Por dentro da PM que mais mata e morre (Folha)

Em busca de estabilidade e salário de R$ 909,49, policiais militares são obrigados a enfrentar o dia-a-dia violento do Estado do Rio, onde 151 deles foram assassinados em 2007; no mesmo ano, 1330 civis foram mortos pela PM, recorde histórico.


RAPHAEL GOMIDE
DA SUCURSAL DO RIO

Em 2007, 151 PMs foram assassinados no Estado, um a cada 2,5 dias. As polícias do Rio mataram 1.330 pessoas (recorde histórico), média de 3,64 por dia. Por que a PM do Rio é a que mais mata e mais morre no Brasil e tem altos índices de corrupção? Qual é o perfil de quem se aventura a enfrentar a morte diariamente, por R$ 909,49 mensais brutos e estabilidade no emprego?

Para tentar entender isso, a reportagem da Folha fez concurso público e ingressou como recruta, de 3 a 25 de janeiro, no Curso de Formação de Soldados da PM. Fui aprovado em 67º lugar no exame intelectual, em 3 de junho de 2007, no Maracanã de 25 mil candidatos.

Vinte questões de português, 20 de matemática e redação compõem a primeira etapa.

Após as outras etapas e o ingresso de 20 alunos de outros certames, fui o 36º do Primeiro Pelotão da 2ª Companhia. Meu pelotão reunia os 58 mais bem colocados. Só se preencheram 752 vagas (459 de minha turma e 293 de outra), menos da metade das 2.000 previstas. Mais 412 pessoas continuam em processo de seleção.

Só 2.643 fizeram 50% no exame intelectual. Dos 300 primeiros, o psicotécnico reprovou 44 (15%), o físico barrou 20%. Só 201 de 300 fizeram os testes médicos, que afastaram mais 90 antes da pesquisa social, quando saíram 17.

Todas as fotos que ilustram o texto foram feitas por mim ou por algum colega, com a minha câmera. Não havia determinação quanto a não poder tirar fotos, mas a maioria delas foi feita de maneira disfarçada.

A formatura dos recrutas será em 29 de agosto. A promessa do governador Sérgio Cabral (PMDB) e da PM, de ter 2.000 homens (a seleção não admitiu mulheres) nas ruas até o fim de 2007, não se realizou nem se realizará em 2008.


1. Pressão de boas-vindas

O suor pingava do meu rosto e escorria por baixo da camiseta branca e pelas pernas, sob as calças jeans e o forte sol da zona oeste do Rio. Fazia 33º C às 10h45 de 3 de janeiro, verão carioca. A partir daquele dia, era tecnicamente PM. Ficar de pé e em forma militar, desde as 7h30, nas posições de "sentido" e "descansar", era o primeiro teste para 450 -mais nove se juntariam ao grupo- dos mais bem colocados entre 25 mil candidatos do concurso da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Eu e os outros aprovados após sete meses de seleção, todos com até 30 anos e cabelos cortados à máquina, já estávamos ali havia mais de duas horas. Continuaríamos em forma ou correndo até as 14h30, sem alimentação e com breves intervalos para beber água: sete horas debaixo de sol, de calças jeans, camiseta e tênis.

Às 8h15, um candidato balbucia que está passando mal. Está cinza e cambaleia.

A imobilidade militar pode causar tontura, por falta de circulação do sangue. O "bizu" (dica) é mexer só os dedos dos pés. Chamo o cabo, e o rapaz vai ao departamento médico. "Só se mexe se for cair", repetiria o tenente comandante da 2ª Companhia, onde todos passarão seis meses de treinamento e dois meses de estágio para serem PMs "prontos".

Um caiu, desmaiado, e outro passou mal duas vezes no campo de futebol do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças, em Sulacap.

Às 10h30 fico enjoado. A tontura e a náusea aumentam, dá vontade de vomitar. Levanto o braço e saio de forma, amparado por um PM até o pelotão. Molho a fronte, empurram minha cabeça para baixo enquanto a forço para cima, como fazem jogadores de futebol.

Melhoro em minutos, sentado, ao lado de dois recrutas na mesma situação.

Abnegação

Após perguntar se já estou recuperado "mesmo", um aspirante a oficial me autoriza a voltar à forma -e ao sol. Quase cem passaram mal. "Não gostou? É fraco? Pede para ir embora! Ninguém está aqui obrigado", repetem os instrutores, ao estilo "Tropa de Elite".

A companhia é um pátio de 100 metros por 30 metros, cercado por uma construção em U. Cada perna do U tem quatro pelotões (cerca de 60 recrutas cada), casas com sala de aula, banheiro e armários. Na base do U, ficam a sede administrativa e alojamentos.

Os primeiros dias são de adaptação e pressão, para ver quem realmente quer ficar. "Precisa ter abnegação. Não tem Carnaval, Réveillon. Não é para todos", diz o tenente comandante da companhia.

"Para vocês que vieram das Forças Armadas: aqui não tem tiro em melancia, não! Aqui o combate é real! Acabou tiro em melancia!", grita um oficial.

Um tenente perguntou, aos berros, a um ex-integrante das Forças Especiais do Exército: "Tu é baiano? Tu é baiano? Então por que está com a mão na cintura?". Alguns se contagiam. "Quero ser mau, aprender a ser mau. O que sei da PM é subir morro e quebrar vagabundo", disse um aluno, ex-militar.

Às 19h35 do primeiro dia, cheguei em casa queimado de sol e cansado, com idéia da rotina que enfrentaria 30 dias e, meus colegas, oito meses.

2. Escondendo a farda

Oficialmente, o horário é de 8h às 16h50, entre aulas teóricas e treinos; na prática, é de 7h às 18h, 18h30. Nenhum dia saí às 16h50. Sexta-feira é meio expediente, e quem não está de serviço na limpeza ou guarda é liberado às 12h (teoricamente), para reduzir despesas.

A rotina é dura. Acordava às 5h30 e saía de casa, no Leblon (zona sul), às 6h, barba feita e cabelo cortado. Chegava às 19h30, exausto e sem disposição para nada, a não ser comer e dormir. Não há tempo para resolver problemas. "Programem tudo para sexta."

Paranóia

Submetido à disciplina militar, sonho diariamente com marchas e canções. Descobri que não era o único. "É lavagem cerebral", diz um ex-marinheiro. Passamos o tempo todo em forma -para chamadas, ir embora, cantar músicas ou instrução no pátio-, marchando, "vibrando" ou correndo, em deslocamentos. A exceção é para ir e voltar do rancho (refeitório).

