois movimentos tenham sido, é o efeito conjunto das utopias de 68 e das antiutopias de 89 que produziu, na maior parte da Europa e do mundo, uma versão globalizada de capitalismo reformado, liberal em termos sociais e culturais, e politicamente social-democrático. (Tradução de Anna Maria Capovilla)

Timothy Garton Ash é professor de Estudos Europeus de Oxford, bolsista sênior da Hoover Institution, Universidade de Stanford, e, mais recentemente, autor da obra Free World


Acima de tudo, uma rebeldia política

Assim o sociólogo Francisco de Oliveira define o maio sangrento em que estudantes e operários viveram em perigo

Antonio Gonçalves Filho

O professor de Sociologia pernambucano Francisco de Oliveira estava no México, em 1968, ano em que 300 estudantes foram massacrados por forças policiais numa manifestação política realizada em outubro, em Tlatelolco. Retornando ao Brasil nesse mesmo ano, o autor de Crítica da Razão Dualista (Boitempo), um dos fundadores do PT e hoje um de seus maiores críticos, testemunhou situações piores no País, do qual estava ausente desde sua prisão, em 1964. Na entrevista concedida ao Estado, o sociólogo conta essa experiência e faz um balanço dos movimentos surgidos na esteira do Maio de 1968.

O senhor foi preso em 1964 e voltou ao Brasil justamente em 1968, quando os franceses saíam às ruas para protestar. Que lembranças o senhor tem do período e como o senhor interpreta a palavra de ordem de Sarkozy, de 'liquidar a herança de 1968'?

Tem certas ondas na história que são de difícil compreensão. Mesmo a posteriori é difícil dizer, porque nós, das ciências humanas, estamos muito presos à causalidade. Houve uma espécie de frisson quase universal em 1968 - mais notável na Alemanha e França. Passei dois anos no México e Guatemala antes de voltar. No México, em 1968, tivemos Tlatelolco (manifestação que terminou no massacre de 300 estudantes na Plaza de las Tres Culturas na cidade, em outubro desse ano). Se as ciências sociais nos ajudassem a prever eventos como esse, eu teria ficado no avião, não no México ou no Brasil. Não fui diretamente personagem de 1968, nem na França nem no Brasil. Acabara de chegar e, portanto, não poderia estar imerso na turbulência brasileira. Seria, então, falso falar sobre esse ano no Brasil. De qualquer modo, a interpretação mais aceita é que 1968 abriu as portas de uma espécie de revolução cultural no Ocidente, na qual se inscreveriam temas como o da sexualidade. Entretanto, dizem Rancière e Zizek que todo mundo esquece que 1968 foi sobretudo uma revolta política. Que ela tenha tido efeitos vagamente culturais nem precisa ser dito, pois toda revolução política tem efeitos culturais. Na França, essa foi marcadamente uma revolta anticapitalista. Os atores centrais não foram os estudantes, mas os operários. Se olharmos para outros panoramas e sociedades, veremos que isso se repete. No Brasil, também, embora o movimento operário estivesse submerso. Havia uma resistência operária muito forte ao regime militar, como provam as greves de Contagem e Osasco. Elas são marcantes nessa espécie de maio de 68 brasileiro, que culmina com a passeata dos 100 mil no Rio (protesto político contra a ditadura militar na Cinelândia, realizado no dia 26 de junho).

O senhor menciona o caráter anticapitalista do movimento de 1968. Seus protagonistas imaginavam mesmo estar fazendo uma revolução marxista? As manifestações não foram determinadas por mudanças estruturais na sociedade?

Revolução é um fenômeno tão imprevisível que nenhuma ciência social é capaz de dizer o que seus atores queriam. Gosto muito da interpretação do Trotski sobre a Revolução Russa. Ela é tratada como a revolução mais previsível da história, mas Trotski diz, no prefácio de sua História da Revolução Russa, que ela aconteceu sem que nenhuma das suas causas - reconhecidas a posteriori como seus fatores detonantes - houvesse sido prevista. Uma das possíveis interpretações da revolução de 1968 é a de que a euforia do consumo teria levado os estudantes a célebres palavras de ordem como 'É proibido proibir' ou 'Sejamos realistas, peçamos o impossível'. Coloca-se o acento na performance dos atores, o que não descarta o fato de as modificações estruturais na sociedade terem apertado o gatilho de algo que estava embutido nessas transformações. No Brasil, mal se iniciava o chamado período do milagre brasileiro. Portanto, qual era o efeito amortecedor ou detonador na sociedade brasileira? Não se conhece muito das ações clandestinas, sobretudo do Partido Comunista, que era o mais organizado. É possível, sim, dizer que as manifestações de maio de 1968 foram determinadas por mudanças estruturais na sociedade, mas a relação de causa e efeito mais imediata é difícil de estabelecer. No Brasil, temos modificações importantes, como o sindicalismo que iria crescer no ABC, desconectado das tradições políticas anteriores do operariado, mas, do ponto de vista midiático, a manifestação mais robusta aconteceu mesmo no Rio.

Muitos dizem, como o filósofo esloveno Slavoj Zizek, que o que sobreviveu dos movimentos de liberação sexual de 1968 foi o hedonismo tolerante, hoje incorporado à ideologia hegemônica de uma sociedade turbocapitalista. Há outra maneira de explicar esse hedonismo sem relacioná-lo ao maio de 1968?

Não sei se eu diria isso tão categoricamente como Zizek. Houve, sem dúvida, uma mudança na família, que todos consideravam o núcleo básico da sociedade - na verdade, não é. Há uma espécie de antecipação do sistema capitalista, capaz de engolir os processos transformadores, de modo que a liberdade sexual virou parte da indústria de entretenimento. Há uma certa forma de capturar o novo, mas mesmo essa captura vai produzindo, no subterrâneo, modificações sociais que perduram. O Brasil é uma sociedade permissiva, que absorve as mudanças com uma velocidade espantosa. A Europa, ao contrário, é sempre mais recatada. A nossa é uma cultura pouco resistente. Ela se deixa penetrar, permear, modificar muito facilmente pelo que vem de fora, especialmente pelo que Gramsci chamava de americanismo. Até a semana passada acompanhava a novela Desejo Proibido, da Globo, em que o autor (Walther Negrão) tratou com delicadeza as transformações sociais do período (anos 1930, em Minas), enquanto na outra novela da mesma emissora, Duas Caras, o autor (Aguinaldo Silva) usou mão pesada e abusou do hiper-realismo sem conseguir o mesmo efeito. Acompanhei com prazer a primeira, justamente a mais doce, que parece mais revolucionária, por tratar com humor dessa revolução de costumes trazida pelo cinema americano.

No ano passado, estudantes brasileiros ocuparam reitorias em várias universidades do País, em atos de oposição ao decreto que alterava a autonomia universitária, indicando que a idéia de alienação dos estudantes no século 21 precisa ser revista. Como o senhor analisa essas ocupações, que ocorreram de forma independente de outras instituições? É possível dizer que elas são uma herança de 1968?

Não. Num ciclo longo à la Braudel, pode ser, mas num ciclo curto, os movimentos sociais não guardam essa memória. Ela é de difícil transmissão. Participei ativamente desses episódios na USP, porque flagramos o completo anacronismo das entidades de representação dos estudantes e professores. O grupo de professores, sem nenhuma representatividade, tentava estabelecer um diálogo entre a reitoria e os estudantes, o que mostra que essas instituições são rapidamente superadas na trajetória da sociedade brasileira. Há uma espécie de permanente obsolescência das instituições, que não conseguem processar os novos conflitos que vão surgindo. Por outro lado, é difícil dizer que o movimento estudantil guardava a memória de 1968. Isso nem passou pela cabeça dos estudantes.

