sábado, 7 de novembro de 2009

Os ateus também têm o seu deus

pelo filósofo italiano Gianni Vattimo (foto) para o Clarín de 7 de novembro de 2009


Por que tanto interesse em demonstrar que Deus não existe? É uma pergunta que, certamente, gente como [Christopher] Hitchens refutaria, ou pelo menos dariam por resolvida imediatamente, dizendo que a verdade merece ser conhecida além ou aquém de qualquer interesse. No entanto, isso por si só torna suspeito seu enfoque. Como ensinouNietzsche, quem fala da verdade como um valor supremo mostra que ainda acredita em um deus último. Mas então, se não pode, e não deveria, invocar o amor pela verdade, por que Hitchens se preocupa tanto com a demonstração da não existência de Deus? Principalmente tendo em conta que, como observam muitos semicrentes, se Deus não existe, a verdade é que faz sentir muito discretamente a sua presença.

Podemos aventurar uma hipótese, que vale não apenas para Hitchens, mas também para todos os numerosos ateus militantes que compartilham seu mesmo programa. Querem demonstrar que Deus não existe porque "perturba", ou melhor: porque constitui um limite para a nossa liberdade. É por isso que tem sentido opôr Nietzsche ao ateísmo racionalista de Hitchens e outros semelhantes. Submeter-se à verdade é realmente melhor, para a nossa liberdade, do que se submeter a Deus? Se tomarmos, por exemplo, o jusnaturalismo [direito natural] na ética e na filosofia do direito, submeter-se à lei (direitos e deveres) "natural" é realmente melhor do que submeter-se a Deus?

Os ateus racionalistas deveriam ser mais coerentes. Teriam que adotar o lema que servia de título para um texto anárquico de muito tempo atrás, de Hans Peter Duerr (se não me engano): "Ni dieu ni mètre" – nem deus, nem metro. Nem deus, nem ordem racional do mundo que devem ser respeitados; ou também: nem deus, nem verdade científica assumida como base para uma conduta racional. Em suma, a ordem objetiva que a "razão" descobriria na realidade, e que estaria ao alcance da razão de "todos", é tão pouco libertadora, e pior talvez, quanto o deus da tradição. Naturalmente, o deus cuja não existência se demonstra segundo Hitchens é o deus da nossa tradição – uma entidade pessoal que teria criado o mundo e o homem, e com o qual o homem pode se pôr em comunicação para conhecer sua vontade, seus propósitos, seu eventual plano de salvação. Podemos dizer o deus cristão? Se é assim, e creio que é assim, considerar esse deus como um obstáculo à liberdade e à responsabilidade do homem tem pouco sentido; ou, pelo menos, fundamenta-se em um erro, pois de quem querem nos livrar é do deus-poder que quer nos impôr sua autoridade por meio de todo o tipo de exigências e proibições. Nisso, posso estar mais de acordo com Hitchens do que com um crente.

Para os crentes, pelo contrário, justamente para salvar a própria fé, principalmente neste momento da história em que o multiculturalismo nos fez conhecer tantas experiências religiosas diferentes, é decisivo separar deus de toda disciplina clerical, de toda pretensão de poder de imposição sobre a livre eleição do homem. Do ponto de vista do interesse pela liberdade, em troca, se deveria reconhecer que a ideia de um deus pessoal que nos comunica sua vontade e seus propósitos é muito mais aceitável do que a de uma ordem objetiva que, certamente, como em Spinoza, nos convida a "não chorar nem gozar, mas só entender" a necessidade lógica de tudo. Não precisamente um grande avanço para a liberdade que se tentava salvar.

É verdade que só temos notícias desse deus por meio de textos mitológicos, nunca o descobrimos em uma experiência sensível ou mediante um procedimento científico ordenado. Não é um "fenômeno", diria Kant; ou, como Bonhoeffer escreve mais claramente, "um deus que existe (como uma coisa, um objeto de possível experiência) não existe". E, no entanto, todos temos o sentimento, sim, como uma impressão de fundo da qual não podemos nos libertar de que a nossa existência se tornou possível, em seus aspectos afetivos, de avaliação, de escolhas morais, só por essa herança mitológica, em cujo interior, por outra parte, amadureceu também a mentalidade científica da qual Hitchens quer ser defensor.

O deus cuja não existência é demonstrada (sem perturbar-nos em absoluto) por Hitchens é o que, pelo contrário, pareceu tão frequentemente demonstrável (de Santo Anselmoa Descartes) aos filósofos. Se esse deus existisse, adeus, liberdade, estamos de acordo. Mas é justamente o "deus dos filósofos" que Pascal já considerava pouco crível. As Igrejas, e em primeiro lugar a Igreja católica, pensaram que deveriam pregar o deus de Jesus Cristo como se esse deus fosse "demonstrável"; e cometeram esse erro por puros motivos de poder – o Deus que a razão "demonstra" parece portador de uma autoridade mais absoluta e universal (pensemos em como a Igreja insiste no fato de que, "por natureza", o casamento "naturalmente" heterossexual é indissolúvel, e assim pode proibir o divórcio também aos não crentes. E assim sucessivamente). O deus em que os crentes continuam acreditando não tem nada a ver com o deus, inexistente, de Hitchens. Seu livro pode, em troca, ajudar a todos a liquidar a sempre ressurgente tentação de identificar a palavra divina com alguma autoridade despótica, chame-se ela Igreja ou "ciência".


Um comentário:

  1. Ateísmo é religião também. Quem simplesmente não crê por convicção de não existir nem perde tempo com o assunto e deixa quem crê na sua. Agora, quem fica querendo converter os outros a não crer, não está fazendo nada mais do que manter mais uma religião.

    Eu não creio em nada religioso, mas deve haver Deus, no sentido de uma inteligência absoluta transcendental sutil que rege essa realidade assim como as coisas invisíveis da matéria, segundo a física, regem as visíveis.

    Certa vez, quando perdendo a crença religiosa, e junto também perdendo a fé em Deus, desesperado eu pedi a Ele uma prova contundente de Sua existência, e, naquela mesma madrugada, eu dormia um sono tranquilo quando escuto me chamar, uma vez só, pelo nome, voz de homem, me acordou, e não havia ninguém, a voz vinha da direção da porta, mas projetada de um modo etérico, não sei explicar, mas ela continua aqui, na memória, nítida, inconfundível. Então nisso eu acredito, e me chamou quando eu mais estava ficando averso a tudo que é religião e 'Deus', por isso acredito, porque se há um Deus de fato, além dEle dançar Ele também é puto com as hipocrisias, injustiças etc, e não há de prejulgar alguém só porque é esperto de não cair na cilada religiosa, pelo contrário, Deus deve existir desse modo que me chamou mesmo e deve estar do lado dos ateus, dos hereges, dos apóstatas etc, que são os últimos guardiões da Sua nobre sensatez. Por que Ele estaria com os religiosos? Ele deve estar com os que estão lutando, com os que querem a coisa como ela realmente é, e não do lado dos que o deturpam. Porém, Ele deve querer que nós, ateus, hereges, apóstatas etc, nos unamos em prol da sanidade daqueles também. No nomento, os ateus e afins seriam os eleitos.

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