"Miguxês também é português"

por Juliana Krapp, do JB, edição de 8 de março de 2008

Evanildo Bechara está cada vez mais satisfeito por ter trocado o sonho da engenharia pelos estudos da morfologia e da sintaxe. Ao completar 80 anos no dia 26 de fevereiro, ganhou homenagens como um livro dedicado aos seus estudos. Até o fim do ano, a Nova Fronteira lança nova edição, revista, de sua gramática, uma das mais importantes da língua portuguesa. Incansável, Bechara não tem a aposentadoria em vista. Pelo contrário: coordena a pesquisa para um novo dicionário e para uma coleção da Academia Brasileira de Letras. E, nas horas vagas, ainda se diverte com os desenhos do Pica-Pau.

Quando conheceu Manuel Said Ali, seu grande mestre, o senhor tinha apenas 15 anos, mas já era um grande conhecedor da língua. Como se interessou tão cedo por esse tipo de estudo?

- A maior promotora de meu interesse pelos estudos foi a necessidade de vencer na vida. Meu pai morreu com apenas 27 anos, e então minha mãe não pôde ficar com todos os filhos na casa do Recife, onde morávamos. Eu era o mais velho e vim para o Rio, viver com meu tio-avô. Concluí que eu precisava me esforçar para voltar ao Recife e ajudar minha família. Então, enfiei a cara nos livros. Mas, além disso, houve um outro fato. Na escola onde passei a estudar, no Méier, havia um menino uruguaio, que escrevia muito bem. Chamava-se Raul Credidio. Eu não poderia admitir que um estrangeiro soubesse a língua melhor do que eu. Dessa forma, posso dizer que, se estudei tanto, o mérito é da necessidade e do Credidio.

Foi então que o senhor procurou o professor Said Ali?

- Eu o procurei após ler um prefácio assinado por ele. Assim que pus os olhos ali, vi que ele estava em um outro mundo, onde eu também gostaria de estar. Até então, a gramática por onde estudávamos falava da autoridade dos clássicos. Mas esse prefácio me revelou uma outra autoridade da língua: a presença dos homens, que a modificam.

Em sua gramática, há uma discussão sobre língua falada e língua exemplar. Pode falar sobre isso?

- Uma língua histórica é uma língua sem adjetivos, que não podemos chamar nem de popular, nem de escrita ou padrão. É como um grande guarda-chuva lingüístico onde se abrigam tanto o grande quanto o médio escritor, o falante culto e o analfabeto. Esse guarda-chuva abriga tanto o "nós vamos" como o "nós vai". E ambos fazem parte do português, uma língua que varia pelo uso das pessoas. Você fala espontaneamente ou você fala de um jeito mais calculado. É como a roupa: você tem a de dormir, a de passear, a de trabalhar. Toda essa vestimenta está atrelada às ocasiões. A língua também. Durante muito tempo o professor nos ensinou que havia uma única língua padrão, a correta. Mas o necessário é ser um poliglota da língua.

E casos como o do miguxês, a linguagem dos jovens na internet?

- É uma forma de internetês, mas é português também. Eles abreviam muitas palavras, mas quem não domina as abreviações hoje em dia? Se você não sabe que MP é uma medida provisória, não consegue entender os noticiários. Além disso, esses jovens não se restringem ao miguxês, que usam apenas na internet.

Alguns autores têm a capacidade de promover pequenas revoluções na língua, não têm? Guimarães Rosa teria sido um deles. Concorda?

- Concordo em parte. Autores como Guimarães Rosa, quando morrem fisicamente, morrem também literariamente. O Rosa não vai durar muito tempo, ele hoje só é lido nas universidades. Porque ele saiu dos trilhos, exagerou. Aconteceu isso também com o Mário de Andrade que, quando escreveu Macunaíma, queria ser o Dante da língua portuguesa. Quem me chamou a atenção para isso pela primeira vez foi o Graciliano Ramos. Você sabia que Graciliano foi inspetor no colégio onde eu estudei? O colégio do Méier, o do Credidio. Quando descobri que era ele, passei a trocar as namoradas do recreio pelos papos com o Graciliano. Quer dizer, com as tentativas de papo, porque ele era muito retraído. Pois foi ele quem me disse: "O José Lins do Rego deveria escrever em uma língua mais comum, senão vai ficar esquecido".

Fale sobre a pesquisa para os novos dicionários que o senhor está coordenando.

- Antigamente, faziam dicionários em cima dos outros dicionários que já existiam. Nas nossas pesquisas, usamos um método mais atual. Fazemos um levantamento do uso das palavras contemplando como elas se desempenham em seus variados empregos. Ora, você só pode surpreender diferenças sutis de sentido vendo as palavras em uso. Por isso, realizamos um recorte de obras literárias, para levantar os usos das palavras por determinados autores. Começamos por Machado de Assis, e devemos prosseguir com outros cinco escritores. Mas não temos ainda uma data prevista para a publicação. Este ano sai o Índice analítico do léxico de Machado de Assis. Que não é, ainda, o dicionário.

O senhor está trabalhando em outros projetos?

- Sim, estamos criando na ABL uma coleção que vai republicar os melhores livros já escritos sobre a língua portuguesa. O primeiro número será uma homenagem aos 100 anos do Dificuldades da língua portuguesa, de Said Ali. Devemos lançá-lo ainda este ano.

O que o senhor faz hoje em seu tempo livre?

- Eu leio muito. No pouco tempo que tenho, gosto também de ver TV. Como os noticiários só dão barbaridades, prefiro ver os desenhos do Pica-Pau, que adoro. Também assisto às novelas, para acompanhar a língua que elas usam. A gente percebe muita coisa da língua assistindo às novelas. À medida que você vai conhecendo a língua, vê um mundo que não está no texto, mas sim no intertexto. Aí você não sabe se foi o autor que pensou assim ou se é você que está vendo uma possibilidade de ler o texto daquela maneira. Por isso dizem que uma obra literária, e mesmo uma novela, é uma obra aberta. Ela não é escancarada, não permite que você veja tudo. Mas dá para enxergar nas entrelinhas.

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