Há 40 anos ninguém falava em refugiados climáticos ou catástrofes ambientais, mas essa já é a realidade depois de tsunamis, Katrinas e até terremotos no Brasil. Isso reaviva a discussão sobre migrações em massa e discriminação étnica e racial. A agenda libertária de 1968 pode ser afetada pela ameaça de catástrofes ambientais?

Certamente. Há um risco de recrudescimento repressivo dos estados nacionais e também a formação de um racismo sublatente em todas as partes do mundo. Ainda não estamos experimentando isso no Brasil porque, por enquanto, apenas exportamos gente que não satisfaz suas expectativas de realização no próprio país. Como não há um corrida do ouro no Brasil, ainda não testemunhamos movimentos migratórios dessa natureza, mas nossas cidades não passam, hoje, de vastos acampamentos de miseráveis - e aí as formas repressivas surgem para valer. O Rio é um capítulo à parte, por ter uma geografia peculiar, mas, em São Paulo, o problema não é menor. Nos últimos anos, vimos governos rotulados de progressistas tomando medidas repressivas na cidade, o que é espantoso. Construíram muros antimendigos, cercaram parques e desenvolveram projetos ambiciosos de revitalização como esse da 'Cracolândia', tudo para separar e excluir. Essas formas de repressão estão aí, à espera. Elas vão se reproduzir silenciosamente, como parte de um movimento malthusiano. Está sobrando gente para o capitalismo .


Eles não queriam o poder, mas desacatá-lo

Líderes do movimento falam ao Estado sobre motivações que levaram ao Maio

Andrei Netto

Em dezembro de 1967, Raymond Aron, filósofo e grande referência teórica do liberalismo e do pensamento de direita na França, anunciou oficialmente seu desligamento da Sorbonne. Ao imolar seu posto, um dos mais almejados pela intelligentsia parisiense, Aron denunciava o imobilismo das instituições universitárias do país. Nove meses depois, em agosto de 1968, Aron publicaria La Révolution Introuvable, uma crítica ardente contra as então recentes revoltas estudantis que haviam eclodido em Nanterre e Paris e se irradiado para o mundo. Para o filósofo, na primavera de Maio de 68 o discurso fora substituído por um projeto político inexistente. Era, neste sentido, simulacro de revolução.

'Deslocar o bloco social da universidade sem saber que bloco construir ou a fim de deslocar a sociedade inteira é niilismo de estetas, ou melhor, irrupção de bárbaros, inconscientes de sua barbárie', escreveu Aron. Seu livro hoje é artigo de colecionador. Banido das livrarias, não costuma ser lembrado entre as interpretações de Maio de 68 nem por aqueles que também encontravam na arbitrariedade, no centralismo e na burocracia do poder nas universidades da França a razão inicial de sua revolta.

Nas quatro décadas que se seguiram, a demonização da análise de Aron se deu, em parte, por ser de fato uma visão acalorada, reacionária, rancorosa até dos eventos. Mas a expressão 'revolução inencontrável' vem sendo cada vez mais citada nas análises publicadas na França em 2008 sobre os 40 anos de Maio. As leviandades e desamores da obra de Aron em relação à revolta estudantil podem ser descartados, mas não a idéia de que havia, em Maio de 68, um vínculo perdido em relação à idéia de revolução, sempre presente no imaginário local desde 1789, marco da Revolução Francesa. Hoje, há na França uma tendência intelectual que afirma com convicção: Maio de 68 foi o fim do parêntese revolucionário na história da modernidade.

A análise parece em desacordo com os relatos históricos que mencionam as bandeiras vermelhas - de comunistas - e negras - de anarquistas - em meio às multidões que protestavam em Paris. Também destoa da maior greve jamais realizada. E talvez entre em conflito com o discurso de muitos dos líderes do movimento, que mencionavam a palavra 'revolução' em seus discursos ou que, como Guy Debord e os situacionistas - intelectuais do movimento -, agiam como se fossem a esquerda da extrema-esquerda. Mas na França não havia um ideário que conduziria à tomada do governo. E esse é, precisamente, o ponto que indicaria o esgotamento da idéia de revolução: se em 1789 o povo ansiava pelo poder, em Maio de 68, ninguém de fato o queria.

'Maio de 68 trouxe à luz uma revolta imaginária com todos os elementos dos movimentos revolucionários', disse ao Estado Jean-Pierre Le Goff, autor do clássico L'Héritage Impossible (A Herança Impossível, de 1998). 'A idéia de revolução é a própria história da França. O que diferencia as revoltas de então é que as barricadas da rua Gay-Lussac em 1968 têm uma dimensão simbólica', explica. Os franceses vão às ruas, protestam e bloqueiam as cidades, como fizeram seus antepassados na Revolução Francesa ou na Comuna de Paris. Os sindicatos se mobilizam e os partidos se organizam. 'A adesão dos trabalhadores incorpora ao movimento uma visão política que pára o país e traz à tona a idéia da revolução possível. Mas Maio de 68 é iconoclasta e híbrido, é um movimento de catarse. Quando o movimento sindical ganha força, em 13 de maio, muitos estudantes que participavam até então se perguntam: 'Por que a história de sempre volta à tona?'. E aí vão para casa.'

Na geração do pós-guerra, dos 30 Anos Gloriosos de modernização da França após 1945, a idéia de sacrifício pelas gerações futuras era central. A geração seguinte, de 68, que não conheceu as privações da 2ª Guerra, relançou a idéia de viver o presente. Para Le Goff e para os demais intelectuais franceses que reinterpretam o movimento, Maio de 68 é nesse sentido, antes de uma reunião política de militantes marxistas, maoístas, trotskistas ou anarquistas, a denúncia do poder, da repressão, da autoridade, do autoritarismo e do totalitarismo, além da queda do paradigma de que estamos progredindo. É por essa razão que os partidos revolucionários de extrema-esquerda, como os de direita, são aspirados, então, para o centro do alvo de protestos estudantis. Eles também são autoritários, dizem os estudantes, assim como o são os pais, a família, a polícia, os patrões, o Estado, o capitalismo, o comunismo, a sociedade... o sistema.

'Resumir Maio de 68 a uma tentativa de revolução é compreender mal o que aconteceu. À parte alguns grupos politizados, ninguém queria tomar o poder', explica ninguém menos que Daniel Cohn-Bendit, o líder de 22 de Março, dia em que eclodiram os protestos em Nanterre, na periferia rica de Paris. O mesmo Cohn-Bendit, em entrevista à revista Le Magazine Littéraire, editada há 40 anos, em meio aos acontecimentos, já alertava: 'O movimento estudantil não é um movimento revolucionário, mas de revolta.' E essa revolta, em diferentes versões, chegou a Praga, Berlim, Londres e Madri, ao México e ao Brasil.

