Exército listou 17 moradores do Araguaia como alvo (Estadão)

Documento de 1975 mostra planos de captura de supostos aliados de guerrilheiros do PC do B

Leonencio Nossa, BRASÍLIA

Documentos sobre a repressão contra moradores do sul do Pará durante a guerrilha do Araguaia (1972-1975) escaparam à suposta destruição de arquivos promovida pelo Exército após o fim do conflito.

Em 1973, o Exército produziu um “Plano de Busca e Apreensão” de caráter secreto com a lista de 17 camponeses que estariam dando apoio aos guerrilheiros do PC do B. O documento classifica os moradores de acordo com o suposto grau de envolvimento com o movimento.

Esse documento foi incluído nos autos de um processo aberto pelo Exército em 1990, revelado ontem pelo Estado, para dar uma medalha ao tenente da reserva José Vargas Jiménez. Os autos estão no arquivo particular de Jiménez. Procurados no último dia 19 para comentar o caso, assessores do Exército informaram que vão checar as informações.

O plano de busca cita os povoados de Bom Jesus, Santa Rita, Itamerim, Brejo Grande, Cristalândia e Centro de Osorinho como redutos de apoios à guerrilha. Em Bom Jesus, segundo o documento, residiam seis dos nove moradores cuja prisão era considerada de prioridade número 1.

Estavam nessa relação José Salim, o Salu, Leonel, Severino, João Mearim, Luiz, Luizinho e Oneide. Esta última é uma das figuras mais comentadas da guerrilha.

Foi no sítio de Oneide, em Marabá, que se travou um dos combates mais importantes das operações militares. Em 13 de outubro de 1973, de acordo com relatório da Marinha, ou no dia 14, segundo militares da reserva, morreram no sítio os guerrilheiros André Grabois, filho do comandante-geral da guerrilha, Maurício Grabois, João Gualberto Calatroni e Antônio Alfredo de Lima, morador recrutado pelos comunistas. Um quarto insurgente, Divino Ferreira de Souza, o Nunes, teria sido capturado com vida e morto horas depois, segundo relato do guerrilheiro Angelo Arroyo.

Também foram procurados em Bom Jesus os moradores Luizinho, Leonda e Salomão, com prioridade “3” de captura. No povoado Santa Rita, os militares procuraram o camponês Manoel Cícero, prioridade “3”. Os demais moradores na mira do Exército eram Bernardino e Vicente, de Brejo Grande, prioridades “1” e “2”, André e Zé de Tal, de Itamirim, prioridade “1”, João Murada, de Cristalândia, “4”, e a “mulher e o filho de 18 anos” de Ipano, prioridade “3”, de Centro Osorinho.

Dos 17 procurados, possivelmente apenas um, Luizinho, de Bom Jesus, está na lista dos camponeses mortos feita por entidades de direitos humanos nos anos 1990. Luiz Vieira de Almeida, o Luizinho, está na mesma relação dos camponeses Antônio Alfredo de Lima, Pedro Carretel e Batista, os moradores mortos pelo Exército.

As buscas aos 17 moradores que supostamente apoiavam a guerrilha durante a Operação Marajoara, a terceira e última campanha militar no Araguaia, contaram com guias que viviam na região. O grupo de “bate paus”, como eram chamados de forma pejorativa pelos guerrilheiros, incluía Ivan, Nonato I, Jamiro, Jamil e Nonato II. “Foram recrutados à força”, relata o tenente da reserva José Vargas Jiménez no livro Bacaba, Memórias de um Guerreiro de Selva da Guerrilha do Araguaia, publicado com recursos próprios.


Relato mostra o drama dos civis

Homens que viviam em área de conflito foram isolados

Relato do tenente da reserva José Vargas Jiménez mostra o drama dos civis na guerra travada entre comunistas e militares. Todos os homens adolescentes e adultos que viviam em povoados da área de conflito foram retirados de suas casas e levados para bases militares ou cidades da região. Só na base da Bacaba, no km 68 da Transamazônica, ficaram presos de uma vez só, no ano de 1973, mais de 300 moradores.

Sem pais e maridos, as mulheres ficaram sozinhas nas vilas e nos sítios cercados pelos militares. “Depois, elas abandonavam suas casas e iam para os vilarejos que existiam à beira da rodovia Transamazônica ou para cidades de Marabá e Xambioá, onde procuravam sobreviver, se prostituindo, até que seus pais e maridos fossem soltos”, diz o tenente da reserva José Vargas Jiménez no livro Bacaba, que o militar publicou sobre sua experiência nos combates no Araguaia.

Um outro documento incluído no processo rotineiro aberto pelo Exército em 1990 para dar uma medalha a Jiménez apresenta as “normas” de comportamento dos militares com a população civil. Esse documento, datado de 5 de setembro de 1973, foi divulgado nos anos 1990 por outras fontes militares.

As “normas” estabelecem o pagamento ou a devolução de qualquer objeto de moradores utilizado, respeito à família, aos hábitos e aos costumes da população, e usar o termo “comunista” ao se referir aos guerrilheiros. O manual deixa claro o cuidado nas prisões de moradores que apóiam a guerrilha.

O próprio relato de Jiménez mostra, porém, que o manual foi desrespeitado no quesito “costumes”. Ao descrever uma incursão na selva, ele conta ter encontrado os corpos dos guerrilheiros André Grabois, João Gualberto Calatroni e Antônio Alfredo de Lima, mortos por outra patrulha militar no sítio de Oneide. “Um dos meus soldados foi até um dos cadáveres e cortou com uma faca os dedos (do guerrilheiro), retirou a carne e pendurou os ossos no pescoço e disse: 'Este amuleto é meu troféu de guerra'.”

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