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I love português (reportagem da revista Língua Portuguesa de outubro de 2007)

Cresce a procura pelo aprendizado do português nas universidades norte-americanas; a variante brasileira desperta mais interesse que a de Portugal, apontam professores

Rachel Bonino

Com o pequeno mas consistente aumento da importância do Brasil no cenário internacional e do número de brasileiros nos EUA, cresce também a oferta de cursos de português entre os norte-americanos

A língua portuguesa virou um inusitado objeto de desejo dos americanos. É um amor brando ainda, nada comparado à devoção quase canina que os brasileiros dedicam ao inglês. Mas que se fortalece na rabeira do crescimento do mundo lusófono na América do Norte.

O número de brasileiros que escolheram os Estados Unidos para viver quintuplicou em vinte anos. Em 1980, eram 48 mil, número que saltou para quase 250 mil segundo o último dado oficial disponível, do Censo de 2000. Pesquisas mais recentes indicam, no entanto, que o total de imigrantes brasileiros já passou de 500 mil, incluindo os que estão em situação ilegal. Acrescente aí o número da população de imigrantes portugueses (que já soma cerca de 1,5 milhão de pessoas), mais os habitantes de outros países falantes de português. Pronto, tem-se uma fatia considerável do universo da língua portuguesa habitando a parte norte da América.

Diante desse quadro, e da natural atenção dada à estabilização econômica e à política externa por vezes ousada do atual governo brasileiro, dá para entender o aumento do interesse pela língua portuguesa por parte do alunado norte-americano. Novas cátedras foram abertas em grandes universidades, como Harvard, Princeton, Emory e Dartmouth College. A Michigan State University organiza, no momento, seu bacharelado duplo em espanhol e português. Atualmente, a instituição oferece cursos de língua portuguesa, além de outros sobre literatura, música e cinema brasileiros.

A Modern Language Association of America (MLA) publicou um relatório em 2004 com resultados que mostram o aumento de matrículas nos cursos de português nas universidades norte-americanas. Entre 1998 e 2002, os alunos inscritos em cursos de língua superior passaram de 6.926 para 8.385. O crescimento de 21% superou o aumento nos cursos de espanhol (13,7%), de francês (1,5%) e de alemão (12,3%), embora estes idiomas tenham apresentado um número maior de matrículas proporcionalmente.

- A maioria das pessoas que quer aprender português nessas instituições, antes, já assimilou o espanhol. Elas querem se especializar em culturas latino-americanas - acredita a professora de português Clémence Jouët-Pastré, de Harvard.

Crescimento

De 2003 até esse ano, as matrículas para o curso de português triplicaram em Harvard. Em setembro, a professora colocou em uso a versão oficial do material didático para ensino de português para estrangeiros - do qual é co-autora -, chamado Ponto de Partida (ler quadro).

Para a professora, o aumento do interesse pelo português e por línguas latinas nos Estados Unidos também tem uma explicação cultural: o país, ao contrário de outros da Europa, acolhe mais a cultura latina. Está atento ao importante mercado que os falantes do português representam.

Na Europa haveria um preconceito ainda forte sobre o aprendizado de línguas latinas, consideradas menores. Solange Parvaux, presidente da Associação para o Desenvolvimento dos Estudos Portugueses, Brasileiros, da África e da Ásia Lusófona, já disse em 2006 que o desconhecimento pelos europeus da língua e da cultura de matiz portuguesa e brasileira "se justapôs à imagem de língua de emigração, não facilitando sua expansão no ensino".

- O português ainda é pouco estudado, mas a procura tem aumentado, sobretudo devido ao aumento do interesse pelo Brasil em geral, que se reflete na crescente visibilidade do país em diversas disciplinas acadêmicas. Não é sempre que o interesse por essas áreas leva o aluno a estudar o nosso idioma, mas com certeza esse aumento de visibilidade faz com que a procura pelo português cresça, mesmo que gradativamente - analisa Marília Ribeiro, mineira, professora de português na Michigan State University.

Preferência nacional

As proporções continentais, a importância do mercado econômico e produtivo e a cultura têm conquistado admiradores entre os alunos norte-americanos do português do Brasil.Das oito entidades de ensino norte-americanas consultadas por Língua, seis responderam priorizar o ensino da variante brasileira do português. A demanda, alegam eles, partiu dos próprios alunos norte-americanos.

- Há professores em vários departamentos da universidade como o de Ciências Políticas, História, Economia e Agricultura que são especialistas em estudos brasileiros e seus alunos vão estudar português principalmente por causa de seu interesse no Brasil - conta o baiano Antônio Luciano Tosta, coordenador do programa de português e cultura brasileira da University New York.

- No início do curso, pergunto aos alunos qual variante do português eles querem aprender. O do brasileiro ganha disparado. A última vez que fiz essa pergunta, 25 levantaram a mão para o brasileiro, e somente três para o português de Portugal - comenta Clémence, de Harvard.

Horizontes

A procura teria muito de motivação financeira.

- Economicamente, o Brasil é muito mais importante que Portugal. Os alunos sabem desse potencial, das possibilidades de emprego para quem seja especializado em alguma área de pesquisa relacionada ao Brasil - aponta o professor Saulo Gouveia, mineiro, professor de português da Michigan State University.

A turma da professora Maria Luci De Biaji Moreira, do College of Charleston, em viagem a Manaus: primeiro livro didático oficial, em parceria com nomes como Clémence Jouët-Pastré, de Harvard


Há também o meio-termo: estudantes que optam por uma variante de acordo com o estágio de estudo em que se encontram.

