Tremor assusta São Paulo e mais três Estados (Folha)


Por 6 segundos, moradores de SP (foto), RJ, SC e PR sentiram efeitos de tremor de 5,2 na escala Richter; geológos não descartam novos abalos

Foram apenas seis segundos, mas um tremor de terra de 5,2 graus na escala Richter assustou ontem à noite, por volta das 21h, moradores de São Paulo e de mais três Estados -Rio, Paraná e Santa Catarina. Com epicentro na costa brasileira, a cerca de 270 km da capital paulista, o terremoto foi considerado moderado por cientistas e geólogos do país que não descartaram a possibilidade de novos tremores. Assustadas, pessoas deixaram prédios, universidades suspenderam aulas e há relatos de rachaduras em edificações na zona oeste e em um hospital na zona leste. Só o prédio central do Corpo de Bombeiros em São Paulo registrou 3.600 chamados em uma hora. Estima-se que tenha sido o maior tremor em São Paulo desde 1922.

Tremor foi o maior em São Paulo desde 1922

Ondas de choque se propagaram em dois minutos e atingiram todos os bairros da capital; abalo, às 21h48, atingiu 5,2 graus

Epicentro foi em alto-mar, em São Vicente, a 270 km de SP; outros tremores parecidos podem ocorrer nos próximos dias, diz especialista

DA REPORTAGEM LOCAL

Um terremoto de 5,2 graus na escala Richter aconteceu ontem às 21h e 48 segundos na costa do Estado de São Paulo e, depois de se propagar em ondas de choque durante dois minutos, atingiu todos os bairros da capital paulista, boa parte do Estado, além do Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina.

O chefe do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília, Lucas Vieira de Barros, admitiu a hipótese de que outros tremores, de intensidade parecida, aconteçam nos próximos dias: "Em geral a sismicidade se mantém por um período mais longo, até o reacomodamento do terreno."

Em geral, tremores dessa ordem de magnitude provocam no máximo pequenos danos em edifícios. Até a conclusão desta edição, não havia relato de pessoas feridas.

"Em termos mundiais, os 5,2 graus na escala Richter são apenas uma magnitude moderada, mas em termos de Brasil, o abalo foi expressiva", afirmou Vieira de Barros, em relação ao terremoto de ontem à noite. Em 1922, outro tremor de mesma magnitude foi registrado em São Paulo. Nunca a cidade foi chacoalhada por terremoto mais intenso.

O epicentro do tremor foi em um ponto em alto-mar localizado a uma distância de 215 km de São Vicente e a uma profundidade estimada de 10 km, segundo os sismógrafos do US Geological Survey, órgão do governo dos Estados Unidos que monitora desastres naturais. Em relação à cidade de São Paulo, o epicentro estava a 270 km. O terremoto foi sentido em um raio de 300 a 400 km a partir do epicentro.

Bombeiros dos municípios da Grande São Paulo receberam milhares de telefonemas logo após o tremor. Eram pessoas assustadas, que queriam entender o que havia ocorrido.

O tremor no epicentro durou fração de segundos, mas as vibrações geradas por ele prolongaram-se por cerca de seis segundos e foram sentidas principalmente por pessoas em andares mais altos de edifícios.

"Foi um grande susto. Eu nunca tinha passado por isso antes. O sofá mexeu, a persiana começou a bater, minha vizinha veio para cá correndo. O prédio foi para a direita e para a esquerda várias vezes", disse Patrícia Barboza, 37, que mora no sexto andar de um edifício de oito andares no Butantã (zona oeste de São Paulo).

Segundo o cientista Vieira de Barros, o terremoto foi causado por movimentos na camada tectônica em que se apóia o continente sul-americano. "Foi uma liberação de energia na forma de onda sísmica", disse o pesquisador, ontem à noite, de seu laboratório.

Para Vieira de Barros, o Brasil vem assistindo ao que chama de "recrudescimento sísmico", o que explicaria a ocorrência, por exemplo, de vários terremotos iniciados neste ano em Sobral (Ceará), com amplitudes de até 3,9 graus, e em dezembro do ano passado em Itacarambi (Minas Gerais), com 4,9 graus na escala Richter. Este último tremor causou a morte de uma menina de cinco anos (cada grau a mais na escala Richter significa abalo com intensidade 30 vezes maior ao do grau anterior).