É talvez nessa irradiação das revoltas pelo mundo, entende Le Goff, que reside o erro da interpretação 'revolucionária' do Maio de 68 francês. Na Primavera de Praga ou no Brasil, as revoltas tinham de fato caráter político, de libertação de regimes opressores ditatoriais. Na França republicana e democrática, não tanto. 'A autoridade não era contestada em si, mas as formas de exercício do poder', reconhece Henri Weber, outro dos líderes do movimento, hoje deputado europeu do Partido Socialista. 'O autoritarismo que nós encontrávamos em todas as células sociais, na empresa, no casal, na família, na escola, na universidade, era o nosso adversário.' Efeito colateral, diz Weber, foi a reemergência da idéia revolucionária: 'Maio de 68 paradoxalmente reativou a cultura do confronto, do conflito, que existia muito profundamente na sociedade francesa.'

Mas, se revolução sem ideário político claro não existe, Maio passa a ser enquadrado como uma nova forma: revolução cultural. Mais uma vez, retorna-se à fixação francesa. Edgar Morin, um dos inspiradores intelectuais do movimento - ao lado de Herbert Marcuse ou Jean Baudrillard, de Cornelius Castoriadis, Claude Lefort ou Jean-François Lyotard, entre outros -, não concorda. As revoltas são, para ele, um epifenômeno, um alerta concentrado e explosivo. 'Maio de 68 é um catalisador, um acelerador, um amplificador de algo que se prepara insensivelmente. 'Revolução cultural é uma expressão muito forte, evolução cultural, muito fraca. Digamos transmutação cultural', analisava Morin, em uma entrevista concedida em 1976. 'O estranho é que tudo continua como antes. Mas nada mais é igual. (...) Tudo continua maquinalmente, enquanto ninguém mais acredita na máquina.'


Quem mantém acesa a chama libertária?


Embora nem todos tenham conseguido sustentar a coerência dos ideais do período, alguns parecem conservar intactos a resistência e o inconformismo

Ubiratan Brasil

O historiador Eric Hobsbawm disse, certa vez, que o movimento de 1968 não foi um começo nem um fim, apenas um sinal - 'As pessoas daquela época acreditavam que estavam derrubando uma velha sociedade ou pelo menos fazendo o possível para isso. Em retrospectiva, o movimento de 68 é sinal de uma importante revolução cultural, com diversas raízes', afirmou. Passados 40 anos, o desafio de alguns pensadores é detectar quem ainda sustenta aquele espírito libertário.

Afinal, para alguns historiadores, como o inglês Tony Judt, aquela foi uma época marcada pela 'auto-indulgência narcisística'. Nunca, segundo ele, uma geração falou tanto de si própria em seu próprio tempo. E hoje, observando alguns nomes que foram símbolo do movimento, é possível perceber que o envelhecimento físico não foi tão acentuado como a decadência ideológica daqueles que picharam nos muros palavras de ordem como 'A imaginação no poder' e 'Os sonhos são realidade'.

Nem todos conseguiram sustentar alguma coerência como, por exemplo, Daniel Cohn-Bendit, o jovem líder estudantil de Nanterre, apelidado de 'o Vermelho' por seu radicalismo de esquerda, e que hoje, passados 40 anos, tornou-se deputado do Parlamento Europeu pelo Partido Verde da Alemanha. Para ele, sua geração ainda enfrenta dificuldades para lidar com a globalização. Mais antenado parece estar o grande colaborador de Cohn-Bendit nos acontecimentos de maio de 1968, Jean-Pierre Duteil, um dos protagonistas da invasão da faculdade de Nanterre e hoje militante e editor. Depois dos eventos daquele mês, Duteil colaborou com outros sete colegas revolucionários na criação do jornal Passer Outre, que conseguiu se sustentar por três números.

A partir de 1974, ele assume a direção da publicação La Lanterne Noire, participando ainda de movimentos da Organização Revolucionária Anarquista. Em seguida, torna-se um dos diretores da Organização Comunista Libertária, dividindo seu tempo com um acampamento agrícola formado por refugiados latino-americanos. Na década seguinte, inicia colaborações com jornais e revistas que, apesar das baixas tiragens (e das vendas menores ainda), buscam manter acesa a chama revolucionária.

Com a comemoração dos 40 anos do mês em que invadiu a faculdade de Nanterre, Duteuil participou de uma série de eventos relativos à data, como um encontro na cidade de Perpignan, na segunda-feira passada. Além do debate, aproveitou ainda para promover seu livro Maio 68 - Um Movimento Político, no qual assinala: 'A França não se entedia, a luta de classes não era uma fila do departamento de antiguidades, a classe operária não fez sua despedida. Em maio de 68, surgiram também novas formas de organização que se refletem, 40 anos depois, nos comitês de ação, com o desejo de autonomia e a desconfiança diante das estruturas sindicais e políticas.'

A resistência e o inconformismo parecem continuar intactos em outros nomes, como Raoul Vaneigem, autor de A Arte de Viver para as Novas Gerações, lançado no Brasil apenas em 2002, sob a chancela da editora Conrad. Membro de um grupo de nome estranho, Internacional Situacionista, ele era um dos artistas, intelectuais e ativistas que orbitavam em torno do francês Guy Debord (1931-1994), e que tinham como principal missão o combate contra o que chamavam de espetacularização da sociedade.

Metaforicamente, o grupo via a humanidade como uma entediante peça de teatro na qual uma minoria ocupava o palco e uma multidão assistia calada na platéia. Assim, o situacionistas defendiam a participação ativa dos indivíduos em todos os segmentos da sociedade, incentivando uma luta contra todas as monotonias da vida cotidiana moderna. O grupo, que surgiu nos anos 1950 e incensou decisivamente o movimento de 68, curiosamente saiu de cena em 1972, quando percebeu que a popularidade conquistada estava justamente espetacularizando o trabalho. A obra de Vaneigem, porém, incentivou herdeiros como o escritor Hakim Bey, autor de panfletos reunidos em Caos - Terrorismo Poético & Outro Crimes Exemplares, que a Conrad publicou em 2003.

'Trata-se de um ato num Teatro da Crueldade sem palco, sem fileiras, sem ingressos ou paredes', escreve Bey, buscando atualizar as táticas revolucionárias de 1968. Ele criou o conceito de ZAT (Zona Autônoma Temporária), que incentiva grupos a promoverem ações favoráveis a mudanças.

No Brasil, o conceito de ZAT também influenciou artistas. Em 2006, sua essência inspirou o processo de criação do Coletivo T1, formado por 13 dançarinos que propunham uma reflexão sobre ativismo cultural. E, ainda no mesmo ano, o tal ZAT foi usado de forma mais debochada.

Em Fortaleza, foi anunciada a mostra Geijitsu Kakuu, do artista japonês Souzousareta Geijutsuka. O Museu de Arte Contemporânea do Ceará divulgou maciçamente o currículo do artista, que não falava português. Uma única assessora de imprensa, Ana Monteja, intermediava entrevistas com o ilustre expositor.

Depois de a mostra ser amplamente divulgada, descobriu-se que Souzousareta Geijutsuka quer dizer 'artista inventado'. Na verdade, tal japonês não existia, era uma invenção de Yuri Firmeza, artista plástico então com 23 anos. A assessora de imprensa era Irina, namorada de Firmeza. E o plano tinha a cumplicidade do diretor do museu, Ricardo Rezende. Citando Hakim Bey, o artista justificou o ataque contra as estruturas de controle, especialmente das idéias.

