Guerrilha do Araguaia: Curió confirma que os 59 foram executados


Ex-coronel promete informar onde estão os corpos

por Vasconcelo Quadros, de Curionópolis, para o JB

O homem que se transformou numa lenda da Amazônia e no mais importante arquivo vivo da Guerrilha do Araguaia escancarou seu baú: "Estou abrindo o jogo. Não há desaparecidos", afirma, em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, o ex-capitão do Exército e atual prefeito de Curionópolis (PA), Sebastião Rodrigues de Moura (foto), mais conhecido por Curió. Uma de suas revelações deverá abalar a estrutura da esquerda: o esqueleto desenterrado do Cemitério de Xambioá (TO) e supostamente identificado em 1996, em solenidade patrocinada pelo PCdoB e depois sepultada em Bauru, no interior paulista, ao contrário de todos os registros, segundo ele, não pertence à professora Maria Lucia Petit da Silva.

"Cadê o DNA?", pergunta Curió, para afirmar que sabe onde o corpo da verdadeira guerrilheira está sepultado. Segundo ele, desenterraram a pessoa errada. Maria Lúcia foi morta em junho de 1972. Seu suposto corpo foi identificado pelo legista Fortunato Badan Palhares, da Universidade de Campinas, por antropologia e através de informações de ex-guerrilheiros que com ela conviveram no Araguaia. Segundo o PCdoB e a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), era a única militante do PCdoB que desapareceu no Araguaia entre 1972 e 1975 identificada. Curió garante: é um equívoco.

Ele tem o registro de nomes, circunstâncias de morte e destino de 59 guerrilheiros. "As pessoas vão saber como morreram e onde foram parar", diz o militar. Os relatórios secretos que as Forças Armadas dizem terem sido destruídos foram guardados por Curió, que entregou a farta documentação ao jornalista que deve lançar em agosto um livro sobre a guerrilha, amparado em suas revelações.

– Meu relato é verdadeiro. Até agora, por desconhecimento ou má-fé, espalharam versões fantasiosas. Assim que começarem a ler, esquerda e direita concordarão que é verdade – afirma.

Locais diferentes

Embora evite entrar em detalhes para não estragar a surpresa da publicação, Curió admite que ordenou a retirada dos corpos das sepulturas originais e mandou enterrar em locais diferentes, cujas informações estão registradas em relatórios sigilosos e mantidos em segredo "fechado" entre ele, poucos militares e guias de sua estrita confiança. São mateiros que serviram ao Exército, participaram do conflito e depois foram retirados da região para evitar o assédio das entidades de direitos humanos que, volta e meia, retornam ao Araguaia em busca de informações sobre os desaparecidos. Curió diz que só ele pode revelar, mas se silencia sempre que é perguntado sobre os locais já apontados por guias.

– Os corpos foram transladados para mais de um local – diz ele.

Com isso, desmentie versão segundo a qual, os corpos teriam sido queimados na Serra das Andorinhas, em 1975.

No último final de semana, um dos moradores contou ao JB que um dos prováveis cemitérios clandestinos ficaria numa região de túneis que serviu como base do Exército e está localizado no pé da Serra das Andorinhas, de frente para uma região conhecida por Remanso dos Botos. O local teria ficado sob os cuidados de um dos guias de confiança de Curió, Iomar Galego. "Não o conheço", desconversa.

Curió diz que tem respeito pelos guerrilheiros que tombaram em confronto e não gosta da palavra extermínio, com a qual um de seus ex-subordinados, o tenente José Vargas Jiménez, se refere à ofensiva final das Forças Armadas. Segundo ele, a ordem para que nenhum guerrilheiro saísse vivo a partir de 1973 partiu do ex-presidente Emilio Garrastazu Médici.

– Era uma missão para ser cumprida até o final. Cumpri. Combati homens armados na selva, mas não os rotulo de bandidos. Eram jovens idealistas em caminhos diferentes dos nossos. Era uma missão constitucional – afirma.

Os últimos guerrilheiros apanhados vivos, segundo Curió, foram a estudante de enfermagem da PUC paulista, Luiza Augusta Garlippe, a Tuca, e a geóloga Dinalva Oliveira Teixeira, a Dina, que ele mesmo diz ter apanhado durante uma emboscada às 12h45 do dia 24 de julho de 1974 nas margens do Rio Sororó, a 40 quilômetros de Marabá, no caminho para Eldorado dos Carajás. As duas estavam juntas e usavam revólveres. Curió estava acompanhado de outro militar.

– Dei de presente para o general Bandeira (Antônio Bandeira, ex-chefe do Comando Militar do Planalto) o revólver 38 niquelado que estava com a Dina - lembra.

Ele afirma que as duas foram mortas, mas não revela quem as executou.

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