Os pelotões têm vidas autônomas e raramente se misturam. Ao chegarem marchando e cantando ao rancho, os oito pelotões são dispostos no pátio.

Em dias de sol, esperamos, desabrigados, os colegas terminarem; dependendo da chuva, podemos ficar sob as marquises. "Está achando ruim, pede para sair! Aqui não é para todos. Não gostou, pega a mochila e vai embora", dizia o tenente.

Ao fim do primeiro dia de treinamento, fora do quartel, um rapaz me chama. "Vou dar um "bizu" [dica]: não sai de camisa branca e calça jeans, cabelo reco. Saem todos assim. Traz outra blusa. Já morreram dois ou três. Na minha turma (2005) foi um. Recruta é "duro", um monte no ônibus, cabelo raspado, é "uniforme", polícia."

A paranóia é grande. Colegas de carona -quatro "recos" no carro- vêem em cada motoqueiro com garupa um potencial assaltante. "Acelera! Não dá mole!" Dos 151 policiais mortos em 2007, só 32 estavam em serviço; 119 (79%) morreram na folga, em assaltos, homicídios ou brigas.

Quando o uniforme de PM foi distribuído, diante da excitação da tropa, um oficial alertou: "Vejo um monte de coturnos. Qual é a necessidade de levar para casa? Vão ficar engraxando no fim de semana? Têm paixão pelo coturno? É risco desnecessário! Com o "boot" ainda dá para dizer: "Sou reservista do Exército". Mas a farda, não tem jeito. Sou totalmente contrário, é perigoso. Para que levar no ônibus? Todo mundo é do Rio, não preciso explicar muito, né? Não tem mistério. Não levem a farda para casa!".

"Ônibus é sinistro"

Apesar do aviso, a maioria levou, para tirar fotos e mostrar à família e à namorada. A questão é como esconder a farda e a carteira policial. No carro, pôr no porta-malas, ao avesso, dentro da mochila, ou sob o banco traseiro. No ônibus, "rezar muito". "A carteira de PM, esconde na identidade. Se "babou", joga pela janela do ônibus. Mochila, roupa, carteira... pela janela. Me assaltaram e graças a Deus tinha esquecido a arma."

Outro instrutor sugere ter carro: "Não andem a pé ou de ônibus, é risco grande. Ônibus é sinistro! Bota o nome na oração, mãe-de-santo, mesa branca, pede a Deus para proteger."

3. "Vai morrer!"

Empolgado e falando como uma metralhadora, um candidato relata cenas de guerra vistas no canal Discovery. "Meu irmão, troca de tiros no Iraque, o tiro comendo! Os caras atrás do tanque, dando de fuzil, tiro pra caralho! O Blackhawk no ar, tututututu, maior barulheira, maluco, alucinante... Fico até arrepiado, puta que o pariu! O cara com uma 50 [calibre de arma], dando tiro, com aqueles óculos grandes e olhões arregalados... Queria estar lá!"

Tal é a empolgação que os colegas, espremidos na clínica do exame laboratorial, ficam em silêncio. "Esse é vibrador mesmo!", comentou um. "Maluco, tenho ódio de vagabundo! Já odiava antes e agora odeio ainda mais! Quero ser do Bope."

A violência e o medo da morte já estão infundidos nos recrutas, a maioria com parentes ou amigos na corporação.

Durante o curso fica a impressão de que oficialmente a PM não tolera corrupção e desvio para o crime, mas admite a violência, inclusive letal, contra criminosos. "Troca tiros com o vagabundo na favela... Ele se rende. Vai prender? Eu vou matar!" Outro concorda. "Claro que vou matar. O cara baleou companheiro, te deu tiro, aí fica encurralado, se rende: "Perdi'? "Perdi" o caralho! Vai morrer!"

Eu argumento que é ilegal, que a função da polícia é prender. "Não matar é criar um animal na jaula, que vai te atacar. Não conhece a Justiça? O cara fica dois anos preso, aí vai para a rua. Se ele te vir, vai te matar. É ilegal, mas é assim."

O primeiro bate no meu ombro. "Se você entrar na PM com essa de "prender", é bom rezar muito! Direitos humanos para quem é humano!"

Pergunto a um se terá arma. "Claro, vai matar com a arma da PM?" Ao fim de uma aula, outro comenta: "Vai matar com muita vontade? Eu vou! A cada bandido que matar, vou agradecer a Deus: "Obrigado, Deus, por mandar esse bandido'".

As polícias do Rio mataram 1.330 pessoas em 2007. A média é de 41,6 civis mortos em confronto por cada policial tombado. Para os instrutores, é a realidade do confronto no Rio. "Tiroteio. Cerca o criminoso, e acaba a munição dele. Metralhou. Isso é corriqueiro. Também, fazer o quê? Levar preso? Não estou falando isso [que se deve matar]... Cada um sabe de si."

As aulas oscilam entre instruções oficiais, corretas, e comentários pessoais. "Só pode usar a arma em legítima defesa. Não pode atirar pelas costas. É absurdo? É. Mas não pode. O uso da força deve ser moderado e proporcional. Se ficar em cima da lei, não tem risco." Um aluno comenta: "O complicado é grupo de direitos humanos."

"Tropa de Elite"

Perguntam se cenas de assassinato como as do "Tropa de Elite" acontecem.

"O Bope é PM como a gente. Dá tiro nas costas de alguém e deixa ser pego... Fica na mesma cela do PM corrupto. Filme é filme. Se fez errado e descobrem, será punido. Mas têm dúvidas de que fazem isso todo dia? Vocês vão aprender na rua: deu tiro pelas costas, pega a arma, põe na mão do cara, dá um tirinho e alega legítima defesa. Talvez eu fizesse isso no calor da emoção, filho. Mas isso é na rua, aqui não é lugar para aprender isso. Arma de fogo é para legítima defesa sua ou de terceiros. Só. Massifica isso", diz o instrutor.

O perigo antecede a carreira. Na seleção, um rapaz levanta a camisa e exibe enorme cicatriz, cortando seu tórax e abdome até abaixo do umbigo. Lembra aquelas de desenho animado, os pontos desenhados na pele.

Com sorriso sinistro, conta como quase morreu após ser levado por bandidos a uma favela, com amigo PM. "De repente o traficante atirou no meu amigo. "Meti o pé", corri que nem maluco, e os caras atiraram de fuzil. Senti duas porradas, mas continuei, na adrenalina. Só parei lá embaixo. Tinha levado um tiro nas costas e um no braço esquerdo." Passou três meses internado. Todos ouvem o relato estáticos. "Mas tu não guardou (sic) a bala?", pergunta um. "Para quê? Guardei a cicatriz. Ficaram as marcas e o ódio no coração. Quem eu pegar, não vou aliviar."


