Caso Isabella: outros casos de crianças mortas seguem sem solução (Estadão)

Pais que perderam os filhos se queixam da lentidão nas investigações, falta de laudos e descaso da polícia

por Marici Capitelli

Elas não se conformam. Enquanto o caso Isabella mobiliza a polícia de São Paulo há 15 dias, mães de outras crianças assassinadas reclamam que os crimes cometidos contra seus filhos não têm o mesmo tratamento, ou seja, que os policiais trabalham com lentidão. Afirmam ainda que a perícia foi feita no máximo uma vez - no caso de Isabella já foram sete - e que os laudos científicos se arrastam por meses até ficarem prontos. Para os pais, o motivo da diferença é que a família de Isabella é de classe média.

A delegada Cintia Tucunduva, do Grupo Especial de Crimes contra Crianças e Adolescentes, nega tratamento diferenciado nas investigações por causa do poder aquisitivo. “Tanto é que a maioria das pessoas que atendemos é humilde”, justifica. Neste ano, a delegacia investigou 38 casos. Em 16 deles, os culpados foram presos.

“O tratamento é diferente, sim. Nós somos uma família humilde e tudo caminha com muita demora”, diz Maria Aparecida dos Santos, de 30 anos, mãe de Beatriz, de 9 anos, morta em outubro em condições tão misteriosas quanto Isabella. “Encontrar quem matou a garota no prédio é importante, mas é igualmente importante saber quem assassinou a minha filha. Afinal, as duas eram crianças inocentes”, diz Maria.

“Se minha filha tivesse outra posição social, a morte teria sido esclarecida. Tenho certeza disso porque sempre fui maltratada quando busquei respostas na polícia”, diz Francisca Rosemeire Gomes, de 42 anos, mãe de Priscila, assassinada aos 15. O caso está há quase sete anos sem solução.

A delegada Cintia explica que uma das grandes dificuldades da sua equipe, composta por 21 pessoas, é que os crimes muitas vezes acontecem nas residências e sem testemunhas. “Ficamos de mãos atadas.” Outro ponto, segundo ela, é a dificuldade de as pessoas prestarem depoimentos. “Nas regiões periféricas, existe o medo, e nas classes mais altas, o sentimento é de não querer se envolver.”

A policial garante que o fato de um crime ter repercussão não significa que será mais facilmente esclarecido. “Pode até acontecer o inverso, testemunhas que podem ajudar a esclarecer se sentirem acuadas. E outras pessoas que nada acrescentam as investigações querendo aparecer.”

O especialista em segurança pública José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública e diretor executivo do Instituto Pró-Polícia, tem opinião diferente. “Quando a polícia fica sob holofotes, a cobrança da mídia e da sociedade para o esclarecimento é maior. Não é só no Brasil.”

José Vicente afirma que a polícia tem suas falhas, mas não chega a privilegiar as pessoas de maior poder aquisitivo. “É claro que o empenho da investigação no caso da Isabella teria de ser para todos.” Entretanto, pondera que os crimes na classe média têm, de fato, maior repercussão. “A polícia reflete os desejos da sociedade, e a classe média não está se importando com a menina da periferia estuprada e morta pelo padrasto como acontece todos os dias. O crime está banalizado.”

O advogado Leonardo Pantaleão, especialista em direito penal e professor do Complexo Jurídico Damásio de Jesus, explica que essa exposição cria um círculo. “Nos crimes de classe média, existe maior cobrança e, quando se resolve, as pessoas dizem que só foi resolvido porque a família tinha dinheiro e ficou na mídia.”

Para a delegada Cintia, são as próprias famílias que se sentem excluídas. Quanto à demora na solução dos casos, ela discorda. “Não temos casos que demoraram anos. Pelo contrário, temos alguns resolvidos rapidamente e de pessoas simples. O que existe é a ansiedade dos pais. Para eles, o crime contra seus filhos é o mais importante do mundo. Mas temos de dar atenção para todos.”

LUTO DIFICULTADO

O psicólogo Aroldo Escudeiro, coordenador da Rede Nacional de Tanatologia (estudo da morte), afirma que, quando os culpados não são presos, a elaboração do luto das mães é muito mais difícil. “Fica o sentimento de injustiça e vingança, e a elaboração do luto passa a ser secundária.” Segundo ele, mulheres pobres têm mais dificuldade em lidar com a dor. “Elas têm de se preocupar em sobreviver e não têm o apoio que as mães de classe média normalmente encontram.” É o caso de Solange Soares, de 30 anos, cuja filha de 3 foi assassinada há um ano. O crime continua sem solução. “Qual a diferença da Isabella e da minha Jenifer? Por que o crime dela tem de ser resolvido mais rápido?”


Casos

Jenifer Soares de Lima
* 5/12/2003 + 6/4/2007


A mochila da escola está novinha, à espera da dona. Mas ela nunca virá. Jenifer morreu aos 3 anos, antes de freqüentar o ensino infantil. No dia 2 de abril de 2007, foi baleada quando PMs perseguiam um carro que havia acabado de ser roubado, em Itapecerica da Serra.

