Caso Isabella: é tempo de arremessar pedras

O pai e a madrasta de Isabella podem ser culpados. Mas foram linchados, por antecipação, pela turba vigilante

por  Sérgio Augusto, para o Estadão

Embora a coisa já viesse sendo praticada desde os tempos bíblicos, foi um capitão da Virgínia que deu origem à palavra, há apenas 228 anos. Chamava-se William Lynch o padroeiro do justiçamento sumário, sem nenhuma espécie de julgamento legal, entre nós conhecido como linchamento. Quase sempre insuflado por uma horda enfurecida e insana, o linchamento, tanto o concreto (apedrejamento, enforcamento, etc.) quanto o moral (com base em conclusões prematuras e imputações eventualmente infundadas ou discutíveis), é uma das coisas mais abjetas que o ser humano inventou.


Tenho me lembrado muito do capitão Lynch e seu legado. E também de Wilhelm Reich e seu estudo sobre a Psicologia de Massa do Fascismo. Reich entendia o fascismo como a expressão da irracionalidade do homem comum cujas carências e impulsos biológicos foram reprimidos, ao longo de milênios, pelo autoritarismo familiar e pelo misticismo organizado. A partir de Reich podemos entender melhor uma série de manifestações patológicas das multidões insatisfeitas e facilmente manipuláveis. O racismo é uma delas; o linchamento, outra.

“A multidão é covarde.” A observação não é (mas poderia ser) de Reich, e sim do jornalista e escritor Guilherme Fiuza, autor de Meu Nome Não É Johnny. Entrevistado sobre o assassinato da menina Isabella, Fiuza lançou sobre a tragédia da família Nardoni um olhar lucidamente aberto a dúvidas. Indignara-se com a instantânea e irresponsável expiação do pai e da madrasta de Isabella por um delegado, por certa parte da mídia e pela arrebatada turba que defronte ao prédio dos Nardoni se juntou em vigília permanente.

Fiuza entende como poucos de expiação e linchamento moral. Há quase 18 anos, seu primeiro filho, Pedro, morreu ao cair do oitavo andar do prédio onde ele e a mãe do menino moravam, em Botafogo, zona sul do Rio. Antes mesmo de enterrar o filho, Fiuza e a mulher foram colocados sob suspeita pela polícia e obrigados a contratar um advogado para defendê-los dos testemunhos delirantes de alguns vizinhos, que declararam ter ouvido barulho de portas batendo e discussões inflamadas entre os dois, leviandades peremptoriamente desmentidas por outros vizinhos. Mas até a verdade ser esclarecida, o casal Fiuza sofreu todas as dores de uma dupla desgraça: perder um filho e ser tratado como seu suposto assassino. Com direito ao habitual “big carnival” da imprensa e da malta ensandecida.

Ensandecida e, insisto, pusilânime. Pusilânime porque anônima. Multidão não tem CPF, nem CNPJ. Como processar quem, sem identidade definida, nos acusa, sem provas, de algo que não fizemos? Que espécie de reparo pode compensar as perdas e danos, materiais e psíquicos, de um julgamento precipitado?

Fez 14 anos em março que o casal Shimara e mais quatro funcionários da Escola Base, no bairro da Aclimação, em São Paulo, começaram a ter suas vidas irremediavelmente destroçadas por um linchamento precipitado por um delegado sedento de notoriedade, perfilhado pelo jornalismo sensacionalista (“Professor ajudava a transar!”, estampou em manchete o jornal Notícias Populares) e espicaçado pela banda mais desprezível da opinião pública. Pelo visto, a lição do Caso Escola Base ainda não foi devidamente metabolizada.

Na própria noite em que Isabella morreu, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá já estavam sendo tratados como se nenhuma dúvida pairasse sobre a participação do casal no assassinato da menina. Um representante da lei extravasou suas suspeitas para a imprensa, e esta, sem pestanejar, jogou a corda para a malta. Da sanha punitiva nem um pedreiro, meramente arrolado como testemunha, escapou dos gritos de “Assassino!”, que alguns de seus vizinhos lhe lançaram, deixando-o traumatizado e malvisto até pelos próprios filhos.

