Duas testemunhas dizem ter ouvido tia admitir que irmão fez algo errado (Estadão)

Duas pessoas afirmam que Cristiane Nardoni, que nega a acusação, saiu apressadamente de bar da zona norte

Bruno Tavares e Marcelo Godoy

Duas testemunhas disseram ter escutado de Cristiane Nardoni, irmã do consultor jurídico Alexandre Nardoni, na noite de 29 de março, uma frase que compromete o irmão como se ele tivesse feito algo errado. Pouco antes, a menina Isabella de Oliveira Nardoni, de 5 anos, havia sido atirada pela janela do apartamento do pai, no 6º andar do Edifício London, na Rua Santa Leocádia, na Vila Isolina Mazzei, na zona norte.

Ouvidas em sigilo no 8º Distrito Policial, as testemunhas são um caixa e um gerente de um bar na zona norte de São Paulo. Os dois contaram que viram Cristiane ansiosa para deixar a casa. Ela estava acompanhada pelo noivo, que pediu ao caixa que se apressasse. A irmã de Alexandre estava chorando. Foi quando ela teria deixado escapar aquela frase. Em entrevista, Cristiane negou que seu irmão tenha dito algo que o comprometesse na ligação.

Diante da repercussão do caso, os dois funcionários procuraram o dono do bar, que os levou até o delegado Roberto Pacheco de Toledo, do 8º DP (Brás). Foi lá que as testemunhas foram ouvidas anteontem pelo delegado Calixto Calil Filho, do 9º DP, responsável pela apuração do crime. Agora, a polícia procura a pessoa que organizou a festa no bar e convidou Cristiane.

Os policiais também pediram à Justiça a quebra do sigilo telefônico de Cristiane. O objetivo é confirmar que ela recebeu um telefonema de seu pai, o advogado Antônio Nardoni, naquela noite. É que a polícia já sabe que Antônio recebeu um telefonema do filho antes mesmo de Isabella ter sido socorrida. Os investigadores esperam receber a lista das chamadas recebidas pela irmã de Alexandre ainda nesta semana.

Na manhã de ontem, os policiais do 9º DP ouviram novamente o depoimento de Anna Carolina Trotta Peixoto Jatobá, madrasta de Isabella, na carceragem do 89º DP (Portal do Morumbi), onde ela está detida. Os investigadores estão atrás de um sapato de Anna Carolina ou de Alexandre para comparar com a pegada encontrada no lençol da cama do quarto de onde Isabella foi jogada.

PERÍCIAS

Os peritos do IC já sabem que Anna Carolina trocou de blusa na noite do crime. Quando chegou ao prédio, ela usava blusa preta. Depois do crime, ela usava blusa verde-água. Os policiais encontraram manchas semelhantes a sangue tanto na calça jeans que a madrasta usava como na blusa. Todas as testemunhas são unânimes em dizer que Anna Carolina não se aproximou de Isabella depois da queda. É para confirmar o que disseram as testemunhas que os policiais foram anteontem verificar as imagens da câmera de vídeo do prédio em frente ao Edifício London.

Os peritos suspeitam que a blusa foi lavada depois do crime. Uma análise química dos fios do tecido será feita para averiguar essa suspeita. As manchas achadas, ainda segundo os peritos, são compatíveis com o cenário de alguém que carregasse a menina no colo. Sabe-se que o sangue no chão do apartamento é resultado de pingos que caíram de uma altura de pouco mais de um metro.

Os peritos buscam, por meio do exame de DNA, verificar se o suposto sangue encontrado na blusa e na calça é mesmo da madrasta. Eles estão seqüenciando o material genético de Isabella a fim de estabelecer o padrão e poder compará-lo com o padrão das amostras de substâncias semelhantes a sangue recolhidas no apartamento e nas roupas apreendidas.

LAUDO

A expectativa dos peritos e dos médicos-legistas do Instituto Médico-Legal (IML) é que até a próxima semana alguns dos laudos estejam prontos. A polícia reluta em fazer qualquer tipo de indiciamento antes de receber os laudos periciais do caso. Um delegado disse ontem considerar o caso praticamente esclarecido. Para ele, 99% do que aconteceu já foi descoberto. Ele e outros policiais concentram suas suspeitas sobre a madrasta, mas acreditam que Alexandre também pode ter tido participação no caso.