O pesquisador da Universidade de Brasília explica que esses tremores em território brasileiro, normalmente inerte em termos sísmicos, provavelmente decorrem de um longo ciclo de acumulação de energia em falhas geológicas ativas. É como se uma camada de terra "empurrasse" outra até que esta trincasse. Essas trincas são os terremotos, que se vão repetindo até a reacomodação das camadas geológicas.

Segundo o professor Marcelo Assumpção, do Instituto Astronômico e Geofísico da USP, o fato de o epicentro localizar-se no oceano não autoriza "de maneira alguma" temores a respeito de tsunamis.

"A intensidade do tremor paulista foi insignificante, a movimentação dissipou-se rapidamente. Nada que se compare ao terremoto que gerou o tsunami", diz Assumpção. Na Tailândia, em 2004, o terremoto teve 9 graus na escala Richter. "Nem uma onda sequer foi gerada pelo terremoto desta noite", afirma o pesquisador.

Segundo o professor George Sand de França, do Observatório Sismológico da UnB, já ocorreram no país cinco terremotos de magnitude maior do que o tremor de ontem à noite e dois com os mesmos 5,2 graus. O terremoto mais forte que ocorreu no Brasil foi em 1955, com 6,2 graus na escala Richter, e balançou a localidade de Portos Gaúchos, no Mato Grosso. O professor explica que, de dez em dez anos, ocorre um terremoto desta intensidade no Brasil. (LAURA CAPRIGLIONE, MÁRCIO PINHO, RICARDO WESTIN, JOÃO PEQUENO e RAFAEL GARCIA)


Moradores dizem ter sentido que prédios iam desmoronar

Com susto, edifícios e universidades foram esvaziados; na zona oeste, bombeiros tiveram de vistoriar rachaduras

"Vi prédio ir para a direita para a esquerda", conta moradora do Butantã; em Ubatuba, surfista pensou se tratar de assombração

DA REPORTAGEM LOCAL, DA FOLHA ONLINE, DA AGÊNCIA FOLHA, DA SUCURSAL DO RIO

Ronaldo, 36, achou que o prédio estava caindo. Patrícia, 37, assustada, viu o edifício onde mora ir "para a direita e para a esquerda". No banho, Sérgio, 71, sentiu que o chuveiro balançava. O rápido tremor de ontem assustou moradores de São Paulo , rachou paredes e fez edifícios e universidades serem esvaziados. O medo era de que tudo desabasse. O fenômeno foi sentido em outros Estados.

"Nunca vi nada igual. Estava sentado no sofá. De repente, senti uma vibração, olhei em volta e tudo estava tremendo -móveis, janelas e um aquário que tenho. Achei que o prédio estava caindo", disse o zelador Ronaldo Sena, morador do quarto andar de um prédio na Saúde (zona sul de São Paulo). Com ele estavam a mulher, o irmão e o filho de três anos -todos ficaram assustados e foram em direção à entrada do prédio.

O mesmo ocorreu num prédio no Sumaré (zona oeste) tão logo o tremor ocorreu. Um homem, sua mulher e a filha desceram apressados para a rua -iam para a casa de um parente em Santana (zona norte), segundo o segurança do prédio, Paulo Oliveira de Menezes, 46, que viu a cena.

"Foi um grande susto. Nunca passei por isso", disse Patrícia Barboza, funcionária de um hospital, que mora com a mãe no sexto andar de um edifício no Butantã (zona oeste). O prédio, segundo ela, foi para a "esquerda e para a direita" várias vezes. O tremor, diz, durou dez segundos. Na porta, logo em seguida, a vizinha batia: assustada, buscava ajuda.

Chuveiro se mexeu

Síndico de um prédio no Sumaré, Sérgio Alves Medeiros, 71, estava no banho quando notou que o chuveiro se mexia. Ele mora no nono andar. "Fiquei no banho e me perguntei: "Será que estou voltando a ficar doente?" Quando saí, meu filho quis saber se eu tinha sentido algo, pois ele viu a persiana da janela se mexer. Desci do apartamento, pois tinha certeza que outros moradores desceriam, preocupados." Hoje, ele faria uma inspeção em busca de eventuais danos ao sistema hidráulico do edifício.