Mais atenção ao ensino e à cultura, pregava Firmeza, seguindo um conceito também defendido pelo francês Hugues Lenoir, outro que também pode figurar no grupo de descendentes do Maio de 68. Professor e diretor de pesquisas de Ciências da Educação e diretor do Centro de Educação Permanente da Universidade Paris X, ele é autor do livro Educar para Emancipar (Editora Imaginário), no qual defende que educação e sindicalismo revolucionário estão ligados em um mesmo projeto - aquele de uma classe operária culta porque emancipada, emancipada porque culta. Um caminho a ser semeado.


E no Brasil a ditadura corria solta

A direita rearmou-se e ganhou a batalha, impondo de modo globalizado o american way of life

Carlos Guilherme Mota

Diversamente da França, Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, desde 1964 vivíamos sob uma ditadura, que a cada dia se mostrava menos branda. Foram inúmeros os episódios de contestação ao regime, mais visíveis no movimento estudantil, com mortes localizadas - não tão vultosas e brutais como no México -, mas também visíveis nos movimentos e trabalhadores de toda ordem, sobretudo das chamadas oposições sindicais.

Havia ainda um mal-estar crescente das classes médias, no período que antecedeu o famigerado “milagre econômico”. O fechamento do regime em 1968 - na verdade um golpe dentro do golpe - facilitou a adoção de uma política econômica altamente centralizada, conduzida pela autocracia de novos tecnoburocratas chefiada pelo ministro Delfim Netto, aplaudida pelos militares (os mais progressistas foram afastados desde o golpe de 1964). Para dar certo o modelo, só faltava acabar com todas a liberdades civis, silenciando o País.

Nesse quadro, o movimento de 1968 foi, no Brasil, uma decorrência do aperto crescente do regime, uma resposta iracunda e muito generosa de estudantes e jovens professores, com alguma simpatia da sociedade civil. Muitos foram para a luta armada, e morreram; outros não. Dentre os professores que simpatizavam com o movimento, incluíam-se alguns menos jovens, como Goffredo da Silva Telles, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Cruz Costa, Pasquale Petrone, Manuel Correia de Andrade (no Recife), ao lado de professores de meia-idade, como Emilia Viotti, Dalmo Dallari e muitos outros.

O autoritarismo também grassava nas universidades, acentuando a discrepância entre o que se passava no mundo e o que era ensinado, em um regime em que os catedráticos eram mandarins perpétuos, além de “quadrados”, “alienados” e “caretas”, para usarmos linguagem da época. “Abaixo as cátedras”, “Fora com os rinocerontes” eram lemas correntes entre nós. Em algumas faculdades e departamentos, chegamos a fazer comissões paritárias de professores e alunos para a gestão, com excelentes resultados. Os alunos foram muito lúcidos nos episódios de escolha de eventuais diretores, sempre associando competência científico-cultural com capacidade administrativa.

Os ventos do mundo traziam os sinais da profunda mudança de mentalidade, com os Beatles, Bob Dylan, Jimmy Hendrix, Marlon Brando, Rolling Stones, o Cinema Novo, os movimentos da esquerda internacional, a crítica aos Estados Unidos e a solidariedade ao povo do Vietnã, a Che Guevara e à utopia de uma outra América Latina, os filósofos Marcuse, Sartre, Foucault e muitos outros (ainda não existia esse praga dos “novos filósofos” e da “Nouvelle Histoire”, nem do “coffee-break”), a psicanálise alternativa (Lacan, Reich, Laing, Jung), o uso da pílula anticoncepcional, a renovação do marxismo e novas teorias (como a da dependência). Na educação, discutia-se muito as teorias de Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, como a queda crescente da Escola Pública depois de 1964, em benefício do ensino particular. Os “cursinhos” prosperaram. Mas era na música, no teatro e no cinema que estavam as vanguardas desse tempo; bem menos, na imprensa e nas direções das universidade, com os tais catedráticos. Afirmava-se com vigor uma nova “leitura” do Brasil no Teatro Oficina, o Teatro de Arena, Caetano, Gil e Chico Buarque, Milton Nascimento e o Clube de Esquina, com novas produções de gente da bossa nova agora nas músicas de protesto, com Glauber. Um novo tempo era anunciado, despretensiosamente na canção Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, em setembro de 1967. Prenúncio de 68, sem lenço, sem documento.

Uma profunda mudança de mentalidade, enfim, nos segmentos mais ou menos educados da população, que obrigou a uma redefinição do conceito de família patriarcal, de poder, com a relocalização do papel da mulher e dos jovens. Os idosos continuaram de fora, bem como os homossexuais e, em larga e histórica medida, os negros. Sonhava-se (ainda) com a Revolução, sem saber-se muito bem como seria, em qualquer hipótese melhor do que o status quo. Éramos mais, muito mais internacionalistas do que hoje.

Em vários países, os governos foram obrigados a se demitir, como o do Egito, Bélgica e Checoslováquia. Abalo fortíssimo sofreu o governo mexicano, quando assassinou dezenas de estudantes, revelando a face autocrática do Partido Revolucionário Institucional (PRI). Na França, o governo do presidente-general De Gaulle foi acuado, com seu ministro da Cultura André Malraux, ambos admiráveis personagens históricos. Um expoente do Partido Comunista francês, o historiador Albert Soboul (que esteve na Faculdade de Filosofia da USP, tendo sido entrevistado pelo Estado), desconheceu as determinações do PCF e saiu pelas ruas nas marchas ao lado dos estudantes. Como poderia deixar de fazê-lo, sendo um estudioso da Revolução Francesa?, perguntava Eric Hobsbawm, historiador simpático aos rebeldes de 68 e de todas as épocas.

As conexões França-Brasil eram muito maiores e melhores do que hoje, em nossa Faculdade de Filosofia em especial. Vínhamos recebendo desde sua fundação o melhor da intelligentsia universitária francesa, estávamos informados de tudo, inclusive da reação negativa do venerado Fernand Braudel ao movimento de 68, que machucava - segundo ele - a hierarquia universitária. Bobagem. Soboul era um hierarca também, como o austero Jacques Godechot, doyen da Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de Toulouse. Godechot, historiador da Revolução Atlântica, esteve entre nós em 1967, foi convidado pelos alunos a falar em assembléia no Crusp, foi bem recebido e respeitado; esse liberal rígido escreveria um depoimento sobre 1968 em Toulouse, indicando que o movimento de 68 não era “especificamente francês, e que a França tinha sido tocada por ele depois do Brasil, Japão, Países Baixos, Dinamarca, Suíça, Alemanha, Estados Unidos, Itália, Espanha, Tunísia, México, Bélgica...”

O velho historiador percebia por toda parte o sentido da busca de uma “universidade crítica”, lema da época que, aliás, esquecemos. Percebia, sobretudo, a viragem mental pela qual passava o mundo. Ou, como diríamos hoje, uma profunda mudança de paradigmas.

Revolução nos costumes ocorreu em toda parte, sobretudo nos Estados Unidos, em que predominavam os padrões conservadores, que vinham do presidente Johnson (sucessor de Kennedy, assassinado) ao reacionaríssimo George W. Bush, para não remontarmos a Truman. Lá, associado ao racismo entranhado, a caretice dominava, revelando o retorno dos Estados Unidos branco, aquela parte do país que perdera a Guerra de Secessão. O assassínio de John e Bob Kennedy, depois o de Martin Luther King, indicavam o mundo que os jovens não queriam e desprezavam. Descobria-se, outra vez, o pensamento radical progressista norte-americano, que talvez retorne agora com Barack Obama.

