sábado, 14 de fevereiro de 2009

‘Por que tenho o direito de escolher a minha morte’.

por Umberto Eco, para o jornal italiano La Repubblica, edição de 12/02/2009

Mesmo que o problema me perturbasse muito, e talvez justamente por isso, procurei, nos últimos meses, não pronunciar nenhum juízo ou opinião sobre o caso Englaro, por muitas e sensatas razões, mas, sobretudo, porque não queria participar da confusão de quem estava desfrutando, por razões ideológicas, de um lado e de outro, do fato de uma desventurada jovem e da sua família.

morte Quando o presidente da Assembleia usou o caso como pretexto para tentar um dos seus já reiterados ataques à Constituição, intervim com Libertà e Giustizia [associação de política e cultura], em praça pública, e me uni aos apelos à vigilância. Mas nas poucas entrevistas que não pude evitar, sempre disse que as poucas centenas de pessoas que estavam comigo diante do Palácio da Justiça em Milão não estavam ali se manifestando sobre o caso Englaro – porque estava pronto a apostar que, se fizéssemos a conta, veríamos que metade pensava de um jeito, e a outra metade, de outro – mas, para protestar contra o ataque ao presidente da República, atentado bonapartista (agradeço a Ezio Mauro por ter invocado esse precedente), sobre o qual todos estavam de acordo.

Agora, folheando minhas revistas, me dou conta de como é difícil dividir esses dois problemas e quanto sutileza politológica, jurídica e (permitam-me) moral é necessária para se entender como os dois problemas são diferentes. Mas o que se pode exigir de quem, como ocorria há séculos com Terenzio e os ursos, preferiu o Big Brother à discussão sobre esses casos?

Assim, vi-me citado entre aqueles que tinham idéias claras e decididas sobre o caso Englaro. Intervenho para dizer que não as tenho, senão as teria expressado. Só que, agora que a moça está morta, talvez é possível falar desses problemas sem ter medo de cometer abusos sobre um corpo em sofrimento.

Com efeito, não pretendo falar da morte de Eluana Englaro. Quero, pelo contrário, falar da minha morte e admitir que, nesse caso, tenho algum direito a me expressar.

Devendo falar da minha morte e não da morte dos outros, não posso deixar de citar alguns aspectos da minha vida, entre as quais o fato que, há alguns anos, escrevi um romance intitulado "A misteriosa chama da rainha Loana" (Editora Record, 2005), no qual o protagonista, depois de um primeiro acidente cerebral pelo qual perdera a memória, caía novamente em coma.

Não sei se escrevendo-o queria afirmar algo cientificamente válido ou buscava só um pretexto narrativo, mas o fato é que empreguei mais de cem páginas fazendo com que o meu personagem, já em coma (não tinha, então, calculado se estava reduzido a vegetal, imputado de morte cerebral ou em coma eventualmente reversível – sinal de que não tinha preocupações científicas precisas) monologasse. Em todo o caso, o personagem, naquele estado que chamarei de “vida suspensa”, pensava, lembrava, desejava, se comovia. Sabia muito bem que, provavelmente, os seus familiares acreditavam que ele estava reduzido ao estado de um nabo, ou no máximo de um cachorrinho dormente, mas se dava conta de que os médicos sabem muito pouco do que ocorre no nosso funcionamento mental e que, talvez, onde eles veem um encefalograma plano, nós continuamos a pensar, sei lá, com os rins, com o coração, com o pâncreas?

Essa era a minha simulação literária (para acalmar aqueles que esperam tudo do excepcional, direi, que até o fim, o meu personagem aprofundava-se na escuridão), mas devo dizer que, se a pensei, é porque acreditava nela um pouco. Não estou seguro de que, lá onde os instrumentos científicos de hoje veem apenas uma terra plana e uma ausência de alma, haja ausência total de pensamento – e o digo com um sereno materialismo, não porque considere que uma alma sobreviva à morte das nossas células, mas porque não acho que se deva excluir que – morte e definitivamente algumas células – outros não sobrevivam e tomem o controle da situação, testemunhando uma extraordinária plasticidade, não do nosso cérebro (todos já sabem disso), mas do nosso corpo.

Não faria uma comunicação de mérito para um congresso científico, mas de qualquer modo acredito nisso. Visto que há pessoas que creem no pé de coelho, deixem-me acreditar nisso.

Então, o que eu gostaria, se me encontrasse em uma situação do gênero?

Procurando com uma lanterninha todas as possibilidades, acredito justamente que elas se reduzem a três. Primeira possibilidade, sobreviveria como um nabo, sem consciência, sem poder dizer “eu”, reagindo ao máximo a qualquer modificação da umidade atmosférica, como se fosse uma coluna de mercúrio. Com efeito, nessas condições, eu não seria mais “eu”, mas exatamente um nabo e não vejo porque deveria me preocupar comigo.