Oficialmente, a polícia mantém a postura de cautela em relação aos possíveis autores. Os policiais pretendem ouvir novamente os dois depois que os laudos principais estiverem prontos. “Antes é bobagem”, disse um delegado. Os policiais ouviram ainda o depoimento de um pedreiro de uma casa vizinha, que negou ter ocorrido arrombamento no lugar.

Anna Carolina e Alexandre tiveram a prisão temporária decretada pelo 2º Tribunal de Júri pelo prazo de 30 dias. Seus advogados dizem que eles são inocentes e entraram com um pedido de habeas-corpus para libertá-los da cadeia.

MÃE

A bancária Ana Carolina Cunha de Oliveira, de 24 anos, disse ontem ao Estado que sua filha, Isabella Nardoni, nunca voltou machucada da casa do pai, onde passava os fins de semana a cada 15 dias.

Segundo Ana Carolina, que tem evitado sair de sua casa, na zona norte da cidade, para não conversar com os repórteres que mantêm plantão no local, a menina também nunca relatou nenhuma agressão por parte do pai ou da madrasta. A bancária, no entanto, não quer emitir juízos de valor sobre a investigação da morte de sua filha.

Em sua primeira declaração após o assassinato da filha, ao Estado, Ana Carolina afirmou não saber “aonde isso vai chegar”, referindo-se à investigação policial, que começava a fechar o cerco no casal. Em depoimento no 9º DP, ela falou sobre o relacionamento amoroso com Alexandre e sobre a convivência com ele e a madrasta, por causa de Isabella.

O depoimento contribuiu para formar o perfil dos suspeitos e pesou para o pedido de prisão do casal - de acordo com o promotor Francisco Cembranelli, a palavra ciúme foi citada várias vezes no inquérito; ele não esclareceu, no entanto, em quais circunstâncias isso ocorreu. Cembranelli também afirmou que há um boletim de ocorrência feito pela mãe de Isabella contra Alexandre por ameaça de agressão, e que isso foi anexado na investigação policial. (Colaborou Laura Diniz)


Família confirma ligações, mas nega importância

‘Em nenhum momento, o Alexandre disse o que havia acontecido ou deu detalhes’, diz o pai

por Rodrigo Brancatelli e Carina Flosi

O pai da madrasta Anna Carolina, Alexandre Jatobá, confirmou que recebeu uma ligação do genro momentos após o crime, conforme os investigadores da polícia descobriram anteontem pelo registro das ligações telefônicas feitas pelo casal na noite em que Isabella caiu do 6º andar. Mas negou que, em algum momento, o genro tenha falado algo que possa incriminar a filha ou mesmo o casal, detido temporariamente desde quinta-feira passada.

“Em nenhum momento o Alexandre disse o que havia acontecido ou deu mais detalhes, óbvio que não. Ele só falou que o corpo da Isabella estava no jardim”, disse Jatobá, estagiário e estudante de Direito. “Ele estava desesperado. Eu também. Fiquei transtornado e saí correndo de casa para ir tentar ajudar... Não deu tempo de falar absolutamente nada pelo telefone. Eu falei isso já para a polícia, isso está nos depoimentos.”

Jatobá afirmou que continua acreditando na inocência do casal - “Eles faziam de tudo pela menina” - e não admite a possibilidade da sua filha de 24 anos estar envolvida no crime. “Isso jamais, jamais. As suspeitas que existem até agora são resultado de uma desordem processual, uma bagunça”, disse Jatobá. “Ficam falando besteira por aí, sem ter nenhuma prova. É preciso investigar com mais seriedade, com mais cautela. Espero que Deus ilumine a minha filha, que está à mercê da imprensa e da suposta competência da nossa polícia.” Na última sexta-feira, dia em que sua filha foi presa, Jatobá declarou que “o criminoso está solto”.