Diversamente do que se passava nos EUA, da Inglaterra, da França, lutávamos aqui contra a ditadura. Os que não fomos cassados em 68 tivemos que agüentar o tranco, vigiados em nossas aulas pelos esbirros do regime, e também dialogando com alunos de extrema-esquerda (alguns hoje “tucanaram”) em nossos calcanhares cobrando posições. Para culminar, agora sem nossos mestres e colegas referenciais de então, como Florestan, Ianni, Fernando Henrique, Schenberg e muitos outros, como Leite Lopes, Darcy, Tiomno, no Rio, em Brasília, no Recife e pelo País afora. Caio Prado Júnior, mais uma vez, seria preso logo depois.

O movimento de 1968 trouxe várias conseqüências. Uma mudança de mentalidade, uma abertura que incluiu os costumes, a sexualidade, a dessacralização de temas tabus, diminuição dos conflitos de gerações. Na esquerda, surgiu uma nova corrente geral em ruptura com o marxismo dogmático; no campo do pensamento liberal, definiu-se uma linhagem de “esclarecidos”, que se tornaram decididamente progressistas. Também os cristãos acordaram, com a Teologia da Libertação ganhando impulso, voltando seus olhos mais para as lições de Jesus do que para as hierarquias eclesiásticas. Conseqüência negativa, porém esclarecedora, foi a atualização da Direita, que se modernizou com vigor em países como a França e mesmo o Brasil, e com uma selvageria incalculável em países como Chile (Pinochet) e Argentina (Videla et allii). Em suma, a Direita rearmou-se, ganhou a batalha, aplastou em todos os países o pensamento e as formas de vida libertárias, inconformistas, impondo de modo globalizado o American way of life, sem democracia para valer em países como o Brasil. Ganhou mas não levou, pois a rebeldia continua comendo por baixo, repontando aqui e ali em filmes, músicas, salas de aula, ações isoladas.

O ano de 1968 não terminou no Brasil nem no mundo. Paradoxalmente, o AI-5 foi de certo modo benéfico, pois revelou o “Brasil profundo”, com suas taras, perversões, violências. A tal da história incruenta de que falava Capistrano de Abreu e José Honório Rodrigues. As classes dominantes, senzaleiras, escoradas na História oficial e seus servidores, foram obrigadas a tomar medidas contra a História do Brasil real, que aflorou. As cassações atingiram gente do nível de Celso Furtado, Florestan, Caio Prado Júnior, alertando desse modo os mais novos, que entenderam estar vivendo o país dentro de um modelo autocrático-burguês de exclusão social e política. Pois a República que está aí é uma farsa. Por isso, os ideais de 68 tornaram-se permanentes.

O observador atento já terá notado que os movimentos libertários hoje estão descentralizados e são cada vez mais plurais. Traduzem a complexidade de uma sociedade-problema, com suas anticidades, como Rio e São Paulo. São cidade- pânico, como diria Paul Virilio.

O autoritarismo contemporâneo se encontra nesse Estado ultrapassado, nessas elites despreparadas e anti-sociais, agora engrossadas com um enxame de aspones e lumpenproletários e lumpenburgueses que desejam seu lugar ao Sol. Ou melhor, à sombra do estamento burocrático do Estado brasileiro.

A oposição pode vir de agentes da nova sociedade civil que viveram 68, que têm filhos e até netos que por certo lhes cobrarão posições. Mais cedo do que tarde. Que cada um faça a sua parte.

Carlos Guilherme Mota é prof. titular de História Contemporânea da FFLCHUSP e de História da Cultura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie. Escreveu Ideologia da Cultura Brasileira e A Revolução Francesa, entre outros livros


Os movimentos divididos e as ilusões mescladas

O que aconteceu aqui pouco tem a ver com o que se deu em terras francesas

José de Souza Martins

Apenas alguns dias depois do golpe militar de 31 de março de 1964, li na porta do banheiro masculino que ficava no fim do primeiro lanço de escada da Faculdade de Filosofia, na Rua Maria Antônia, esta ponderação: 'Em terra de cego, quem tem um olho emigra.' Em 1968, os estudantes tomariam o prédio da faculdade. Acabariam sendo atacados por grupos direitistas organizados, da Universidade Mackenzie, o prédio incendiado com coquetéis molotov e todos seríamos deportados para a Cidade Universitária. Em 1977 teríamos nossas acomodações definitivas numa construção de melancólicas paredes brancas. Logo nos primeiros dias, um estudante grafitou com enormes letras vermelhas, manuscritas, num dos corredores de acesso às salas de aula: 'Parede, eu te livro dessa brancura!'

É nesse desencontrado imaginário de ceticismo, esperança e ímpeto libertador que se pode compreender 1968 aqui nos trópicos. O maio de 68 francês era outra coisa. O que aqui aconteceu pouco tem a ver com o que aconteceu na França. Lá, os estudantes arrebataram a bandeira da luta de classes das mãos da classe operária, uma circulação de elites nas lutas sociais. Aqui as ilusões se mesclaram. Aqui era a classe média alcançada pelo arrocho salarial da ditadura que alimentara esperanças de ascensão social por meio da universidade e experimentara a luta dos excedentes no começo daquele ano, os aprovados para os quais a universidade não tinha vagas. Os banidos da esperança, os sem-futuro, agarravam-se às asas do último avião.

O movimento estudantil estava dividido e as esquerdas dividiam-se mais ainda. Tinham uma concepção do processo que vivíamos norteada pelo marco de realidades muito diferentes da nossa. Os estudantes tentavam encaixar-se na luta de classes, embora fossem de uma classe que não luta nem tem contra o que lutar, a classe média, uma classe híbrida e da ordem. Reivindica em nome de interesses, mas não tem como lutar contra estruturas sociais sem negar-se e anular-se.

Os acontecimentos de 1968, na Rua Maria Antônia, longe de terem sido expressão de convergência de idéias e de propósitos e de um grande encontro político, foram expressão de divisão, de falta de clareza quanto ao que acontecia no Brasil. As fantasias juvenis da Maria Antônia, libertárias e belas, não davam conta nem mesmo do que estava em andamento lá dentro do prédio. Os estudantes atacaram a universidade imaginando que por esse meio atacavam a ditadura e, em conseqüência, atacavam o capitalismo. Queriam uma revolução social com o que era apenas um vago projeto de reforma política da universidade. Atacaram a instituição como se fosse um remanescente da sociedade feudal e demoliram justamente um dos últimos poderes de afirmação da liberdade de pensamento e de criação no contexto de um regime ditatorial.

Depois de anos de disputa política com os comunistas, a direção do movimento estudantil estava nas mãos da Ação Popular, dissidência da Juventude Universitária Católica. Os estudantes sussurravam no saguão da faculdade informações sobre um levante próximo da classe operária nas fábricas de Osasco. De fato, a greve teve início em 16 de julho e expandiu-se para várias indústrias. A Cobrasma foi ocupada. De comum entre o sindicalismo de Osasco e a liderança dos ocupantes da Faculdade de Filosofia a forte presença da Ação Católica, em oposição ao Partido Comunista e outras organizações de esquerda, que só se aproximariam em meados dos anos 1970.

O ministro do Trabalho, coronel Passarinho, voou para Osasco, decretou intervenção no sindicato, pôs o Exército nas ruas e nas fábricas, prendeu gente. A greve operária durou três dias. A aliança operário-estudantil terminava ali. A ocupação da Faculdade de Filosofia terminou em outubro, as aulas transferidas para a Cidade Universitária. Pouco depois, em abril de 1969, professores seriam aposentados compulsoriamente, com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. Do movimento estudantil, muitos iriam para a prisão e o exílio, outros para a luta armada e a morte.