Moradoras do 16º andar do mesmo prédio do Sumaré, as publicitárias Fernanda, 27, e Paula Coimbra, 30, tentaram ligar para os bombeiros, mas as linhas estavam ocupadas.

Num edifício vizinho, o engenheiro de produção Eduardo Guercia, 38, que vive no 17º andar, pensou estar delirando. "Estava deitado no sofá, e ele começou a balançar. Olhei para o vaso, que também estava balançando e achei que estava tendo uma alucinação", diz. O sofá, conta, saiu do lugar.

Em Higienópolis (zona oeste), moradores do edifício Magnólia, na rua Itacolomi, desceram assustados com o tremor. Perto dali, na avenida Angélica, a artista plástica Márcia Pastore sentiu a cadeira em que estava sentada balançar. "Foi forte, esquisito mesmo. Só me dei conta de que era um tremor porque minha irmã, que mora em Perdizes, ligou e relatou a mesma sensação", diz.

"Na hora me veio à cabeça que poderia ser um terremoto", disse a corretora de imóveis Ana Lúcia Tomko Toyama, 29, que mora em Osasco (Grande SP). A exemplo de outros relatos, ela sentiu o sofá, outros móveis e quadros balançarem.

Rachaduras

Próximo ao Butantã, no altura do km 13 da rodovia Raposo Tavares, a moradora Eliane Oliveira viu rachaduras nas paredes da sala e dos quartos. "Estava na cama, e a porta do guarda-roupas começou a tremer. Achei que fosse um caminhão passando na rua", diz a filha de Eliane, Laís Oliveira Andrade. Logo depois do tremor, todos os moradores desceram e ficaram na rua até a chegada dos bombeiros, que, depois de uma vistoria, descartaram riscos de desabamento e liberaram o prédio por volta das 23h.

Em Ubatuba (litoral norte), a surfista Elisabete Pereira, 31, pensou se tratar de assombração quando o mezanino tremeu. "Comecei a rezar. Em seguida, ouvi os vizinhos saindo de suas casas assustados."

Em Mogi das Cruzes (Grande SP), as duas universidades (Universidade Braz Cubas e Universidade de Mogi das Cruzes) liberaram os alunos logo depois do tremor. Em um bairro da cidade, um prédio foi esvaziado após moradores sentirem um cheiro de forte de gás.

A Defesa Civil da região de Campinas (95 km de SP) registrou chamadas de moradores de, ao menos, 15 cidades do interior que ficam no entorno.

Outros Estados

O tremor foi sentido do Rio a Santa Catarina. No Rio, a Defesa Civil recebeu inúmeros chamados de regiões como a Ilha do Governador e Laranjeiras, de pessoas em busca de informações. Nenhum dano havia sido constatado. Em Angra dos Reis (a 150 km do Rio), a Defesa Civil recebeu vários chamados, e a maior preocupação era com a situação da usina nuclear. Não houve danos.

Segundo a Defesa Civil do Paraná, o tremor foi sentido em Curitiba, Paranaguá e São José dos Pinhais. Não foram registrados danos nem feridos.

Em Florianópolis (SC), o abalo foi sentido no centro da ilha e em bairros próximos. O mesmo ocorreu em Joinville. (RAFAEL SAMPAIO, VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO, ESTEVÃO BERTONI, TALITA BEDINELLI, MAURÍCIO SIMIONATO E MALU TOLEDO)


EM UMA HORA: BOMBEIROS RECEBEM 3.600 LIGAÇÕES

O Comando do Corpo de Bombeiros, no centro de SP, recebeu número recorde de ligações na noite de ontem. Às 21h de uma terça-feira comum, a unidade recebe cerca de 20 telefonemas por hora; ontem, foram 60 por minutos -3.600 por hora. "As pessoas estavam muito assustadas, queriam saber o que tinha acontecido e se deviam sair de suas casas", disse o capitão Maurício Moraes de Souza. "Apesar do susto, não tivemos vítimas." No oitavo batalhão do Corpo de Bombeiros de Itapecerica da Serra (a 33 km de SP), foram recebidas 300 ligações entre as 21h e as 22h, número anormal segundo o soldado Luciano Sanches.