4. De arma na mão

Com o aumento da violência, a PM adotou procedimentos mais agressivos de abordagem. A técnica é usada para suplantar a surpresa: as abordagens devem ser na posição "caçador" (arma apontada) e em superioridade numérica -o que é freqüentemente desrespeitado.

"Se não diminuir a margem de risco, pode não voltar para casa. O Rio é o Estado mais perigoso do Brasil, não tem jeito. É o único em guerra. Se não estiver bem preparado, vai cair", diz um aspirante. "Arma é sempre apontada. É grosseiro? Pode ser. Mas quem senta a bunda na viatura 12 horas correndo risco é o PM. Sem deixar de ser cortês, mas vai arriscar sua carcaça de madrugada? O Rio não é Minas Gerais", diz outro.

Pergunto a um sargento se pode pôr o cano do fuzil para fora da janela do carro, como é comum ver.

"No Rio de hoje, o fuzil tem de estar à mão. Bota ali, bico pra fora. Em certas áreas de risco, é bico pra fora e porta aberta: já é rotina normal policial. A população às vezes fica assustada, mas não vai dar mole."

Descubro que perseguições, com tiroteios, são proibidas. "Estamos cansados de ver perseguição, mas é errado. É para acompanhar e fazer o cerco", diz o sargento.

A PM também aboliu o termo "suspeito", para evitar discriminação; usa "atitude suspeita". O recruta é orientado a ser cauteloso e seguir o "Decálogo do PM".

"Se encostar na favela em frente ao beco, nem sai do carro [morre antes]. Acabou a época do "cada um vai a um beco". Não vai à culha [de qualquer maneira] que vai se arrebentar. Se tiver de aprender uma coisa, aprenda a técnica."

Os instrutores atribuem mortes à desatenção e à inobservância de normas. "Outro dia morreram dois no carro. Duas horas da manhã, senta para descansar as pernas, quem faz a segurança de quem? Vão os dois "pro saco"."

Educação e cortesia

Uma frase recorrente é o nono item do decálogo: "Seja educado e cortês no trato. Atitude não é sinônimo de grosseria".

A corporação tenta mudar a imagem de truculência. "Vai dar tapa na cara na blitz, gritar com o cara? Mandar deitar no chão? Precisa? Vai botar o fuzil na cara? Mas vai apontar a arma. É desagradável? Pode ser, mas o mais importante é a segurança do PM."

Um aluno pergunta se deve atirar em quem foge de abordagem. "Claro que não. Tem gente que se assusta. A PM deveria ter "jacarés", para furar pneus, mas não tem. Não pode atirar... Corre atrás. Se atirar, vai explicar! No Complexo do Alemão, sete ou oito mortos tinham tiros pelas costas. Vai explicar ao juiz depois!?"

Somos orientados ao "uso moderado da força". "Posso bater?" Pode, mas bate direito! Vocês terão aula de defesa pessoal [tivemos apenas uma no primeiro mês]. O bastão policial é para atingir perna, braço, bunda."

Nosso primeiro contato com armas é com o revólver 38, e a pistola 380, arma do PM, que aprendemos a desmontar. O instrutor é competidor de "tiro prático". "Mesmo não sendo militar tenho muito a passar; se tirarem proveito, sairão atirando bem. A realidade do tiro na PM não é boa, é ruim. Cansei de ver "polícia" com cordão de ouro, carro do ano, a loira mais bonita da rua, Glock "fria" na cintura: o cara dá 19 tiros, e o outro continua correndo. Erra nove de dez tiros parado. De que adianta? É melhor ter um 38 de seis tiros e acertar o alvo."

A PM é pobre, e isso se reflete na falta de estrutura durante o treinamento. Usa-se munição recarregada, mais barata e "passível de problemas", admite o instrutor.

As armas são velhas, e os tiros, poucos. "Nos batalhões, dificilmente vão ver armas quebradas, porque têm pouco uso; aqui tem muita. Terão o prazer de ver uma quebrar", disse o instrutor.

"Há armas imundas. O PM antigo vai te ver limpando a arma e falar: "Tá de babacada!" Não fazem nada disso. Vai ao Bope para ver se não limpam! É instrumento de trabalho e segurança, como a marreta é do pedreiro. Vê as viaturas, como estão? As armas são iguais. O Estado tem culpa? O PM tem muito mais. Se a arma não funciona, não tem volta, já era."

O instrutor explica uma possível razão para os 234 casos (16 fatais) de bala perdida no Rio, de janeiro a setembro de 2007: "A munição atravessa parede e pega onde não deve".

O professor, porém, pondera. "É muito bonito falar na sala de aula. Na situação real, usa-se o poder de fogo para não morrer. Me disseram uma vez: "Se não déssemos tiro à culha, não sairíamos vivos. De todos os becos saía traçante [tiro com rastro luminoso]. Parecia casa de fogos explodindo... O reboco caindo na gente."

Em sua opinião, o revólver é uma boa arma, mas pouco adequada para o Rio, por ter apenas seis projéteis e ser difícil de recarregar, em tiroteio.

"Não tem essa história de que, "se não resolver com seis, não resolve mais". Se não resolver com seis, resolvo com 17 (pistola). Se não resolvo com 17, resolvo com 34, com 68... Vou dar tiro até acabar. Morrer é a última coisa. É o que faz a diferença do PM do Bope", disse, tirando três carregadores de pistola dos bolsos e dois da perna.

Passividade


Para ele, é inconcebível o PM andar desarmado. "A situação é essa pela passividade de todos. Se todo mundo com porte andasse armado, o Rio não estaria como está. Somando policiais a militares, seriam 200 mil armados. Não iriam se aventurar a fazer assaltinho em sinal. O país não tem cultura de arma. Vi reportagem sobre uma família em Nova Orleans [EUA]: marido, mulher e filho de 12 anos com escopeta na mão. Vai entrar na casa? Aqui, ó!"

5. Instalações precárias

A falta de recursos do Estado e da PM também se reflete no centro de formação. A companhia não tem computadores conectados à internet, o que emperra a burocracia da corporação, atolada em milhares de fichas de papel preenchidas por alunos, as mesmas informações inúmeras vezes. A conservação do quartel é problemática. Os banheiros são sujos e malcheirosos. Em alguns falta água; em outros, a sujeira é evidente, e o cheiro, insuportável.