Ao contrário do que aconteceu na França de maio de 1968, aqui pouco sobrou das lutas da Maria Antônia. A repressão ao movimento enfraqueceu a universidade, privou-a de docentes de renome, abriu caminho para uma reforma universitária de cima para baixo. Mesmo assim, no caso da USP, levou à desagregação da Faculdade de Filosofia e à formação dos institutos, fortalecendo várias áreas científicas. Antigos valores sociais se tornaram subitamente anacrônicos. Novos valores surgiram. A experiência do confronto e da impotência ante as imensas e invisíveis forças da ordem tornou obsoletas concepções relativas à interdição da atividade política à mulher, quebrou tabus, abriu caminhos. Mostrou, sobretudo, a dominância do cotidiano no processo político. Os jovens da Maria Antônia insurgiram-se contra a vida cotidiana em nome da História. O cotidiano os derrotou, demoliu as inconciliáveis utopias do futuro longínquo, gerou um novo e atualizado conformismo social, amansou corações e mentes, sepultou os mortos. Legou-lhes a imensa parede branca do vazio para que nela grafitassem o vermelho da liberdade.

José de Souza Martins, professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, é autor de A Aparição do Demônio na Fábrica, entre outros


Um ano em datas

Janeiro

Dia 16 - Estréia no Rio a peça Roda Viva, de Chico Buarque, dirigida por José Celso Martinez Corrêa

Dia 30 - O Exército vietcongue (abaixo) invade 34 capitais de
províncias vietnamitas

Fevereiro

Dia 2 - Na Alemanha, Bonn é palco de revolta estudantil, com ocupação de universidades

Março

Dia 8 - Estudantes poloneses protestam contra a censura; a Universidade de Varsóvia é fechada

Dia 22 - Liderados por Daniel Cohn Bendit, estudantes invadem a Universidade de Nanterre

Dia 28 - O governo da África do Sul apresenta leis que levariam ao apartheid

Dia 28 - O estudante Edson Luiz de Lima Souto é morto em confronto com policiais, durante invasão do restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro, provocando protestos

Abril

Dia 1.º - Estudantes invadem a Universidade de Brasília enquanto em todo o Brasil manifestações em protesto à morte de Edson Luiz são realizados

Dia 4 - É assassinado nos EUA o pastor negro Martin Luther King; conflitos raciais em 125 cidades se seguem

Dia 5 - É lançado na Checoslováquia um pacote de reformas políticas, conhecido como Primavera de Praga

Dia 23 - Estudantes ocupam a Universidade Colúmbia, em Nova York, protestando contra vínculos entre a instituição e o Exército

Dia 28 - Protesto contra a Guerra do Vietnã reúne 60 mil manifestantes no Central Park, em Nova York

Dia 30 - Estréia na Broadway o musical Hair

Maio

Dia 6 - As universidades de Paris são fechadas; primeiras barricadas no Quartier Latin são levantadas, resultando em 945 feridos e 422 prisões

Dia 10 - Paris amanhece com o grafite “É Proibido Proibir” afixado em muros da cidade; estudantes erguem barricadas de até 3 metros no Quartier Latin em episódio conhecido como “Noite das Barricadas”

Dia 13 - Cerca de 100 mil estudantes e trabalhadores franceses decretam greve geral

Dia 15 - Três milhões de trabalhadores entram em greve no Reino Unido

Dia 18 - Os cineastas Louis Malle, François Truffaut, Alain Resnais e Roman Polanski retiram seus filmes do Festival de Cannes em apoio aos estudantes

Dia 20 - 6 milhões de grevistas ocupam 300 fábricas por toda a França

Dia 25 - Com 10 milhões de grevistas em toda a França, o primeiro-ministro George Pompidou inicia negociações com as centrais sindicais

Dia 30 - O presidente francês Charles De Gaulle dissolve a Assembléia Nacional e convoca eleições gerais. Manifestação de apoio ao governo reúne 1 milhão de pessoas

Junho

Dia 4 - Na Iugoslávia, 20 mil estudantes ameaçam ocupar as universidades do país

Dia 5 - É assassinado, nos EUA, o senador e candidato à Presidência Robert Kennedy

Dia 7 - A sede do jornal Corriere della Serra, em Roma, é invadida por 3 mil estudantes

Dia 13 - No Uruguai, o governo decreta estado de sítio após choques entre estudantes e operários com a polícia

Dia 16 - A polícia francesa recupera a Sorbonne, ocupada pelos estudantes, e expulsa estrangeiros envolvidos no conflito

Dia 23 - Eleições legislativas na França, com vitória maciça dos partidários de De Gaulle

Dia 26 - É realizada no Rio a Passeata dos Cem Mil, reunindo estudantes, intelectuais, artistas e padres

Julho

Dia 18 - Elenco da peça Roda Viva é agredido no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, ação atribuída ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC)

Dia 30 - Confrontos entre 300 mil estudantes e policiais
na Cidade do México

Agosto

Dia 12 - É lançado o álbum Tropicália ou Panis et Circensis, de Caetano Veloso e Gilberto Gil

Setembro

Dia 3 - O deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, (acima) discursa contra as Forças Armadas na Câmara dos Deputados

Dia 18 - Protestos na Universidade do México deixam 18 mortos

Outubro

Dia 2 - Confronto entre estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP

Dia 12 - Polícia invade em Ibiúna local onde era realizado clandestinamente o 30.º Congresso da UNE, prendendo cerca de 1.200 estudantes

Novembro

Dia 5 - Richard Nixon é eleito presidente dos EUA

Dia 21 - O presidente Costa e Silva aprova lei de censura a obras de teatro e cinema

Dezembro

Dia 5 - Um milhão de trabalhadores entram em greve na Itália

Dia 13 - Entra em vigor o Ato Institucional 5, que acaba com as liberdades democráticas no Brasil


Um ano que continua a resistir à interpretação

No campo da memória, cada pessoa colore os eventos de Maio de 68 com os próprios pincéis

Gilles Lapouge

Estamos em maio, esse belo mês, com sua suave luminosidade, os lírios do campo, o verde, as rosas e, como acontece a cada dez anos, as comemorações do Maio de 68, as amplas revoltas estudantis que não conseguiram demolir o governo francês mais poderoso e mais respeitável do século, o governo do general De Gaulle.

Nenhuma cerimônia de aniversário, mas muitas reuniões, artigos, livros, um “espírito da época”. Por que tantos discursos? Em primeiro lugar, porque 40 anos se passaram. Um lapso de tempo que dá àqueles eventos um “ar histórico”.

Além disso, o presidente Nicolas Sarkozy, quando ainda era um homem “glorioso” e não um “ineficaz” (ou seja, há um ano), definiu-se como “o homem que ia liquidar Maio de 68”. Bravo Nicolas! (alguns meses depois, Sarkozy casou-se com uma espécie de ressurreição dos estudantes de Maio de 68, a bela Carla Bruni, “queridinha” da “esquerda festiva”, superlativamente).

E, de novo, percebe-se que Maio de 68 continua rebelde a todas as interpretações, teorias e recuperações. Cada um colore Maio de 68 com os próprios pincéis, com cores que, segundo o caso, são ou anarquistas, ou festivas, utópicas, tirânicas, sexuais, dirigistas, individualistas, comunitárias, etc.