Orientação é que se evite local fechado

Segundo especialistas, em caso de terremoto, deve-se procurar área livre, longe de edifícios

Pessoas devem apagar fogo que estiver aceso em casa, desligar o gás para evitar vazamento e tirar aparelhos elétricos da tomada

DA REPORTAGEM LOCAL

Em caso de terremoto, é importante que as pessoas fiquem atentas a algumas recomendações para se proteger.

O ideal, de acordo com especialistas, é procurar sempre uma área livre para ficar -de preferência longe de edifícios, muros, linhas de transmissão, árvores e monumentos.
A população deve apagar qualquer fogo que estiver aceso em casa e desligar o gás para evitar vazamentos. Além disso, deve tirar equipamentos eletrônicos das tomadas.

Se estiver em casa, é bom afastar objetos que possam cair, como quadros e armários altos, e ficar embaixo de uma mesa resistente (se possível com a cabeça coberta por uma almofada ou toalha). Outra possibilidade é ficar embaixo do batente de uma porta. É bom tomar cuidado, também, com as janelas, já que os vidros podem se quebrar.

Especialistas recomendam que as pessoas que moram ou trabalham em prédios desçam para o térreo, mas evitem o uso de elevadores.

Japão

No Japão, a população está acostumada com a possibilidade de terremotos e as crianças são orientadas já na escola sobre como se proteger. Uma das dicas recorrentes aos japoneses é de abrir as portas durante o abalo para garantir as rotas de fuga.

É sugerida também a colocação de capacete ou toalha para proteger a cabeça. E deixar sempre à mão uma mochila de emergência com água, alimentos perecíveis, roupas, remédios, documentos e dinheiro.


Professora da Unesp afirma não haver risco de tsunami

DA REPORTAGEM LOCAL

Tereza Yamabe, professora de geofísica da Unesp, disse ontem à Folha que o Brasil não é um local propício a grandes terremotos em razão de estar no meio de uma grande placa, região mais estável que as bordas. Entretanto, ela afirma que terremotos de nível médio podem acontecer, principalmente em regiões como a plataforma continental, mas que isso não oferece um risco de maremotos ou tsunamis. Veja trechos da entrevista concedida ontem, por telefone.


FOLHA - O terremoto de ontem e os verificados no último ano são motivo de alarme ou sinalizam alguma tendência?

TEREZA YAMABE - Não são motivo de alarme. Os terremotos não são incomuns em regiões como a plataforma continental. Eles têm sido registrados em maior número no país, mas não sei se estão acontecendo mais vezes ou se a medição que é recente. Nunca tinha havido vítima fatal até o ano passado. Antes da década de 70 praticamente não tinha aparelho de medição. Além do que, o número de prédios altos, onde os efeitos são mais sentidos, era menor.

FOLHA - Há risco de tsunamis ou maremotos?

TEREZA - Não se tem notícias de tsunamis no Atlântico. As características das placas litosféricas são diferentes e não há necessidade de alarmar as pessoas. No Japão, onde há mais registro de maremotos, há o encontro de quatro placas.

FOLHA - Por que os terremotos de grandes proporções não são comuns no Brasil?

TEREZA - Porque o país está em uma região central da placa litosférica sul-americana, onde a tensão é menor do que nas bordas. A placa sul-americana se afasta da África e se choca com a placa de Nazca, que vem do Pacífico. Essa região de encontro é mais propensa a terremotos, os quais às vezes sentimos. As placas se movem em razão da transferência de calor passada pela movimentação das rochas derretidas. As placas se movimentam lentamente, mas vão acumulando tensão até que racham, liberando a energia acumulada por meio de ondas.

FOLHA - Na parte continental há regiões mais propícias?

TEREZA - A região do Mato Grosso ou o oeste do Estado de São Paulo costumam registrar mais tremores. Em Bebedouro (381 km da capital) tem terremotos todos os anos desde 2004. Em 1922 houve um grande terremoto na parte leste.

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