As quentes salas de aula não têm ar-condicionado, apenas quatro ventiladores de parede e dois de teto. "Custa comprar papel higiênico, naftalina?", questiona um instrutor, sentindo à distância o cheiro de urina do banheiro.

Nos primeiros dias, cada aluno do pelotão deu R$ 1 para produtos de limpeza para o banheiro e a sala. Três de oito chuveiros frios estavam quebrados, e cada recruta tinha seu rolo de papel higiênico.

Viaturas sem manutenção

Os PMs reconhecem que o equipamento nas ruas é precário. "Não tem manutenção. Vocês esbarrarão em praticamente todas as viaturas em péssimas condições. Depois, verão que [a situação] virou normal."

A PM recebeu, em fevereiro, 632 carros novos da Secretaria Nacional de Segurança Pública, herança dos Jogos Panamericanos (em julho de 2007). Os rádios são outro problema. "Todas as viaturas têm rádio e, algumas, GPS. Muitas vezes, o rádio não funciona. Tem gente que usa e joga no painel. Cuide, você pode depender dele."

6. Corrupção

Um candidato me diz, ainda na seleção, que vai para o batalhão do irmão, oficial. Pergunto se a área, de duas grandes favelas com tráfico, não é perigosa. "Tranqüilo! Tá tudo "arregado" [arreglado]. Meu irmão ganha R$ 2.000 por mês lá." Do tráfico? "De vans e comércio. Quando a PM chega, os traficantes falam no rádio: "Tá tranqüilo, é tudo estrela [oficial]"."

O rapaz foi barrado, mas casos como esse preocupam a PM, que tenta doutrinar os alunos contra a corrupção e os desvios para o crime.

O tenente comandante da companhia avisa: "Se vieram com expectativa de ficar ricos, casa na praia, ouro no corpo, carro do ano, estão no lugar errado. PM tem de viver do salário. Quando vieram, sabiam quanto era. Vai ter carro? Vai. Vectra? Não. Se ouviu história de PM com carro do ano, casa de praia, rico... Pode até ser digno, com outra atividade legal, mas essa não é a realidade [da maioria]".

Segundo ele, "90% dos PMs são dignos". "Vocês já ouviram falar mal de PMs. É porque o primeiro contato foi com um PM molambento, lixento, gordo, mal-educado. Se a apresentação é ruim, fica a má impressão da corporação. O PM não pode perder a dignidade e a honra."

"Canibalismo"

Alunos relativizam, dizendo que "na pista" é diferente. "O sargento antigão te dá o dinheiro [propina]. Aí, você: "Não, não, sargento, não quero, não!". E o cara: "Pára com essa porra, soldado, toma esse dinheiro aí! Não perturba, toma essa porra logo, não enche o saco!"."

Recrutas perguntam se é possível atuar em equipe desonesta sem "pegar dinheiro". "É só dizer "não" e pedir para sair do grupo. Não é entregar. Os caras vão te respeitar, porque sabe o podre deles e não revelou."

Nem sempre os conselhos surtem efeito. "Quero ir para o Trânsito: rende uma moeda", ri um aluno. "Não quero uniforme, quero a carteira. Ganho um dinheiro e em dois anos vou para o Nordeste", diz outro.

Um ex-fuzileiro naval, que planeja ser do Bope, deixa claro: "Se continuar com esse pensamento, eu mesmo vou te prender". As chances de irregularidades são amplas. "A PM dá munição para a arma pessoal?", pergunta um. "Quem dá é vagabundo: munição que você apreende na favela e não apresenta ao batalhão", diz outro.

"Canibalismo", furtos de peças e más condições de carros não são só cenas de "Tropa de Elite". "Quem garante que o pneu careca não estava novo, a bateria ótima e trocaram por uma velha? Não estou falando nada, mas pode acontecer. O máximo que terá, se encontrar, é macaco, chave de roda e estepe. Não sabe se o colega saiu com estepe e entregou sem. Está errado, relata", diz um PM.

Propina miúda

Ainda na fase de seleção, durante a prova intelectual, dois ex-Reservistas da Paz (programa com jovens em apoio à PM, já extinto) contam que não prendiam ninguém na zona sul.

"Quando pega [assaltante], a gente dá um pau. É mais fácil bater que prender. Leva para o canto, não vai fazer na frente de todo mundo. Prender dá muito trabalho: perde o dia e não come. Um dia fiquei na delegacia das 13h às 22h."

Outro relatou o trabalho no Maracanã. "De vez em quando, a porrada estanca. Mas jogo é bom, porque dá para ganhar R$ 5 dos cambistas para deixá-los furar a fila."

Em fevereiro vi alunos no estádio, de cassetete, revistando torcedores, corteses e corretos.
Em outro momento, um grupo graceja dos pedidos de propina. "Um amigo deu uma garrafa de água mineral!"

A outro, o PM chegou perguntando: "O que você tem pra perder aí?" Levou o lanche do McDonald's. Todos riem. "Ninguém quer dividir o "arrego" [propina] com o Bope! Mas, na hora que o tiro come, chama o Bope!" Comenta-se então que a PM tem fama de corrupta. "Uma injustiça!", riem todos.

7. Aula de ética

Polícia que mais mata no Brasil, freqüentemente acusada de abuso de violência e corrupção, a PM do Rio só oferece 12 horas de "Ética e Direitos Humanos" na formação básica.

A cadeira ocupa 1% das 1.160 horas de instrução, embora seja uma das 20 matérias avaliadas com prova. "São 12 horas: é pouco. E vocês sentirão falta, porque é a única aula em que podem falar", reconhece o professor, civil. No primeiro dia, debate-se "a ética no país" e as instituições. "Ainda estou verificando qual será o conteúdo."

O instrutor ensina: "Se alguém vier alegar que é representante dos direitos humanos, o PM pode se colocar também como profissional dos direitos humanos."

Em outra aula, diz que "não posso cobrar do PM ética e moral se sou o primeiro a oferecer R$ 10 quando sou parado." Diz que os políticos mudam leis para se favorecerem e questiona quem defende a descriminalização da maconha. "É porque "meu filho não pode ser preso"."

Fim do mundo

Em outra aula, propõe um exercício: o mundo acabará e é preciso escolher três pessoas que ficarão em um abrigo por 20 anos, para perpetuar a humanidade, entre as seguintes: uma menina de 14 anos; uma prostituta de 18; um cadeirante de 19; uma homossexual de 17; uma religiosa extremista de 18; um soropositivo, também de 18; um PM de 22, condenado por estupro; um homem de 60; um traficante e usuário de 18; um ditador e genocida de 19.