Maio de 68 é um episódio incompreensível sobre o qual todos os modelos apenas resvalam. Mesmo com 40 anos de distância, ninguém sabe realmente o que foi exatamente. É um “objeto histórico não identificado”, não identificável; não se parece com nada. E nada do que se faz ou do que se pensa hoje poderia se dizer que é um eco, um reflexo, mesmo deformado, de Maio de 68.

Por exemplo, hoje, nesta primavera de 2008, as ruas de Paris ferveram, com alunos, estudantes, professores, gritando. Imediatamente, os jornais evocaram uma espécie de “prolongamento” ou um obscuro “retorno” de Maio de 68. Ora, basta ouvir os slogans gritados hoje para compreender que são antípodas daqueles de 68.

Em Maio de 68, os estudantes se manifestaram contra a disciplina, contra os mestres que impunham uma ordem austera, contra as faculdades onde os professores, os “mandarins”, davam seus cursos em toga e arminho. Maio de 68 queria, ao contrário, que as obrigações e as lições desaparecessem, que os exames fossem abolidos, que os professores se recolhessem no seu canto, que as idéias se fizessem sozinhas, por partenogênese, por qualquer um e por todo o mundo.

Em 2008, os netos dos magníficos doidivanas de 68 são sérios como cardeais. Invadem a rua para reclamar o contrário da liberdade cara a seus “jovens avós” de 1968: eles querem mais professores, mais lições para “decorar”, mais disciplina, mais exames, mais seriedade.

Os manifestantes de 68 eram alegres como as borboletas, os loucos, os malabaristas. Os de 2008 são circunspectos, angustiados. Têm medo de seus estudos, da profissão que não vão encontrar, da sociedade macilenta que os aguarda.

Salvo alguns casos um pouco patológicos, os estudantes de 2008 não falam em revolução, mas de ordem, regulamentos. Empreendem um combate corporativista, sem jamais questionar as estruturas da sociedade presente. Querem apenas melhorar as engrenagens e, sobretudo, que os mestres os façam trabalhar, que os preparem para a sua futura inserção, sem dramas, na sociedade liberal.

Em Maio de 68, o termo “revolução” estava em todas as bocas. E cada grupo desse “conjunto em fusão”, como disse Sartre, produzia o próprio modelo de revolução. Cada um tentava trazer novamente à tona uma antiga revolução fracassada ou subvertida.

Era a “tomada da Bastilha” em 1789, Lenin dançando na neve de Moscou em 1905 durante a revolução bolchevique (fracassada), ou a Comuna de Paris (anarquista) em 1871, a revolução literária do surrealismo em 1920, ou mesmo a revolução de Mao Tsé-tung.

Por isso, houve tantas barricadas nas ruas de Paris: como os estudantes souberam que, em julho de 1848, e na primavera de 1871, os insurgentes erigiram barricadas com paralelepípedos, resolveram fazer a mesma coisa, numa imitação um tanto supersticiosa e nostálgica, atirando-os contra os pobres policiais.

Mas, mesmo quando invocavam esta ou aquela antiga revolução, torciam o seu sentido. Era uma referência mais “literária” do que “política”. Maio de 68 não pretendia tanto repensar a sociedade, mas mudar a visão do mundo, inventar uma nova filosofia. Os estudantes apostavam que, após a sua revolução, uma outra sociedade, como nunca houve até então na história, aliás bastante imprecisa, seria construída com base naquela nova visão do homem.

Por isso, a herança mais concreta de 1968 se inscreve menos no âmbito da política e mais no campo dos costumes, quase da filosofia. A primeira centelha de Maio de 68 não foi uma reivindicação financeira ou de uma alternativa à sociedade capitalista: foi um pedido apresentado pelos estudantes para se permitir que os rapazes fossem ao quarto das meninas no campus da universidade de Nanterre.

E o mesmo para convidar os professores das faculdades a sacudirem a poeira na qual dormitavam há dois séculos, a virem se juntar à “modernidade”. Pouco tempo depois de Maio de 68, assistimos a um espetáculo extraordinário: um professor chegou à sala de aula em “jeans” (da marca Lévi Strauss 501, aliás impecável), na faculdade revolucionária de Vincennes. Era o grande lingüista americano Noam Chomsky.

Inútil dizer que as mudanças desencadeadas por Maio de 68 em relação aos costumes, no cotidiano, na “visão do mundo”, são uma das maiores heranças desse mês extraordinário: a permissão de as mulheres usarem calças compridas, a fraternidade, a simplicidade, a liberação sexual, o direito ao aborto, o reconhecimento dos casais homossexuais, tudo isso foi efeito direto, às vezes tardio, de 68.

Com os dias passando, esse movimento lúdico constatou com espanto que aquela agitação se comunicava por si só: de amigo para amigo, ela foi para outras universidades e depois passou para a França inteira e foi além. Os estudantes viram que, sem que fosse aquele o objetivo, tinham adquirido um enorme contrapoder que fez vacilar o majestoso e brilhante general De Gaulle.

A palavra até então acorrentada se soltou, como louca, meio embriagada. Todo mundo falava com todo mundo. As barreiras sociais, cívicas, educacionais, geracionais, os códigos glaciais de comportamento, tudo desmoronou... Paris falava, falava, como um ébrio. Falava-se qualquer coisa, uma profusão de besteiras e algumas idéias inspiradas.

Com o passar do tempo, conceitos mais nitidamente políticos se insinuaram, tanto mais que o movimento se ampliou de tal maneira que contagiou outras classes, além da estudantil: operários, patrões, médicos, cineastas, todo o mundo. O movimento, ao crescer, se politizou.

E desse segundo capítulo, mais político, o que restou? Aparentemente nada. A sociedade se reconstituiu com seus altos edifícios, suas cidadelas, seus softwares. Ela se desenvolveu ao contrário das esperanças de 68, com Reagan, Thatcher, a ordem moral, etc...

Mas, na realidade, assim mesmo Maio de 68 se inscreveu na “política”. Para mim, um dos momentos mais bizarros dessas jornadas bizarras foi o grande desfile organizado no coração de Paris, em torno da praça Denfert-Rochereau.

Era um início de tarde. Nessa praça há uma estátua de um grande leão de bronze. Os manifestantes afluem de todas as partes, em grupos distintos: libertários, poetas, comunistas, vândalos, maoístas, arruaceiros, anarquistas, tipos divertidos.

Um jovem escala a estátua do leão. É um ruivo. Chama-se Daniel Cohn-Bendit. Parece um duende. É ele quem vai organizar o imenso cortejo. Com um megafone, chama os diferentes grupos: libertários, “fourieristas”, trotskistas, etc. E termina, gritando: “... e a crápula stalinista, no fim do cortejo!” Nesse dia, alguma coisa se passou no fundo das consciências. Maio de 68 permitia à juventude, pela primeira vez e solenemente, ser ao mesmo tempo “de esquerda” (pois Maio de 68 foi um movimento de esquerda) e, no entanto, ferozmente anti-stalinista, anticomunista, anti-soviética.

