Índios estão se tornando evangélicos

Da Veja de 18 de abril de 2007

Por Marcelo Bortoloti

Na década de 70, a Igreja Católica decidiu mudar sua posição histórica em relação à catequese indígena. Em 1972, criou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), para gerir a relação com os índios, e passou a pregar que a cultura nativa deveria ser preservada, inclusive em suas crenças. Foi um flanco aberto para que os missionários evangélicos avançassem em peso por entre as aldeias mais remotas do país. No Censo de 2000, 20% dos índios brasileiros se declararam evangélicos. Em 1991, eles eram 13%. O porcentual dos que se professam católicos caiu de 64% para 59% no mesmo período. Hoje, os padres fazem apenas um trabalho laico, de orientação política e assistência social.

Um exemplo da força da catequese evangélica é a tribo terena, que possui nove aldeias na cidade de Sidrolândia, em Mato Grosso do Sul, a 70 quilômetros de Campo Grande. É uma das primeiras tribos brasileiras catequizadas por evangélicos, que iniciaram os contatos na década de 40. Hoje, 75% dos terenas se declaram "crentes". Os cultos acontecem quatro vezes por semana. Eles têm uma rádio FM evangélica e até uma banda gospel, a Kosseanu Ituko'ovit (em português, Misericórdia de Deus). Também ali se repete a prática da cobrança do dízimo. "Se eu vendo dez frangos, um deve ser para a igreja", explica o índio Benício Jorge. Os índios se orgulham de ter-se distanciado do seu ritual sagrado, a pajelança.

Acreditam que, somente depois da Bíblia, o desenvolvimento chegou às aldeias, que hoje têm luz elétrica e água encanada. Seus usos e costumes também cederam às diretrizes pentecostais. "É indecente as mulheres usarem vestido curto ou short. O cabelo delas também deve ser comprido. Está tudo escrito na Bíblia", professa o índio pastor Basílio Jorge, 57 anos. Ele deixou de beber aos 20 anos para se converter. E hoje ministra cultos e sessões de exorcismo.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) não incentiva a entrada dos evangélicos nas aldeias – ao contrário. Mas os próprios índios aceitam e defendem a presença do pastor. Os protestantes se utilizam de um expediente não explorado pelos católicos: deixam a cargo dos nativos o trabalho de cuidar de suas igrejas e arrebanhar novos fiéis. Existem no mínimo quatro escolas evangélicas de formação indígena, que ordenam uma média de vinte pastores por ano no país.

Há pelo menos 650 missionários evangélicos atuando na catequização. O número é maior que o de católicos do Cimi, que somam 420. A dinâmica evangélica difere da prática jesuítica em outro aspecto importante: para eles, traduzir a Bíblia é uma prioridade. Nada menos que 34 povos já ganharam o livro sagrado em seu idioma e existem outros 54 projetos em andamento. É um trabalho que leva em média vinte anos e custa cerca de 600.000 reais por tradução. O dinheiro, segundo eles, vem de doações de fiéis. Sua estrutura logística também salta aos olhos. Para levar os pastores a cada canto do país, os evangélicos contam com a ONG Asas de Socorro, que tem onze aviões, sendo três hidroaviões que não necessitam nem de pista de pouso. Com uma engrenagem assim, não há pajé que resista.

Igrejas evangélicas aumentam presença entre os índios.
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