Todos escolheram a menina, em idade reprodutiva e com "poucos vícios"; muitos optaram pelo PM; pelo homem de 60, por "ter experiência" e "sabedoria"; outros elegeram a religiosa, de "valores"; o traficante teve votação, crença na regeneração; poucos escolheram o cadeirante e nenhum grupo incluiu o genocida, embora um aluno o tenha defendido para "organizar".

Ninguém quis o soropositivo. A prostituta foi selecionada para "divertir" os homens e "reproduzir".

8. Imagem negativa

Na primeira semana, recrutas saíam do quartel quando uma jovem no carro gritou: "Seus vermes! Vermes!".

Regida pelo lema "servir e proteger", a PM tem relação tensa com a sociedade. Há latente rancor por parte dos policiais, que julgam não ter o reconhecimento daqueles por quem se arriscam. "A população é mal-educada. Vocês colaborarão para a rejeição cair. É um câncer, que não mudaremos. A sociedade descasca a PM. Wagner Montes [apresentador de programa na TV Record do Rio] descasca bandido. Bandido dá tiro pra caramba. Mas quem matou? A PM! Só Wagner Montes defende a PM", lamenta um sargento.

Um aspirante critica. "O playboy é parado e a primeira coisa que faz é: "Quanto é o café [propina]?" Dá R$ 10 e, quando vai embora, xinga o PM: "Safado, corrupto!" E ele? A sociedade tem a polícia que merece? Tem. A mídia só dá porrada, mas esta é uma boa casa."

Há inquietação com a imagem negativa, e o inconformismo reforça o corporativismo.

"O código 800 [auxílio a policial, prioridade] é o mais importante. Tem a velhinha assaltada e o 800; esquece a velha e socorre o PM. Primeiro o colega. Ninguém gosta de vocês, só seu cachorro. A cidade vai odiar vocês: o porteiro dá café, a mulher dá lanche, mas todo mundo te odeia, só dá porque está de farda." Outro aspirante resume. "Hoje, tudo o que o PM faz incorre em erro, mesmo quando não é."

Um sargento ataca. "A sociedade quer paz social? Faz blitz, pega o filho do juiz com droga... Entra na favela, mata 15 bandidos e uma velhinha. Aí fazem passeata pela velha."

Um instrutor diz que o PM que a sociedade quer não fuma, não bebe e não pega dinheiro. "Esse PM de cordão de ouro, pochete [com arma], acabou, ficou no tempo. Na última turma, morreu um aluno, vindo para cá, de pochete, com uma saraivada de tiros. Não quero ninguém morto na minha companhia. É horrível." Em fevereiro, um aspirante foi assassinado ao sair do quartel.

Ao assumir o comando do Centro de Formação, o coronel Ivan Muniz tinha como meta recuperar a imagem da corporação -"mudar o rosto da PM", em suas palavras.

"Muitos querem pisar este solo sagrado. Alguns terão a honra e a glória de ser PMs, heróis sociais, na luta, enquanto outros se omitem. Se não houvesse sacrifício, não haveria heroísmo, heróis sociais. Não tenho dúvida de que aqui há heróis sociais, que os senhores farão diferença e darão um novo rosto à PM", disse.

Sereno e cordial, ia diariamente ao rancho. "Boa tarde! Está boa a comida?", perguntava. Em 30 de janeiro passado, no auge de crise da PM no Rio, o coronel Muniz entregou o cargo, com mais de 40 comandantes da corporação, em protesto contra os salários e a exoneração do comandante-geral Ubiratan Ângelo.

9. Favela X zona sul

Apenas a minoria mora em favelas. Os recrutas são aprovados em concurso que exige ensino médio e tem dez candidatos por vaga, mais que muitos vestibulares.

Único morador da zona sul no pelotão -talvez na companhia-, sou apelidado de "Zona Sul". "É outra realidade, outro mundo. O PM na zona sul dá até "boa noite, senhor". Aqui na zona oeste é: "Vai dando logo, entrega logo que, se eu achar, tá fodido! Sai do carro, sai, sai!"", brinca um colega.

"A PM é malvista na zona sul, né? Fui taxista e ouvia falarem muito mal", ri um rapaz que ficou amigo.

Os instrutores reconhecem a atuação distinta da PM, de acordo com a área. "Vai abordar do mesmo jeito na Vieira Souto [Ipanema] e no Jacaré [favela da zona norte]? Depende da situação, da área de risco, do padrão social. Na favela, se der as costas, leva rajada."

Eu vivia situação dúbia: era militar sem ser e tinha jornada dupla, de PM e jornalista.

Além da rotina militar, tinha de prestar atenção a tudo. "Quer ser o 01 mesmo, hein? Anota tudo..."

Tinha bom relacionamento no pelotão. Emprestei caderno para colegas copiarem e ajudei a escrever bilhetes e documentos.

Brincava, fiz amizades -gostei de muitos e mantive contato com alguns. Não podia revelar minha atividade, mas às vezes desconfiavam. "Você é muito calmo, não tem cara de soldado. É "moita", na sua. Fica só ouvindo tudo, quietinho. Vai ser da P2 [serviço reservado da PM]", dizia um colega.

10. Desistência


Por volta de 10h do dia 25 de janeiro, fui à companhia pedir dispensa. Apresentei-me a dois sargentos -um homem e uma mulher: "Aluno CFSd Gomide, primeiro pelotão: permissão para falar".

"Com licença, gostaria de pedir baixa."

"Desistir? Você quer ir embora?", perguntou a sargenteante (serviço administrativo), conhecida pelo rigor (na véspera, entregara-lhe um documento. Sem me olhar, envolveu com caneta vermelha a palavra "atenciosamente" e mandou reescrever as duas vias. "Não existe isso no militarismo." Deu uma bronca em um aluno que pedira dois dias de dispensa para casar. "Aqui tem regulamento! São oito dias!").

"Quer ir embora, aluno?", perguntou o outro, careca e brincalhão, surpreso.

"Sim, senhor."

"Tem certeza?"

O tom dos dois era de atenção e respeito. Queriam me ajudar e me convencer a ficar.

"Sim, senhora."

"Pensa bem... Mas por quê?", insistiram.

"Tenho uma proposta de trabalho melhor."

"Por que não espera publicar seu nome incorporado e tranca matrícula? Pode voltar em até dois anos... Deus queira que isso não aconteça, não vai acontecer, mas vai que o trabalho aí fora dá para trás, você vai ficar com o quê?... Vai fazer o quê com o mês que ficou aqui? Espera publicar e aí tranca. Não é melhor assim?", perguntou o sargento, com boa vontade.

"Sim, senhor."

