quarta-feira, 16 de junho de 2010

'Sexualidade é como as línguas. Todos podem aprender várias'


por  Luz Sánchez-Mellado, do El País de 13 de junho de 2010

Beatriz Preciado não é homem, nem mulher, nem heterossexual, nem homossexual, nem transsexual, diz. Brilhante filósofa e ensaísta, relata sua viagem da infância em Burgos, Espanha, até ser ícone do movimento transgênero.

Ela se movimenta pelo Centro Pompidou de Paris como se estivesse em casa. Alta, andrógina, alternativa. Experimental. Beatriz Preciado não tem receio, como o edifício do museu, ao exibir suas interioridades para explicar a si mesmo e ao mundo. Autora de "Manifiesto contrasexual" (Ed. Opera Prima) – uma espécie de bíblia do movimento transgênero ou queer – e de "Testo yonqui" (Ed. Espasa) – onde explica os efeitos que a autoadministração de testosterona provoca em sua vida sexual –, essa burgalesa de 39 anos vive como pensa e pensa como vive.

Em constante revolução contra as normas que determinam politicamente o sexo, o gênero, os modos de buscar e de obter prazer. Filósofa, ativista alternativa e professora da Universidade Paris VIII, acaba de ser finalista do Prêmio Anagrama de Ensaiocom "Pornotopía", um ensaio sobre o império Playboy.

Discípula dos filósofos Michel Foucault e Jacques Derrida, declara-se transgênero. Uma denominação que supera as distinções entre homem e mulher, homossexual e heterossexual, intersexual e transexual. Todas as classificações ficam "estreitas" para ela. Prefere o qualificativo queer (esquisito, estranho, bicha, veado), um insulto que algumas minorias sexuais adotam para reafirmar sua diferença. Professora de técnicas do corpo em Paris, vive ali com sua companheira, a escritora e diretora de cinema francesa Virginie Despentes.

A entrevista.

Quando você tinha nove anos, alguém telefonou para sua mãe e disse: "Sua filha é mulher-macho". Você sofreu quando criança?

Eu ia a um colégio de freiras, mas nunca tive problema por ser diferente. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu respondia: homem. Eu me via como homem, porque eles tinham acesso às coisas que eu queria fazer: astronauta ou médico. Nunca vivi isso como vergonhoso nem traumático, era algo ao qual eu acreditava ter direito. Quando eu era pequena, tinha até um cofrinho para fazer a troca de sexo.

Que referentes você tinha nessa época, anos 80, em Burgos?

Nenhum. Eu me movimentava em um mundo em que o referente era a paróquia, imagine.

Então, guiou-se pelo instinto?

Quando criança, sim. O instinto foi fundamental. Simona, uma professora com um filho autista, recrutou crianças com problemas e criou uma turma. O grupo G. Autistas, superdotados, estranhos. Oito marcianos feios e atrozes. Terríveis, mas mimados. Eu adorava os meus professores, eram muito abertos para como eu era.

Daquele telefonema até hoje, como seus pais encaram seu ativismo sexual?

Foi traumático e continua sendo. Meu pai era um empresário respeitável. Minha mãe, costureira de noivas. Sou filha única. Imagino que esperavam outra coisa de mim. São religiosos e de direita, como são de direita em Burgos, de forma irreflexiva, porque sim. Nesse contexto, eu fui rebelde, mas não porque eu me propus isso, senão porque cada coisa que eu fazia escandalizava. Eu era um óvni, sim, mas não vivi isso como algo a ser escondido.

De onde nasce a sua rebeldia, se você não sofre por ser como é?

O mais difícil para mim é ver como as pessoas se deixam reprimir.

Então, é uma rebeldia solidária?

Sempre teve algo político. Eu dava palestras às crianças para lhes dizer: façamos isto: organizemo-nos. Eu não me deixava reprimir, mas têm sido, sim, dolorosas as rupturas com os meus amigos ou com minha família quando não aceitam o que para mim é natural. Com meus pais, foi uma longa pedagogia. Meu caráter não é o mais tolerante. Agora penso: eu tolero vocês em sua maneira de ser, o que vou fazer. Mas naquele momento foi muito intenso. Com 16 anos, fui com o grupo G para a Filadélfia e voltei com a ideia de fazer filosofia política.