Ainda que culpados, o pai e a madrasta de Isabella não podiam ter sido previamente julgados e enxovalhados. Nem invoco o preceito elementar do In dubio pro reo, pois nem sequer réus eles eram quando o linchamento teve início.

E não mais parou. A qualquer hora do dia ou da noite, curiosos anônimos, aparentemente desocupados, lotavam a calçada do prédio onde morava Isabella, cercavam a entrada de delegacias, do IML e de onde mais os suspeitos estivessem. Alguns até sorriam e faziam pose para as câmeras de TV, como se estivessem num estádio de futebol, num mafuá, ou pousados na Montanha dos Sete Abutres. Não ficaria surpreso se, no meio daqueles vigilantes, um gaiato abrisse um cartaz com os dizeres “Galvão, filma eu!”

Recolham as cordas, por favor. Precisamos refrear nossos impulsos vindicativos, acalmar os nervos descompensados pelas paranóias que nos atormentam e as frustrações que nos deformam a alma. Os mais velhos talvez se lembrem de um “caco” do comediante Ronald Golias, que, na pele de seu mais famoso personagem, o Bronco da Família Trapo, vez por outra desviava o olhar para as coxias, e, sem quê nem para quê, berrava: “Vão pará com essas pedra aí!” As pedras agora existem. Que tal deixarmos de atirá-las a torto e a direito?

Nas últimas semanas, apedrejaram não só o casal Nardoni, como o humorista Marcelo Madureira (por ter exercido o seu direito de externar uma opinião desairosa sobre o cineasta Glauber Rocha), a jovem argentina María Eugenia Barragán (xingada de “fria”, “ingrata” e “cruel” por processar os pais adotivos, que lhe mentiram sobre o passado de seus pais verdadeiros e a maltrataram a vida inteira) e os humoristas Jaguar e Ziraldo (por terem sido aquinhoados com uma aposentadoria especial, concedida pela Comissão de Anistia).

Convém deixar bem claro que não recebo nem receberei aposentadoria especial pelas aporrinhações que também sofri durante a ditadura militar. O assunto é controverso, e particularmente complicado, por envolver duas figuras legitimamente identificadas como heróis (ou vítimas) do regime autoritário. Segundo O Globo, em nota editorial, a indenização por crimes de Estado é direito consagrado e considerar-se merecedor de indenizações, uma “questão de foro íntimo”.

Cito O Globo porque foi em suas páginas que também li, na mesma edição, a seguinte manchete: “Criticaram a ditadura e ganharam R$ 1 milhão”. O correto seria: “Sofreram com a ditadura e vão ganhar R$ 1 milhão”. Passo ao largo das cartas, dos comentários e das petições postadas na internet, parcialmente comprometidos por signatários notoriamente envenenados pela inveja (de não ter participado do fenômeno Pasquim), pelo ressentimento (por ter sido criticado em suas páginas), quando não por uma patológica saudade da ditadura.

Como também estou contribuindo com meu imposto para o que apelidaram de “Bolsa-Ditadura”, sinto-me perfeitamente à vontade para dizer que o Estado deve, sim, alguma forma de indenização a quem censurou, perseguiu, prejudicou, prendeu e torturou. As quantias são de fato elevadas e nada equânimes. O ideal seria que se fizesse uma lista, a mais completa possível, de militares, civis e policiais diretamente responsáveis pela repressão, em todos os níveis, durante a ditadura, e obrigá-los a contribuir mensalmente para um fundo de pensão, a ser distribuído, da maneira mais justa possível, a quem de direito. Mas isso é impraticável.

Se eu fosse Jaguar e Ziraldo, doaria todos os milhões prometidos a uma instituição de caridade, calando a boca dos indignados respeitáveis, dos fariseus enrustidos e até dos que estão apenas cuspindo no prato em que não comeram.

> Jornalista defende Jaguar e Ziraldo no caso da bolsa-ditatura. (Paulopes Weblog)

> Caso Isabella.

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