Polícia estranha que o casal 'em tudo concorde' nos depoimentos (Estadão)

Nas transcrições, também há detalhes do relacionamento dos dois contados pelo casal, parentes e vizinhos

por Bruno Tavares e Marcelo Godoy

“Alexandre e Anna Carolina, os quais em tudo concordam e possuem a mesma opinião acerca do ocorrido, não apresentaram em momento algum, desde o primeiro contato que tiveram com as autoridades, horas depois do fato, qualquer dúvida, qualquer questionamento, tampouco sensação de estranheza diante das circunstâncias da cena do crime, diferentemente de todas as demais pessoas”. É a opinião da delegada-assistente do 9º Distrito Policial (Carandiru), Renata Helena da Silva Pontes, sobre o assassinato de Isabela Nardoni, de 5 anos. É o que se confirma com a leitura da íntegra dos depoimentos aos quais o Estado teve acesso.

A polícia diz não ter dúvidas: Alexandre Alves Nardoni, de 29 anos (o pai), e Anna Carolina Jatobá, de 24 (a madrasta), mataram Isabella. Falta concluir “quanto à motivação e individualizar a conduta” do casal. A menina foi morta no dia 29 de março, ao ser jogada pela janela do 6º andar do apartamento em que vivem seu pai, a madrasta e dois meio-irmãos, na zona norte de São Paulo.

Os depoimentos do inquérito revelam os momentos de pânico no Edifício London pouco depois da queda da menina. Os textos mostram desde reações de Alexandre e de Anna Carolina até detalhes do relacionamento do casal contados também por parentes, vizinhos e funcionários do prédio.

Alexandre contou que sua esposa e Isabella “se adoravam”, horas depois da morte. Por volta das 23h10, ele entrou na garagem. Os três filhos dormiam no carro quando ele subiu com Isabella, enquanto a mulher aguardava no veículo para que pudesse auxiliá-la com as demais crianças. Segundo a polícia, entre o momento em que o pai diz ter chegado ao prédio e a queda da menina passaram-se 19 minutos.

Alexandre afirmou que deixou Isabella e foi à garagem apanhar seus outros dois filhos e Anna Carolina. Quando voltou ao apartamento, a porta ainda estava trancada. A polícia constatou que não havia sinais de arrombamento ou invasão no prédio.

Ao chegar ao quarto da Isabella, Alexandre contou que “viu que esta não se encontrava na cama”. Então, com o filho no braço, entrou no quarto dos meninos e viu “pingos de sangue no chão”. A janela estava aberta e havia um corte na tela de proteção. Ao olhar pela janela, ele viu que sua filha estava caída lá embaixo.

Alexandre disse que desceu e tentou escutar o coração da filha. Afirmou que entrou em desespero, pedindo que os moradores acionassem ambulância”. A quebra do sigilo telefônico mostrou que o casal não tomou iniciativa de chamar o resgate, mas telefonou para seus pais, como Alexandre mesmo admitiu ao depor.

Ao ser ouvida, Anna Carolina confessou que já teve muitos desentendimentos com a mãe de Isabella, que inicialmente tinha ciúmes desta com seu marido, sendo que alguns desentendimentos terminaram há pouco tempo, quando seu filho Pietro passou a freqüentar a mesma escola que Isabella. Anna Carolina disse que seu relacionamento com a menina era “ótimo”.

Tanto o porteiro quanto o síndico do prédio contaram que Alexandre apareceu no jardim minutos após a queda, “gritando que haviam arrombado seu apartamento e jogado a filha”. Anna Carolina chegou depois e xingou o porteiro: “Seu incompetente.”

O quadro começou a mudar quando a polícia ouviu testemunhas que disseram que, antes da queda, ouviram uma criança gritar: “Papai, papai, papai, pára, pára!” Outras duas relataram uma discussão entre o casal. Os médicos-legistas constataram que a “a vítima tinha sinais claros de asfixia”. “Tudo indica que ela já estava em processo de morte com poucos sinais vitais” antes de ser “arremessada, não com a finalidade de provocar o óbito, mas de mascarar a lesão provocada”.


Não há indício de terceira pessoa, segundo a polícia

Delegada diz que mãe de Isabella reclamou de ciúme doentio da madrasta

A delegada-assistente do 9º Distrito Policial de São Paulo (Carandiru), Renata Helena da Silva Pontes, em suas considerações preliminares, alega que 'Alexandre e Anna Carolina, os quais em tudo concordam e possuem a mesma opinião acerca do ocorrido, não apresentaram em momento algum, desde o primeiro contato que tiveram com esta autoridades, horas depois do fato, qualquer dúvida, qualquer questionamento, tampouco sensação de estranheza diante das circunstâncias da cena do crime, diferentemente de todas as demais pessoas'. A certeza sobre como se deu a queda, acreditando que foi provocada, também merece críticas no texto, datado do dia 2 de abril. Veja abaixo mais detalhes das conclusões preliminares dos investigadores do caso e as demais análises.