O que atrai uma adolescente à pesquisa filosófica?

Eu era muito de ciência, queria fazer biologia genética. Mas no bacharelado eu me dei conta de que as questões às quais eu queria responder eu não ia resolver com a biologia, e que esse outro lugar era a filosofia.

Você usa conceitos como "bio-homem", "biomulher", "biopolítica". A biologia está em sua obra.

Sim, a vida me interessa, mas em sua dimensão somática, carnal, corporal.

Você também fala de arquitetura, da cidade como organismo.

Talvez a origem de tudo seja o corpo, mas não como organismo natural, e sim como artifício, como arquitetura, como construção social e política. Isso que sempre imaginamos como biológico – a divisão entre homem e mulher, masculino e feminino – e que é uma construção social. Me interessa a dimensão técnica disso que parece ser natural.

Falemos de gênero no Ocidente em 2010. Mas pensemos em um menino que nasce em Mali. Seu sexo e seu gênero também é artifício biopolítico?

Claro. Veja as distinções que você estabelece. Para indicar natureza, você pensa na África, como se aqui estivesse a tecnologia e o artifício, e na África, a natureza. Essas distinções funcionam para o masculino e o feminino. O masculino como técnica, construção, cultura. O feminino como natureza, reprodução. O que é construído é essa distinção natureza/cultura que nãoo existe, que é fictícia.

Os cromossomos XX e XY não significam nada?

São um modelo teórico que aparece no século XX para tentar entender una estrutura biológica, ponto.

Você defende que a sexualidade é plástica. Que não é uma constante na vida, nem sequer no dia. É essa a essência de sua teoria?

Em parte sim, no sentido de que a sexualidade, que é, de forma mais ampla, a subjetividade, e na qual entram a identidade e a orientação sexual, os modos de desejar, os modos de obter prazer são plásticos. E precisamente por isso estão submetidos a regulação política. Se fossem naturais e determinados de uma vez por todas, eu não a teria.

Por regulação, você se refere ao fato de se determinar que se é homem ou mulher no documento de identidade, e a isso correspondam X direitos, X deveres, X papéis.

Exato. Há um enorme trabalho social para modular, controlar, fixar essa plasticidade. E não só política, mas também psicologicamente. Cada indivíduo é uma instância de vigilância suprema sobre sua própria plasticidade sexual. Quando você perguntava de onde vem a minha rebelião, é daí. Como é possível que não estejamos em revolta constante, que isso não seja a revolução?

Por que eu, mulher, heterossexual, casada, mãe de duas filhas, moderadamente conforme com a minha vida, teria que me rebelar?

Você deveria estar em rebelião porque há um fechamento, uma clausura de sua identidade que impede qualquer outra possibilidade. Desde o momento em que você diz: eu, biomulher, casada, mãe...

Já estou perdendo coisas...

Efetivamente. Declarar-se heterossexual também pressupõe um conjunto de arranjos possíveis, mas pressupõe uma coreografia tão estreita que o que me parece terrível é que se aceite como inamovível. Não acredito na identidade sexual, me parece uma ficção. Um fantasma em que podemos nos instalar e viver confortavelmente.

E felizes.

Com certeza. Mas é precisamente esse o êxito da biopolítica.

O fato de que comemos o nosso "soma" e ainda por cima contentes.

Totalmente. Quando falamos de biopolítica, estamos falando do controle externo e interno das estruturas da subjetividade e a produção do prazer. Eu me defino como transgênero, mas saí com bio-homens, com bio-mulheres, com trans. E posso te dizer que, quando você é biomulher, designada socialmente como mulher, e sai com um bio-homem, designado como homem, você experimenta uma reorganização do seu campo social. De repente, sua família está contente. É um sistema de comunicação complexo, no qual você emite sinais que são decodificados: estou de acordo com o sistema de produção e vou reproduzir a nação tal como você a conhece.

Embora você seja infiel, ou seja, um gay dentro do armário.

Claro, a máquina de controle é você, e o interessante é a forma de desativá-la. Por isso, me interessa escrever, dar aulas, o ativismo. Há possibilidade de rebelião em qualquer parte.

Esse ativismo é uma postura intelectual ou sai das suas entranhas?