Não vamos dizer que Maio de 68 prefigurou os tremores de terra que se verificaram 20 anos depois e que derrubaram a fortaleza soviética. Pelo menos, precisamos reconhecer que, nessa ocasião, esses revoltosos, um pouco loucos e um pouco infantis, de Maio de 68, alguns dias antes de serem rechaçados ao seu silêncio pelo retorno triunfal de De Gaulle, pressentiram os enormes abalos que se seguiram, do arquipélago de Gulag às pregações do papa João Paulo II, da glasnost de Gorbachev às revoltas, também corajosas e grandiosas, das populações de Varsóvia ou de Berlim Oriental, cujo resultado seria a morte do comunismo, nos anos 90.

De Volta A 1968 - Cinema

A CHINESA (JEAN-LUC GODARD, 1967): Apesar de feito um ano antes, não existe filme mais “68” do que este, mostrando que o “ano rebelde” foi uma cristalização de tendências que já estavam no ar. Inovador na forma, mostra um grupo de estudantes discutindo o maoísmo e a luta armada.

BEIJOS PROIBIDOS (FRANÇOIS TRUFFAUT, 1968): Seqüência da vida amorosa de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), alter ego do cineasta. Uma das cenas mostra a Cinemateca Francesa fechada, durante a crise pela demissão de Henri Langlois.

LOUCURAS DE UMA PRIMAVERA (LOUIS MALLE, 1990): Reflexos das revoltas em Paris numa pequena cidade do interior da França.

BARRA 68 (VLADIMIR CARVALHO, 2000). Documentário relembra, pelo depoimento de personagens, a invasão da Universidade de Brasília em 1968 pelas forças militares.

OS SONHADORES (BERNARDO BERTOLUCCI, 2003): Homenagem do cineasta italiano aos utopistas de 1968. Um jovem americano conhece um casal de estudantes franceses em Paris, durante o ano das barricadas do Quartier Latin (foto).

OS AMANTES CONSTANTES (PHILIPPE GARREL, 2005): Homenagem de um diretor que participou das manifestações. Mostra grupo de estudantes no pós-maio, seus casos amorosos e envolvimento com drogas.


De volta a 1968 - Livros

1968 - O QUE FIZEMOS DE NÓS, de Zuenir Ventura: o autor investiga o que restou da herança de 1968; lançado em caixa ao lado de nova edição do clássico de Ventura, 1968 - O Ano Que Não Terminou (Editora Planeta)

1968 - ELES SÓ QUERIAM MUDAR O MUNDO, de Regina Zappa e Ernesto Soto, investiga o legado de 68, do movimento estudantil aos protestos contra a Guerra do Vietnã (Record)

O MAIO DE 68 EXPLICADO A NICOLAS SARKOZY, de André e Raphaël Glucksmann: pai e filho buscam diálogo entre a geração de 68 e a nova geração (Record)

REBELDES E CONTESTADORES, organizado por Zilah Abramo, reúne textos apresentados durante seminário da Fundação Perseu Abramo sobre 1968,
realizado no fim dos anos 90 (Editora Perseu Abramo)

VIAGEM À LUTA ARMADA, de Carlos Eugênio Paz, relato sobre jovens que seguiram a luta armada no fim dos anos 50 (Editora BestBolso)

OS CARBONÁRIOS, de Alfredo Sirkis, que relembra sua participação nos movimentos de 1968 no Brasil (BestBolso)

EM 1968, de Carlos Fuentes: o escritor recupera textos em que analisa o Maio de 68 parisiense, a Primavera de Praga e o massacre da Plaza de las Tres Culturas, no México (Editora Rocco)

MAI 68 RACONTÉ À CEUX QUI NE L’ONT PAS VÉCU (Maio de 68 descrito aos que não o viveram), do historiador Patrick Rotman (Editora Seuil, em francês)


De volta a 1968 - Músicas


BEGGARS BANQUET: Disco dos Rolling Stones de 1968, traz talvez a maior canção de rock dedicada aos episódios do período, Street Fighting Man.

ANY DAY NOW: Álbum no qual a diva do folk de protesto, Joan Baez, gravou somente canções do seu então namorado, Bob Dylan.

THE GRADUATE: Disco de Simon & Garfunkel com a trilha sonora do filme A Primeira Noite de Um Homem (1967), com Dustin Hoffman e Anne Bancroft. Trilha sonora de uma época, era o mais tocado nas paradas de maio de 1968.

INITIALES BB: Enquanto o pau comia nas barricadas, Serge Gainsbourg flanava com as mulheres do sonho de uma geração: Brigitte Bardot e Jane Birkin. E construía seu mito.

TROPICÁLIA OU PANIS ET CIRCENSES: A música que causou furor foi É Proibido Proibir, de Caetano, mas esse disco carrega toda essência da época das insurgências.


Geração 68

DELEUZE: Foi em 1968 que o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) conheceu seu parceiro Pierre-Félix Guattari, com quem escreveu uma obra fundamental, O Anti-Édipo. Como sugere o próprio título, Deleuze foi um crítico tanto de Freud como de Marx, ambos, segundo ele, representantes de um 'burocratismo fundamental', propondo a experimentação como meta filosófica e a rejeição de alianças que levem à subserviência mental. Nada de gurus ou mestres.

FOUCAULT: O mais controvertido entre os filósofos franceses pertencente à geração 68, Michel Foucault (1926-1984) tratou principalmente da questão do poder, mas não o poder ligado a uma instituição ou ao Estado. Pensador identificado com o direito das minorias, ele publicou diversos livros em que analisa o uso do poder na perseguição aos homossexuais e doentes mentais ao longo da história (História da Sexualidade e História da Loucura na Idade Clássica são dois deles).

MARCUSE: Nascido em Berlim, em 1898, numa família judia, Herbert Marcuse foi um influente filósofo oriundo da Escola de Frankfurt. Fez estudos críticos de Heidegger e Marx. Fugindo do nazismo, ele saiu em 1933 da Alemanha para ficar nos EUA, onde tirou cidadania em 1940. Os livros Eros e Civilização (1955) e O Homem Unidimensional (1964), em que manteve fértil diálogo com a psicanálise e criticou o capitalismo, foram fundamentais para 68. Ele morreu em 1979.

GUATTARI: Psicoterapeuta, filósofo e militante político, Pierre-Félix Guattari (1930-1992) provocou polêmica ao definir a psicanálise como a 'melhor droga capitalista'. Conceitos como micropolítica e esquizoanálise foram cunhados por esse grande parceiro de Deleuze, cuja filosofia pode ser sintetizada na busca incessante de uma reposta para a questão de subjetividade. Participante ativo das manifestações de Maio de 1968 e criador da ecosofia (filosofia ecológica.)

BERNARD-HENRI LÉVY: Naquele que é considerado o primeiro protesto global com atos de solidariedade interclassista, ou seja, o movimento de 68, Henri Lévy, aluno de Derrida e Althusser, destacou-se como o mais jovem dos 'novos filósofos franceses'. Foi um dos primeiros a argumentar (em La Barbarie à Visage Humain) que o marxismo estava fundamentalmente corrompido. Crítico do totalitarismo, é freqüentemente criticado pela caricatura de culturas orientais.

RANCIÈRE: É o filósofo favorito da candidata derrotada à presidência da França, Ségolène Royal. Jacques Rancière, aos 68 anos, ainda é uma referência quando se estuda O Capital (ele assinou com seu mestre Althusser um livro que ensina a ler a obra de Marx). Após brigar com Althusser, justamente por conta de 1968 (o mestre não admitiu se tratar de uma revolução), Rancière seguiu o próprio caminho. Hoje defende a democracia e é referência no campo das artes visuais.

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