Ninguém foi preso. Já foi comprovado que a bala foi disparada por uma arma da PM, mas, como os ladrões do carro fugiram, não se sabe se eles tinham arma igual à dos militares. “Ficou por isso mesmo”, afirma a mãe, Solange de Jesus Soares, de 30 anos, que também ficou ferida, no braço esquerdo. Por causa do ferimento, não conseguiu mais trabalhar como catadora de material reciclável. Quando o caso Isabela está na TV, a avó da menina Maria de Jesus, de 48 anos, não gosta de assistir. “É uma confusão de sentimentos. Um pouco pela garota assassinada, mas também pela minha neta. Ninguém se importou com a morte dela.”

Priscilla Gomes de França
* 03/8/1984 + 01/07/2000


Faltava um mês para Priscilla completar 16 anos quando foi espancada e morta numa quermesse. Primeiro, apanhou de cinco jovens até desmaiar. Quando todos acharam que os agressores iriam embora, um deles disparou três tiros na nuca da garota. Francisca Rosemeire, mãe de Priscila, sabe de cor quanto tempo já se passou: seis anos e nove meses. “Só um menor foi detido. Ficou uns três meses na Febem e foi solto. Os outros e a menina mentora do crime estão livres, embora todo mundo os conheça e a polícia saiba quem são.” O motivo do crime foi ciúmes. A mãe garante que a polícia não se empenhou em prender os criminosos. E que ainda teve de ouvir que “na periferia, quem manda é o bandido”. Quanto ao caso Isabella, se revolta. “Esse crime precisa ser desvendado. Mas não só ele, todos. Somos iguais na sociedade, já que pagamos impostos, e perante a Deus”.

Beatriz Santos de Paula
* 23/04/1998 + 25/10/2007


No dia 23, Beatriz faria 10 anos. No seu quarto, há brinquedos e roupas, que ganhou no Dia da Criança passado, sem uso: foi assassinada 13 dias depois. Era filha única. A garota foi encontrada morta com uma facada, em sua cama. Não havia sinais de arrombamento na casa. Os pais, metalúrgicos, saíram para trabalhar às 4h30. Ela acordaria às 8h30 e iria para a casa da avó. Como não apareceu, às 11 horas, os avós invadiram a casa e a encontraram. O irmão do pai foi apontado como suspeito; depois, descobriram que era inocente. “Os vizinhos queriam vingança contra ele. Até seu filho de 7 anos enfrentou represálias na escola”, lembra Rogério, pai de Beatriz. Os pais dizem que só uma perícia foi feita no local, e que as buscas na casa de um suspeito só ocorreram 70 dias depois. “Não dá para negar que, no caso da Isabella, está sendo tudo muito mais rápido”, afirma o pai.

Vinícius Pereira de Souza
* 6/5/2002 + 24/2/2007


Dos cinco irmãos, Vinícius era o mais apegado à mãe, a diarista Gilvadete Pereira da Silva. Às 19h30 de 24 de fevereiro de 2007, o menino de 4 anos brincava com uma amiga de 3 na porta do barraco de sua família, no Jardim Santa Cristina, em Santo André. Foi quando um tiro, disparado por José Alfredo dos Santos, frentista de um posto que tinha sido assaltado, o atingiu na testa. O alvo era o ladrão, que levou R$ 100 e duas latas de óleo e era perseguido. O pai, Antonio Marcos de Souza Bueno, continua transtornado. “Sabia que meu filho iria virar uma estatística, então, chamei os jornais e as televisões.” Segundo ele, depois da exposição do caso, houve mais empenho da polícia, e o assassino se entregou. Durante sete meses ficou preso, mas foi solto por habeas-corpus. “A gente se sente excluído vendo o caso de outra criança quase da mesma idade recebendo tanta atenção. Ele também era nossa vida.”

> Caso Isabella.


Comentários

  1. estao matando crianças em itapecerica e regiao e roubando seus orgãos as pessoas estao com medo e as crianças nao podem ir para a escola

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  2. E uma vergonha para nos Brasileiros ver,o quanto diferente somos tratados somente por cause de poder;dinheiro e quem pode mais.Tenho trabalhando muito com os pobres na Inglaterra ao qual tem o mesmo problema,vejam o caso de Jean Charles assassinado pela policia em Londres e nada fizerao.
    Ta na hora do povo Brasileiro si reunir,contra esta corrupcao que marginaliza o povo Brasileiro em geral,nao so a crianca mas o velho,o pobre trabalhador que sao todos injusticados.Temos que levantar e fazer com que a policia,nos de respostas corretas como sao dadas a um milionario que e assassinado E OUTRA COISA NINGUEM VIU QUEM MATOU A ISABELLA,FOI UMA DEDUCAO ATRAVES DE ESTUDO E POR QUE ISTO NAO ACONTECE EM RELACAO AOS OUTROS CASOS PARA QUE O SOFRIMENTO DESTES PARENTES SEJAM ALIVIADOS.

    VANILDA LONDRES

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