"Então, vai lá, sai daqui, seu narigudo!", disse, rindo.

Voltei ao pelotão e fomos distribuídos pelo quartel para faxina. Coube-me recolher lixeiras de plástico, subir e jogar o lixo na caçamba de um caminhão. Recolhemos 13. De algumas, escorria chorume. "Você está fazendo o quê aqui? Vem da zona sul, podia estar na praia agora. Nunca viu lixo de perto, hein? A empregada é que limpava...", ria um colega.

Quando voltei à sargenteante, um aluno esperava para ser atendido. "Deixa eu resolver a situação do "defunto" aqui... Você sabe que agora é defunto, né?", e apontou um quadro-negro. Sob o título "Cemitério", havia o desenho de um crânio, e os números de quatro desistentes do curso, ao lado de uma cruz, simbolizando a "morte".

Eu era o quinto. Um ex-fuzileiro naval, forte e com quase dois metros de altura, acompanhou-me até o recrutamento.

Sem computadores

Reparei que a sala tinha infiltrações nas paredes e no teto, rebocos caindo e teias de aranha. Vislumbrei uma barata na pilha de documentos e três cadeiras quebradas -o estofamento estava rasgado. Ouvi a voz de uma tenente, irritada. "Como tantas pessoas ficaram nessa imundície? Me admira a coronel ficar tanto tempo nessa podridão!"

Sem computadores, fiz a declaração de desistência de próprio punho. Um residente de enfermagem, aprovado no concurso para a segunda turma, entrou na sala e perguntou se poderia começar o curso e trancar matrícula, para concluir a especialização. "Quero muito ser policial", explicou. "É querer muito, você é louco, mesmo", riu uma sargento.

O rapaz vai embora. Termino a declaração e recebo meus documentos de volta. "Viu lá, os PMs da cerveja? Que vergonha! Aí a gente fala que é PM e todo mundo olha torto, acha que é safado. Chega com carro novo, comprado em mil prestações, já olham: "Ladrão'!", comenta a policial. "Boa sorte!"

De volta à companhia, passei por seis colegas de pelotão, que limpavam a área perto do campo. "É sério mesmo, cara, vai sair?" Deram-me um abraço e falaram para não perdermos contato. Na companhia, despedi-me dos dois sargentos.

"Vai com Deus e sucesso", desejou a sargenteante, batendo de leve em meu ombro.

"Meu amigo, boa sorte, vai com Deus! Lembre só das coisas boas da PM, esqueça as ruins. Não fale mal da PM, fale só as coisas boas, as ruins esqueça!", disse o sargento careca, sorrindo, como sempre.

Eu estava em posição de sentido. "Pára com isso, você não é mais militar, não!"

"Defunto" encomendado, senti-me livre. Durante 23 dias, vivi como PM. Quando saí da companhia, pelo atalho antes proibido, restavam 454 alunos na turma do Curso de Formação de Soldados 2008.


Decálogo policial é lido ao microfone

O "decálogo" é um conjunto de normas básicas de policiamento ostensivo. Foi uma das primeiras aulas que tivemos, no segundo dia. Em muitas manhãs, no início da formatura, um aspirante ou aluno o lia ao microfone. (RG)

1. Verifique as condições de funcionamento da viatura (manutenção de primeiro escalão)

2. Atente para o funcionamento e a perfeita utilização dos aparelhos de comunicação

3. Examine o armamento e o equipamento e tenha responsabilidade em seu emprego

4. Aborde e reviste quaisquer suspeitos, observando sempre as normas de segurança

5. Utilize as técnicas de abordagem de pessoas, veículos e de ações em edificações

6. Comunique abordagens, revistas, deslocamentos e assunção de ocorrências ao Comando de Operações

7. Permaneça atento a toda movimentação ao seu redor, principalmente quando for necessário estar no interior de cabines, DPOs [destacamentos de polícia ostensiva], PPCs [postos de policiamento comunitário]; se em viaturas, um companheiro deve proporcionar a devida segurança ao outro

8. Efetue acompanhamento de veículos suspeitos de forma técnica e tranqüila. Utilize o rádio da viatura para possibilitar o cerco

9. Seja educado e cortês no tratamento com as pessoas. Atitude não é sinônimo de grosseria

10. Lembre-se de que a perfeita execução do serviço refletirá no seio da sociedade, de sua família, perante seus superiores hierárquicos e no círculo de seus pares


"A gente sabe tudo!"

Candidato passa por investigação minuciosa, e polícia pergunta sobre seus antecedentes até a porteiro

Raphael, um sargento veio perguntar por você. Vai entrar para a PM, é?", questionou o porteiro, quando cheguei de viagem em setembro. "Fique tranqüilo: falei que você é jornalista conceituado."

Achei que estava encerrada minha chance de fazer o curso de formação da PM. No "Inventário de Pesquisa Social", 15 folhas, escrevi ser formado em Comunicação e trabalhar na "Folha da Manhã S.A.", mas evitara o termo "repórter".

Com uma foto ampliada, o PM à paisana perguntara sobre mim na rua. A diligência visa a identificar a "ambiência social" e se o candidato é criminoso, encrenqueiro ou usa drogas. Só meu irmão estava em casa. Em certos casos, falam com os pais e vêem até o quarto.

Outro porteiro, José, tentou me demover. "Vai ser mesmo PM, é? Tá maluco, homem?" Tinha certeza de que me interrogariam sobre a profissão. Mas, na entrevista rápida, o sargento só confirmou dados e fez uma ou outra pergunta, nada sobre eu ser jornalista.

Tive mais duas entrevistas: "Por que quer ser PM? Vai a baile funk? Alguém na família preso? Parentes na PM? Drogas? Nunca? Nunca mesmo? Tem arma de fogo?"

Teste de paciência

O inventário que preenchemos nas arquibancadas de um ginásio na seleção tem nossa foto 5 por 7 na capa, com o aviso: "Seja sincero, pois o que responder será investigado posteriormente. [...] Sua honestidade poderá torná-lo um PM".

É a primeira etapa da investigação da vida e de antecedentes. Depois, apresentamos certidão de "nada consta" criminal, do Serasa e SPC (serviços de proteção ao crédito), além de oito "declarações de idoneidade (boa conduta)" de pessoas segundo as quais sou "cidadão honesto, trabalhador, de idoneidade inquestionável, acima de qualquer suspeita".

"Não ache que vai enganar a pesquisa social. Não invente. A gente sabe tudo! Quem omite, está escondendo, será reprovado. Fumou maconhazinha há quatro anos, escreve! A gente descobre. Seu amigo é que vai te entregar."