Mas o que são as minhas entranhas? Voltemos à mesma diferença. Eu nasci com uma deformação de mandíbula. Durante alguns anos, não tive fotografias pessoais, só médicas. Em casa, não tirávamos fotos, porque eu era disforme. Desde os sete anos, tenho encontros com o sistema médico ritualmente. Aos 18, me fazem uma operação funcional, mas também estética. Era necessária, mas também não tive opção de dizer não ao aparato médico. Eu tinha uma cara atroz, de cavalo, e logo que eu saí todos me disseram que eu estava fantástica. Vivi essa operação como uma mudança de sexo, no sentido de que era uma mudança de identidade.

Por que devolveu-lhe ao redil da "normalidade"?

Sim, foi um modo de normalizar a minha cara. A partir daí, começo a me distanciar de tudo isso o que você é naturalmente, ou o que são as suas entranhas, ou que a cara é o espelho da alma. Minha cara não é o espelho da alma, é o espelho da medicina plástica da Espanha dos anos 80.

Parece que a sua rebeldia tem sim algumas sementes.

Algumas. Quando eu saí da operação, gastei o dinheiro economizado para mudar de sexo
viajando. Me dei conta de que minha imagem e a que os outros viam não coincidiam nem coincidiriam nunca. É como a anorexia. Eu ainda pergunto à minha namorada se minha mandíbula cresceu hoje. Por isso, vejo o corpo como arquitetura, como relação com as instituições médicas, jurídicas e políticas.

Lendo sua obra, sua vida parece uma batalha constante contra a norma. Por que você não relaxa?

Eu me sinto relaxadíssima, muito mais do que os outros. O que eu observo nas pessoas é uma tensão, embora inconsciente, para se adequar àquilo que se supõe ser feminino, masculino, à heterossexualidade ou a homossexualidade. Eu também experimentei a pressão homossexual ao dizer que não sou um homem nem uma mulher. Na homossexualidade, há restrições, regras precisas. A tensão está aí, a revolução é outra coisa.

Seu estado natural?

Não [ri]. Tem vezes que não posso deixar de dizer: zero solidariedade com o gênero humano e sua cultura da guerra.

Por que essa desesperança?

Há uma teórica queer americana, Sedwick, que dizia que a revolução é um modo de sair da depressão política. É como se vivêssemos em estado de patologia. Vejo uma grande depressão coletiva cujos sinais são o consumo aberrante, a produção de desigualdades, a normalização excessiva, a supervigilância, a cultura da guerra.

O que você chama de "regime fármaco-pornográfico" é um novo fascismo baseado no sexo?

Não, o fascismo não é depressivo, mas sim histórico, enquanto que o momento fármaco-pornográfico é de superadição, superconsumo, destruição. Como se nos tivéssemos dado coletivamente as condições de nossa própria destruição e estivéssemos de acordo. E digo isso consciente de que posso parecer um padre jesuíta.

Mas esta não é uma cultura hedonista?

Não. O fato de que o que movimenta a cultura é o prazer não quer dizer que o fim seja hedonista. O objetivo é a produção, o consumo e, por último, a destruição. O desafio do que deveria ser uma esquerda para o século XXI é tomar consciência desse estado de depressão coletivo, diferentemente da direita, que vive na euforia do consumo, da produção de desigualdades, da destruição. A esquerda tem que dizer: merda, estamos fazendo tudo errado, e isso tem que levar a um despertar revolucionário. E acredito que isso pode vir desses que afastamos para as margens do político: os gays, as lésbicas, os drogados, as putas. Aí há modos de produção estratégicos para a cultura e a economia, e aí estão se produzindo soluções.

E com o que esses "detritus do sistema", como você os chama, contribuem?

Inventam novas formas de relação pessoal e política que saem de uma coordenada que está presa às políticas coloniais do século XV e que tem a ver com a família, a nação, a raça. Essa linha se esgotou. É preciso se abrir ao não familiar, ao não nacional, ao não racial, ao não generizado.

Você está consciente da difícil compreensão e "venda" desse modelo?

Não desejo vendê-lo. E não é tão difícil. Em minhas palestras, eu sinto que a ideia do estado depressivo conecta. Apesar da enorme complexidade do mundo contemporâneo, vejo uma terrível redução ao de sempre.