O pai de Alexandre Nardoni, o advogado Antônio Nardoni, não foi localizado ontem pelo Estado para comentar o teor da ligação que recebeu minutos após a neta ser jogada do 6º andar do Edifício l London.



Cronologia do caso

29/3
A noite do crime
A menina Isabella de Oliveira Nardoni, de 5 anos, morre após cair do 6.º andar do prédio onde mora o pai, Alexandre Nardoni, de 29, a madrasta, Anna Carolina Jatobá, de 24, e dois filhos pequenos do casal, na Vila Isolina Mazzei, zona norte de São Paulo. A tela de proteção da janela estava cortada

30/3
A versão do pai
Peritos encontram sangue no apartamento. Segundo depoimento de Alexandre à polícia, na noite do crime a família havia acabado de chegar da casa dos pais de Anna Carolina. Como as crianças dormiam, Alexandre subiu primeiro com Isabella, e depois desceu para buscar a mulher e os meninos, que ficaram no carro. Quando voltou, Isabella já estava caída no jardim do prédio. Ele disse acreditar que, nesse intervalo, uma pessoa tenha entrado no apartamento. A polícia não
encontra sinais de arrombamento.

31/3
Sinais de asfixia
O IML constata que Isabella estava viva quando caiu da janela. Policiais dizem que a menina foi encontrada com escoriações
e indícios de asfixia

1/4
Vizinhos depõem
Vizinhos do casal dizem à polícia ter ouvido gritos de “Pára, pai!” momentos antes de o corpo de Isabella ser encontrado. Os advogados do casal contestam os depoimentos. Moradores do antigo prédio dos Nardonis dizem que o casal brigava constantemente. Pedaços do estofado do carro de Alexandre são levados para análise

2/4
Mãe pede justiça
A Justiça decreta a prisão temporária de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, para “evitar o sumiço de provas importantes”. Após prestar depoimento, a mãe de Isabella, a bancária Ana Carolina Oliveira, de 24 anos, pede “que a justiça seja feita”. Peritos usam uma boneca para fazer a reconstituição do crime

3/4
Pai e madrasta são presos
O pai e a madrasta de Isabella são presos após se apresentar à Justiça.
O casal diz que é inocente e divulga cartas com declarações de amor à menina. Os textos terminam com a mesma frase: “A verdade sempre prevalecerá”

4/4
Promotor fala em contradição
O promotor do caso, Francisco Cembranelli, diz que as versões do casal “não se completam, se chocam”. O ciúme passa a ser um dos focos da investigação, e a perícia afirma que o assassino tinha pressa: foi feito um só corte, com tesoura e faca, na tela de proteção. Peritos e legistas concluem que Isabella foi espancada antes de ser jogada. Cerca de mil pessoas vão à missa de 7.º dia da morte da menina

7/4
Sem sangue no carro
O Instituto de Criminalística anuncia que não há vestígios de sangue no carro de Alexandre. O juiz Maurício Fossen derruba o sigilo do caso após a divulgação de detalhes do caso pelo promotor Cembranelli. Os advogados de Alexandre e Anna Carolina entram com pedido de habeas corpus no Tribunal de Justiça

8/4
Pai usava a mesma roupa
Imagens feitas por uma câmera de segurança de um supermercado de Guarulhos, onde Alexandre fez compras com a família no dia do crime, revelam que ele usava a mesma roupa antes e depois da morte de Isabella

9/4
Novas testemunhas
A delegada-assistente do 9 º DP, Renata da Silva Pontes, diz que a polícia acredita ter resolvido 70% do caso. Delegado do Brás afirma ter sido procurada por testemunhas que disseram ter ouvido detalhes sobre o crime da família e Alexandre Nardoni, logo após a morte da menina

10/4
Ligações rastreadas
Registros telefônicos mostram que foi um vizinho quem chamou o resgate na noite em que Isabella morreu. Sem saber que alguém já estava chamando socorro para a menina, o casal fez uma ligação para o pai de Anna Carolina e outra, em seguida, para o pai de Alexandre

> Dossie do caso Isabella.

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