Cavanhaque, camisa aberta revelando cordão de ouro, o sargento grita. "Quis entrar para a PM? PM é "créu". Fez prova sem carteira de motorista [ríspido]? Está no edital. Não tem, está eliminado."

Mostram foto de rapaz com submetralhadora. "Era candidato. Outro foi preso três vezes em Portugal e achou que fosse entrar aqui." Um rapaz me revela: "Apaguei o Orkut (um dos itens) ontem, fiz um novo."

O candidato responde, entre outras coisas: se já teve parentes ou vizinhos presos ou envolvidos em contravenção ou drogas; passagem pela polícia; quantas vezes usou droga e o motivo; se tem tatuagem e o significado; por que se inscreveu e a opinião da família; se trabalha em atividade informal ou transporte alternativo.

"Se tem milícia, ponho?", perguntam. "Milícia e tráfico são iguais, só troca a fantasia."

O concurso é um teste de paciência. Do exame intelectual à incorporação foram sete meses de processo e 18 idas ao Centro de Formação, a 45 km da minha casa, na zona sul.

Na seleção, tínhamos hora para chegar (entre 7h e 7h30), mas não para sair. Podia demorar duas, três horas ou o dia inteiro, dependendo da burocracia, da fila, da classificação, da parada para almoço dos PMs...

Uma vez esperei três horas para tirar impressões digitais, após ir para o fim da fila por dever comprovante de residência. "Não faz essa cara, não! Nem entrou e já está reclamando!", repreendeu-me uma sargento.

Muitos se queixavam de faltar ou se atrasar no trabalho. Outros de ter de ir só pelo resultado de uma etapa. "Bastava pôr na internet."

Houve atrasos no calendário. Em agosto, a previsão de incorporação era outubro. Depois ouvimos que seria em novembro, em 7 e 20 de dezembro. Em 10 de dezembro, nos avisaram que seria em janeiro, mas ainda voltaríamos no dia 27, para inspeção de barba e cabelo e pegar o RG da PM.

Resistência familiar

O gerente jurídico de uma construtora, advogado de 24 anos, ficou entre os cinco primeiros colocados. Terno e gravata, cabelos louros compridos, chamava a atenção na seleção.

"Sempre quis ser policial." Pretendia ser oficial ou delegado federal. "Não adianta, não gosto de direito imobiliário." Já não tinha desculpas para o chefe pelas faltas e atrasos. "Carro do pai bateu, dengue..." Convenceu o patrão, mas perdeu a namorada, advogada. "Acha que estou andando para trás. É preconceito." Abandonou o treinamento no segundo mês.

Principalmente entre jovens de classe média -mas também entre outros-, a resistência da família é motivo de desistências do curso.

Boa parte dos recrutas não pretendia seguir carreira como soldado, vista como emprego provisório. Com salário baixo e alto risco, a PM é trampolim para concursos mais estáveis e bem remunerados. Entre os 450, havia classificados até a 1.700ª colocação, devido a reprovações e desistências.

Aprovados no concurso de nível médio, muitos são formados ou cursam faculdade; há grande número de ex-militares e militares temporários.

A PM firmou convênio com uma faculdade particular e criou um curso de direito na sede da Academia de Polícia Militar Dom João 6º, no centro de formação. Com desconto de 40%, o custo mensal cai para R$ 211,84.

Um ex-fuzileiro, aluno de direito, recomendou: "Não fica nessa não, cara! Eu não vou ficar aqui muito tempo. Quero sair o quanto antes. Estudar, fazer concurso."

O uso da carteira policial como salvo-conduto é um "salário indireto". "Tem gente que dá "carteirada" com a identidade do curso e até com a foto 3 por 4 para não pagar boate, é brincadeira? Um do meu concurso não pagava nada: ia ao cinema e jantava de graça com a namorada. Usa-se a carteira muito mais na folga. Com a farda, você é "o cara", ninguém nega nada", diz um cabo. (RG)

PM de algemas

Para antropóloga, sociedade vê corporação como "a Geni do serviço público", mas mandatos dos policiais são um "cheque em branco"

Estado ambulante" e principal tomador de decisões, o policial militar vive a insegurança de ter um "mandato" indefinido, "um cheque em branco", ao mesmo tempo em que é submetido a pressões e desautorizado a todo momento. A avaliação é da antropóloga Jaqueline Muniz, professora do mestrado em direito da Universidade Cândido Mendes, no Rio, e autora da tese de doutorado "Ser Policial É Sobretudo uma Razão de Ser" (trecho da "Canção do Policial Militar").

Para ela, o policial vive no "limbo", na indefinição do que pode ou não pode fazer, e o saber aprendido no cotidiano da rua não é levado à escola.

Muniz considera que comentários de PMs do curso demonstram "sensibilidade crítica e política, lucidez".

Para ela, o problema está no "mandato em aberto, que torna o PM mais vulnerável que o bandido". A ausência de regras aumenta a violência e dificulta o controle da polícia.

"É um cheque em branco, de que cada um se apropria e preenche como deseja, porque o mandato não está normatizado de maneira clara."

"Até onde vai o mandato do policial? O PM é o tempo todo desautorizado e não está preparado para tomar decisões. Na ausência de clareza, ele se sabe inseguro, e todo uso de força é considerado violência. Aí tende a agir com mais força que o necessário. Quanto menor a confiança, mais violência. O mandato do policial está foragido."

Para ela, os PMs são violentos "não por serem facínoras", mas porque não há política de uso da força. "A violência é uma resposta. Quem se responsabiliza? O que aceitamos? Achamos que o PM é faxineiro social, a "Geni" do serviço público. A corrupção acontece, na definição sociológica, que é de desvio do mandato público."

As pressões políticas e o assédio, diz, empurram os policiais para a irregularidade, a barganha e os negócios informais. "Não há "accountability" [prestação de contas]. Como posso responsabilizar alguém se as regras do jogo estão abertas? O policial tem vários patrões, e cada procurador foge com sua procuração. Estão abertos ao improviso. O PM se preocupa se está agradando ao coronel, à milícia, ao político. Vive entre a cruz e a caldeira. Indigente, mendicante, a polícia recebe migalhas para continuar dependente."

Descontrole

A antropóloga afirma que a situação deixa os PMs "algemados" e gera descontrole.
"Quem tem controle? O secretário? O governador de fato manda? É a privatização do mandato: o PM é o Estado ambulante nas ruas. Quando atira, é o governador atirando. Tem de ter autonomia diante dos grupos de pressão para prestar contas e não ser vulnerável. Ou fabrica saldos operacionais para salvar a carreira. Alguém nega o pedido de um policial? Ninguém melhor que o agente da lei para o governo paralelo."