É engraçada a passagem de "Testo yonqui", quando você volta para Burgos e vê suas ex-namoradinhas do colégio passeando pelo Espolón com seus filhos e suas mechas perfeitas.

Eu as respeito e as adoro. Principalmente porque sei que, por trás das mechas e dos filhos, continuam resistindo, estão vivas.

Você se define como uma terrorista, uma guerrilheira.

É assim que os outros me veem. Eu fazia minha coisas, todos diziam: que parem essa revolução, e eu não compreendia que a revolução era eu. Desfruto a inteligência coletiva. Minha primeira Gay Parade em Nova York foi a maior elevação de êxtase vital da minha vida. Éramos 3.000 sapatonas pelas ruas, esse espaço que tinham nos proibido. Me dei conta de que outro mundo é possível, de que a realidade pode mudar, isso me fascina.

Os transexuais clamam para entrar nos protocolos de redesignação sexual. No entanto, você deplora que sejam regulados pelo Estado.

Há uma multiplicidade de formas de ser transexual. Estive em associações de lésbicas radicais e, em três anos, a metade tinha mudado de sexo. Desconfio dos dogmas acerca da identidade sexual, porque vi de tudo e o seu contrário. Os protocolos são um modo de normalizar a plasticidade sexual. A Espanha é uma espécie de galifante [meio galo, meio elefante] da Turquia e da Suécia. Há uma base biopolítica cujos emblemas são o gênero, a heterossexualidade, a família, a raça e a nação. Mas também um regime fármaco-pornográfico em que o sexo é objeto de consumo e produção. A colisão desses dois regimes leva a uma situação delirante, na qual você pode ter acesso a operações de mudança de sexo, mas só com as condições exigidas para se normalizar.

Em "Testo yonqui", você é o objeto de sua pesquisa. Essa exposição não lhe causa pudor?

Não, e isso que eu me eduquei com freiras e estudei filosofia em Comillas com os jesuítas. Eu adorei eles, estavam metidos até o fundo no marxismo e na teoria da libertação. São fantásticos. Sigo mantendo relação com Juan Masiá, um filósofo que foi excomungado (1) por dizer que a camisinha é algo comum. Trocamos obras.

Sério? E o que um jesuíta comenta sobre suas práticas sexuais em "Testo yonqui"?

Nada [ri]. Mas não faz falta. Sei que ele me aprecia e nos queremos muito.

Eu me referia se não lhe causa pudor expôr sua sexualidade.

Pelo contrário: minha sexualidade sempre foi invisível. O que era visível é o estereótipo que as pessoas têm sobre a sexualidade lésbica ou trans. Então, não vejo isso como uma forma de exposição despudorada, mas sim como um modo de produção de visibilidade. Há um elemento de propaganda. Uma amiga, Itziar Ziga, escreveu um livro, "Devenir perra", no qual diz: nós transamos mais e melhor. Transamos fora das restrições normativas de vocês, e isso é um prazer que vocês nunca irão conhecer. E se vocês são tentados a conhecê-lo, wellcome to the revolution.

Esse seria o orgulho queer: transamos mais e transamos melhor?

Sim, e talvez vivemos em outro mundo. Em outro mundo que existe e que está aqui, logo ao lado.

Você é uma celebridade nos círculos queer, dá aulas na Universidade Paris VIII, mas é desconhecida na Espanha. Você se imagina como professora na Complutense?

Na Espanha, há instituições quase feudais. E dentro delas, em um caos extraordinário, acontecem coisas paradoxais. Em qualquer universidade, existem elementos revolucionários, pontos de resistência. A revolução não está do outro lado, está aqui, e na Complutense também.

Vamos ver se a nomeiam filha predileta de Burgos.

[Risos]. Agora, com a questão do prêmio, minha mãe diz: que bom, filha, você sai no jornal, mas eles têm a má ideia de tirar sua foto com bigode. Ela não sabe que meu grande orgulho midiático é a capa da revista transgênero norte-americana.

Visto de fora, o seu caso pode parecer um espetáculo provocativo.

Sim, sempre existe esse risco de aparência estrambólica e consumo mórbido, mas existe vida além do mundo normalizado.

Para escrever "Testo yonqui", você usou testosterona em gel por quase um ano. Você continua usando, já que no livro você se declara "viciada"?

