Procuradora Janice: "A delinqüência financeira dos poderosos é pior que a violência física"

> Fonte: Revista Joyce Pascowitch.


por Claudio Tognolli


Chamada por bandidos de "o demônio de saias", uma parcela expressiva de gente famosa, que já se meteu em trapalhadas com a lei,teve de encarar a fúria legiferante da sua caneta. Só para se ter uma idéia: ela já nivelou seu destino, em fóruns, com gente poderosa como PC Farias, ex-tesoureiro de campanha do ex-presidente Fernando Collor de Mello, com o próprio, e ainda Orestes Quércia, Pedro Collor, Nicolau dos Santos Neto (o ex-juiz Lalau), o ex-senador Luiz Estevão e o juiz preso pela Operação Anaconda, João Carlos da Rocha Mattos.

Já teve de ser protegida por quatro agentes federais à paisana, em alguns tempos bicudos. Ela tem um sorriso perene, 47 anos de idade e 16 de Procuradoria da República. Mãe de um filho que ama guitarras, esposa e dona de casa. É profundamente religiosa. Assim é a vida de Janice Agostinho Barreto Ascari, talvez a maior estrela feminina do Ministério Público Federal.

Mas, nessas turbulências legais, como reage quem lhe olha nos olhos nesses momentos de decisão? Como acusado encara Janice nas audiências? A egrégora de reações é muito variegada. E dá a dimensão do caráter, ou de parcela de culpa, de cada um. "Alguns abaixam a cabeça e olham para o chão. Outros me encararam firmemente, como se estivessem encarando uma paisagem. Já recebi de outrosolhares de puro ódio. Freqüentemente outros me mostram trejeitos irônicos. Poucos olham com um ar de 'eu errei mesmo'", descreve Janice Ascari.

“Nesses anos todos vejo que a delinqüência financeira dos poderosos é pior que a violência física, porque junto dela vem muito descaso das autoridades”, avalia. Católica e kardecista, Janice Ascari confessa que reza muito. “Eu rezo até pelos réus acusados, e oro para que eu esteja investigando as coisas no caminho certo”, confessa. “Sei que viver é um aprendizado contínuo, peço a Deus clareza e luz para que eu não erre”, diz ela.

Janice Ascari traz muito claro na memória um dos tantos episódios que a comoveu muito, logo no início da carreira. Era um senhor que contava já com seus 70 anos de idade. Ele mantinha uma loja no interior do Brasil, que vendia contrabando. Na audiência, frente um juiz federal, este senhor de sotaque carregado diz que não sabia que vendia contrabando. Mas que fazia aquilo porque necessitava “ocupar muito a cabeça para ocultar coisas terríveis no passado”. De repente, levanta o braço e mostra seu punho esquerdo, onde está tatuado um grande número, azulado, que nem o tempo apagou da pele. “O senhor sabe o que é isto, senhor juiz? É o número que me foi tatuado pelos nazistas quando fiquei no campo de concentração de Auschwitz, onde perdi toda a minha família.” Foi a primeira vez que Janice chorou numa audiência. Numa outra, a filha de um empresário começa a chorar, depondo pelo pai, e mostrando que ele deixara de recolher os impostos porque a família não tinha mais simplesmente o que comer. “Ela chorava e eu chorava junto”, lembra a procuradora.

Ninguém melhor que ela para descrever o que é o Brasil. “As pessoas em geral já entram na política com a idéia de meter a mão na coisa pública, não pensam que estão lidando com um bem que é de todos os brasileiros. Os cargos de confiança são assim preenchidos por pessoas de confiança, porque congregam dessa mesma idéia de meter a mão, de roubar.” Mas, explica, tudo isso prossegue no Brasil como um perene calvário nacional em decorrência daquilo que ela chama de jabuticabas. “A jabuticaba é o que chamo prescrição retroativa, os processos demoram tanto na Justiça que os prazos vencem, as pessoas não cumprem pena por causa dessa demora. Lutamos com armas desiguais. Os bons advogados não fazem nada além de ser profundos conhecedores das brechas dessas leis.”

Janice diz que já se foram os tempos em que gente famosa entrava de salto alto nos tribunais, com arrogância. “Sabemos hoje que esse negócio de posição social não assusta mais autoridade. Até porque os tribunais acabam levando também em consideração a postura da pessoa quando presta seu depoimento”, avalia. Chega a hora de pedir a Janice que conte como foram os casos mais famosos. Ela olha para o vazio, ao alto do 15º andar, onde trabalha, e vai puxando as personalidades de sua memória. “Caiu nas minhas mãos aquele caso em que o presidente Collor e o tesoureiro PC Farias processavam o finado Pedro Collor, irmão do presidente, e a revista Veja, sob acusação de calúnia e difamação”, lembra Janice, neste episódio em que a entrevista de Pedro Collor acabou gerando o impeachment do presidente da República. “Logo depois veio uma denúncia de um delegado da Polícia Federal contra o ex-governador Quércia, a quem ele acusava de crime contra a honra, por tê-lo criticado publicamente.”

Depois desses casos de gente famosa, outros não pararam de bater na mesa de Janice Ascari. Também por sorteio, caiu em suas mãos o talvez mais cabeludo de todos: o caso do juiz Lalau, acusado de ter desviado R$ 169 milhões da construção do Fórum Trabalhista, do Tribunal Regional do Trabalho, na zona oeste de São Paulo. “Olhei Lalau nos olhos nas audiências. Ele não era arrogante”, lembra Janice. A turma de Lalau, que incluía o ex-senador Luiz Estevão, acabou levando de 26 a 31 anos de cadeia. Mas Janice conta que nesse caso também chorou e rezou muito. Afinal de contas, ela viveu para esse caso dois anos de sua vida. E, num primeiro momento, a Justiça não acatou as denúncias do Ministério Público Federal. No final, todos foram para a cadeia. “Neste caso, pela primeira vez, o Brasil montou uma força-tarefa até no exterior, que conseguiu trazer de lá o dinheiro de Lalau e rastrear seus imóveis”, lembra Janice.

Na Operação Anaconda, a primeira grande deflagrada pela PF, e que levou para a cadeia o juiz federal João Carlos da Rocha Mattos, entre outros, todos acusados de vender sentenças judiciais, Janice Ascari teve de conviver ladeada de seguranças da PF. Era o primeiro caso em que autoridades passavam a ser ameaçadas. Mesmo assim, lembra, ela vivia com tenacidade. “Acredito em vida após a morte, gosto de filosofia kardecista. Acredito naquilo que os espíritas chamam de “resgates”, ou seja, o delegado de hoje pode ter sido o bandido de ontem. Agradeço diariamente a Deus as pequenas vitórias e agradeço a Ele ter aprendido com derrotas. Tem derrotas que são apenas aparentes, precisamos aprender isso também”, diz Janice.

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