'(...) em momento algum tiveram a iniciativa, comumente instintiva, de ligar para (...) o socorro, mesmo estando na posse de celulares, preferindo ligar para os respectivos pais, usando o telefone fixo do apartamento.

Esse comportamento incomum, revela, quiçá, que ambos já sabiam que nada mais tinham a fazer para salvar a vida da criança, necessitando, naquele momento, de proteção paterna para eles próprios. (...)

Alexandre e Anna Carolina afirmaram possuir um relacionamento harmônico e civilizado, o que foi amplamente desmentido pelas testemunhas (...)

A ex-companheira de Alexandre e mãe biológica da vítima, também revelou que Anna Carolina tinha um comportamento doentio, de ciúmes e possessividade em relação a Alexandre, a ponto de não permitir que a ex-mulher com ele falasse a respeito da filha, tendo ela que intermediar a conversação e de não permitir sequer que a ex-companheira soubesse o endereço onde moravam, querendo, por certo, mantê-la longe (...).

A hipótese de um estranho ter estado no apartamento, além de não apresentar qualquer coerência, considerando a dificuldade que encontraria para entrar em um edifício, diante do exíguo tempo disponível para praticar todo o mal contra a criança, diante do total absurdo caso tivesse alguém agido dessa forma, precipitando uma criança inocente, que não oferece qualquer obstáculo à fuga, que segundo o pai encontrava-se, inclusive, dormindo, não foi corroborada por quem quer que seja, não foi alicerçada por qualquer prova material ou testemunhal.

Pelas vozes de crianças que foram ouvidas, ao menos, por duas pessoas, minutos antes da queda, depreende-se que Isabella chegou viva. (...)

Ainda considerando o que ouviram ela gritar, depreende-se que ela se viu em situação de perigo ou ameaçada, implorando pela intercessão do pai, o que é certo, por alguma razão, não foi atendida.

(...) Pelo exposto, temos a certeza de um crime, não se cogitando em queda acidental.

Alexandre e Anna Carolina são as únicas pessoas das quais se tem certeza que tiveram acesso à vítima antes dos fatos.

Não há qualquer indício de terceira pessoa ter estado na cena do crime.

Alexandre e Anna Carolina mentiram em suas declarações, na tentativa de esconder que ela, por vezes, desequilibra-se, perde o controle, que são dados às discussões, chegando às vias de fato.

Eles não divergem em suas opiniões acerca dos fatos, o que causa estranheza, pois diante de crime tão bárbaro, é comum haver incertezas, questionamentos, ponderações, especulações. (...)

A investigação ainda demanda diversas diligências, a fim de concluir quanto à motivação, individualizar a conduta de Alexandre e Anna Carolina. '


Carta de advogados pediu que juiz se lembrasse do caso da Escola Base

Carta datada de 8 de abril e assinada pelo advogados Francisco Angelo Carbone Sobrinho e Glauco Drumond, além de dois estagiários, pede para que o desembargador Caio Canguçu de Almeida se lembre 'do caso da Escola Base, onde destruíram um casal, a casa em que moravam, a dignidade dos mesmos, colocaram-nos em celas, quando na verdade eram inocentes'. O texto pede ao desembargador que revogue a prisão temporária do casal, o que acabou acontecendo. O texto também cita outros homicídios que repercutiram na mídia, sem citar os seus executores, que responderam a processo em liberdade.

Em documento do escritório Levorin Advogados Associados, que defende o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, a prisão temporária de ambos é considerada sem 'real necessidade'. Também são criticadas as atitudes 'policialescas' das autoridades, que 'primeiro pune e, depois, se processa', sem base 'em provas, mas na simples suspeição de culpabilidade, ou pior, na presunção da periculosidade social do réu'.

Em outro trecho, o mesmo documento afirma que a função da prisão preventiva é 'diretamente inquisitória'. 'De forma cada vez mais comum a captura é ordenada, e sobretudo mantida, para constranger o imputado a confessar ou a colaborar.' Ao final, em letras maiúsculas e em negrito, lê-se: 'A decretação de prisão foi precipitada! É preciso cautela!'.

Em outro documento é citada reportagem do jornal Folha de S. Paulo, publicada em 10 de abril, que informava sobre um arrombamento em casa vizinha ao Edifício London, na mesma noite da morte de Isabella. Um pedreiro que trabalhava no local afirmou que o prédio poderia ser acessado da casa cujo portão foi arrombado, que fica num 'ponto cego' da guarita do edifício. O texto também afirma que a cerca elétrica do condomínio estava desligada, corroborando depoimento do porteiro Valdomiro da Silva Veloso - e a casa não passou por perícia policial.

> Caso Isabella.

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