O negócio verde é a salvação

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“A posição do governo italiano arrisca a levar a Europa rumo ao abismo. Berlusconi tem o olhar voltado ao passado, vê e pensa na velha economia: mas nessa estrada não tem escapatória, porque a crise tem uma dimensão que não pode ser enfrentada com os parâmetros tradicionais. Para salvar-se, é preciso inovar, lançar-se, arriscar-se ao futuro”. Jeremy Rifkin, o teórico americano da nova Europa, vê Bruxelas como o único motor capaz de tirar o mundo do pântano da grande crise.

A reportagem é de Antonio Cianciullo, do jornal italiano La Repubblica, 18-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Itália sustenta que o custo da luta pela estabilização do clima é muito alto, que a defesa da ecologia afunda a economia.

É exatamente o contrário: só o green business é capaz de reaquecer a economia, porque não estamos frente a uma dificuldade conjuntural, mas na passagem entre duas eras. Um momento muito parecido a 1929, ainda que desta vez seja pior: naquela época, havia uma crise econômica; hoje somam-se três crises diferentes. A crise do sistema de crédito, a crise energética e a crise provocada pelo aquecimento global. Mas uma analogia com 1929 existe e é fundamental, porque dá o sentido do tempo que vivemos. O ano de 1929 corresponde à passagem entre a primeira e a segunda revolução industrial, entre o vapor e a eletricidade. Foi uma revolução profunda que causou grandes agitações sociais e a segunda guerra mundial.

Desta vez, o que está mudando?

Estamos passando da segunda à terceira revolução industrial. O que apenas começou é o século da Internet e da energia doce produzida nos bairros, nas casas. Passamos de um modelo centrado sobre auto-estradas a modelo um centrado nas superestradas dos bits. Não compreender o sentido dessa mudança significa sermos cortados fora.

Esta crise dá medo, tende a esfriar o entusiasmo.

Quem deve pular e pára na metade do salto, geralmente, termina mal. A segunda revolução industrial chegou ao fim da corrida, ao ponto final. Para recomeçar, precisamos ter visão do futuro.

O governo italiano destaca a necessidade de defender os postos de trabalho, de não expor os balanços industriais a investimentos onerosos.

Mas conhecem-se as projeções? Na Europa, as fontes renováveis criaram um milhão de novos postos de trabalho. Sem contar o crescimento nos outros pilares da terceira revolução industrial: a construção civil avançada, o hidrogênio, as redes inteligentes.

Portanto, o senhor considera irrenunciável o objetivo 20, 20, 20?

O mais convicto defensor dessa estratégia é o comissário europeu da indústria. Alguma coisa isso quer dizer... Esse objetivo é o impulso que pode fazer a economia global andar de novo. Renunciar significa condenar o mundo a uma recessão violenta. E nesse jogo, a Europa já tem uma posição de liderança. Não são os EUA, não foi a China, não foi aÍndia, não foi o Japão que impuseram sobre o cenário mundial o vínculo entre a luta pela defesa do clima e a inovação tecnológica.

Investir tanto no futuro não significa se descuidar do presente?

É preciso adotar a estratégia dos dois trilhos de trem, porque uma transição energética como a que estamos vivendo exige décadas. Por um lado, acerta-se as contas com aqueles que se deve: é necessário minimizar os danos causados pelos combustíveis fósseis e pelas centrais nucleares. Por outro, deve-se aplicar maciços investimentos públicos e privados para estimular os combustíveis renováveis, o hidrogênio, as construções avançadas, as redes inteligentes.

Beslusconi fez-se intérprete de humores largamente difundidos no mundo industrial.

Qual mundo industrial? Durante os estágios da mudança sempre houve os nostálgicos, aqueles que lamentam pelo velho. Dificilmente são eles que guiam o novo. No dia 24 de outubro, em Washington, organizamos uma reunião em que participaram 60 presidentes, delegados administradores e líderes das mais importantes indústrias em nível global dos nossos setores estratégicos: as fontes renováveis, a construção avançada, os transportes com baixo impacto ambiental, as redes inteligentes.

Qual é o objetivo?

Criar-se-á um centro de estudos para focar a estratégia necessária para dar alívio às políticas ambientais, ligando a defesa dos ecossistemas com o crescimento econômico. Devemos nos pautar pelos próximos encontros internacionais sobre o clima: a iminente conferência de Poznan, na Polônia, e a de 2009, em Copenhague. Deve-se ter uma nova aproximação: não mais metas negativas apenas, mas também objetivos positivos. Não só dizer a cada país em quanto deve reduzir as emissões, mas também pedir que cada um realize uma certa quantidade de casas supereficientes, de centrais renováveis, de células de combustível, de transportes avançados. Nessa perspectiva, estar fora da aposta sobre o clima significa estar fora da economia vencedora.

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