Ocasionalmente. Respeito as outras adições que eu conheço. A da testosterona dá para ir levando. Vejo-a como uma possibilidade e não como uma necessidade. Para mim, a mudança de sexo não é o passo do muro de Berlim. Existe algo dessa fronteira política, mas eu vejo isso como um espaço de práticas do corpo.

O que você obtém da testosterona? Alguma coisa você tira dela.

É uma droga sexual. Se fosse de venda livre, seria o Viagra para biomulheres. Ela te deixa a mil. Mas comecei a tomá-la por causa de um elemento de experimentação, de transgressão, quase uma orgia hormonal.

O que a expressão "violência de gênero" sugere a você, que se declara para além do masculino e do feminino?

Acredito que quando se diz violência machista não se incide tanto nas práticas de discriminação como na masculinidade. Como se a masculinidade fosse uma violência em si mesma e que se exerce contra as mulheres. Se passa por cima de toda uma série de práticas violentas transversais. Existe violência dentro da homossexualidade, da transexualidade. Acredito que o próprio gênero é a violência, as normas de masculinidade e de feminilidade, tal como as conhecemos, produzem violência. Se mudássemos os modos de educação na infância, talvez modificaríamos o que chamamos de violência de gênero. Sempre pensamos que as meninas podem se defender e não agredir. Sejamos honestos: em uma cultura da guerra, não equipar técnica e praticamente um conjunto da sociedade para ser capaz de ter acesso a técnicas de agressão quando for necessário é discriminatório.

Você propõe que se ensine às meninas não a defesa pessoal, mas sim o ataque pessoal?

Exato.

Você acaba de me dar uma baita manchete.

Busco alternativas radicais à cultura da guerra, e uma delas é o acesso igualitário às técnicas da violência. Toni Negri dizia: é preciso dar armas ao povo, posto que o Estado está armado. Eu diria: é preciso dar armas às mulheres, posto que os homens estão armados.

Vão chover protestos sobre você.

Essa é uma guerra fria: você tem armas, eu também.

Em "Testo yonqui", você propõe que as mulheres tomem testosterona. Acredita que assim quebraríamos o telhado de vidro?

Essa é uma fantasia de ficção-política. A filosofia faz isso, produz ficções que nos ajudam a modificar o modo em que vemos o real. Mas nada impede que todas as mulheres tomem testosterona e amanhã sejam homens. A possibilidade é tão simples que deve haver medidas de restrição para evitar isso. Meu projeto político é mais sério e lúdico ao mesmo tempo. Imagine que mundo cheio de sujeitos peludos. A estrutura de dominação está tão ancorada que é claro que existe um telhado de vidro. Mas também repressão do lado masculino. Eles também não estão bem.

A famosa crise do homem moderno?

Se alguma coisa está em crise, é a masculinidade. A partir do feminismo, houve um trabalho crítico, mas do lado dos homens, nada. Por isso, me assusta que eles não se rebelem e digam: quero mostrar minhas pernas estupendas sem celulite.

Os homens hoje se depilam mais do que as mulheres.

Uma das mudanças do regime fármaco-pornográfico é que o corpo masculino passa a ser objeto de produção do mercado. O caso da nova masculinidade ou da metrossexualidade nada mais é do que isso. Aí há possibilidade de rebelião para os bio-homens.

Você é feliz?

Me considero afortunada/o. Mudo de gênero ao falar e escrever.

E em vários idiomas você não se enrola?

De fato, a sexualidade é muito comparável às línguas. Aprender outra sexualidade é como aprender outra língua. E todo mundo pode falar as que quiser. Só é preciso aprendê-las, igual que a sexualidade. Qualquer um pode aprender as práticas da heterossexualidade, da homossexualidade, do masoquismo...

Existem os inaptos para os idiomas.

Até eles podem arranhar em "lésbico" ou "gay".

Existe uma língua mãe. Existiria também uma sexualidade mãe?

Existe uma sexualidade que constitui o seu solo de adoutrinamento. Aquela que você aprendeu a reconhecer como natural. Mas assim que você aprende uma segunda língua, você sabe que existem mais, que até pode abandonar a primeira língua que você falava sem maiores problemas. Eu fiquei anos sem falar espanhol e faço isso bem, não?

(Tradução de Moisés Sbardelotto para o IHU on-lin)

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