CNBB censura texto em que padres pediam fim do celibato obrigatório

Outras sugestões que seriam enviadas a Roma foram cortadas após documento ter sido publicado pelo ‘Estado’

por José Maria Mayrink, do Estado de S.Paulo

A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) censurou, com o aval de 39 membros do Conselho Permanente da entidade, um texto aprovado em fevereiro pela Comissão Nacional dos Presbíteros (CNP) que sugeria propor ao Vaticano “possibilitar outras formas de ministério ordenado que não seja apenas a do presbítero celibatário”. Isso significa, na prática, a ordenação de homens casados e a readmissão de padres que deixaram suas funções para se casar.

A CNBB cortou também outras sugestões que seriam enviadas a Roma: um pedido de orientações mais seguras sobre a pastoral de casais de segunda união; a revisão do processo de nomeação de bispos e a beatificação e canonização de padres e bispos brasileiros “que seriam de grande estímulo para a vida e o ministério presbiteral”. Entre os candidatos, o texto cita padre Cícero Romão Batista, d. Hélder Câmara, d. Luciano Mendes de Almeida e padre João Bosco Penido Burnier.

“A presidência da CNBB, ouvido o Conselho Permanente, deliberou, entre outras coisas, que o subsídio fosse publicado sem as referidas propostas, o que faremos em breve”, comunicou o presidente da CNP, padre Francisco (Chico) dos Santos, ao plenário da 46ª Assembléia-Geral dos Bispos, encerrada ontem no Mosteiro de Itaici, em Indaiatuba (SP).

Padre Chico alega, em carta distribuída aos presentes no dia 9 e obtida com exclusividade pelo Estado, que, “antes de sua publicação, a imprensa divulgou, de maneira distorcida, algumas propostas contidas no subsídio a serem encaminhadas às Congregações para o Clero, para os Bispos e para a Causa dos Santos.

Em um comunicado anexo, com data do dia 7, assinado pela Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, da CNBB, também obtido pelo Estado, o texto argumenta, referindo-se ao título “Padres sugerem o fim do celibato”, publicado pelo Estado em 20 de fevereiro, que propor “outras formas de ministério ordenado que não seja apenas a do presbítero celibatário” “não quer dizer que os presbíteros estejam pedindo o fim do celibato, nem quer indicar que não reconheçam o valor do mesmo como dom de Deus para suas vidas e missão”.

“Foi uma manchete distorcida, que não corresponde ao conteúdo do que foi publicado pelo jornal”, disse o presidente da CNBB, d. Geraldo Lyrio Rocha, em entrevista coletiva após o encerramento da assembléia-geral de Itaici.

Segundo um bispo que participou da reunião, a presidência da entidade pediu desculpas ao Vaticano pelo vazamento da discussão sobre o celibato e pelo fato de a questão ter sido debatida pela CNP. O texto que seria encaminhado à Santa Sé havia sido aprovado no Encontro Nacional de Presbíteros por 430 delegados representando os 18.685 padres brasileiros. Em seu comunicado , lido no plenário na segunda-feira, juntamente com a carta assinada pelo padre Chico dos Santos, a Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada confirma a censura das propostas dos padres.

“Diante do ocorrido, com toda a repercussão no Brasil e em outros países e por outras razões, o Conselho Permanente, reunido em fevereiro, considerou ser melhor pedir a retirada dos três itens indicados como encaminhamentos às Congregações para o Clero, para os Bispos e para a Causa dos Santos”, informa o comunicado.

No ano passado, o Documento de Aparecida, votado pela 5ª Conferência-Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em 31 de maio, foi modificado, com cortes e acréscimos, antes de ser entregue ao papa. A edição do texto foi obra da direção do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam).

As mudanças mais relevantes referiam-se às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), núcleos de fiéis ligados à Teologia da Libertação com grande atuação pastoral e ideológica no continente nos últimos 40 anos. O texto divulgado pelo Vaticano, com a aprovação de Bento XVI, continha mais de 200 emendas feitas pelo cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz Ossa e pelo bispo argentino Andrés Stanovnik, respectivamente presidente e secretário-geral do Celam na época.

Em resposta à revelação, feita pelo Estado, de que o texto havia sido adulterado, d. Stanovnik publicou uma nota reconhecendo que o Celam havia feito uma “revisão final” do original, mas que “não houve alterações de conteúdo em nenhum dos parágrafos do documento”. Ele foi promovido, meses depois, a arcebispo de Corrientes, na Argentina.

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