A segunda possibilidade é que, nesse estado, reviva-se todo o próprio passado, volte-se à infância, tenham-se visões e se realizem os desejos que, em vida, eram os nossos. Enfim, que se viva uma espécie de sonho paradisíaco. É um pouco o que ocorre com o personagem do meu romance, mas depois, infelizmente, ele também desce às trevas.

A terceira hipótese é a mais angustiante, que, nessa vida suspensa, interrogue-se sobre o que os nossos familiares farão e pensarão de nós, que se reviva com o coração na garganta os últimos momentos de consciência, que se tema pelo futuro aterrorizante que nos espera, ou até mesmo que nos consumamos, como fez minha mãe nos últimos dez anos que sobreviveu ao meu pai, relatando a nós, filhos, toda vez que podia, como foi horrível a noite em que o meu pai sofreu um infarto e perguntava-se se não tinha sido sua culpa por ter preparado uma janta talvez muito pesada. Isso seria o inferno – e acolhi quase com alívio a morte da minha mãe, porque sabia que ela estava saindo desse inferno.

Agora, façamos um acerto de contas a la Pascal. Das três possibilidades, só uma é agradável, as outras duas são negativas. Em termos de roleta (e sobre grandes números, tipo 17 anos de vida suspensa), já se perdeu de início. Mas o problema não é esse. Eu estou pronto a declarar que, caso incorra no acidente da vida suspensa, desejo que não se posterguem os tratamentos (mesmo que possa perder alguns instantes ou milênios de paraíso) para evitar tensões, desesperos, falsas esperanças, traumas e (permitam-me) gastos insustentáveis aos meus familiares. Quem sou eu para destruir a vida de uma, duas, três ou mais pessoas pela remota possibilidade de ter alguns instantes ou alguns anos de paraíso virtual?

Eu tenho o direito de escolher a minha morte para o bem dos outros. Coincidentemente, é isso que a moral sempre me ensinou, e não só a moral laica, mas também a da religião, é o que me ensinaram desde pequeno, que Pietro Micca [1] fez bem ao colocar fogo no barril de pólvora para salvar todos os turinenses, que Salvo D´Acquisto [2] fez bem ao se acusar por um crime não cometido, indo ao encontro do fuzilamento, para salvar um país inteiro, que é herói quem corta sua língua e aceita a morte segura para não trair e mandar à morte os companheiros, que é santo quem aceita a inevitável lepra por ter abraçado as chagas do leproso.

E depois que me ensinaram tudo isso não querem que eu assine embaixo da suspensão de uma vida suspensa por amor às pessoas que eu amo? Mas onde a moral terminou – e a moral heróica, e aquela que me ensinaram, que caracteriza a santidade?

Eis porque, perturbado em manifestar mesmo a mínima idéia sobre a morte de Eluana(não são, infelizmente, fatos meus, mas dos pais que a amaram mais do que [Sílvio]Berlusconi a amou, que sinistramente fantasiou sobre as suas menstruações), não hesito em pronunciar a minha opinião sobre a minha morte. E o amor que uma morte pode encarnar. "Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal, / da qual homem algum pode escapar. / Ai dos que morrerem em pecado mortal! / Felizes os que ela achar conforme à Tua Santíssima vontade, / porque a segunda morte não lhes fará mal".

1. Pietro Micca (1677-1706) foi um militar italiano, que lutou e morreu na defesa de Turim contra os ataques franceses. Na noite do dia 29 de agosto de 1706, ao ver que um grupo de soldados franceses derrubara a porta central e conseguira entrar na cidade de Turim, Micca pegou uma tocha e a jogou diretamente nas pólvoras, causando a imediata explosão e o desabamento da galeria por onde os franceses haviam entrado. A explosão matou os inimigos, mas custou também a sua vida. Como recompensa póstuma pelo seu sacrifício, o duque Vittorio Amedeo II ofereceu à viúva, Maria Pasqual Bonino, uma entrega vitalícia de dois pães por dia

2. Salvo D'Acquisto (1920-1943) foi um policial italiano. Em 22 de setembro de 1943, uma explosão acidental em Palidoro, na Itália, causa a morte de um soldado do exército alemão, que ocupa a região. Mesmo sem provas, os alemães alegam um atentado e, em represália, escolhem 50 habitantes para serem fuzilados. Excluídos os idosos e adolescentes, sobram 21 reféns, que são obrigados a cavar suas próprias covas. D'Acquisto oferece-se, então, para assumir a responsabilidade do atentado. Todos os reféns são libertados, e ele é abatido em frente a uma das covas. Em fevereiro de 1945, recebeu a título póstumo a medalha de ouro do valor militar, e sua causa de beatificação foi aberta. Seus restos mortais repousam na basílica de Santa Chiara de Nápoles, recebendo numerosas peregrinações.

> Morre Eluana Englaro, 38, que vegetava havia 17 anos. (9 de fevereiro de 2009)

> Portugueses procuram clínica suíça de suicídio assistido. (fevereiro de 2009)

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