Pela ausência de regras objetivas, explica Muniz, os mecanismos de controle interno da corporação "são muito mais decorativos que funcionais". "Não tem termos concretos. Por mais que a Corregedoria e a Ouvidoria possam agir, esbarram na ausência de regras."

Na opinião da pesquisadora, "ignora-se que o policial da esquina é o principal tomador de decisões". "É visto como soldado, e não como executivo de Segurança Pública. Negamos sua autoridade e discricionariedade. Tem de decidir instantaneamente: "Atiro ou não, recuo ou avanço?". São decisões que não se adiam. E, quando se nega essa autoridade, esse PM é o mais frágil, inseguro."


Sprint final

Em meio a pistas esburacadas, saltos, corridas e flexões surtem efeito e mostram evolução física do repórter

A rotina de ordem-unida e exercícios faz efeito, mostraram avaliações físicas feitas com intervalo de 22 dias. Embora resultados sejam mais precisos após três meses, evoluí em quase todos os quesitos.

Meu percentual de gordura caiu de 21,5% para 17%; perdi 4,4 kg de gordura e ganhei 3 kg de músculos; diminuí 16 cm na soma de 12 medidas, sendo 4 cm no abdome e 2,5 cm no tórax. Os 700 g a mais foram em peso magro, explicou Tércio de Faria Martin, responsável pela avaliação.

Passei de 28 para 40 flexões, elevando a resistência muscular de "regular" para "boa" -excelente, só 45. A força abdominal se manteve no grau máximo, e a flexibilidade evoluiu de "média" para "grande".

Na primeira aula de educação física, fizemos alongamentos, cem polichinelos, 30 flexões e 90 abdominais antes de correr 35 minutos -de 4 km a 5 km. Foi a primeira vez em que corri tanto tempo na vida e cansei, mas completei.

O tenente instrutor, ex-fuzileiro naval, ganhou apelido de He-Man, pelo abdome definido como o do personagem.

As corridas aumentaram para 40 minutos. Aquele que parava sem motivo de contusão era "anotado", para eventual punição.

Uma vez, o comandante do Corpo de Alunos do centro, um jovem major, juntou-se à tropa.

"Não corro isso há cinco anos." Pediu a um ex-militar para não puxar canções do Exército -com alusão a morte e destruição-, só da polícia. "Sem ressentimentos, mas não é conveniente."

Começáramos a entrar em forma para a prova física, no concurso. "Bem-vindos! Vamos comemorar a aprovação com flexões." Tinha sido preciso superar idiossincrasias, a pista esburacada e a agressividade da vira-lata Pretinha.

O sargento prometera "esculachar" quem não fizesse duas barras e deu dica para correr 100 metros em 16 segundos. "Pensa que a mulher está te chifrando lá."

Suspensos na barra, braços esticados, são duas repetições, sem impulso, na primeira prova. Parece fácil, mas muitos reprovados ficam nessa fase.

Treinara uma vez, na véspera, e conseguira. Na hora, porém, diante de três PMs, fiquei tenso e fiz a segunda esticando o pescoço. "Aprovado!"

Vêm as 15 flexões, "cotovelos colados ao corpo", muitas vezes ignoradas. "Faz direito, cotovelo junto ao corpo! 12, 12, 12..." Um aluno desistiu após 23 flexões -refez todos os exercícios, 20 dias depois.

"Pô, sargento!" "Candidato, não conteste!" Fiz 21 flexões para ser aprovado.

A concentração é difícil com Pretinha avançando nos candidatos durante flexões. "Cachorro maluco!"

O salto em altura foi drama dos baixinhos e incógnita para a maioria. O 1,10 metro parecia mais alto que imaginávamos, mas, com alguma coordenação, eu e a maioria passamos de primeira. Torcíamos pelo sucesso alheio. "Sem vibração!", reclamavam os PMs.

Alguns ficam até a terceira tentativa. Ruço derrubou o sarrafo duas vezes. "Porra, caralho!", vibra, ao passar na terceira, aplaudido. "Tá maluco? Palavrão?", repreende o major.

"Desculpe...", respondeu. "Não tem desculpa, não!" Sem saber o que fazer, prestou continência. "Tu é [sic] militar pra prestar continência? Pára com essa porra!"

"Se vira!"

Um rapaz balbucia algo. "O problema é seu! Se vira!" Salta o sarrafo, na terceira vez, pés juntos, mas o sargento grita, quase satisfeito: "Reprovado! Na terceira tentativa! Tá de sacanagem!"

As etapas finais eram 100 metros em 16 segundos e 2 km em 12 minutos, minha preocupação.

Treinara quatro vezes e conseguira. Fiz os 100 metros em 13s80, mas forcei e senti as pernas pesadas. Descansei menos de cinco minutos antes dos 2 km. Aí foi um sofrimento.

Corremos em forma, em meio a um vendaval. O voluntário para liderar o grupo fez a primeira volta de 400 metros em 1min45s, em vez de 2min15s, como sugerido. Foi demais para meu precário preparo físico: fiquei para trás e achei que não completaria a tempo. Caminhei duas vezes para retomar fôlego rumo ao "sprint" final.

Fui o penúltimo a terminar, aliviado, logo atrás de cinco outros, em 11min29s, a 31 segundos do limite. Por último, chegou um professor de matemática, em 11min58s. A ambulância e os paramédicos não foram acionados.

Suados e cansados após os exercícios, só 20 tomaram banho: a água do único e malcheiroso banheiro acabou. Estirados no chão, esperando mais uma burocracia, alguns cochilavam. O major acorda um:

"Monstro, tá babando!". Para um barbudo, pergunta: "Quantos anos você tem? 28? Parece 40!". Passa por rapaz com cabelo curto e topete. "Fala, alça de boquete!" "Esse major é maluco. Veja o olhar dele, sinistro, cara de maluco. Falou que já ficou no "psicodoido"." (RG)

Comentários

  1. Este relato me lembrou cenas de filmes estadunidenses mostrando policiais e delegacias no México com ventiladores de teto, moscas, cachorros sarnentos e policiais gordos e estúpidos com as camisas da farda desabotoadas, suando e falando palavrões. E, pelo menos no Rio, o "clichê" é verdadeiro. As Repúblicas das Bananas, como a nossa, merecem a polícia que têm!


    Gaius

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Artigos de Luiz Felipe Pondé

O que muda na língua portuguesa com a reforma ortográfica

Europa tem 75 mil prostitutas do Brasil