- Há mais estudantes universitários de graduação e pós-graduação que se interessam pelo português do Brasil do que pelo europeu. No ensino médio, há os falantes "de herança" em algumas áreas dos Estados Unidos e eles estão mais relacionados com o português europeu. De um modo geral, o português brasileiro predomina - pontua Maria Luci De Biaji Moreira, paranaense, professora de português no College of Charleston.

Imigração portuguesa

Embora haja uma maioria interessada na variante brasileira, existem instituições que focam o português de Camões muito por conta da concentração de imigrantes portugueses. É o caso das universidades Massachusetts (campus Dartmouth) e Havaí.

- Temos 40 mil portugueses no Havaí, vindos principalmente da Ilha da Madeira, de Lisboa e de várias ilhas açoreanas - explica o professor de português, Paul Chandler, que é norte-americano.

Já em Dartmouth, é a população estudantil, em sua maioria descendentes de portugueses, que solicita um estudo mais direcionado da variante européia do português.

- Na nossa universidade, e em algumas outras que também se situam nas áreas com uma concentração maior de descendentes, como New Jersey e algumas áreas da Califórnia, existe a preferência pelo português de Portugal - conta a professora Anna M. Klobucka, polonesa que estuda a língua há mais de 20 anos.

De cá e de lá

Lado a lado, as falas de um português e de um brasileiro possuem diferença por vezes brutal entre as variantes. O americano, a rigor, pode não perceber a diversidade.

- A língua na verdade é uma só e a pronúncia é a grande diferença. Os alunos devem ter o mesmo tipo de dificuldades em aprender ambas as variantes - afirma Gouveia, de Michigan.

Mesmo assim, ele arrisca uma justificativa para alguns alunos considerarem o aprendizado do português do Brasil mais fácil que o de Portugal: o brasileiro teria vogais mais longas e um ritmo mais lento, o que, pelo menos aparentemente, facilitaria o aprendizado.

- O português de Portugal tem como uma das características mais marcantes a contração das vogais, enquanto no Brasil nós inserimos vogais. Acho que essa é a grande diferença que faz com que os alunos percebam o português brasileiro como mais "fácil" de se entender - diz.

O catarinense Pedro Meira Monteiro, professor em Princeton University: professores com sotaques diferentes nos cursos básicos de português

A professora Marguerite Harrison, da faculdade de Smith College, em Massachusetts, concorda que o aluno norte-americano acha mais fácil aprender o português do Brasil. Para ela, aqueles que conhecem um pouco da música brasileira, aprendem imitando os sons e, assim, se familiarizam mais facilmente com a variante brasileira.

Mas a discussão sobre qual é mais fácil ou difícil de aprender ou ensinar esbarra na mesma discussão no ensino de inglês britânico ou americano.

- Temos professores com sotaques completamente diferentes ensinando os cursos básicos de português, e a verdade é que jamais escutei uma queixa dos estudantes a respeito. Aliás, considero muito saudável o cultivo de vários registros. É enriquecedor, sob todos os aspectos - analisa Pedro Meira Monteiro, catarinense, professor em Princeton University.

Independentemente da variante estudada, o aluno americano costuma ter dificuldades comuns: como a pronúncia de algumas consoantes, por exemplo, o r e o x, além dos sons nasais ("mãe", "também", etc) e a palatalização do t e d seguido de e, em alguns casos.

Anna M. Klobucka, da universidade Massachusetts, campus Dartmouth: alunos de lá têm preferência pelo português europeu

- Alguns tempos verbais também exigem mais atenção, como todos os do modo subjuntivo, especialmente o futuro do subjuntivo, e o contraste entre o pretérito perfeito e o imperfeito - indica Marília Ribeiro, de Michigan.

O tom faria a diferença.

- Em geral somos mais barrocos, mais alambicados e tortuosos, enquanto os americanos podem ser de uma objetividade assombrosa quando escrevem e falam - analisa Pedro Monteiro.

Como diria Antonio Cândido, nosso português parece ter um pouquinho mais de açúcar.

Para inglês Ler

Usado de forma experimental desde o início do ano, o material Ponto de Partida foi lançado oficialmente em setembro e já é adotado por várias instituições de ensino norte-americanas. É a primeira vez que um material didático direcionado para o ensino de português é publicado por uma editora comercial - a Pearson Prentice Hall - e não, o mais recorrente, por uma editora universitária.

O projeto Ponto de Partida, que inclui livro, caderno de exercícios, DVDs e dicionário, foi produzido pelas professoras Anna M. Klobucka, (Massachusetts-Dartmouth), Clémence Jouët-Pastré (Harvard), Patrícia Sobral (Brown), Maria Luci De Biaji Moreira (College of Charleston) e Amélia Hutchinson (Geórgia).

- Os alunos reclamavam que os materiais didáticos traziam exemplos muito fora do cotidiano norte-americano e isso prejudicava o aprendizado. Procuramos fazer um conteúdo mais antenado à realidade daqui - explica Clémence.

Uma novidade é o fato do material ser dividido em exercícios focados no português brasileiro e no Portugal, podendo ser montado com conteúdo mais direcionado para um ou para outro. Os enunciados são em inglês para não desestimular o estudante.

Ao custo de US$ 79 (R$ 158), o aluno recebe os livros que se adequam para um ano de estudo básico ou seis meses de ensino acelerado.

Comentários

  1. Reportagem muito interessante. e olha, a valorizaçao do portugues brasileiro tem seus motivos. O portugues europeu é mais dificil de pronunciar (apesar de os portugueses terem um bom vocabulario, o pt europeu exige muitas manobras com a lingua para ser pronunciado), tem uma pessoa a mais para conjugar os verbos, afinal nos brasileiros nao usamos 2 pessoa. E tb pela infuencia economica.

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